The Last of the Starks é um episódio cheio de problemas, mas ao contrário do que possa parecer, não é um problema específico do episódio, ou pelo menos não só dele. Em si, a estrutura que as coisas acontecem neste episódio não é de todo ruim, assim como o passo ou até mesmo algumas interações que aconteceram.

O grande problema desse episódio é que ele está colhendo os frutos de vários erros que a série já cometeu. Algumas coisas parecem repentinas, sim, mas se observarmos vários momentos desde a quinta temporada, dava para imaginar que alguns dos personagens chegariam no ponto incoerente que vimos ontem a noite.

The Last of the Starks deve ter sido o último episódio de respiro dessa temporada, antes da última batalha finalmente acontecer. Daqui para frente, é só finalizar tudo o que já vimos, mas algumas coisas não prometem ser muito boas.

Esta crítica tem spoilers do episódio.

Estratégias esquisitas

Lena Headey, Nathalie Emmanuel, and Hafþór Júlíus Björnsson in Game of Thrones (2011)

Mesmo que algumas coisas do episódio tenham funcionado, há alguns problemas que não podem ser ignorados. Na crítica do último episódio, eu falei sobre como as estratégias de guerra não pareciam fazer sentido e aqui parece que as coisas seguiram com pouca lógica.

Daenerys insiste que eles devem atacar Porto Real imediatamente, sem dar tempo das tropas descansarem. Por mais que Sansa discorde, a palavra de Jon a favor do plano faz com que eles decidam atacar logo. Eu entendo que Daenerys quer tomar o trono o mais rápido possível, ainda mais com a possibilidade de Jon poder ser rei, e eu entendo que ele aceite o plano, já que quer fazer tudo para agradar Daenerys. Mas será que esses dois personagens, que já foram vistos fazendo coisas muito mais inteligentes, arriscariam perder uma guerra inteira por conta de decisões tomadas no calor do momento?

Outra estratégia, mais do roteiro do que dos personagens, que não parece fazer sentido é a morte de Rhaegal. Quando Vyserion morreu, além de ser mais sentimental, tinha o ponto dele virar um dragão de gelo. Agora parece que foi só tirar um dragão do caminho para deixar Daenerys mais vulnerável. O que, até certo ponto, faz sentido, mas feito de forma mais cuidadosa e menos escancarada. O que é frustrante, considerando que o passo desse episódio não foi ruim, e sim o conteúdo nele.

Também temos a questão dos planos para entrar em Porto Real. Cersei fez bem em tentar colocar Daenerys como a “malvada” aos olhos dos cidadãos de Porto Real, e foi uma boa ideia capturar Missandei. Também foi interessante aproveitar a gravidez para manipular Euron, é algo que a Cersei faria. Mas acabou aí. Porque matar Missandei fez ela perder a única refém que poderia usar contra Daenerys. Além disso, por que ela não matou Tyrion, quando ele tentou negociar? Ela odeia Tyrion, ele estava vulnerável e faria um ponto muito semelhante ao de matar Missandei, sem perder a refém. Aliás, o fato de Tyrion achar que isso poderia dar certo, apelando para o emocional de Cersei, já é algo muito improvável do personagem.

Eu entendo que, talvez, eles quisessem matar Missandei no lugar de Verme Cinzento para chocar, mas choque por choque não é o suficiente. Sem contar que Missandei era uma das poucas personagens negras da série, o que torna a sua execução mal feita ainda pior para uma série que tem um histórico ruim em lidar com minorias.

Por último, toda a argumentação de Bronn, pedindo para Tyrion fazer uma oferta maior que Cersei em troca da vida dele e de Jaime, só pareceu um tanto quanto aleatória. Parecia que os roteiristas não sabiam o que fazer com Bronn nesta temporada e colocaram essa cena para se livrar do personagem e dar alguma desculpa.

