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O ônibus balançava enquanto o motorista seguia pelas ruas do centro de São Paulo. Luci Vidal tentou não deixar a cabeça encostada no vidro para não se machucar com os trancos do veículo, por mais que quisesse descansar um pouco. Tinha passado a noite inteira terminando de editar algumas fotos para um cliente e não teve tempo de dormir direito. Não que esse fosse o único motivo que tornasse o seu sono uma parte complicada de sua vida. Continuava ignorando as vibrações que sentia do seu celular, sabia exatamente o que era. Seus amigos provavelmente a estavam chamando para sair, ir fazer alguma coisa, reclamar que ela não estava mais saindo com eles. Ela estava esgotando as desculpas e muito cansada.

A São Paulo de sempre ia passando pelas janelas do ônibus. O tom cinza característico daquela cidade enorme, prédios que ocupavam toda a vista, para todos os lados que olhasse. Pelo menos era assim em várias regiões da cidade. O final da tarde ia chegando lentamente, dava para saber ao reparar na luz do sol misturada com poluição. Aquele também era o horário que tinha muita gente na rua, as pessoas mal se davam ao trabalho de reparar na cidade ao seu redor. Mas Luci reparava, assim como outros que nem ela. Aquela cidade caótica, onde as pessoas andavam apressadas e sempre estressadas, dava algum conforto para ela. Um senso de vida normal e banal que aprendeu a apreciar.

Luci desvencilhou os olhos da janela para se levantar. Desceu no seu ponto, no meio da Sé, e seguiu seu caminho. Ela andou pelas ruas estreitas sem olhar para os lados, sem paquerar os produtos mágicos que foram feitos por encantadores, com uma certa dose de magia para fazer o olho brilhar, convencendo leigos a comprarem, mesmo que eles não precisassem tanto daquilo. Não eram todas as lojas que tinham aquele tipo de produto, claro que não, mas cientes como ela sabiam diferenciar. Ao contrário dos leigos. Regiões de comércio como aquelas costumavam ter algumas lojas de cientes. Durante a infância, Luci gostava de andar naquelas ruas com seu pai, tentando adivinhar quem era leigo e quem era ciente como eles.

A diferença era bem simples. Cientes, como o nome indicava, sabiam de coisas que aconteciam entre as linhas daquela cidade. Sabiam que os produtos de certas lojas de fato eram encantados para vender mais. Sabiam que algumas pessoas precisavam apenas de um estalo para fazer faíscas aparecerem em seus dedos. Sabiam que existia toda uma cidade debaixo dos pés daquelas pessoas apressadas. Cientes sabiam da magia, do Ninho, a cidade subterrânea povoada apenas por pessoas como eles. E os leigos não tinham a menor ideia de qualquer uma dessas coisas. Seus olhos eram pouco treinados, nunca assumiriam que algo era mais do que o que viam. Caso os amigos de Luci, na grande maioria leigos, visitassem onde seus pais moravam, dificilmente identificariam qualquer sinal de magia.

Não costumava ir muito para aquele lado comprar em lojas de cientes, então geralmente, quando ia, Luci não gostava de se apressar muito. Mas hoje era diferente. Não tinha tempo ou vontade de enrolar a sua estada.

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Ainda ouvia a voz de sua mãe pedindo para que ela fosse ao teatro, com urgência. Luci não era a maior fã de encontros familiares. Ela teve uma família saudável, mas costumava se sentir uma estranha sempre que passava muito tempo entre cientes. Não importava que sua família morasse na fronteira que ela conheceu a sua vida inteira, era sempre uma sensação esquisita. Seus pais eram ótimos, mas quando a reunião envolvia a irmã mais velha, Luci se sentia mais de fora do que o normal. Helena sabia disso, conhecia bem a filha e evitava forçá-la a essas situações, então se ela tinha pedido para que Luci fosse visitá-la naquela noite com urgência é porque era urgente mesmo. Aquilo era o suficiente para fazer o estômago de Luci revirar.

