The Bells é um episódio que poderia ter sido digno de final de temporada, não fosse o caminho turbulento e mal feito que Game of Thrones fez para chegar nele. As ideias não são ruins, mas a execução mal feita dificulta muita coisa no produto final do episódio.

Não é que o público não vá se divertir, ou ficar tenso, durante o episódio. Mas é que, como tem acontecido muito nessa temporada de Game of Thrones, parece que parte do caminho até esse momento foi esquecido, deixando de lado e feito de maneira corrida. Vários personagens parecem não agir de acordo com seu desenvolvimento, além das estratégias de alguns deles não corresponderem ao que já foi apresentado.

Faltando apenas um episódio para terminarmos Game of Thrones, é triste e decepcionante que as respostas pareçam ser feitas com tanta falta de cuidado. Elas em si não são a questão, mas um resultado final bom que não combine com a trajetória não é o suficiente para tornar uma história boa.

Esta crítica contém spoilers de Game of Thrones.

O lado real da guerra

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Um dos grandes acertos desse episódio, além da direção e do visual incrível, foi a mensagem da guerra em geral. Desconsiderando os personagens e seus arcos, ou o problema com Daenerys sair queimando tudo (falamos disso depois), nós nunca vimos uma cena tão brutal de guerra em Game of Thrones como vimos em The Bells.

Nós tivemos a Batalha dos Bastardos e Blackwater, além de outras cenas de luta bem impressionantes. Essas cenas, apesar de bem feitas, acabavam focando no vencedor e no perdedor, além das consequências para cada lado da guerra. Não que The Bells não faça isso, porém é mais. O que é destacado é o fogo e o sangue. A destruição de Porto Real, a crueldade do exército para o qual, em tese, estávamos torcendo. Nesse ponto, é ótimo vermos Arya tentando fugir pela cidade.

A guerra é uma coisa horrível. Ela não deve ser glamourizada, na minha opinião até demorou para que víssemos uma guerra desse jeito, mas entendo o tempo da série nesse aspecto. George R. R. Martin sempre teve opiniões contra a guerra, e dizia em entrevistas que seus livros mostravam essa sua opinião.

Muitas vezes nos importamos tanto com os nobres que vão ganhar e perder, que esquecemos os inocentes e a destruição que isso causa. Para qualquer conquistador, não só Daenerys, muito é perdido e destruído em uma invasão. Esse episódio passou essa tensão e esse aspecto das guerras.

Ainda falando sobre a guerra em si, é interessante que agora finalmente os personagens tenham parado para discutir estratégias que fazem sentido. Não estou debatendo a moral dessas técnicas, aí entramos em outro ponto. É quase como se os personagens ficassem inteligentes a medida que o roteiro precisa… Ah é, né. Enfim, falando da guerra em si, a direção das cenas e o impacto que elas têm, o episódio acertou. Mas é um dos poucos elogios que eu posso fazer para The Bells.

Cleganebowl e a violência de Arya

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Eu tenho sentimentos mistos ao que aconteceu nesse ponto do episódio especificamente. Nós vimos que Arya e Cão estavam indo para Porto Real, sem o exército de Daenerys, buscando as suas respectivas vinganças. Quando o momento chega, Cão convence Arya a ir embora, falando que ela não quer virar alguém como ele.

Cão e Arya são muito similares no aspecto de se deixarem afundar no caminho da violência. Nós acompanhamos o de Arya, mas Cão sempre foi apresentado dessa forma. O ponto do desenvolvimento de Cão, ou ao menos era isso nos livros, era que ele percebia o quão errado estava, deixando a sua persona violenta morrer. Claro, parte disso são teorias de um capítulo da Brienne, mas faz muito sentido com a temática do personagem e da história. Portanto, quando ele admite para Arya que aquele caminho é ruim, por mais que ele continue em frente, é uma parte do que o personagem deveria ser.

Eu entendo que Arya já cometeu inúmeros atos de violência em nome da vingança, mas isso não quer dizer que ela não possa dar um passo para trás nesse aspecto. Eu gostaria de um pouco mais de cuidado nesse ponto, porque também soou um tanto quanto repentino. Mas não é absurdo, nem ruim, que Arya veja que o caminho que ela segue só leva a destruição.

