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Giovani estalou os dedos, deixando uma chama se formar com sua magia. Quando era mais novo, dizia que aquilo parecia um isqueiro, foi um dos primeiros truques que aprendeu. Direcionou a mão livre para o copo de água, na mesa de cabeceira, perto da cama. Um momento de concentração e o líquido se movimentou, saindo do copo e indo direto para a palma aberta. Sempre achou bonito como a água se movia dessa forma, se tornando um pequeno redemoinho na palma da mão.

Por mais que sua mãe contasse histórias sobre o Sonhar, ele sempre gostou de como a magia elemental era visualmente, dos efeitos imediatos e do que podia fazer com ela. Giovani se sentia muito forte quando era mais novo e conseguia mover rochas. Não podia fazer nada grandioso, para que não fosse visto na superfície, mas ainda assim era o que ele mais gostava de fazer.

Agora, enquanto voltava a água para o copo e apagava a chama na mão, Giovani se perguntava se tinha escolhido o caminho errado.

Helena entrou no quarto. Aquela noite era de folga para o teatro, não haveria peça, e isso até deixava as pessoas mais tranquilas diante dos acontecimentos recentes. Os atores estavam fazendo perguntas, havia fofocas em outras fronteiras e ninguém sabia ao certo o que fazer a partir de agora. Estela tinha passado os últimos dias um pouco ausente e isso também não ajudava muito.

— Recebi notícias de Gabriel — disse Helena. — Ingrid me falou que ele diz que agiu sozinho e não falou mais nada. Parece que a equipe de sonhadores de Maurício vai afastá-lo e designar outra pessoa para ficar aqui.

— O quê?! — Giovani se levantou da cama. — Isso não vai resolver! E se acontecer de novo?

— Pensei em falar com Estela sobre isso, não sei quando é a próxima reunião do Congresso, mas talvez ela pudesse levar nossos receios e conseguir algum acordo…

— Eles vão botar outra pessoa aqui que, até onde sabemos, pode fazer a mesma coisa! — Giovani balançou a cabeça. — Um mental poderia tirar a informação de Gabriel de uma vez!

Helena arregalou os olhos, chocada com a insinuação de Giovani. Ele sabia, tão bem quanto ela, que mentais eram proibidos de usar sua magia para arrancar uma informação de alguém em investigações. Aquele era um assunto muito polêmico, havia muitos debates entre os mentais da Escola dos Magos sobre os limites que eles precisavam colocar nos próprios poderes. Mas Helena e Giovani sempre concordaram que as pessoas tinham direito a sua privacidade, e havia outras formas de provar os ocorridos.

— Como você pode dizer algo assim?

Giovani não tinha percebido o quanto tinha acumulado ressentimentos e frustrações naqueles últimos dias. Não era só desde que Gabriel tinha começado a frequentar o teatro, o estresse que explodia agora vinha de antes.

— Ele usou os poderes dele contra nós! — Giovani se aproximou de Helena. — Eu sei, não concordo com isso geralmente, mas… Na melhor das hipóteses, teríamos que parar de manter a fronteira funcionando, na pior poderíamos ter virado a Alvorada! Isso é muito grave!

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— Sei que é, você tem razão, mas não significa que vale passar por cima dos direitos dele, nem vale que você perca seus valores por causa disso. — Helena mantinha o tom de voz calmo. — Gabriel já foi detido, há investigações acontecendo…

— Não vai adiantar, nós sabemos que precisamos mover mundos para que nos ouçam.

— Já falei que vou avisar Estela sobre nossas preocupações, ela já conseguiu mudar algumas coisas…

— Eles não se importam conosco, meu bem. Nunca se importaram, por isso fazem isso, por isso trataram minha mãe como trataram, por isso Sofia…

Quando percebeu para onde estava indo, Giovani se calou. Por mais que tentasse disfarçar sua dor com sorrisos, o assunto ainda ardia em seu peito. Os dias passavam, as coisas aconteciam e nada de Sofia.

— Continue — pediu Helena. — Você precisa botar isso para fora cedo ou tarde. Quanto mais demorar, mais isso vai acumular aí — ela apontou o dedo para o peito dele.

— Se eles são capazes de fazer isso, colocar uma fronteira e o conhecimento dos leigos sobre cientes em risco… O que podem ter feito contra alguém no poder de quem eles não gostavam? Nós ainda não sabemos nada dela, e quanto mais o tempo passa…

Ele não precisava completar aquele pensamento, os dois sabiam bem da situação e nenhum deles parava de pensar nas possibilidades em nenhum momento. Quanto mais tempo demorava, menores eram as chances de Sofia aparecer.

— Eu sei, mas talvez eles não tenham nada que ver com isso.

— Mas alguém tem, e isso só aconteceu porque eu a deixei entrar naquele ninho de cobras.

Helena encarou o marido sem entender.

— O que você quer dizer com isso? Você não tinha como impedir, nenhum de nós tinha, você mesmo me disse isso na época.

— Você não podia, mas eu… — suspirou Giovani, sentindo aquela dor de anos se mexendo dentro dele, lembrando que estava ali, muito viva — Eu podia… — ele olhou para o lado, ficando com um olhar perdido, sentindo as lágrimas começando a se acumular ali. — Se eu tivesse passado no teste, era eu no lugar de Sofia. Ela podia ter tido uma vida normal.

