Texto por Carlos Norcia

A proposta deste texto não é ser uma resenha muito tradicional. Vou falar mais sobre temáticas e ideias que o Ordem Vermelha: Filhos da Degradação traz e coisas que o livro me fez pensar. Não vou dar quase nenhum spoiler da trama em si. Minha intenção é abrir um diálogo pra quem já leu a obra e dar vontade de ir atrás dela em quem ainda não leu.

Por onde quer que andemos, temos uma corda ao redor do nosso pescoço, cuja outra ponta está presa nos valores a que nos dedicamos sem questionar. Quando menos esperamos, na calada da noite, aquilo que idolatramos virá nos sufocar.

É possível sobreviver quando colocamos todos os valores do mundo ao nosso redor em cheque? Mais ainda: é possível lutar de verdade contra “tudo que está por aí”?

Nós vivemos numa realidade que alça ao patamar de “mito” figuras como Bolsonaro, Sílvio Santos. Sob outro prisma, talvez seja a palavra “mito” que vem se rebaixar e ficar colada no que há de pior, em figuras que representam o que há de mais vil na nossa cultura.

Essas inversões de altos e baixos me parecem típicas da nossa cultura, deste país que chama (e aceita chamar) Macunaíma de herói nacional, mesmo que isso carregue ironia, mesmo que carregue academicismo, mesmo que uma das nossas maiores obras-primas literárias do século passado tenha traços de ideologias supremacistas brancas.

Essa visão de que o herói nacional é impossível ou improvável, pelo menos até uns tempos atrás, era uma perspectiva dominante.

Dentro desse contexto, de uma cultura que até há pouco se afirmava incapaz de produzir narrativas heroicas clássicas, e que agora se rende a uma narrativa de mitificação político-publicitária construída com os piores clichês dos piores folhetins, Ordem Vermelha: Filhos da Degradação, escrito por Felipe Castilho, ocupa um espaço interessante de reflexão.

 

  • Uma Fantasia social

Desde o lançamento no ano passado, o livro vem sido descrito pelo próprio autor como uma obra de Alta Fantasia que cruza com Cidade de Deus, o que faz muito sentido.

A Fantasia, muito por influência de J. R. R. Tolkien (mas não só dele), é um espaço contaminado pelas perspectivas racistas e eurocêntricas herdadas daquelas teorias pseudo-científicas naturalistas/positivistas do século XIX – que eram justificativas ideológicas pro colonialismo. Como espaço literário, a Fantasia mexe com mitos e valores; por isso, essa fundamentação dela num medievalismo excludente não é apenas falta de imaginação, mas também uma carência de empatia.

Ao se assumir como uma Alta Fantasia que é influenciada por Cidade de Deus, Ordem Vermelha altera essa bússola de valores de forma radical. Não é apenas uma questão de encontrar o que há de brasileiro no universo fantástico que o livro propõe. Abre-se a possibilidade pra que a obra fale com mais profundidade sobre estratificação social e a existência de diferentes espécies dotadas de humanidade e de subjetividade, sem que exista uma régua moral que determina “raças superiores” e “raças inferiores” – são diferenças que existem pra somar, se aliar.

 

  • Jornadas Heroicas cheias de empatia e significado

Além de J. R. R. Tolkien, outra influência praticamente onipresente na Fantasia é a da Jornada do Herói.

Pessoalmente, foi muito importante ler Joseph Campbell. Não só as ideias em si que ele traz, mas a maneira apaixonada como ele se comunicava é uma influência até hoje. Mas, com o tempo, o valor da obra dele foi se tornando cada vez mais relacionado às outras obras, discussões e ideias pras quais o trabalho dele foi uma porta. Em termos de estudo, tanto a Jornada do Herói em si quanto a obra do Campbell podem servir como pontes, vias de acesso pra visões de Antropologia Cultural ainda mais profundas; pra quem cria e conta histórias, a Jornada pode ser um primeiro contato ou uma primeira percepção de quão fundo a ficção pode nos levar, seja em nós mesmos ou em nossa relação com o mundo à nossa volta. É libertadora a consciência de que todas as histórias são plenas de temas e significados, e de que existem ferramentas pra quem escreve construí-los.