É bom que, logo depois disso, ela precise encarar a guerra de uma forma muito terrível e quase morra no processo. Novamente, queria que tivéssemos visto mais desse caminho nos episódios anteriores. Vimos Arya se transformando nessa pessoa vingativa e assassina, então ela desistir assim, por mais que não seja uma ideia ruim, parece um salto um tanto quanto rápido.

Além disso, temos o cleganebowl, a teoria que alguns fãs queriam muito. Eu não tenho problema com coisas feitas para agradarem os fãs, contanto que elas não estraguem a narrativa. Particularmente, acredito que cleganebowl atrapalhe sim o arco de personagem de Cão. Por mais que ele reconheça que o seu caminho é ruim, ele vai mesmo assim. Não é de todo um problema, mas também poderia ser melhor. Parece que cleganebowl foi feito porque seria “legal” e não porque serviria à alguma coisa na narrativa em si.

Fim dos Lannisters?

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Tyrion ainda está vivo, mas quanto ao desenvolvimento de personagem, acho que todos eles acabaram meio que morrendo mesmo.

No começo do episódio, vemos Tyrion libertando Jaime, que foi capturado por Daenerys. Até aí tudo bem. Apesar dos problemas, Tyrion e Jaime sempre tiveram uma relação interessante. Já brigaram e se culparam pelas coisas, mas tinham uma relação de irmãos que, no final do dia, se amavam e se importavam um com o outro. Mesmo temendo Daenerys, consigo ver e entender que Tyrion queira se arriscar para salvar o seu irmão.

O que eu não consigo entender é como, de repente, Tyrion achou que valia a pena salvar Jaime para que este salvasse Cersei. Tyrion sempre odiou Cersei, nunca escondeu e nem ignorou a possibilidade dele mesmo matar a irmã. Não que seja saudável, porque não é, mas é a relação que sempre foi estabelecida entre esses dois. Vimos eles sendo mais civilizados um com o outro nos últimos tempos, mas não há nada forte o suficiente para mostrar que Tyrion de repente acha que Cersei precisa ser salva.

Depois disso, Jaime vai atrás de Cersei, encontra e luta com Euron e consegue chegar até Cersei, depois que Qyburn já morreu e Montanha zumbi ficou para lutar com Cão. Os dois se encontram em cima do mapa de Westeros, onde fizeram uma cena no começo da temporada anterior.

Não ligo tanto de Cersei ter chorado quando percebeu que tinha perdido, por mais forte que ela seja, ela ainda é um ser humano que percebeu que perdeu tudo e não há o que fazer. O que eu estranhei mesmo foi ela ter esperado tanto tempo para sair da Fortaleza. Talvez estivesse em negação, mas achei que ela expressaria muito mais seu ódio.

Jaime e Cersei tinham que morrer juntos, nós sempre soubemos disso. Eles mesmos falam que nasceram juntos, então vão morrer juntos. Por isso, no episódio passado, achei bom que Jaime resolveu voltar para Porto Real. Preferia que eles tivessem morrido em conflito, tornando Jaime o valonqar? Sim, mas como a série nunca falou do valonqar e isso só foi mencionado nos livros, é aceitável que não aconteça mesmo.

O que me incomoda mais mesmo é que, quando Jaime pede para Cersei se acalmar, ele diz que não se importa com ninguém na cidade, apenas com ela. Isso não é verdade e acaba com muita coisa estabelecida sobre o personagem. Nem estou falando de Tyrion ou qualquer conhecido que estivesse lutando. Jaime Lannister têm inúmeros defeitos, mas ele também é o cara que se tornou o Regicida porque matou o rei que jurava proteger. Ele fez isso, arriscando a sua honra, porque Aerys queria queimar a cidade inteira e matar inocentes. Foi isso que fez Jaime se voltar contra ele e aguentar as consequências disso depois. Na terceira temporada ele fala sobre essa dor para Brienne. Fazer o personagem dizer que não se importa com ninguém não faz sentido com o que já foi construído, até porque esse aspecto é o que permitia o arco de redenção dele de acontecer. Mais uma vez, Game of Thrones ignorou o que tinha estabelecido previamente.

Tirania de Daenerys

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Eu já falei na última crítica sobre como eu era contra essa questão dela ser a rainha louca, e continuo sendo. Mas, depois desse episódio, preciso pontuar mais algumas coisas para continuar explicando essa questão.