Antes de Helena poder dizer qualquer coisa, Giovani começou a chorar. Era uma tristeza acumulada, seus ombros estremeciam, o peito arfava, um choro nada silencioso ou contido. Uma frustração antiga, de sentir que não podia proteger ninguém, nem o teatro nem sua família. Todo dia, Giovani acordava com medo de saber que Luci tivera o mesmo fim que Sofia. Se tivesse pensado menos no que ele queria fazer e um pouco mais no futuro, teria estudado magia do Sonhar e livrado sua filha mais velha daquele dever. Mas, na época do teste, só imaginava que todos falhariam e aquele fardo passaria para qualquer pessoa mais interessada.

Helena fez Giovani sentar na cama de novo. As mãos dele escondiam seu próprio rosto. Helena o abraçou, pegando em seus ombros e o deixando chorar. Giovani já tinha tanto problema para lidar com as próprias tristezas… Seu coração estava partido de ver o marido tão mal, tão abalado e falando aquelas coisas, mas pelo menos ele estava deixando aquilo transbordar. Ela sabia que uma hora ou outra isso ia acontecer.

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Quando ele deitou em seu colo, Helena passou as mãos carinhosamente em suas costas. Os soluços foram diminuindo até que os dois ficassem em silêncio. Só aí ela falou:

— Lembra quando eu comecei a conhecer o mundo dos cientes e não entendia o que faziam com sua mãe?

Giovani assentiu com a cabeça sem dizer nada.

— Às vezes eu chorava, lembra? Sua mãe era uma mulher incrível, eu a admirava muito, me identificava com ela em vários pontos. Sempre me deixaram triste as histórias que ela contava, como os magos a desmereciam, até mesmo no Congresso. Mesmo passando a vida como leiga, eu sei o que é precisar provar que você merece estar em algum lugar, sendo encarada como diferente. Mas eu me sentia mal por não poder fazer nada por ela. Você lembra o que você me disse? — Ele não respondeu e ela continuou: — Você disse que eu não precisava me sentir culpada, a culpa era do preconceito deles. Nós estávamos em nosso direito de ficar chateados e com raiva, mas não devíamos nos sentir culpados.

Mesmo que Giovani não respondesse, pelo suspiro pesado que ele tinha dado Helena sabia que a frase tinha sido ouvida. Por enquanto, era o suficiente. Ela podia ajudá-lo da melhor forma, mas ele também tinha que buscar entender, ou não conseguiria lidar com aqueles problemas todos.

*

— Eu não me surpreendo mais que Maurício apareça aqui como bem entende — falou Ingrid. — O que eu não gosto é como parte dos sentinelas age como se ele fosse alguma salvação divina, como se quisessem que ele fosse o próprio guardião!

Ingrid suspirou, deixando os ombros relaxarem um pouco. Suas costas se ajeitaram na cadeira do escritório da guardiã. Tinha ficado muito satisfeita em como o plano dera certo, e admirado muito a rapidez com a qual Luci fizera sua parte. Mas, quando viu Maurício na torre, a sensação de que aquilo só tinha começado tomara conta de sua mente.

— Ele não pareceu ficar feliz quando insinuei que alguém além dele devia investigar os sonhadores — contou Luci.— Não duvido que, se for uma conspiração, as coisas vão sumir bem rápido. Você acha que ele está por trás disso?

— É possível, não me surpreenderia, mas também pode ser que Gabriel quisesse impressioná-lo. Você ficaria enjoada de ver como a maioria dos sonhadores da Escola idolatra aquele homem.

— Por que você não o admirava também? Quero dizer, todo mundo que estuda magia do Sonhar parece cair na conversa dele.

— Porque ele é um homem que sempre teve tudo e se sente no direito de ter tudo, eu sei que isso é errado. Infelizmente, os sonhadores são um dos tipos de magos mais elitistas.

Ingrid se sentia muito mais confortável com Luci agora, não só porque tinham feito um bom trabalho no teatro mas porque, ao contrário do que tinha pensado no começo, sentia que podia contar com ela. Luci ficou assustada por muito tempo, possivelmente ainda estava, mas tinha as ideias no lugar certo. Ingrid a tinha julgado mal.

— Estou tentando me permitir ficar feliz que deu tudo certo no teatro e pensar menos em Maurício.

— Guardiã… Luci. Eu te devo desculpas.

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Luci a encarou, erguendo uma sobrancelha, demonstrando sua confusão.

— Eu tinha… uma impressão errada sua — continuou Ingrid. — O cargo de guardiã exige muito, e depois da questão das vistorias eu fiquei…

— Decepcionada? — falou Luci, sorrindo um pouco. — Não te culpo, eu ficaria também. Na verdade, fiquei decepcionada comigo mesma.

— Mas você lidou muito bem com a questão do teatro, encontrando o sinal de sua irmã no Sonhar, sua magia está mais forte… — Ingrid começou a falar rápido, como quem ficava sem graça. — Não era meu papel julgar.

— A gente julga pelo menos um pouco antes de conhecer. Eu me importo mais com a opinião depois de conhecer.

— A opinião é… boa. Muito boa.

As duas se encararam por um momento e Luci foi a primeira a desviar o olhar, um pouco sem jeito. Não devia ter dito aquilo.

— Bem… — Luci limpou a garganta — Eu preciso pensar em voltar a seguir o rastro de Sofia. De alguma forma —suspirou ela. — Como ela era aqui?

Ingrid parou por um momento, puxando as memórias em sua mente.

