Depois de tanto tempo esperando, a tão aguardada guerra contra os mortos chegou. Com o episódio mais longo da série, Game of Thrones chega em um de seus momentos mais aguardados, mas que, apesar de alguns momentos muito icônicos, no final das contas a guerra não atinge tudo que era esperado. É normal que, com tanta expectativa, The Long Night não atinja todos os pontos que todos os fãs querem, mas há alguns aspectos que valem ser discutidos.

De qualquer forma, Game of Thrones passou por um de seus pontos principais dessa temporada, abrindo caminho para os próximos conflitos que precisam ser concluídos. O episódio podia ser melhor, e talvez ter algum polimento a mais em questão de roteiro e narrativa, mas ele faz o que precisa e apresenta pontos importantes para seguirmos em frente.

Esta crítica possui spoilers do episódio.

Estratégia de Guerra

Eu sei que eu não sou a grande entendedora de guerras em universos medievais, e que, considerando que é uma série de fantasia, Game of Thrones não precisa fazer total sentido o tempo todo. Porém, não dá para ignorar algumas coisas na estratégia do lado dos vivos para derrotar os mortos.

Primeiro, foi a investida dos dothraki na direção dos mortos que eles nem ao menos conseguiam ver. E eu sei, mesmo que alguns dos personagens ali, como Jon, já tenham enfrentado os Walkers, nunca foi nessa escala então não dá para prever tudo. Mas eles tinham como jogar pedras pegando fogo, eles podiam ter usado isso antes de sacrificar uma parte considerável de seu exército.

A presença de Melisandre na batalha foi crucial. Eu preferia que ela tivesse chegado antes, e que os personagens tivessem discutido mais o papel dela para perderem menos gente, mas não me incomoda que a participação de Melisandre seja de última hora, até porque ela é uma personagem que age sozinha. Tanto que, uma vez que seu trabalho está terminado, ela se permite morrer e descansar.

Outra coisa que não parece me fazer sentido é como eles não usaram as próprias estruturas de Winterfell. Eles foram surpreendidos, podiam ter recuado antes e se fechado, usado as muralhas para atacar mais. E cadê o óleo quente? Atacar por cima só com espadas e arcos quando os mortos subiram é muito esquisito. Os Walkers são fracos contra fogo, eles podiam ter jogado óleo e botado fogo em todos. Não teria resolvido tudo, mas teria ajudado.

Talvez a pior parte dessa guerra seja que não conseguirmos enxergar direito o que estava acontecendo. Sim, há momentos que é proposital, é uma luta de noite, o nome do episódio é “A Longa Noite”, que é algo falado algumas vezes em Game of Thrones. Isso fez sentido. Mas há momentos em que simplesmente é difícil de entender o que está acontecendo, de um jeito ruim.

Há vários momentos bons e bem tensos que funcionam bem, mas talvez alguns problemas tenham atrapalhado o que podia ser uma guerra mais impactante. Ainda mais quando temos episódios como Blackwater na memória.

Mas e os dragões?

Nós sabíamos que esse era o momento de Drogon, Rhaegal e Vyserion se reencontrarem, não tem como ir em uma guerra contra os mortos de gelo sem levar a sua maior arma: dragões. Mas aqui sinto que falta de polimento prejudicou também.

Eu entendo que no primeiro episódio tivemos uma cena de Jon com Rhaegal, porque era óbvio que ele montaria no dragão para tentar derrotar o rei da noite. Eu mesma disse que aquela cena era importante para isso. E também compreendo que o tempo está apertado. Mas, mesmo assim, para mim pareceu um pouco inacreditável Jon conseguir montar Rhaegal para encarar o rei da noite com Vyserion. É perfeitamente plausível Daenerys conseguir fazer, ela está andando com Drogon há anos, mas no caso de Jon achei que algumas partes forçaram.

A luta entre os dragões me pareceu muito pouco empolgante, perto do que poderia ser. É complicado fazer as cenas com os dragões, e tiveram vários momentos muito bonitos e bem feitos, mas no final das contas, dado como as coisas se resolveram, parece que os dragões não causaram tanto impacto. E eu sei que causaram, se não fossem eles haveriam muito mais mortos, mas acho que alguns detalhes sobre eles deveriam estar mais acertados.

Porém, uma coisa que eu gostei, foi Daenerys não ter conseguido derrotar o rei da noite com Drogon. Seria muito legal, mas ao mesmo tempo me pareceria um tanto fácil se essa fosse a resposta. Sem contar que o rei da noite não iria se expor diante de dragões se a resposta para derrotá-lo fosse só isso.