Não é um problema, necessariamente, algumas questões serem simplificadas na tela. O problema é quando elas são feitas de um jeito sem cuidado, a ponto do público perceber que as atitudes não batem com os personagens que vimos sendo construídos por oito temporadas.

Arya matou o rei da Noite… E?

Talvez, no meio de toda essa bagunça, Arya seja uma das únicas personagens que ainda faz algum sentido com a sua construção. Quando Gendry pediu Arya em casamento, depois de ser colocado como herdeiro de Ponta Tempestade, ela recusou, dizendo que não era uma lady, algo que ela já disse para Ned Stark lá na primeira temporada.

Por mais que muitos gostem e shipem Gendry e Arya, seria mesmo muito fora de personagem que Arya aceitasse se tornar uma lady. Ela nunca foi essa pessoa, inclusive em certo momento do episódio, vemos ela indo com Cão para Porto Real, procurando completar a sua lista de mortes. Então, em um episódio em que tantos personagens se perderam nos seus próprios arcos, é bom saber que ao menos Arya continua de um jeito coerente.

Porém, já que estamos falando da Arya, que derrotou o Rei da Noite, vale dizer também como a questão com os mortos foi superada bem rápido. A série sempre falou do Azor Ahai, o salvador que iria derrotar os mortos. Eu entendo que falar disso no episódio anterior não faria tanto sentido, mas agora é esquisito que ninguém pense em falar isso sobre a Arya que, em tese, seria o Azor Ahai. Mas isso foi deixado de lado em prol dos próximos eventos.

Considerando que Arya e Cão estão indo para Porto Real acertar as contas, é bem possível que o tal do Cleganebowl finalmente aconteça, algo que os fãs estão esperando faz algum tempo.

Continuam sem saber como escrever a Sansa

Sophie Turner in Game of Thrones (2011)

De todos os personagens governantes atualmente, é possível que Sansa seja a mais esperta. Ela avisa para Daenerys que o exército precisa de descanso, e ela percebe que Jon está se deixando levar por Daenerys, independente do quanto essa atitude de Jon faça sentido.

Porém, eu acho necessário fazer esse ponto da crítica, porque a série cometeu um erro muito gritante com a Sansa, de novo. Eu gosto de ver Sansa e Cão interagindo, porque Arya não é a única Stark com quem Cão teve alguma conexão (não no sentido romântico). Desde a última vez que eles se viram, Sansa mudou muito, e até o momento em que Cão aponta isso, a cena interessante. O problema é como Sansa falou sobre o assunto.

No discurso da personagem, ela diz que pessoas como Joffrey, Mindinho e Ramsay fizeram ela se tornar o que é hoje, uma mulher mais forte, como se ela fosse grata a tudo que aconteceu. Como a internet já disse, essa é a prova de que o roteiro foi escrito por homens cis.

Eu entendo a lógica de uma pessoa dizer que experiências ruins a fizeram mais fortes, inclusive existem várias músicas pops no mundo sobre o assunto. O problema é que nenhuma mulher que foi estuprada vai agradecer ao estuprador por ter se tornado forte. Sansa nunca ficaria grata a esses homens por terem agredido e manipulado ela. Se Sansa é forte hoje, não foi porque ela sofreu na mão de homens, e sim pela resiliência que ela aprendeu com as mulheres ao seu redor. Ela mesma diz que aprendeu muito com Cersei algumas temporadas atrás, que não é nenhuma santa, mas era uma relação muito diferente. Sansa virou quem virou porque viveu na corte e aprendeu a sobreviver, não pelas violências que sofreu.

Violência contra a mulher é muito usada em roteiros, geralmente escritos por homens cis, para fazer uma personagem feminina amadurecer e crescer. Isso é um tropo muito nocivo colocados em mulheres na cultura pop. Eu entendo que a intenção é para falar sobre como ela passou por muitas coisas que a fizeram amadurecer e mudar, mas o diálogo tinha que ser melhor pensado para não dar margem para esse tipo de interpretação, que mostraria a violência contra a mulher como algo necessário para Sansa crescer. É uma questão de saber escrever o personagem e ter cuidado com assuntos delicados.