Ela desceu a rua, chegando a uma esquina. A fachada da loja adiante, o seu destino, era estranhamente simétrico. Era diferente das lojas ao redor, mas apenas o suficiente para fazer alguém observador virar o rosto. Para Luci, era óbvio que aquilo era uma loja de cientes, mas esse era o segredo, ser óbvio para cientes e imperceptível para leigos. Eles até podiam entrar na loja, comprar e ficar satisfeitos, mas sem saber a verdade. A fachada era branca, as linhas tão simétricas que pareciam ter sido esculpidas uma a uma. A porta era de vidro, daria para ver o interior perfeitamente se não houvesse figuras geométricas enfeitando a vidraça, triângulos que se juntavam e criavam um padrão agradável de olhar. O metal da maçaneta estava um pouco gelado, chegava a brilhar em um tom prata quando a pessoa se aproximava.

O padrão geométrico continuava no interior da loja, com as prateleiras e os produtos milimetricamente organizados. Aquela geometria toda era satisfatória de ver. Quando Luci entrou, viu algumas pessoas passando pelas prateleiras. Chutaria que a maioria ali era ciente, com um ou outro leigo, mas não tinha nada que confirmasse sua suspeita.

Luci foi até uma das prateleiras, procurando por comprimidos que ajudavam a dormir. Ela reconheceria a embalagem em qualquer lugar, o que os cientes chamavam de “Noite Calma”. Só precisava tomar antes de dormir e podia relaxar, sem temer que sua cabeça escapasse para o Sonhar, sem sonhos conscientes ou qualquer chance de pesadelo. Era uma das invenções dos cientes que Luci mais amava.

Ela pegou cinco caixas, em que vinham comprimidos o suficiente para não ter que voltar lá tão cedo. Caminhou até o balcão, ficando de frente para a funcionária da loja. Luci entregou as caixas para ela e, sem chamar atenção, deu uma olhada ao redor para ter certeza de que não tinha ninguém perto o suficiente para ouvir o que ela ia dizer.

— Como andam as coisas? — Luci perguntou. Considerando todos os cientes da superfície, ela estava entre os que tinham menos contato com os acontecimentos do Ninho, mas vez ou outra, quando não tinha as informações através dos pais, gostava de ficar atualizada.

— Ainda complicadas — a moça respondeu, enquanto mexia na máquina. As suas próximas palavras vieram em um tom mais baixo — As pessoas continuam falando do desastre da Alvorada e ninguém sabe direito o que está acontecendo na Torre.

— O Sonhar continua perturbado?

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A moça assentiu, espiando de leve para ver se os outros na loja prestavam atenção na conversa delas.

— Nada como o desastre, mas pelo que dizem, sim. Ouvi falar também que há muita tensão no Ninho. A Guardiã parece não estar dando as caras há dias e ninguém sabe dizer o porquê.

Luci assentiu, pegando a sacola com suas compras e jogando dentro da bolsa. Despediu-se da moça que a atendeu e saiu da loja com um nó na boca do estômago. Para todos, a Guardiã era essa figura inalcançável, uma das mulheres mais poderosas do Ninho, com habilidades incríveis. Era aquela que observava o Sonhar, que cuidava de uma das bases mais importantes da comunidade de cientes. Mas, para Luci, a Guardiã era Sofia, sua irmã mais velha.

E de repente a ideia da conversa urgente que teria ficou ainda mais assustadora. A desvantagem de ter tão pouco convívio com as fronteiras e cientes em geral era que, muitas vezes, ela era a última a saber das coisas. O desastre da Alvorada não tinha passado despercebido por ela, afinal foi algo noticiado em vários lugares, inclusive por leigos. Ficou pensando naquilo por semanas. Já fazia meses que não via seus pais ou a sua irmã. O que mais será que tinha perdido?

Cada minuto que demorava para chegar ao teatro era um nível de preocupação a mais em sua mente. Uma teoria insana nova que surgia. Luci imaginava que, se fosse algo muito terrível, sua mãe teria contado por telefone, ou teria ido até a sua casa. Sem contar que, se fosse algo muito grande mesmo, a moça da loja saberia. Mas o que era ruim para fazer sua mãe querer ter essa conversa urgente, criar fofocas, mas não grave o suficiente para ter criado uma comoção maior?