Nós sempre soubemos que Daenerys não era boazinha, ela não era uma pessoa super fofa que saiu queimando tudo do nada. Nós sabemos, desde sempre, que o dilema dela é entre ser diplomata ou uma conquistadora, fogo e sangue. No livro isso é bem pontuado, inclusive na última cena em que ela aparece, finalmente escolhendo o fogo e sangue. Daenerys sempre teve atitudes tirânicas, nós não percebíamos tanto porque era contra “vilões”, mas ela queimava quem não concordava com ela.

Sabe quem mais fazia isso? Aegon, o Conquistador, aquele que dizem ser o Targaryen que possui a grandeza da face da moeda, não a loucura. Ele também queimava quem não se ajoelhava para ele, mas não vemos em momento nenhum isso estabelecê-lo como louco. Não duvido que isso seja parte do machismo em Westeros, mas o fato disso nem ao menos ser colocado em questão deixa a desejar. Algumas temporadas atrás, nós víamos essa discussão, mas nas mais recentes isso sumiu.

Nós estamos andando para um lado em que Daenerys se torna a grande vilã da história, e honestamente? Mesmo sendo uma das personagens que eu mais gosto, eu entendo e aprovo que essa seja a mensagem. Game of Thrones quer, de uma forma não tão eficiente, mostrar como os costumes conservadores que já falharam, apesar de poderem parecer certo, são um atraso para a sociedade. Então se uma Targaryen vem e unifica tudo, como Aegon fez séculos atrás, de fato a mensagem é perdida. É sim interessante mostrar essa pessoa conquistadora como a real vilã da história, ainda mais considerando a dualidade do fogo e gelo da história.

O que me incomoda, novamente, é como isso mudou rápido. Daenerys tinha alguma linha para queimar as pessoas, não quero justificar isso nem dizer que é moral, até porque isso poderia ser a versão de Westeros de “bandido bom é bandido morto”, mas existia alguma lógica na cabeça dela, mesmo que errada. Ela prende os dragões quando eles matam uma criança inocente. Na temporada passada, ela diz que não quer ser rainha das cinzas. Ela queria libertar os escravos, quebrar as correntes, dar escolhas para as pessoas que libertou. Então, depois de perceber que seu sobrinho pode ser uma ameaça, ela vira a face da moeda. Além de rápido, o quão chato e clichê é que uma personagem mulher faça isso por causa do homem que ama?

Daenerys já enfrentou pessoas ameaçando o seu poder e lidou com isso de forma mais inteligente. Talvez não menos cruel, mas mais pensado. Parece realmente que a ideia dessa posição da Daenerys veio entre a sétima e a oitava temporada. Até porque Game of Thrones está tentando mostrar isso em todas as cenas em que ela está. Todos os personagens, até alguns dos piores, tinham momentos que os humanizavam, mas de repente Daenerys parece ser reduzida como “a louca que queima os outros, não sinta empatia por ela”. Sim, ela queima os outros, mas ela vai além disso e Game of Thrones é uma série que faz personagens cinzas e complexos, ou pelo menos fazia. Tem como criar a dúvida e a suspeita no público sem esfregar na cara que ela é “obviamente” uma pessoa terrível.

Não acho ruim ela ter queimado Varys, ela já queimou pessoas que discordavam dela, e não acho também ruim que ela considere fazer isso com a Sansa. Ruim em um sentido narrativo (não sou a favor de queimar ninguém). Mas Game of Thrones falhou em fazer com que esse arco não fosse confuso. Sem contar que, de um ponto de vista prático, Daenerys não é louca, mas a série joga o conceito na tela e banaliza uma questão que é delicada. Daenerys não mostra episódios de delírios, por exemplo, pelo menos não na série, que caracterizaria sua loucura. Agora, usar o aspecto do salvador branco e dela impor seus costumes em outras regiões, que poderia ser usado de argumento para sua tirania, a série mostra como um ponto heroico de sua jornada. Esses são temas que precisam de atenção e cuidado por serem temas complexos, eles mereciem sim mais espaço para serem trabalhados. Eu não duvido que esse seja o final de Daenerys nos livros, até por causa do ponto em que ela parou em A Dança dos Dragões, mas lá nos vimos muito mais esse dilema e, por mais que fiquemos tristes, tem mais chances de fazer sentido.

Dualidade e como o Jon virou o “bom”

Kit Harington in Game of Thrones (2011)

Uma das coisas mais interessantes de Game of Thrones era a sua complexidade de temas e personagens. Apesar de ser uma fantasia medieval, ao contrário de O Senhor dos Anéis, Game of Thrones se afastava da grande questão do bem contra o mal. Sim, tinha o Rei da Noite e os Walkers, mas muito da história estava nos seus personagens cinzas e como as coisas não eram preto no branco como em outras fantasias.