E o ship aconteceu

Nikolaj Coster-Waldau and Gwendoline Christie in Game of Thrones (2011)

Eu não posso mentir que amo esse ship. Desde a época em que li os livros, eu queria muito ver Jaime e Brienne juntos. Não gosto nada de como a série deu tanto foco na virgindade de Brienne, assim como as perguntas indecentes que Tyrion fez mais tarde. Porém, depois de toda a construção ao redor dos dois, e dos arcos individuais dos personagens, me deixa feliz ver que o romance realmente aconteceu, pelo menos um pouco.

Muitas pessoas reclamaram de como Brienne chorou quando Jaime decidiu ir embora. Correndo o risco de ser a do contra, eu particularmente não acho isso um grande problema. Assim, se eu dirigisse a cena, eu escolheria outra forma de Brienne demonstrar sua tristeza, mas não é de hoje que ela se importa com Jaime, e agora eles estavam mais unidos do que nunca. Brienne sabe que Jaime pode (e provavelmente vai) morrer em Porto Real, então não é surpreendente que ela fique triste e chore. Se ela decidir quebrar a promessa de proteger os Starks por ele, aí sim eu vou achar fora de personagem.

Quanto ao Jaime, por mais que seja ruim ver ele ir embora, é o caminho que mais faz sentido com o personagem dele. Desde sempre, nós ouvimos sobre como Cersei e Jaime nasceram juntos, portanto vão morrer juntos. Não tem como a história de Cersei ser concluída sem Jaime estar lá, seria incoerente para os dois. Quando ele diz que tudo que ele fez foi por Cersei, ele não está mentindo, e assumir tudo isso faz parte dele entender o quanto de mal ele fez ao longo da vida.

Outro motivo para eu gostar de ver os dois juntos, é que o relacionamento deles é uma novidade para os dois. Jaime sempre foi considerado um príncipe, tanto na aparência como por ser ótimo em combate. Ele sempre foi arrogante, também nunca teve uma relação amorosa saudável. Jaime só esteve com Cersei e o relacionamento dos dois é muito abusivo, inclusive parte do arco de Jaime é entender isso. Já Brienne nunca teve a chance de ter qualquer relação amorosa, porque sempre foi considerada indesejável e foi até zombada por causa disso. Esse episódio podia ter tratado as cenas dos dois de uma forma melhor, com certeza, mas eu fico feliz que ao menos aconteceu.

Ninguém sabe guardar segredo

Peter Dinklage and Conleth Hill in Game of Thrones (2011)

Ao contrário do que Daenerys pediu (falamos disso depois), Jon contou para Sansa e Arya que ele era o filho de Rhaegar Targaryen, fazendo dele um herdeiro mais legítimo ao trono do que Daenerys, ou pelo menos é o que as pessoas acreditam. Sansa conta para Tyrion, que conta para Varys e no final da temporada a fofoca já deve ter chegado até em Essos.

Eu não acho ruim que a informação tenha sido passada, mas eu acho inocente Jon ter achado que as irmãs guardariam segredo, principalmente Sansa, que já deixou muito óbvio que não vai com a cara de Daenerys, ainda mais agora que mandou o exército para a batalha antes dos soldados poderem descansar.

Varys parece que vai começar a arquitetar uma traição. Se Daenerys ficar sabendo disso, talvez uma execução de Varys comece a apontar o caminho dela ser a “rainha louca”. De qualquer forma, me impressiona um pouco que todos achem que Jon é uma opção tão melhor ao trono. Faz sentido que as pessoas comecem a olhar estranho para Daenerys, cada vez tomando mais decisões no impulso e baseado no benefício próprio, e achem que Jon é uma opção mais viável. As pessoas olham para Daenerys e podem sim ver um fantasma de Aerys, que aterrorizou Westeros não faz tanto tempo. Isso até faz sentido.