Ela percebeu que tinha corrido até o metrô quando sentiu sua respiração pesada no peito, quase ofegante. Cada estação era uma tortura e, considerando a hora, o fato de passar boa parte da viagem relativamente espremida entre várias pessoas não ajudava em nada o seu emocional. Suas pernas trabalharam rápido depois que ela chegou à estação, o que a fez esbarrar em uma ou outra pessoa. O céu já estava bem mais escuro, as luzes da cidade iam se acendendo, como de costume, dando outras cores para São Paulo.

Não tinha como não ver a fachada do Teatro dos Magos. Em meio a prédios modernos e alguns bares, Luci viu a construção de longe. Não era grandiosa como outros teatros da cidade, mas possuía aquele mesmo ar de “levemente fora do lugar” das lojas de cientes. O Teatro tinha um pouco mais de extravagância. A construção era alta, com alguns andares, mas nem de perto tão grande quanto os prédios ao redor. A fachada era cor de vinho, também com aquelas linhas simétricas agradáveis de olhar. O nome do lugar estava escrito em um letreiro branco, fácil de ser lido. Havia dois corredores de entrada, e Luci virou no mais próximo. A fila da próxima sessão já estava se formando, mas pelo horário Luci sabia que uma já estava acontecendo.

Como o nome bem indicava, todos ali, ou pelo menos a grande maioria do grupo, tinham dons mágicos. Os que não tinham não eram leigos. A própria Helena não manipulava magia nenhuma, ao contrário do pai de Luci. Giovani era um homem do espetáculo, gostava de usar sua magia no meio das peças. O grupo gostava de encenar batalhas, histórias épicas, algumas criadas pelos pais de Luci e outras baseada em fatos reais da história do Ninho. Para os leigos, não eram nada além de contos inventados, narrativas que os fariam se sentir poderosos por alguns instantes, ou que talvez marcassem suas vidas de alguma forma.

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O Teatro dos Magos era uma fronteira, nome usado para lugares públicos na superfície que eram propriedade de cientes. Giovani, que tinha escolhido o nome, adorava a ironia de se esconder diante dos olhos de todo mundo. A atmosfera desses lugares era diferente, Luci podia sentir um pouco nas lojas, mas no teatro era mais forte. Magia era usada ali, todo o seu ser sentia. Inclusive era usada como parte do espetáculo, mas para os leigos não era nada demais. Para eles eram apenas truques, como os efeitos especiais que viam em filmes. Era absurdo demais para as pessoas que não estavam acostumadas conceberem que o fogo que viam no palco era uma magia de verdade.

Luci só precisou fazer um sinal para o segurança deixá-la entrar na sala fechada. Boa parte dos lugares estava ocupada, como sempre. Todo mundo que trabalhava lá a conhecia e não impediria a entrada da filha mais nova dos donos. Ela andou em silêncio até uma das portas de serviço, deparando com uma plateia muito interessada na luta que acontecia no palco. Dois magos travavam o combate, usando seus poderes para impressionar a plateia. As pessoas reagiam a cada movimento. O palco era espaçoso, as cortinas vermelhas estavam fora do caminho da plateia, presas bem no canto. Luci sabia que, nos bastidores, as pessoas corriam para agilizar os preparativos da próxima cena.

Antigamente, Luci sabia exatamente qual história estava sendo contada apenas vendo um pequeno trecho da apresentação. Às vezes era algo com mais falas, outras tinham mais dança, mas todas contavam alguma história, de uma forma ou de outra. Hoje, ela não saberia dizer qual era qual, o que era apenas um reflexo do quão distante se encontrava do teatro nos últimos anos. Voltar podia provocar aquela sensação esquisita, mas certamente trazia alguma nostalgia. Luci não se arrependia de suas escolhas, ela gostava de viver entre leigos, estudando e trabalhando sem qualquer magia envolvida, ou pelo menos só o mínimo para lhe trazer algum conforto.

Quando aquela última cena acabou, viu seu pai aparecendo para encerrar o espetáculo. Ao contrário do resto da família, Giovani era um homem alto e grande, com cabelos compridos bem amarrados atrás da cabeça. Sua pele era escura e ele tinha uma barba longa; às vezes ele gostava de trançá-la. Ele sabia como fazer um show e chamar a atenção. Sua voz alta e retumbante ocupava o cômodo inteiro, fazendo as pessoas aplaudirem com euforia quando ele terminou seu discurso de encerramento. Mas Luci conhecia o pai, percebeu que ele estava um pouco menos animado que o normal, quase um pouco abatido, o que fez toda a sua preocupação voltar.

