Não.

Recentemente, eu li um comentário na internet que chamou a minha atenção. Uma pessoa comentou que ficava triste pois o final de Steven Universe provavelmente não seria resolvido em uma batalha épica, como acontecia nos animes. Já que nos últimos dias estamos debatendo sobre violência na cultura pop aqui no site, esse comentário me chamou atenção para um dos aspectos dessa área que acredito que vale refletir. Pode ficar tranquilo que eu não vou dar spoiler de Steven Universe.

Para quem não acompanha o desenho, Steven Universe tem sim suas lutas, a maioria das gemas tem uma arma ou poder, mesmo que sejam para defesa. Há um episódio todo dedicado à uma das personagens ser treinada para lutar espada. Mas, apesar das cenas de ação, todo mundo que assiste sabe que Steven Universe tem como foco o desenvolvimento de personagens, debater assuntos sérios de forma acessível, representação, desvendar mistérios da história e discutir questões sobre sentimentos. Sim, as lutas estão ali, mas não é o foco. Então por que algumas pessoas esperam uma grande luta épica, mesmo em um desenho onde isso não é a proposta principal?

Porque praticamente todo o produto de cultura pop que consumimos, ou ao menos os mais populares das maiores franquias, tem esse momento, esse formato. É a famosa boss battle, luta do chefão, que todo o gamer está acostumado a encarar no final do videogame. O momento épico, que dará o clímax ao personagem principal e a partir daí vem a calmaria da história, onde tudo se resolve e o final se aproxima.

Óbvio que não é toda a história inventada na humanidade que tem uma batalha como clímax, mas pensa nos produtos nerds mais famosos hoje em dia. Star Wars? Sempre tem  a luta do final do filme. Vingadores? Também. Liga da Justiça? Por pior que seja feita, ela também existe. Mesmo se a gente fugir dos super-heróis, pega Game of Thrones, por exemplo. Também temos um episódio que é dedicado à grande luta.

Tudo bem. Eu não tô falando que essas obras são menores ou ruins por esses momentos. Não acho que lutas sejam ruins, que assistir batalhas nos torne violentos, etc. Há histórias que, de fato, o conflito físico e direto no final é o que encaixa melhor. Alguém imagina Senhor do Anéis sem terminar em uma grande batalha épica? Provavelmente não.

Mas a minha crítica aqui é que, com esse formato de história, parece que só nos acostumamos a ver resolução de conflito através de bombas, tiros e porrada. Isso é uma forma, que encaixa em certas narrativas, mas não é a única. O Pop Culture Detective fez um vídeo sobre como o potencial de videogames estava sendo diminuído porque a indústria só pensava na mecânica de interação de combate. Isso me inspirou a escrever um outro texto aqui.

De certa forma, eu acho que o jeito que a violência foi colocada na cultura pop ao longo dos anos, pode estar perpetuando uma ideia de que as grandes coisas, as mais importantes e que valem estar no terceiro ato das histórias, é uma grande batalha, porque quando alguma história resolve não fazer isso, por exemplo (talvez, porque ainda não sabemos ao certo) Steven Universe, as pessoas ficam decepcionadas.

Obviamente eu não quero dizer que violência na cultura pop deixa pessoas violentas, nem que jogar rosas nas pessoas resolve problemas. Também sei que na história da humanidade, grandes mudanças e conquistas não foram ouvidas de boa e pacificamente, seria utopia imaginar que paz e amor resolve tudo na vida. Só quero dizer que algumas histórias não precisam sempre da batalha épica para fazerem sentido no final. Ter um momento tenso, grande e decisivo é importante para fazer o clímax de qualquer história funcionar, mas o fato de só enxergarmos isso no formado de uma grande batalha mostra que não só nós consumimos isso na maioria das vezes, como também é o pensamento padrão para criar isso nas nossas histórias.

Vou dar um exemplo polêmico: Mass Effect 3. Como já faz 6 anos que o jogo saiu, vou me permitir dar alguns spoilers, mas nenhum deles vai estragar a sua experiência da trilogia caso você ainda queira jogar (e por favor, faça isso). O final de Mass Effect 3 teve uma grande polêmica, porque ele amarrava as pontas da trilogia toda com furos e até corrida. Parecia que os nossos esforços até o momento não importavam tanto quanto gostaríamos. Eu concordo com algumas das críticas, também acho que aquela última meia hora podia ter sido trabalhada de outra maneira, o que em nada mudou toda a minha aventura e o Mass Effect 3 ainda é meu preferido da franquia, assim como esse é um dos meus jogos preferidos de todos.

Uma das críticas ao final é que nós não tínhamos uma grande boss battle final. Depois de lutar todo o caminho de Londres até o momento final, para enfrentar o The Illusive Man, a cena de confronto é um diálogo muito tenso, seguido de alguns tiroteios que você não controla e a escolha do que vai acontecer na galáxia, resumida em três botões. Apesar de achar que algumas das escolhas não foram as melhores, a falta de uma boss battle com o The Illusive Man nunca foi um problema para mim.

Quem jogou sabe: Antes daquele momento, o jogador está no meio de um combate insano contra os reapers, uma das sequências mais difíceis de ação que eu já joguei. Isso para mim já tinha sido a boss battle, independente do que viria a seguir. Lembro que na época os produtores de Mass Effect deram uma entrevista dizendo que sim, pensaram em fazer The Illusive Man se transformar em outra criatura para te enfrentar, mas depois acharam que não fazia muito sentido. Isso porque a construção do The Illusive Man nunca foi, desde que ele apareceu no Mass Effect 2, de um lutador, soldado ou guerreiro. Ele sempre foi um cara de negócios, um manipulador que trabalhava atrás de uma mesa. Eles sentiram que seria contraditório o confronto final com ele ser uma batalha, e eu concordo. Porque por mais que seja um jogo que fale de guerra, um jogo de ação no espaço, esse personagem especificamente luta de outra forma, e o jogador não pode reclamar de falta de batalha porque o protagonista acaba de sair de uma muito tensa.

Mas como a maior parte das narrativas da cultura pop nos dá essa batalha épica, nos mostra que os conflitos finais só podem ser resolvidos com guerra, é o que nós esperamos. Sim, em Star Wars não dá para negociar com o Império, eles são a representação dos nazistas e não tem como conversar com isso. Mas em histórias como Steven Universe, por mais que tenham batalhas, não é necessariamente obrigatório que a resolução daquela trama se dê com um clímax de uma luta épica.

Eu gosto de grandes batalhas épicas, algumas das minhas histórias favoritas se resolvem assim. Mas outras não, porque não precisa. Cada história pede uma coisa, o que acho que precisamos entender é que nem todas elas precisam ser resolvidas de forma violenta. Algumas sim, dependendo do tom da história, do gênero e da mensagem. Mas nem todas, e se focar sempre nessa forma de resolução é repetitivo. Talvez se víssemos mais de outras formas de resolução de conflito, não esperássemos essa grande batalha final a lá Senhor dos Anéis em toda a mídia que consumimos.