As criptas

Com a quantidade de vezes que falaram no episódio passado que as criptas eram um local seguro, já era de se imaginar que algo aconteceria lá. Eu sei que várias pessoas queriam os zumbis dos personagens mortos de volta, mas eu estou muito feliz que isso não aconteceu. Seria só coisa demais que não teria o tempo suficiente para se resolver.

De qualquer forma, alguns mortos acabaram se levantando sim e atacando as pessoas desavisadas. Eu gosto que, nem ao menos as pessoas que “supostamente” estavam seguras tiveram descanso nesse episódio. A ideia é que a ameaça seja muito grande, caso contrário, para que toda a expectativa para esse momento? E em muitos momentos dessas cenas fechadas, nas criptas ou quando a Arya estava fugindo nos corredores de Winterfell, eu senti a sensação de que simplesmente não tinha o que ser feito. Que eles estavam lutando uma batalha perdida. Isso foi um dos pontos mais legais do episódio. Nós sabemos que eles não vão perder, ou não do jeito convencional, mas a sensação é que não tinha o que fazer.

Mas, fora essa atmosfera de desespero, eu particularmente acho que os momentos das criptas não servem para muito além de mostrar como a ameaça dos mortos vai muito longe. Porém, depois pensando mais no episódio, não acho que elas precisavam ter uma função maior que isso, e também mostrar o que estava acontecendo com as pessoas lá. Na batalha de Blackwater, esses momentos em que víamos as pessoas escondidas nos deram vários diálogos interessantes, e isso eu senti um pouco de falta. Mas, no mais, acho que essas cenas serviram ao seu propósito principal.

Quem morreu e quem viveu

Nós já sabíamos que várias pessoas iam morrer nesse episódio, não só figurantes, e sim os personagens que conhecemos e nos importamos. Era esperado que os personagens mais na função de guerreiros morressem aqui, como Jorah, Beric e Edd. Então vamos falar um pouco da morte de cada um deles, e dos que ainda estão de pé.

Já comentei lá em cima sobre a morte da Melisandre, e como faz sentido que ela tenha se permitido morrer depois de ter seu propósito realizado. É mais ou menos a mesma lógica de Beric Dondarrion, que voltou tantas vezes dos mortos até enfrentar os mortos nesta guerra. Quando ele concluiu esse objetivo, ou ao menos sua parte na batalha, ele também morreu. Ed Doloroso, que jurou proteger a humanidade na Patrulha da Noite, também cai nesse episódio. É o dever de uma pessoa da Patrulha da Noite, e ele era um dos últimos de pé. A Patrulha, assim como a muralha, foram destruídos e vão precisar se reerguer de uma nova forma, que talvez seja boa parte da mensagem que essa temporada de Game of Thrones esteja tentando passar.

Não é absurdo a ideia de que Jorah morra defendendo Daenerys, afinal é isso que ele tem feito desde o começo, se esforçando de todas as formas para mantê-la viva. Jorah é um personagem que buscava redenção pelos seus erros do passado, e era um guerreiro, então morrer defendendo a causa que considera justa, e que nesse caso está salvando vidas, era o caminho esperado.

Lady Mormont também não sobreviveu à guerra, mas talvez tenha sido a personagem mais corajosa da série até agora. Ela era uma criança, líder de sua casa, que sempre enfrentou as pessoas pelo o que acreditava. Lady Mormont podia ter escolhido ficar nas criptas, mas foi lutar. Eu ainda me pergunto o quão necessária foi o nível de cena gráfica do momento em que ela morreu, mas não dá para tirar o mérito de que ela matou o zumbi gigante, que ajudou um bocado.

Talvez a maior morte que tivemos ontem foi a de Theon Greyjoy. Assim como Jorah, ele buscava por redenção pelos erros que cometeu, nesse caso ele morre tentando proteger Bran Stark. Na crítica do episódio passado, comentei como isso completava seu arco, considerando que algumas temporadas atrás ele traiu Winterfell. Sua morte era quase certa. E é simbólico para o personagem que tenha acontecido da forma que aconteceu.

Quanto aos vivos, a maioria deles faz sentido que tenham sobrevivido. Há personagens ali que não vão morrer em guerras, que a vida deles dependem de outros aspectos. Se Sansa, Tyrion, Jaime ou até Daenerys estiverem com seus dias contados, não é os mortos que eles devem temer. Eu ainda fiquei surpresa que Verme Cinzento sobreviveu à guerra de hoje, mas considerando que eles ainda vão enfrentar Cersei, pode ser que ele e outros ainda não estejam a salvo.

Mas tivemos uma última morte além dessa, a do rei da noite.