Todos os participantes vieram à frente e fizeram uma reverência, como era de costume. Luci aplaudiu enquanto a cortina ia se fechando, reconhecendo o rosto da maioria das pessoas que estavam ali. A plateia estava bem animada. O grupo vivia por aqueles momentos, todos que estavam ali adoravam o olhar maravilhado que os leigos tinham depois de verem seus truques. Mas a plateia precisava continuar acreditando que era apenas aquilo, truques, ou eles teriam problemas. Nada de bom acontecia quando uma fronteira colocava a existência do Ninho em risco.

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Quando os aplausos acabaram, Luci sentiu uma mão em seu braço, alguém a segurando por trás. Ela virou o rosto e viu sua mãe. Helena tinha quase a mesma altura que ela, um pouco mais alta. Sua expressão estava cansada, mas ela sorriu e a abraçou, enquanto seus ouvidos ainda captavam os barulhos da plateia.

— Como você está, querida? — ela perguntou, afagando os cachos de Luci.

— Nervosa… Quero saber o que aconteceu.

Normalmente, Helena sorriria e diria que não era nada demais, que ela podia relaxar. Luci esperou por aquilo, mas o conforto não veio, o que fez que sua barriga doesse pela antecipação. A expressão triste que tomou o rosto de Helena não ajudou em nada. Ela pegou a mão da filha e a foi puxando para fora dali. Luci teve tempo apenas de dar mais uma olhada de relance para o pai.

Ela foi levada pelos corredores até o escritório de seus pais, onde o casal costumava cuidar de qualquer negócio necessário. Além da parte pública do teatro e das salas de apresentação, também havia os cômodos dos fundos e as áreas domésticas, onde algumas pessoas, incluindo Giovani e Helena, moravam. Alguns cientes achavam terrível a ideia de viver longe daquele contato com a magia, por isso o casal permitia que alguns dos atores morassem ali.

O lugar ainda estava do mesmo jeito desde a última visita de Luci. O escritório não era grande, mas era muito bem arrumado, tudo em seu lugar, com inúmeros livros e documentos guardados. Helena acendeu a luz quando entrou, dando espaço para Luci e fechando a porta atrás dela. Cada segundo de silêncio da mãe era um pouco mais de dor que Luci sentia. Ela girou nos calcanhares para encarar Helena.

— Mãe, por favor, me conta. O que foi?

Helena mediu as palavras por um segundo. Não tinha forma fácil de dizer aquilo.

— Sofia está desaparecida.

Luci estaria mentindo se dissesse que não chegara a pensar em possibilidades piores, mas ainda assim, por todas as criaturas do Sonhar… Como? Ela deu um passo para trás, como se tivesse levado um tapa. Inúmeros pensamentos passaram por sua cabeça. Sua irmã estava desaparecida, mas a moça da loja não sabia disso, só sabia que a Guardiã não aparecia publicamente há algum tempo. Então não era algo de conhecimento geral, ainda não, mas era o desaparecimento da Guardiã, a figura de maior respeito em todo o Ninho… Como teria desaparecido? Ela tinha vários sentinelas altamente treinados ao seu redor, que morreriam antes de deixar isso acontecer. Mas eles tiveram uma baixa nos números depois do desastre da Alvorada… Aquilo não fazia qualquer sentido.

Ela respirou fundo, pausando seus próprios pensamentos.

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— Como assim? O que aconteceu?

— Ah filha, se soubéssemos… — Helena segurou suas próprias emoções. Quando foi que ela ficou sabendo? — A Senhora da Superfície veio nos dar a notícia, nem ela nem o Senhor do Ninho sabem ao certo o que aconteceu. O que sabemos é que nenhum dos sentinelas tem pista nenhuma, e não conseguiram rastreá-la pelo Sonhar.

— Não tem como! — Luci sentiu aquele gosto amargo de indignação na garganta — Eles são treinados para isso! Como que a Guardiã some e ninguém fica sabendo?!