De repente, vemos uma temporada que reduz Jon ao grande símbolo da bondade e Daenerys ao grande símbolo da destruição, sendo que isso não é justo para nenhum dos dois. Já falei isso antes, Jon não mostrou nada ao longo da série que faça com que tantos personagens achem que ele vai ser um governante viável, muito pelo contrário. Eu entendo eles preferirem Jon a Daenerys, mas agir como se ele fosse a grande solução é irreal, até considerando que muitos desses personagens julgaram Ned e Robb por não serem espertos para o jogo dos tronos. Tanto não foram que morreram, e Jon segue essa mesma lógica “Stark”.

Assim como Game of Thrones está tentando mostrar que o jeito do conquistador não funciona, ele também já mostrou que o jeito de homens como Ned também não funcionam. E aí, nesse contexto, eles resolvem eleger Jon como a pessoa certa para o cargo de rei? Eu sei que ainda não sabemos com certeza se é isso, mas é o caminho que o roteiro está caminhando, e mesmo que não seja o final, os personagens já se manifestaram em relação a isso, o que também é incoerente com a história política de Westeros.

Poderíamos estar falando sobre como o poder corrompe, mas colocar isso na imagem da mulher louca é muito clichê e misógino. Até porque, no lugar de Daenerys, muitos estariam bravos como ela e querendo queimar tudo. Isso não faz dela louca, nem de Jon a melhor opção para o cargo que ele mesmo já disse que não quer. Mas o homem centrado, bom, que não quer guerra com ninguém se torna o contraponto da mulher “louca”. Eu achei que tínhamos superados os vilões com questões mentais no Batman, mas parece que os roteiristas continuam indo para esse aspecto fraco.

Se Game of Thrones quisesse mostrar uma situação cinza, em que tanto Jon e Daenerys parecem opções viáveis, mas vira isso, aí sim teríamos uma história muito mais interessante e complexa, além de mais justa para os personagens. Mas, como já vimos em tantas temporadas, Game of Thrones insiste em cair no clichê fácil.

A importância da construção

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Jaime era uma pessoa que se importava tanto com os inocentes que matou o próprio rei. Daenerys buscava fazer o certo por linhas tortas. Jon morreu e voltou para o mundo dos vivos com um propósito. Cão estava sendo consumido pelo seu arco de violência. Tyrion deixou tudo para trás para não cometer os mesmos erros. O inverno está chegando.

Esses são só alguns dos exemplos de construção que a série fez, mas que resolveu ignorar nos últimos tempos. Novamente, o problema não é onde chegamos, e sim como chegamos. Não dá para ignorar a imagem que é colocar uma mulher com poder como louca e fora de controle. Não dá para ignorar a narrativa do herói branco, do homem bonzinho e sem chance de ser corrompido pelo poder. Se você construiu um mundo cinza, mantenha-o cinza, ou mude-o com sentido. Não estipulamos lá atrás que a maior ameaça era o inverno? Cadê? Não falamos da importância das profecias? Cadê? Se vai destrinchar esses pontos, então faça, não apenas deixe-os de lado.

Eu entendo que há regras básicas de dualidade na fantasia, e até em narrativas em geral, que acabam fazendo com o que era cinza acabe entrando mais em um dos pólos. Mas dá para fazer isso de forma que não desrespeitem pessoas com questões mentais, sem ser misógino e sem cair em clichês do homem branco e bondoso, ainda mais considerando o mundo em que eles estão. Game of Thrones começou como uma série diferente, que surpreendia por conta de suas viradas bem pensadas, mas se tornou clichês fantasiados de coisas novas que chocam apenas por chocar, sem valor narrativo necessariamente.

Não dá para apenas o resultado ser bom, a construção até lá também precisa ser. Se vocês querem mesmo falar de tirania, conservadorismo e o horror da guerra, façam, mas não sejam rasos. Não dá para tratar desses temas de forma rasa, porque é desrespeitoso e faz com que o público não compre a história. É óbvio que Game of Thrones não vai agradar todos, mas existe aí um público fiel que não reconhece mais os personagens por conta de inconsistências.

As expectativas para o final são baixas, mas espero que ao menos algumas pessoas se divirtam com o que vai ser o fim da jornada em Westeros.