— Ela era tudo que esperamos de uma guardiã.

— Acho que alguns magos discordam de você — brincou Luci.

— Eles se deixam enganar por títulos e pelo que não devia importar. Sofia era forte, inteligente, uma das sonhadoras mais poderosas que eu conheci, correta, eficiente… Sempre tratou todos bem, sem se colocar acima de nada.

Apesar de Luci saber que Ingrid estava correta, nunca em sua vida tinha falado sobre sua irmã para alguém com aquela admiração. Geralmente falava com pouca paciência, sem querer se demorar no assunto.

— Quanto mais tempo eu fico aqui, menos eu sinto que a conhecia de verdade… — Luci balançou a cabeça. — Você não precisa ouvir meus lamentos.

— Não se preocupe, pode falar, Luci. Eu quero saber o que você está pensando.

Luci mordeu a parte interna do lábio e olhou para baixo, lembrando-se da última vez que tinha visto Sofia, da briga que tiveram.

— Talvez você não entenda muito bem, mas para mim Sofia era a irmã mais velha chata — brincou Luci. —Sempre achei que era tudo fácil para ela, porque ela era muito boa em tudo, e eu presumi tantas coisas sobre ela que… Só não são verdade, ou não do jeito que eu penso. Sempre achei que ela forçava uma imagem de muito correta e não percebi que ela na verdade precisou se modificar para conseguir funcionar aqui. Eu não tinha ideia de como era… difícil.

— Você é uma ciente que viveu na superfície a vida inteira, faz sentido que você não soubesse como as coisas são aqui. Ainda mais dentro da torre.

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— Mas minha avó foi guardiã também. Eu só me fechei para esse lado de minha vida… — “Depois do acidente”, mas aquilo ela não disse. — Mas agora vejo como isso foi ruim. Enquanto eu estava com medo de apresentar meu namorado ou minha namorada para meus pais porque eles podiam descobrir sobre magia, Sofia estava preocupada em proteger o Ninho todo de qualquer coisa que acontecesse no Sonhar. Ela estava preocupada se o Congresso e uma cidade inteira a aceitariam por ser uma guardiã não formada na Escola. Isso faz tudo parecer meio idiota.

— Não é justo com você mesma medir essas coisas assim, Luci. Você não pode se medir com a régua dos outros. — Ingrid parou um momento antes de dizer: — Talvez você se sinta dessa forma porque brigaram na última vez em que se viram.

Luci demorou um tempo para lembrar que tinha contado isso para Ingrid, no Sonhar, quando estava triste por causa de toda a questão das vistorias.

— Ela foi na minha casa e descobriu algo que eu não queria que ela soubesse — suspirou Luci. — Sei que há coisas em minha vida, escolhas minhas, que ela não entende. Não sei se ela vai entender algum dia, ainda mais depois daquela briga idiota.

— Talvez você possa tentar de novo, quando ela voltar — disse Ingrid. — Não é a mesma coisa, porque no meu caso não é uma escolha, mas eu passei por um momento em que minha mãe não me entendeu. — Ingrid olhou para cima, voltando para o momento. —Fiquei anos de minha adolescência tentando achar um jeito de contar para minha mãe que eu era trans. Ela sempre dizia que eu era o orgulho dela e achei que, quando falasse, isso ia mudar. Com o tempo, ela foi percebendo que tinha algo diferente, começou a se meter em minhas coisas e descobriu.

— Você não precisa me contar se não quiser, Ingrid.

— Tudo bem, comecei o assunto porque quis, eu e minha mãe estamos bem. Mas em um primeiro momento a gente se desentendeu, talvez se a gente tivesse conversado direito, mas eu não entendi a preocupação dela e ela não entendeu porque eu tinha escondido. Eu estava para entrar na Escola de Magos, fiquei mal, passei uns anos dormindo nos dormitórios da Escola, mas algum tempo depois ela me procurou, pediu desculpas e nós conseguimos conversar de novo e nos entender.

No meio da história, Luci acabou se levantando e indo sentar ao lado de Ingrid. Elas ficaram em silêncio quando a sentinela terminou, dividindo um momento íntimo e de cumplicidade. Era um dos momentos mais abertos que Luci tinha em algum tempo.

— É bom poder conversar assim… Que bom que deu tudo certo entre vocês! — Luci sorriu e ficou mais um momento em silêncio, antes de ficar envergonhada com a proximidade física entre as duas e voltar a se mover para o lugar de antes. — Vou passar o dia amanhã revendo as anotações de minha irmã, vendo se acho algo específico dentro do Sonhar.

— Se precisar da minha ajuda, pode chamar — disse Ingrid. — E obrigada pela conversa também. — Ingrid quase completou dizendo que estava feliz que elas podiam conversar assim, mas achou que poderia deixar Luci sem graça de novo, como percebeu que ela ficara antes.

Decidiu apenas dar boa-noite e sair do cômodo.

*

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Enquanto Ingrid fazia visitas na Escola dos Magos, tentando descobrir em alguma conversa o que acontecera com Gabriel, Luci fazia o que tinha dito que faria: buscava mais pistas sobre Sofia. Já haviam se passado alguns dias desde que tinha falado com Maurício. Estela tinha pedido uma assembleia na superfície para ouvir o que os cientes de lá tinham a dizer. Uma reunião do Congresso seria marcada em breve, assim que Nicolas estivesse apto.