Helena se aproximou e colocou as mãos nos ombros de Luci. Ela tentou se desvencilhar, agitada, mas em poucos segundos deixou o corpo descansar no abraço da mãe. Segurou um soluço que veio repentino. A relação com Sofia tinha muitos baixos, mas pelo Sonhar, aquilo era muito sério. Não sabia os procedimentos que eram efetuados quando aquilo acontecia… Luci não conseguia nem se lembrar de alguma vez ter ouvido sobre uma Guardiã desaparecer na história do Ninho.

Ficou ali por uns minutos, sentindo a mãe passando a mão pelos seus cabelos encaracolados enquanto derramava algumas lágrimas. O que estava sendo feito sobre o assunto? Quem estaria cuidando disso? Sofia era a pessoa que encontrava as coisas, era dever do Guardião observar, encontrar tudo no Sonhar, procurar saber o que acontece com a população ciente e proteger o Ninho. O que deve ser feito quando justo essa pessoa some?

Quando ouviu a porta do escritório abrindo, pulou para trás, saindo do abraço da mãe. Luci passou as costas das mãos pelo rosto, escondendo o choro. Giovani entrou, seguido de uma mulher. Ela tinha uma postura que impunha respeito, tinha altura mediana, olhos marcados por olheiras e que estavam carregados de preocupação. Giovani nem disse nada, apenas foi até Luci e a abraçou, a levantando do chão. Ele geralmente fazia isso e eles riam, era um costume da infância que ele insistia em repetir até hoje, o que não era difícil, considerando o quão pequena Luci era perto dele.

— Não queria interromper… — a mulher falou, olhando para Helena.

— Tudo bem, só queria falar de Sofia a sós, sei que você entende.

A mulher assentiu. Helena prezava pelos momentos familiares, ainda mais com questões como aquelas. Eles provavelmente se davam melhor do que a maioria das famílias, por mais que as irmãs tivessem seus embates eventuais.

Giovani colocou a filha no chão. Agora sim ela podia ver o ar mais abatido em seu rosto. Ele expressava muito mais as emoções do que a esposa. O clima já não estava bom desde que Helena falara sobre o sumiço de Sofia, mas com o pai triste diante de Luci e aquela mulher que não conhecia, era como se a atmosfera do escritório tivesse ficado ainda mais pesada.

— Filha, essa é a Senhora da Superfície — Helena falou, indicando a mulher que tinha entrado junto com Giovani.

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— Ah, por favor — a moça se aproximou, estendendo a mão. — Pode me chamar de Estela.

Luci nunca a tinha visto pessoalmente, mas já tinha ouvido algumas coisas sobre ela. Todo o ciente que morava na superfície sabia quem era aquela mulher. A “Senhora da Superfície” era quase uma líder informal à qual os cientes da superfície recorriam quando precisavam de ajuda. Estela tinha feito seu caminho pela política do Ninho o suficiente para ser conhecida, além de ter juntado uma parcela de inimigos. Assim como Helena, ela tinha nascido leiga e atualmente não tinha nenhum domínio de magia.

O aspecto hereditário da magia não era uma questão exata. Quanto mais dons mágicos existissem na sua linhagem, maior seria a sua facilidade em aprender magia. O que não significava que um leigo, depois de entender a magia e se tornar ciente, não conseguisse dominá-la ele mesmo. A capacidade desses dons existia em todos os seres humanos, mas era muito mais fácil um ciente que viveu a vida inteira no Ninho aprender a usá-los do que um nascido leigo na superfície. Isso porque o ciente que tem contato com a magia a entende, já a viu funcionando e sempre soube de sua existência. Aquele que nasce leigo precisa enfrentar a barreira de compreender que a magia é algo real, entender o que pode fazer com ela e fazer o esforço de usá-la. Isso não significa que eles eram mais fracos ou incapazes, apenas que vinham de pontos de partida diferentes. Carmela, a avó de Luci, última Guardiã antes de Sofia, tinha nascido leiga, teve pouco contato com magia durante a adolescência e se tornou a Guardiã. Isso tudo sem considerar os diferentes tipos de magia existentes.