Por outro lado, desde o lançamento do livro de Joseph Campbell, na qual a Jornada do Herói era apresentada como ferramenta de leitura e interpretação antropológica, essa teoria foi se transformando e aglutinando manuais e interpretações, que a transformaram numa espécie de método (supostamente) infalível de contar histórias com profundidade – seja na literatura ou no cinema. O problema é que a leitura superficial do que a Jornada do Herói propõe e discute (inclusive sem criticar seu recorte) faz com que muitas histórias construídas pensando nela como guia se tornem rasas.

A Jornada chegou a se tornar, por algumas décadas, mais uma das várias supostas justificativas pra que a maioria das ficções vendidas pela indústria cultural não trouxessem uma variedade de personagens que representassem a diversidade existente no mundo real. Essa utilização da Jornada como argumento reacionário não é só algo antiquado, mas ignorante, já que desconsidera que a própria formulação da teoria de Campbell passou por uma etapa de coleta de mitos e lendas provenientes de todas as partes do globo, e não por um desejo de apagá-los em função de um único tipo/formato de narrativa aceito, formalizado e institucionalizado pelas pessoas e forças quem detêm o poderio político e econômico. A Jornada do Herói, em todo seu potencial, não deveria servir apenas como uma maneira de tornar comercializável os ideais ideológicos defendidos pelo status quo dominante.

Sob esse prisma, a Jornada do Herói se torna uma bagagem (e, também, uma ferramenta) cultural universal, que pertence e pode servir a todos que dela quiserem se apropriar (e/ou questionar), pra que nos expressemos e nos entendamos melhor.

A maneira como Felipe Castilho utiliza a Jornada do Herói em Ordem Vermelha é revigorante. Ao invés de traçar arcos de personagens que visam reforçar preconceitos e padrões de comportamento antiquados, o autor propõe um olhar mais social também nesse aspecto, levando-o a explorar aspectos e questões que uma obra de Fantasia mais tradicional não se permitiria abordar.

Apenas pra citar um exemplo, sem dar grandes spoilers, o papel mais ligado à ação física no livro é ocupado por Raazi, a protagonista feminina. E quem está esperando apenas grandes proezas de força e agilidade de Aelian, o protagonista masculino, vai ter uma grande surpresa numa das cenas lá perto do clímax do livro – um embate que é, aliás, um dos meus momentos prediletos da história.

Com isso, o heroísmo deixa de significar apenas a capacidade e a vontade de agir com violência, a possibilidade de justificar atos violentos contra figuras que representam antagonismos aos ideais “puros” das personagens protagonistas – o ideal que Ordem Vermelha propõe é o de que, ainda que existam diferenças, nós somos capazes de nos unir e sobreviver. Os heróis do livro, unidos, se tornam capazes de lidar com seus traumas e perdas, eles encontram em suas vidas um significado que não é aquele que foram condicionados a acreditar, e que os estava matando.

Além disso, Ordem Vermelha não usa a Jornada pra reforçar ideais retrógrados. Pelo contrário: os caminhos que os heróis atravessam abrem novas perspectivas e questionamentos, a ânsia de mudança que os motiva não se solidifica apenas numa tentativa fútil de vencer e chegar ao topo de um mundo injusto, mas sim na esperança de mudá-lo e torná-lo melhor pra outras pessoas que não apenas os heróis e seus próximos.

 

  • Heroísmo X “Tudo que está por aí”

Assim como a ficção pode servir como uma ferramenta pra compreendermos o mundo, ela também é usada pra construí-lo e/ou deformá-lo. As teorias racistas que fundamentavam a base da linha de raciocínio de J. R. R. Tolkien ao criar seus personagens não deram origem apenas a Frodo, Aragorn e Gandalf; elas também foram as bases pra outras linhas de pensamento, que foram dar no nazismo e na Segunda Guerra Mundial – seus frutos são visíveis até hoje. Só pra citar um exemplo, o mito racista de um suposto passado glorioso branco e masculino – uma das bases fundamentais pra boa parte do gênero da Fantasia – é usado como forma de alistar jovens pros movimentos nazistas contemporâneos, tanto no exterior quanto aqui no Brasil (lembremos da forma mentirosa como Bolsonaro e seu grupo vendem a noção perversa de que a época da ditadura representa um passado glorioso).