Luci agora conseguia equilibrar melhor as atividades, mas dormia cada vez menos. Suas olheiras ficavam cada vez mais visíveis e sua expressão era de cansaço. Entrava no Sonhar por algum tempo, mas sem ir muito longe e também sem ficar por muito tempo. Como não estava obtendo resultados, pensou em organizar com Ingrid um plano para poder ir mais longe. Ainda tinha medo de fazer aquilo sozinha, mesmo com seus poderes mais fortes e o anel de foco.

Mas não foi entrando fisicamente no Sonhar que encontrou a novidade de que precisava.

Como qualquer sonho, Luci não soube dizer como tinha chegado lá, mas identificou o teatro de seus pais. Também entendeu que não era um sonho comum, era um cenário feito com magia do Sonhar.

— Camaleão — chamou ela, pois já sabia a forma que ele usava para aparecer no subconsciente dela. — O que está fazendo aqui?

Ele apareceu, por trás dos tons do Sonhar que pintavam o ambiente e formavam as estruturas do teatro. Camaleão a cumprimentou tirando o chapéu.

— Sinto sua mente diferente. Seus poderes estão bem melhores.

— Você não veio me dizer isso.

— Ah não, mas eu não queria ser tão direto. Já que você prefere assim… Eu acredito que tenho algo de que você precisa.

— A menos que seja informação sobre o paradeiro de Sofia, acho que você está errado. — Ela conseguia controlar melhor suas expressões agora, mas ainda se sentia acuada pela presença de Camaleão.

— É informação, mas não sobre Sofia. — Ele levantou um pouco o chapéu, para poder olhar mais diretamente para a guardiã. —Sei que Maurício está por trás dos acontecimentos no teatro.

Luci não esperava por isso e não conseguiu controlar sua surpresa, mesmo achando aquilo suspeito. Ela examinou a figura de Camaleão, tentando ler alguma coisa, mas ele era muito melhor que ela naquilo.

— Como sabe?

— Tenho olhos e ouvidos por aí, eu sei das coisas. E Maurício… — Ele riu baixinho. — Ele é um tipo muito específico de idiota. O que me surpreende é que ninguém o tenha feito desaparecer ainda.

— Independente do que alguém pode achar de Maurício, não dá para simplesmente sumir com alguém.

— Ah é, claro, vocês precisam ser corretos… — Ele fez um gesto com a mão indicando pouco-caso. — E ele se aproveita disso. Com alguma sorte, o que o sonhador fez no teatro vai trazer alguma consequência.

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— Ainda não, eu preciso de provas para apresentar no Congresso.

Camaleão apenas a encarou, toda a sua expressão dizia que ele sabia muito bem disso. E Luci percebeu que era exatamente por isso que ele estava ali.

— Você quer fazer um acordo.

— Eu te dou algo que você quer, você me dá algo que eu quero. É justo.

Como qualquer pessoa da superfície, Luci tinha ouvido as histórias do Camaleão. Ele enganava com as palavras e nesses acordos podia pegar mais do que a pessoa estava disposta a dar. Luci tinha medo do que ele podia pedir, de como ele brincaria com as palavras. Se fosse outra pessoa, talvez tentasse usar o cargo de guardiã para intimidá-lo, mas sabia que Camaleão não cairia naquilo.

Ele percebeu a hesitação na guardiã e balançou a cabeça.

— Entendo que pareça suspeito, mas nunca quebrei um acordo. Não ofereceria ajuda se não tivesse como fazer o que proponho.

— Oferecer ajuda não inclui pedir algo em troca.

— Minha ajuda sim. — Ele sorriu por um momento, mas depois ficou sério. — Não acredito em coincidências, muita coisa tem acontecido envolvendo o Sonhar. Sua irmã, os acontecimentos no teatro, até mesmo a Alvorada…

— Você acha que tudo isso está conectado?

— Acredito que Maurício tem poder e ganância suficiente para ter algo que ver com problemas na superfície e aqueles que vieram dela.

Luci não podia negar que o pensamento tinha lhe ocorrido, mas ouvir isso de outra pessoa parecia fazer a suspeita ficar mais concreta e provável. Era uma acusação muito séria, mas Luci não pretendia dar mais passos naquela direção sem provas.

Ela fechou os punhos, parecia que estava diante de uma linha que temia cruzar, Camaleão estava do outro lado, lhe dando a possibilidade de um caminho mais fácil. Uma coisa Luci não podia negar, Camaleão não tinha feito nada para prejudicá-la, muito pelo contrário. Se não fosse por ele, não seria guardiã, não teria conseguido o anel que a ajudava tanto.

— O que você quer? — perguntou ela, torcendo para que não se arrependesse depois.

— Quero ver sua resistência a pesadelos colocada à prova, guardiã.

Teria sido mais fácil levar um soco de surpresa, até porque aquilo se assemelhava muito a um. Parecia que o tempo tinha desacelerado, aquela frase pegou em algo fundo nela. Por mais que ela estivesse usando sua magia, e tivesse acabado em situações que envolvesse pesadelo, aquilo era praticamente pedir para repetir o trauma que teve no passado. Que causou tanta coisa…

Luci deu um passo para trás, como se estivesse tentando se proteger.

— Por que você quer isso? — Ela ouviu o medo na própria voz.

— O acordo não envolve que eu explique minhas razões. — Camaleão levantou as mãos, fazendo um sinal para ela se acalmar. — Eu não faria nada para machucá-la, não vou permitir que o pesadelo afete sua mente permanentemente. Da mesma forma que ajudei você com aquele pesadelo em seu teste, farei o mesmo desta vez. Só preciso ver como sua resistência funciona na prática.