Luci apertou a mão de Estela de volta, sem dizer nada. Não sabia exatamente por que ela estava ali naquele momento. Ela provavelmente tinha ido até lá dar a notícia do sumiço de Sofia, mas havia algumas coisas esquisitas naquilo. Primeiro, por que o próprio Senhor do Ninho não tinha vindo? Ele era um homem ocupado, Luci sabia disso, mas a família Alba sempre foi amiga dos Vidal, Carmela tinha amado os gêmeos, Nicolas e Tomas, como se fossem da sua própria família. Eles eram mais velhos, mas Luci se lembrava de passar momentos da sua infância com eles. Segundo, mesmo que o Senhor do Ninho tivesse pedido para Estela dar a notícia, por que ela ainda estava ali?

— Vocês podem nos dar um minuto a sós, por favor? — Estela pediu.

Giovani e Helena se entreolharam. Dava para ver que eles preferiam não sair dali, mas não teimaram. Luci se perguntou se eles já sabiam o que ia acontecer. A ideia era desesperadora, porque isso a tornava a única pessoa daquela sala que não tinha noção do que ia acontecer. Odiava essa sensação. Ela quis pedir aos pais que não fossem embora, mas não queria causar uma cena, ainda mais na frente da Senhora da Superfície.

Enquanto seus pais saíam da sala e fechavam a porta, Luci desejou mais uma vez que Nicolas estivesse ali. O Senhor do Ninho fazia muitos se sentirem intimidados, mas Luci se sentia bem com ele. Nicolas era simpático e uma companhia divertida. A família Alba estava desde sempre comandando o Ninho, então todos sabiam que um dos gêmeos deixaria de ter uma vida comum em algum momento e assumiria o cargo da mãe. Todos imaginavam que seria mesmo Nicolas a fazer isso, ele sempre parecia ser a melhor opção. Mas, além disso, Tomás, seu irmão, tinha ido embora do Ninho havia muitos anos, então não era nem como se houvesse outra opção.

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A Senhora da Superfície encarava Luci. Os cientes mais conservadores riam daquele nome, não era algo oficial como o cargo de Nicolas, mas para os cientes da superfície Estela fazia a diferença. Ela tinha sido a pessoa com coragem o suficiente para ir até o Ninho e tentar falar pelos que estavam na superfície, que às vezes eram vistos como menores. O que ninguém esperava era que Nicolas prestasse atenção, mas foi isso que aconteceu.

— Primeiro, eu queria dizer que lamento muito pelo o que está acontecendo com você — Estela falou. — Não posso imaginar como é ter alguém da família desaparecido. Para todos nós, é uma grande preocupação, dado quem é, mas entendo que para você é diferente — ela suspirou. — Não vim aqui só para dar essa notícia.

Luci quase conseguia ouvir as batidas de seu coração de tão nervosa que estava. Mesmo que para alguns cientes o cargo de Estela não significasse nada, para os da superfície era sim importante a visita dela. Como seus pais tinham uma das fronteiras que mais chamavam a atenção, em razão dos espetáculos e do uso constante de magia, eles prezavam por uma boa relação com a Senhora da Superfície.

— Não é de conhecimento de todos que a Guardiã está oficialmente desaparecida — Estela continuou. — Desde o desastre da Alvorada, muitas coisas têm acontecido, tanto no Sonhar como na política do Ninho. O sumiço de sua irmã é preocupante demais, isso nunca foi esperado. Eu sei que você não é tão familiarizada com essas questões, mas imagino que saiba de uma coisa ou outra — Estela falava enquanto gesticulava com a mão. — Nós não sabemos onde está sua irmã, nem sabemos mais onde procurar. Qualquer movimento maior que eu e Nic… o Senhor do Ninho façamos será notado e exigirá explicações. Nós não podemos ficar sem um Guardião, muito menos agora, então precisamos de alguém para o lugar de Sofia, mesmo que temporariamente.

Estela não precisava terminar a frase para que Luci soubesse o que ela queria dizer. Ia pedir para ela assumir o cargo. Luci sentiu o desespero tomando conta de seu corpo, como se fossem várias mordidas ao mesmo tempo. Já não estava confortável ali, mas agora se sentia menos ainda, o escritório estava praticamente sufocante.

A maldita linhagem hereditária dos Guardiões. Ao contrário da família Alba, o cargo de Guardiã não tinha sido uma linha exata ao longo dos anos. No começo sim, mas havia outras questões envolvidas. A falta de pessoas na família aptas, por exemplo, fazia que o cargo passasse para outra linhagem. Ao contrário do que alguns magos acreditavam, não era necessário se formar como sonhador na Escola de Magos para assumir o cargo. Havia seis linhas de magia possíveis de serem estudadas, a de sonhadores era uma delas, também considerada como a mais complicada de dominar. O Guardião era forçado a ter domínio dessa área de uma forma ou de outra; afinal de contas, ele ia tratar de assuntos do Sonhar.