Ordem Vermelha nos apresenta um universo bem opressor, onde a maioria das pessoas vive na miséria, trabalhando sob regimes de servidão – muitos são viciados em carvão. Una, a divindade governante posicionada acima de toda a sociedade, reina há tanto tempo que todos os cidadãos já perderam ou se esqueceram de suas tradições. A cor vermelha é estritamente proibida.

Ao abrir o livro, nos deparamos com um universo que parece bem niilista. Existe um peso (tanto social quanto psicológico) imenso que todas as personagens estão carregando. Debaixo desse peso todo, entretanto, há também uma vontade de mudança que irá transformá-las e causar mudanças na sociedade ao redor deles.

Os paralelos entre a realidade brasileira e o universo do livro são intencionais. Felipe Castilho consegue trabalhar com esses paralelos de forma profunda e interessante, sem cair em soluções fáceis ou demagogias. Sua capacidade de discutir temas profundos sem que o livro perca fôlego é admirável.

A ideologia que governa Untherak é tão sufocante e carregada de censura que, no início da história, as personagens têm dificuldades de articular pensamentos contrários ao estado das coisas até mesmo pra si mesmos. A incapacidade de articulação deles é expressa através de ideias bem interessantes, como a relação de Aelian com Bicofino, seu falcão mascote; a capacidade de Raazi, herdada de sua espécie kaorsh, de se camuflar e tingir sua pele de cores que expressam seu tumulto interior (inclusive, olha só, a proibida cor vermelha); e também a presença do fantasma de um dos antepassados do anão Harun, que acaba sendo tanto uma ajuda quanto um fardo.

Com muita inteligência, Ordem Vermelha nos mostra que o passado só é esquecido quando ele é ativamente apagado pelos poderes políticos dominantes, que esse tipo de apagamento não é “natural”, mas planejado. E que as pessoas se esquecem da própria noção de seu valor e das suas capacidades ao perder o contato com suas histórias pessoais e daqueles que lhes antecederam – se esquecer do passado é também deixar de compreender o mundo que está à nossa volta.

Nesse processo de estabelecer e fortalecer laços de empatia e amor genuínos, capazes de fazer com que as personagens enxerguem além daquilo que lhes era permitido perceber, Raazi, Aelian e o resto do grupo se veem na posição de desenterrar o passado nefasto sobre o qual os poderes de Untherak estão sustentados. A corrupção, presente até mesmo na “degradação” citada no título do livro, é exposta como uma das pedras fundamentais do governo que rege Untherak – sem tons de moralismo simplista ou messianismo político.

Ao se permitir abordar temas tão próximos da realidade cotidiana do leitor brasileiro, a Ordem Vermelha se torna uma obra capaz de carregar uma reflexão vital pros nossos dias. Aos nos apresentar heróis que superam a demagogia e aprendem a enxergar os motivos (históricos, políticos, religiosos, etc.) por trás dos abismos sociais de Untherak – que percebem a falta de empatia, a desumanização, o ódio que sustenta esses abismos – , Felipe Castilho nos ajuda a pensar em formas de lutar contra nossos problemas cotidianos reais sem cair nas falácias que o ódio prega, sem nos deixar enganar pela ficção desprovida de empatia com que a ala reacionária da política brasileira quer nos convencer de que defendem um “bem maior acima de todos”, e não apenas seus interesses egoístas.

As personagens de Ordem Vermelha são fruto de um mundo degradado, devastado pela corrupção das instituições, dos corpos e das subjetividades de todos os cidadãos. Mas, mesmo que esse ainda seja só o primeiro volume da história, Raazi, Aelian e seus amigos já mostram que não se deixarão destruir sem se colocar na resistência, sem ao menos tentar lutar pelo bem comum.