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Luci sentiu os membros ficando tensos. Queria dizer não e desistir daquilo, acordar naquele momento, mas não podia. Camaleão não a deixaria acordar antes de saber a resposta. Poderia não estar sozinha, mas não sabia quanto tempo precisaria se conectar ao pesadelo para que ele ficasse satisfeito com sua resistência. Não gostava de falar do assunto porque não lhe agradava responder perguntas sobre isso, imagine “demonstrar” para alguém.

Mas ela queria ser mais corajosa, melhor com seu dever, melhor com Sofia e como guardiã. Aquilo daria a ela algo que podia resolver muita coisa, ou ao menos tirar Maurício de sua frente, o que era bom o suficiente. Uma prova contra Maurício o afastaria de todos seus cargos até um julgamento acontecer. E se ele estava envolvido com o sumiço de Sofia… Isso poderia dar uma nova pista real.

A guardiã levantou a cabeça, olhando diretamente para Camaleão. Talvez estivesse fazendo uma bobagem, mas tinha se decidido.

— Feito. Consiga a prova de que Maurício está por trás do que aconteceu no teatro.

*

Existiam dois tipos de informações que as pessoas pediam para Camaleão. Aquelas que ele já tinha investigado, percebendo o potencial e guardando em sua manga, e aquelas que ele precisava buscar, o que não costumava demorar muito, já que ele não tinha problema em ir direto ao que ele queria, especialmente quando tinha prazos.

No caso, o favor que Luci tinha pedido era uma das primeiras opções.

Ele tinha contato com várias pessoas da superfície, sem que elas soubessem que ele era aquela persona que os cientes conheciam. E as pessoas gostavam de contar coisas, tudo que algumas pessoas querem às vezes é um ouvido. Camaleão não tinha problema nenhum em oferecer o seu. Antes de qualquer lei ser aprovada por Maurício, ele já sabia que havia algo esquisito acontecendo na região do teatro e nas fronteiras em geral.

Por mais que pudesse haver uma ou outra anomalia no Sonhar, que os sentinelas veriam necessidade de investigar, não era nada terrível. Porque as pessoas pegas em pesadelos na região do teatro não tinham sido alvo de pesadelos de verdade, e sim de um sonhador pregando peças antes de Gabriel aparecer. Camaleão já tinha percebido que o plano de incriminar as fronteiras tinha começado antes, mas não daria esse tipo de informação de presente.

De vez em quando Maurício mandava alguns de seus sonhadores mais fiéis para a fronteira, ou algum calouro que queria muito ser aprovado por ele. Se aquilo não era abuso de poder, Camaleão não sabia o que era. E havia uma jovem que ele já tinha visto antes, em uma das fronteiras, a mesma que encontrara as pessoas “pegas pelos pesadelos” no teatro.

Quando percebeu que já tinha visto aquela pupila de Maurício na Alvorada, Camaleão achou a conexão que queria.

Entrar nos sonhos dela foi fácil, ainda mais transformá-los em pesadelos, mas de forma controlada o suficiente para que ela não ficasse presa, nem que a danificasse de alguma forma, ou seria inútil para todos. Ele era bom o suficiente para usar magia de forma que apenas um sonhador experiente pudesse detectar com precisão. Conseguiu fazer o que precisava para apavorá-la, colocar em seu subconsciente a necessidade, e a culpa esmagadora, de confessar o que sabia do plano de Maurício, o que era o suficiente para colocar o sonhador em problemas.

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A garota, que era apenas um peão naquele jogo, podia não ter informação o suficiente para expor todo o esquema de Maurício, mas seu depoimento seria capaz de colocá-lo como culpado do problema das fronteiras e também na mira dos acontecimentos da Alvorada, o que pesaria ainda mais em seu julgamento. Outra pessoa poderia ter algum remorso em fazer aquilo, mas, para Camaleão, Maurício estava apenas recebendo o que merecia.

Podia até ser que a moça hesitasse por alguns dias, mas Camaleão já tinha testado aquela técnica, e sabia que, com imagens fortes no subconsciente e as magias certas, ele poderia fazer que a confissão fosse apenas uma questão de tempo. No caso, esperava que fosse um período curto.

*

Luci nunca achou que Camaleão seria tão rápido em seu lado do contrato, até achou que ele podia não dar exatamente o que ela queria. Mas, no momento em que Estela comunicou que uma moça estava ali para se confessar para ela, dizendo que estava envolvida nos acontecimentos do teatro, Luci não teve dúvidas de onde aquilo tinha vindo.

Como Camaleão tinha prometido, o que eles conseguiram foi muito útil. A moça tinha informações das fronteiras consideradas mais “perigosas” pelos magos envolvidos, que poderiam ser usadas para começar a “faísca”, o plano de incriminação, como era chamado nos arquivos, que inclusive envolvia o nome da Alvorada. A moça também confessou que, usando um pouco de magia do Sonhar, ela tinha armado para que as duas pessoas do teatro, identificadas como sofrendo de pesadelo por atividades do Sonhar, ficassem exatamente do jeito que eles queriam. Além disso, havia conversas privadas dizendo que aquele era o momento de agir, já que a inexperiência da guardiã atual seria útil.

