Eu acho que as pessoas esquecem que quando se faz uma adaptação, uma releitura, uma refilmagem ou uma nova versão de uma obra que elas consumiram anos atrás, isso não significa que a obra em questão será apagada da existência. Deletada. Proibida de ser consumida novamente.

As pessoas precisam relaxar.

Na semana passada a internet foi pega de surpresa com o anúncio de uma nova série animada de ThunderCats. Para quem não sabe o que ThunderCats foi, era uma série animada sobre gatos humanóides que lutavam contra lagartos e targarugas humanóides que eram controlados por uma… Múmia?! Como muitos dos adultos de hoje que cresceram na década de 80 e 90, eu amava Thundercats e todo o rolê “olho de Thundera”.

Mas estamos em 2018, eu tenho 31 anos, e se nem o desenho antigo de Thundercats conversa com a Rebeca de hoje, porque diabos eu deveria esperar que um desenho novo de ThunderCats seja desenvolvido para abraçar a minha realidade? Assim como ThunderCats da década de 80 era destinado à crianças, é bastante razoável que a nova versão, Thundercats Roar, seja destinado à crianças, não?

Algumas pessoas insistem que não é uma questão de entender que o desenho não possui os adultos como público alvo. Estão reclamando que a animação está pior, que está “burra” e que os desenhos de trinta anos atrás são melhores que os desenhos atuais.

Melhores para quem?

É normal que animações, quadrinhos, literatura e cinema caminhem narrativamente e esteticamente de acordo com o que o público alvo dessas obras consomem e percebem como interessante. Crianças são o público alvo de Thundercat Roar! Então se nós estamos vivendo uma época em que a estética de animações infantis segue uma linha mais cartunesca e divertida, é normal que essa adaptação também siga essa estética.

Porque a animação não está sendo feita para agradar adulto chato.

Eu acho engraçado que muitas das pessoas que reclamam do traço e da estética de Thundercats Roar amam Rick & Morty, uma animação que transita livremente pelo tosco e pelo traço simples. E tá tudo bem, porque essa estética faz parte do tema da série, porque conversa com o universo que ela tá tentando construir e, principalmente, porque conversa com o público alvo: adultos.

Mas o que mais me deixou surpresa sobre a reação do público adulto ao trailer de ThunderCats Roar é que eles já sabem que vai ser ruim. Que vai ser menos interessante do que a original. A única explicação para isso, se a gente tirar o preconceito estético e a arrogância geracional, é que eles possuem a tecnologia de viagem no tempo e se recusam a dividir com a gente. Essas pessoas foram ao futuro, assistiram toda a série animada, chegaram a conclusão de que é ruim e voltaram à 2018 para jogar uma luz nas nossas pobres cabeças esperançosas.

De alguma maneira nós, como adultos, precisamos desesperadamente entender que NEM TUDO QUE A CULTURA POP CRIA É FEITO CONOSCO EM MENTE – E TÁ TUDO BEM! Porque tem diversas outras gerações vindo depois da gente, crescendo depois da gente, com visões de mundo e experiências que vão ser diferentes das nossas.

E isso é maravilhoso.

Eu espero que elas tenham uma experiência tão legal quanto a que a gente teve assistindo ThunderCats. Eu espero que Thundercats – ROAR faça por elas o que o original fez pela gente. Eu espero que elas tenham o direito de ter vinte novos shows originais, como Steven Universe ou Teen Titans Go!, e espero que remakes dos nossos clássicos, como She-ra e as Princesas do Poder, sejam ainda mais legais e mais inspiradores do que os originais.

Porque se existe uma verdade no mundo da animação, é que as animações de hoje são muito, mas muito mais inclusivas e diversas do que as que a gente tinha na década de 80. É meio óbvio que a qualidade tecnológica também, não? E a geração de crianças que está vindo, que são o público alvo dessas animações, se der tudo certo, vai ser uma geração muito mais aberta às mudanças do que a nossa e as que vieram antes de nós.

Deixem as crianças curtirem, deixem elas serem crianças e, pelos Poderes de Greyskull, seja adulto e para de birra na internet.

Até mais.