Só pensar no Sonhar fazia Luci se arrepiar toda. A dimensão que ficava além do que as pessoas podiam ver, além do dia a dia, o lugar onde a mente das pessoas ia quando elas dormiam, independente de se lembrarem de sonhos ou não. Era o lugar imaterial onde pensamentos e emoções tinham formas muito maiores do que era esperado, onde as barreiras físicas não faziam qualquer diferença. Onde havia sonhos maravilhosos e pesadelos completamente assustadores. Às vezes, essa divisão entre as duas dimensões ficava fraca e era rachada. Monstros do pesadelo na dimensão física podiam significar grande destruição, como acontecera no desastre da Alvorada. O trabalho do Guardião era observar o Sonhar, perceber quando isso acontecia e fazer algo para impedir. Ele não fazia isso sozinho, existiam sentinelas para ajudar, que agiam como a guarda particular do Guardião, sonhadores habilidosos. Quando uma rachadura se abria na superfície, era comum que um sentinela fosse mandado para resolver a situação antes que leigos fossem afetados, protegendo assim a existência dos cientes e do Ninho.

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Não era tarefa fácil ser um Guardião, todo mundo sabia disso, mas era algo extremamente respeitado e com alta autoridade. Apesar de não ser imprescindível o estudo como sonhador, mas havia um teste que devia ser feito para saber se a mente da pessoa aguentava o Sonhar, para saber se a pessoa tinha as habilidades necessárias. O domínio da magia não dependia apenas do sangue, mas havia sim uma questão hereditária: então, quando um Guardião precisava ser substítuido, os familiares eram a primeira opção.

Luci se lembrava de quando o pai foi chamado para fazer o teste, depois que Carmela morreu. Ela ouvia pessoas no teatro falando sobre como sua família perderia o cargo de Guardião, porque Giovani não tinha estudado a linha de magia de sonhadores, e suas duas filhas eram menores de idade. Como imaginado, Giovani não passou no teste. A mãe de Nicolas, na época nos últimos dias em seu cargo de Senhora do Ninho, ia mandar o aviso para a Escola dos Magos, para que os sonhadores mais habilidosos fossem selecionados, quando Sofia pediu para tentar o teste.

Menores de idade já haviam pedido aquilo em outras épocas, mas todos tinham falhado. Óbvio, realizar o teste no Sonhar não era tarefa fácil. O pedido de Sofia foi aceito e, com 16 anos, ela fez um dos menores tempos em teste. Enquanto Luci ainda se recuperava de uma das piores experiências da sua vida, Sofia já era conhecida por seus poderes, e passar no teste foi apenas uma confirmação. Algumas pessoas podem ter sentido pena da nova Guardiã, tão nova e já usando os braceletes que confirmavam o cargo, mas as regras foram seguidas. Enquanto Luci tinha pânico do que podia acontecer dentro do Sonhar, Sofia já o dominava como se soubesse aquilo desde o dia em que nascera. Honestamente? Não era uma afirmação completamente inacreditável de se fazer, considerando os talentos da irmã mais velha.

Como Giovani já tinha falhado e Luci era a próxima na linhagem, não era surpreendente que Estela estivesse falando com ela. A Senhora da Superfície tinha ficado apenas alguns segundos quieta, mas Luci sentiu como se fossem horas, vendo tantos acontecimentos passarem na sua cabeça. Era temporário, estar em contato com o Sonhar podia inclusive permitir que Luci se envolvesse na busca pela irmã. Sem contar que era uma grande honra para qualquer mago ser convidado para fazer o teste. Essas informações passavam na mente de Luci como se alguém as sussurrasse em seu ouvido, os pensamentos tão frenéticos que ela quase sentia dor de cabeça.

Estela ia abrir a boca para continuar o que tinha que falar, mas antes que pudesse ela ouviu a resposta. A palavra saiu da boca de Luci mais rápido do que ela poderia imaginar.

— Não.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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