Havia muito conteúdo que podia ser conectado a Maurício. Ele não tinha sido bobo de usar suas contas pessoais para isso, mas nada que uma investigação séria e a fundo não conseguisse fazer a conexão. Sem contar que uma acusação como aquela, com provas de que a moça não estava inventando, era o suficiente para que a Corte permitisse uma busca nos pertences de Maurício.

Estela veio trazer as informações do que tinham conseguido em primeira mão. Luci não disse uma palavra sobre Camaleão, ninguém poderia saber, até porque sua credibilidade seria colocada à prova se soubessem os métodos que ela tinha usado. E isso a fazia se sentir culpada. Sabia que era o certo impedir esse tipo de ataque aos cientes das fronteiras, que eram baseados em muitos anos de preconceitos e luta por manter um status quo, mas até que ponto ela queria chegar para conseguir seus objetivos? Luci se consolou pensando que estava colocando só a si mesma em risco. Era sua mente e sua magia que seriam testadas em um pesadelo. Parecia valer a pena, considerando o que podia ter acontecido com o teatro e que, talvez, com alguma sorte, aquilo pudesse dar alguma nova luz sobre o paradeiro de Sofia — o que ajudava Luci a se acalmar, já que não conseguia mais entrar em contato com Sofia, ou o que quer que tenha se comunicado com ela antes.

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— Não vou dizer que não foi esquisito — disse Estela, depois de terminar de passar as informações. — Mas agradeço muito que essa jovem tenha aparecido. Ela é uma caloura entre os sonhadores da Escola, talvez por isso tenha se sentido culpada.

— Acho que ver Gabriel ser detido também ajudou. — Luci tentava manter a calma para não dar a impressão de que sabia demais. — Só quero resolver isso de uma vez.

— Você está bem? — perguntou Estela, mudando um pouco o rumo da conversa.

Luci ficou tensa. Talvez sua linguagem corporal tivesse dado a entender que ela sabia de alguma coisa. Começou a pensar em inúmeras maneiras para despistar a atenção de Estela, caso ela fizesse alguma pergunta difícil.

— O melhor que dá para ficar.

— Claro, é que imaginei que deve ser difícil ouvir a parte que eles se aproveitaram de você para começar a agir.

A guardiã concordou, agradecendo que foi isso que Estela tinha pensado, e não que tivesse percebido qualquer comportamento estranho de Luci que desse a entender que ela sabia mais do que deixava transparecer.

— Honestamente? Não me surpreende. Acho que parte de mim já sabia que eles me subestimavam.

— Como Nicolas resolveu que vai continuar trabalhando mesmo enquanto se recupera, é possível que assim que essas provas sejam confirmadas consigamos marcar uma reunião do Congresso.

— Ele não para, né… — suspirou Luci. — Conversei com ele, entendi algumas coisas, mas…

— Mas ele não pode fingir que o problema não existe. Sim, já pensei muito nisso. Não quero que ele desista, com tratamento ele pode seguir ainda por muito tempo, mas parece que existe algo maior além da doença em si, talvez o ponto em que o pesadelo mexe nele… Tenho receio do que ele vai fazer daqui para frente.

Estela percebeu que tinha falado muito, desabafado mais do que gostaria e ficou envergonhada. Não era da conta de ninguém suas inseguranças. Ela olhou para Luci, que a encarava, e olhou para baixo.

— Sinto muito, você não precisa ouvir isso.

— Não é sobre precisar, né? Te considero uma amiga, Estela, e me importo muito com Nicolas.

— Obrigada, Luci. — Ela estendeu a mão para apertar a de Luci e as duas sorriram uma para a outra.

*

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As investigações conseguiram ligar documentos de Maurício com o acontecido nas fronteiras, o que fez que todos os sonhadores fossem retirados das fronteiras que inspecionavam e Maurício foi levado para interrogatório. Na Escola dos Magos, a fofoca era constante. A acusação de conspiração contra Maurício era muito séria. Um mestre mago armando contra cientes nas fronteiras não era algo pequeno. Vários magos diziam que aquilo era um absurdo, ao passo que outros afirmavam que a lei valia para todos: se Maurício errara, devia responder como qualquer um.

Assim que a informação chegou para Nicolas, ele convocou uma reunião de emergência do Congresso. Maurício não podia comparecer, em razão das acusações contra ele, mas todos os outros foram assim que chamados. Nicolas parecia mais cansado ainda que o normal, com as olheiras evidentes, mas não do jeito que apontava para a doença do pesadelo. Mesmo assim, ele continuava tentando impor sua presença como Senhor do Ninho, sem permitir que o cansaço o deixasse frágil.

— Diante das conclusões da investigação sobre mestre Maurício, acredito que todos concordam que manter os sonhadores nas fronteiras é muito perigoso. — Os outros quatro membros do Congresso assentiram. — A corte ficará responsável pelo julgamento de mestre Maurício. Enquanto ele não está disponível, outro representante da Escola dos Magos será apontado para participar das próximas reuniões do Congresso.

A voz de Nicolas estava um pouco diferente, mas Fernando e Isabel não fizeram nada que indicasse que eles perceberam, por mais que era provável que isso tivesse acontecido. Fernando concordou quando Nicolas mencionou a Corte, garantindo que Maurício teria um julgamento justo e não privilegiado. Estela não acreditava nisso, mas o escândalo crescia tanto que, mesmo que ele não fosse julgado como um ciente qualquer, ainda poderia ser o suficiente para pará-lo, ao menos por enquanto.