O final da longa noite

Vladimir 'Furdo' Furdik in Game of Thrones (2011)

Depois de causar uma baita dor de cabeça para o exército de Winterfell, matar e trazer de volta várias pessoas, o rei da noite finalmente consegue passar pelas defesas dos soldados de Theon e está pronto para matar Bran. Naquela altura do episódio, eu já achava que Bran ia morrer e os mortos desistiriam de matar os outros. Pelo o que o episódio tinha entregado até aquele momento, não havia nada, além de uma desistência, que não fizesse com que todos morressem.

Então, de repente, Arya aparece no meio de todos, passando pelo exército dos mortos, e mata o rei da noite, que era a única forma de Game of Thrones não terminar ali mesmo com a morte de todos.

Por mais legal que seja ver Arya, depois de tudo, conseguir matar o rei da noite para proteger a sua família, e o mundo de Game of Thrones inteiro, algumas coisas não fazem muito sentido. Honestamente, se tinha uma pessoa que conseguiria passar por todos sem ser percebida era Arya mesmo, devido ao seu treinamento. Caso a batalha fosse mais direta, era provável que a função caísse para Jon, mas essa luta provou que, para derrotar os mortos, bater de frente não daria certo. Sem contar que é plausível que a única alternativa de dar certo, além dos mortos desistirem, era derrotar o rei da noite que faria todos os outros mortos caírem.

Porém, alguns minutos antes, Arya estava dentro de Winterfell tentando escapar dos mortos. É interessante ver a cena entre ela e Melisandre, que lembra o momento em que Arya ficou sabendo que fecharia olhos castanhos, verdes e azuis, ou seja, que mataria inúmeras pessoas. E se tem um olho azul memorável em Game of Thrones, é o do rei da noite. Mas, poucos instantes antes de Melisandre aparecer, e falar do deus da morte, Arya estava com dificuldades de passar pelos mortos porque eles são mais perceptíveis que os humanos.

O sangue de Arya estava fazendo com que os mortos ficassem alertas, seja pelo som ou pelo cheiro. Se algumas gotas de sangue fazem isso, como nenhum dos Walkers, incluindo os mais poderosos entre eles, não conseguiram perceber Arya se aproximando? Se aquela cena do sangue de Arya atraindo os mortos não tivesse acontecido, e se ela tivesse conseguido passar com eles com mais dificuldade (e o grande obstáculo fosse o medo), o fato dela matar o rei da noite teria sido bem melhor. Por isso comentei antes que o problema era polimento.

Arya estava sangrando quando passou por todos os mortos até chegar no rei da noite, se fosse pelo cheiro, eles teriam reparado, ao menos um deles. Se fosse barulho, a movimentação dela poderia ter alertado porque, novamente, se o barulho de uma gota no chão faz isso, os passos dela, por mais silenciosos que sejam, fazem mais barulho do que a gota de sangue.

Por mais que esse momento, como muitos outros, foram divertidos, uma falta de cuidado maior nos impede de curtir completamente a grande batalha.

Ainda tem mais três episódios

Não é de hoje que Game of Thrones está indicando que, primeiro eles iam resolver a questão com o rei da noite, depois seria decidido quem ia sentar no trono de ferro. Por mais que seja uma série de fantasia medieval de ação, o nome ainda é O Jogo dos Tronos. O fator político sempre foi muito importante, apesar das lutas, a série também é sobre personagens, relacionamentos e resoluções de conflitos que nem sempre são feitos em campo de batalha.

O problema para mim é que, da forma que foi colocado, faz parecer que o grande auge da questão toda seria a resolução com os mortos. Sim, eu estava prestando atenção, eu sempre vi Game of Thrones porque era muito mais além de lutas de espadas. Mas, a menos que eles façam um trabalho excelente nos próximos episódios, parece que o próximo desafio não é tão grande quanto o rei da noite foi.

Sim, Cersei tem um exército sem baixas, além de uma frota Greyjoy que é conhecida por ser perigosa. Os números em Winterfell diminuíram bastante, não há mais dothraki, os Imaculados são poucos, o próprio exército do Norte está em desvantagem e ao menos Rhaegal está muito ferido. As chances de sucesso estão bem mais do lado da Cersei do que de Daenerys e Jon.

A luta pelo trono sempre foi a grande questão da série, por mais que em vários momentos, nós tenhamos acreditado que não ia sobrar trono no final. Ao que parece, vai sobrar, ou pelo menos não vai ser destruído pelo rei da noite. Não acredito que toda a história desse gênero precise ter uma grande luta épica no final, mas para isso é preciso que as coisas sejam bem construídas. Apenas espero que o roteiro saiba colocar tanto peso nos próximos conflitos quanto quis fazer neste episódio, se não corremos um risco de lidar com um final anti climático.