Mas, ao mesmo tempo, todos lá têm muito tempo de corte e política (menos Arya) para saber que “ser um homem bom” não é o suficiente, Ned Stark está aí para provar isso. Eu entendo que, no caso da Sansa, ela ache Jon uma opção melhor mesmo assim, porque ela não confia em Daenerys e poderia dar conselhos mais de perto caso Jon assumisse. Mas achar que o Jon é a melhor opção tão rápido faz parecer que os personagens da série não aprenderam tanto assim.

Não que eu esperasse que eles apoiassem Daenerys cegamente, e talvez colocar Jon no trono, para eles, pareça um pouco como mudança de sistema. Mas a única pessoa que falou em “quebrar a roda” foi Daenerys, então essa questão toda faz algum sentido, mas parece confusa e apressada.

Rainha Louca?

Emilia Clarke in Game of Thrones (2011)

Há algum tempo, as pessoas se perguntam se Daenerys vai seguir os passos de seu pai e virar uma rainha louca. Apesar de querer as coisas sempre do seu jeito, isso está longe de torná-la uma pessoa louca. Ainda assim, parece que é para esse lado que a série está tentando levar a personagem.

Eu não acredito que uma história de queda, de uma rainha louca, seja uma ideia ruim. O problema é, como tem sido há tempos, a construção que a série tem feito da história. Daenerys sempre viveu com esse medo, e sempre tentou fazer de tudo para não ser uma rainha ruim. Não que ela acerte sempre, ela quer as coisas do próprio jeito, às vezes têm dificuldade de ouvir os outros e não sabe muito bem negociar em dados momentos, mas isso a torna tão humana quanto qualquer outro personagem da série.

Porém, no último episódio, parece que a série quer que ela se torna essa pessoa louca por poder. Querer governar não te torna louco por poder, e parece que Game of Thrones não está entendendo essa diferença.

No começo do episódio, foi interessante ver a solidão da personagem no meio da festa. Ela nomeou Gendry como senhor de Ponta Tempestade, buscando por futuro apoio, e até aí tudo bem. Nós vemos que ela está cada vez mais desconfiando de seus conselheiros, e a única pessoa que ainda ouvia mais, Jorah, morreu na última batalha. O problema é que mostrar essa solidão da personagem foi a última coisa boa que o episódio fez com ela.

Daenerys quer o trono, eu não ficaria surpresa em ver ela passando de alguns limites para conseguir seu objetivo, afinal de contas é o que ela quer desde o começo. O que me incomoda é como, em pouquíssimo tempo, eles querem usar isso para pintá-la como uma rainha louca, se não até uma possível vilã no futuro para Jon Snow. Até porque, quando Missandei morre, ela diz Dracarys antes, o que provavelmente é um pedido para Daenerys só chegar e queimar tudo. Agora, com raiva de Cersei, é possível que ela faça isso e teremos que encarar um novo cenário de um Targaryen tentando queimar Porto Real.

Sem contar que ela implora para Jon Snow não falar nada sobre ser um Targaryen. Daenerys nunca implorou, não faz sentido algum ela fazer isso agora. Ficar brava, brigar e até chantagear eu consigo ver, mas implorar e apelar para o sentimento não é algo que faz sentido com a personagem dela. É como se nós e os roteiristas não entendam a personagem da mesma forma.

Com tantas representações femininas ruins, é só mais um ponto negativo colocar o arco da Daenerys como sendo esse, ainda mais de uma forma tão mal trabalhada e apressada nesses últimos episódios. Sim, ela nunca foi uma pessoa fácil, mas recentemente ela tem piorado de forma exponencial e apressada.

No próximo episódio, Porto Real deve queimar, até literalmente, e as situações políticas devem ficar ainda mais apertadas. Veremos se Game of Thrones continuará previsível.