Quando a reunião acabou, Nicolas fez um sinal para que Estela esperasse. Assim que todos saíram da sala, ela se aproximou dele.

— Algum problema? —perguntou ela.

— Não, não… Na verdade, eu queria saber se você tem um momento livre. Não é urgente, e nem trabalho, só se você puder.

— Tenho sim, estou livre agora. Por quê?

— Eu queria conversar com você… Mas não aqui. De preferência na superfície. Tem algum lugar bom que podemos ir?

Por mais que ainda estivesse achando esquisito, Estela levou Nicolas até a estação de metrô mais próxima da mansão Alba. Enquanto o trem ia passando pelas estações, Estela percebeu Nicolas fazendo uma magia de transformação para que seus braceletes se camuflassem em suas roupas.

Quando saíram no metrô, na superfície, Estela levou Nicolas até um café no centro da cidade. Era um lugar agradável, com muitas pessoas, mas não tão perto de fronteiras a ponto de alguém chegar a incomodá-los. Estela estava muito acostumada àquele ritmo, sempre frequentara lugares naquela região da cidade, com muitas pessoas, quando não ajudava a mãe com o comércio de final de semana. Mas isso já fazia muito tempo.

Estela andava de forma natural na superfície. Já Nicolas andava como se fosse um turista, olhando para todos os lados, absorvendo cada detalhe e interessado com o que via. O comércio dos encantadores era bem diferente na superfície, e não é como se Nicolas também fosse muito no comércio do subterrâneo. Ele já tinha visitado a superfície vez ou outra, com sua mãe no passado, quando seu pai ainda estava vivo e antes de Tomas ir embora, mas era incomum e mal se lembrava de como era. A sensação do sol de verdade batendo em seu rosto era esquisita, tudo parecia mais claro. Ele estava acostumado a como a luz e a magia no Ninho funcionavam, mas conseguia entender por que os cientes da superfície diziam que nada se comparava à luz do sol.

3. Página 13

O senhor do Ninho ainda ficou olhando um pouco os arredores quando eles se sentaram no café. A falta de magia ao redor causava uma sensação esquisita, como se tudo estivesse muito vazio, era incômodo. Ficou imaginando como Tomas devia ter lidado quando fora forçado a ir embora do Ninho. Seu irmão se incomodava mais com a falta de magia ao redor, era mais sensível a isso. Com certeza não tinha sido fácil para ele.

Não é como se o caminho de Nicolas depois daquilo tivesse sido fácil também.

— Estranhando muito? — perguntou Estela. — Eu nunca vi você aqui na superfície.

— Está tão na cara assim? — sorriu ele. — Tudo parece muito diferente, é esquisito pensar que leigos vivem sem saber nada além disso.

— Se a gente não sabe que algo existe, não sentimos falta. Mas acho que esse não é o assunto, o que você queria conversar?

Nicolas sentiu a garganta apertar ao ouvir a pergunta.

— Eu queria me desculpar.

Por alguns segundos, Estela ficou em silêncio.

— Pelo quê? —perguntou ela. — E por que você pediu para vir até aqui para dizer isso?

— Não queria que essa fosse uma conversa que parecesse oficial, uma discussão de política, algo do Ninho… — Ele gesticulava enquanto ia falando, mostrando seu desconforto. — Não queria que fosse uma conversa entre o senhor do Ninho e a senhora da Superfície. Queria que fosse uma conversa entre Nicolas e Estela. — Ele respirou fundo. — Quanto às desculpas… Eu pedi para você esconder um segredo meu, não expliquei muita coisa e não agi de forma responsável. Não foi justo com alguém que estava me ajudando.

Estela abriu a boca para responder, mas não tinha palavras. A ideia de que Nicolas pensasse mais na própria situação parecia tão distante que ela quase não conseguia absorver o que tinha ouvido.

— Entendo porque você agiu assim, mas você tem razão e eu aceito as desculpas.

— Não era só isso que eu queria dizer. — Ele se inclinou para ela, sabia que não havia ninguém ali que pudesse ouví-los, mas estava acostumado a ter cuidado ao falar sobre o assunto. — Não quero mais fingir que esse problema não existe. Não vou sair gritando para os quatro ventos, mas… Não quero me deixar…

Nicolas parou, sentindo o queixo travar. Achava que podia dar conta de falar daquele assunto em voz alta sem ficar emocionado, mas ainda era muito difícil e delicado. Estela segurou a mão dele e o contato entre os dois pareceu deixar o peso que sentia mais leve.

— Vai com calma, não precisa falar tudo agora — sorriu ela. — Entendi, você não quer deixar de lutar, é isso não é?

Ele apenas assentiu, sem conseguir levantar o olhar. Mal se reconhecia na forma que agia, mas Estela achava bom ele estar se permitindo aquela abertura.

2. Página 14

— Fico feliz de ouvir isso — comentou ela, sorrindo ainda mais. — Sempre fiquei muito preocupada, nunca vou entender sua situação, mas quero ajudar você nela.

— Obrigado por tudo, Estela. — Ele finalmente a encarou. — Se você quiser… Eu queria contar como tudo aconteceu.

Nos próximos minutos, Estela prestou atenção na história que Nicolas foi contando. A relação com Tomas, como ele usava seus poderes, o acidente, o fato de o irmão ir embora, descobrir que tinha os pesadelos… Ele não falava só porque achava que era certo, mas porque queria botar para fora, dizer para alguém que se importava e ele sabia que se importava com ele. Não buscava uma solução, muito menos que Estela pudesse resolver qualquer coisa, porque não era possível ou certo que ela resolvesse seus problemas, mas não queria carregar mais o peso sozinho.

Já estava anoitecendo quando eles saíram do café. Estela acompanhou Nicolas até a estação de metrô mais próxima, se certificando de que ele conseguiria voltar pelo caminho certo para o Ninho.

— Gostei de a gente ter falado sobre isso aqui — disse ela, quando pararam na frente das escadas da estação. — Quero dizer, não aqui necessariamente, mas fora do ambiente formal de sempre. Não é fácil me adaptar às regras de lá — riu ela. — Estou sempre lutando para não falar o que realmente penso.

— Você se expressa bem.

— Não do jeito que o pensamento vem na cabeça, pode ter certeza.

Os dois riram e, por um momento, era bom poder apenas ter uma tarde que não envolvesse resolver algum problema.

Eles se abraçaram para se despedir, a sensação era boa, confortável e segura. Nicolas ainda estava assustado, desde que acordara, e a tensão de Estela era perceptível em seus ombros. Realizar as funções que eles faziam, o tempo todo, às vezes pesava demais, era bom só ser mais uma pessoa pegando o metrô e tomando o café com alguém que eles apreciavam a companhia.

Quando Estela começou a se afastar, para ir embora de vez, seu corpo não terminou de dar o passo para trás. Seu peito apertou, pensando se devia ou não fazer o que queria. Por mais que gostasse de estar com Nicolas, sempre se perguntava até que ponto podia ser completamente ela mesma. Todos agiam como se ele fosse mais que um ser humano. Mas aquilo era muito cansativo e irreal.

Ele tinha dito que queria que, naquele momento, fossem só Nicolas e Estela, nada mais. As complicações sempre estavam por lá, e possivelmente continuariam acontecendo, mas daquela vez ela queria se expressar exatamente da forma que sua mente imaginava.

Estela se aproximou e beijou os lábios de Nicolas, parte de sua mente pensando que era uma má ideia, mas outro lado mais determinado em dar uma chance para aquilo que sentia, que queria fazer. Eles eram amigos e adultos o suficiente para poder lidar com a situação, caso alguma coisa ficasse estranha. Ou ao menos era o que ela esperava, enquanto percebia que Nicolas não ficava imobilizado ou tentava se afastar, mas que ele próprio continuava o beijo que ela tinha começado.

Tão rapidamente quanto tinham se aproximado, os dois se afastaram. Estela se sentia uma adolescente com o estômago apertado de nervoso. Dando um sorriso, ela acenou se despedindo, virando para ir para casa, seu sorriso ficando cada vez maior e se controlando para não olhar para trás. Se tivesse virado, teria visto o olhar perdido de Nicolas acompanhando seus passos.

*

1. Página 15

Depois da reunião do Congresso, Luci tinha voltado para a torre do Sonhar. Agora que a questão das fronteiras estava resolvida, ou pelo menos sob controle, ela tinha que focar no outro problema, no maior problema que a trouxera até ali: encontrar Sofia.

Já havia procurado em todos os arquivos dela. Tinha chegado até Juliano, revirado as pastas no escritório e no quarto de Sofia. Luci sentia que não tinha mais para onde ir. Ela evitava entrar no quarto da guardiã, mesmo que fosse seu quarto por direito. Depois daquelas semanas ali ela ainda não sentia que podia dormir naquele cômodo e usar o espaço. Aceitar aquele quarto para si era como se aceitasse que Sofia não ia voltar.

Ela entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Não foi conversar com Ingrid, não foi descansar depois da reunião. Precisava de outra pista. Sentia que tinha chegado perto de Sofia quando encontrara aquela conexão no Sonhar, mas depois daquilo não sabia mais o que fazer. Não sabia o porquê, mas havia aquela energia de pesadelo ao redor do que ela achava que era a presença de Sofia no Sonhar. Por mais que Luci estivesse muito melhor com seus poderes, não queria dar um passo adiante naquela rota sem saber o que fazer.

A sensação era como se parte de Sofia estivesse ali, como se a irmã soubesse que Luci estava por lá, mas esse era o máximo que a guardiã podia sentir. Por mais que Luci tivesse conseguido dar passos importantes nos últimos tempos, ainda sentia que não era o suficiente, porque ainda não sabia o que havia acontecido com a irmã.

Era assim que Sofia se sentia? Que nunca fazia o suficiente? Por isso nunca parava?

Luci se sentou na cama e depois se deitou, sentindo o cansaço afetar seus olhos e seu corpo. Nunca fazia muito esforço físico ali no Ninho, mas atualmente pensar já parecia consumir muito de sua energia. Respirou fundo algumas vezes, fechando os olhos e os abrindo em seguida.

Percebeu que tinha adormecido quando abriu os olhos e viu o ambiente mais roxo do que o normal, porque não estava mais exatamente no quarto físico da torre do Sonhar. Tinha dormido, e não estava apenas sonhando, os arredores eram uma área controlada do Sonhar.

E não estava sozinha.

Quando Luci se sentou na cama, viu Camaleão diante dela, apoiado na mesa a sua frente. Ele sorria e Luci sentiu um aperto no estômago, imaginando o que ele ia dizer.

— Olá, guardiã — disse ele. — Vim cobrar minha parte do acordo.