14. Página 1

13. Página 2

Luci queria ter força o suficiente para tentar acordar e sair do Sonhar, mas sabia que Camaleão não a deixaria ir embora tão facilmente. Por mais que ela estivesse assustada, não é como se aquilo fosse uma injustiça da parte dele. Luci tinha trocado um favor dele por um dela, então nada mais justo que ele cobrar sua parte, por mais que ela quisesse sair correndo.

— Como você conseguiu? — perguntou Luci, tentando adiar o que tinha que fazer o máximo que podia.

Camaleão deixou de se apoiar na mesa, ficando com a postura reta na frente dela.

— Não é a primeira vez que notei os pupilos de Maurício pelas fronteiras. Quando eu soube quem pressionar, coloquei uma ideia no subconsciente da pessoa… Só não achei que seria tão rápido.

Seria um escândalo se as pessoas descobrissem que a guardiã conseguira aquela confissão porque o Camaleão havia mexido no subconsciente de alguém. Ela sentia o peso da culpa em seus ombros ao saber daquilo. Luci sabia que Camaleão podia usar métodos nada corretos, mas saber que tinha permitido que aquilo acontecesse a deixava mal.

Ela não imaginou que ele fosse quebrar uma regra tão básica da magia, que era não invadir a mente de outro sem consentimento. Por mais que ele aparecesse para ela no Sonhar, Camaleão nunca tinha mexido com suas memórias ou invadido seu espaço pessoal. Luci não queria pensar no que tinha permitido acontecer, mas não podia fugir daquela verdade, nem de sua responsabilidade nisso. Estaria sentindo os ombros tensionarem se estivesse ali fisicamente. Até onde ela estava disposta a ir para descobrir o que acontecera a Sofia? Até onde ela estava disposta a ir para fazer o que achava ser certo? Camaleão não parecia ter nenhum problema com isso, mas ela não deveria ter? A guardiã tinha que fazer o que era necessário, isso todos sabiam, mas mesmo que custasse passar por cima da liberdade de outra pessoa?

— Um guardião faz o que precisa para proteger os cientes — disse Camaleão. Ele não precisava ler a mente dela para perceber o dilema que Luci estava tendo internamente. — Cuidei de seu trabalho sujo, não precisa mais pensar nisso.

Mas ainda era o trabalho sujo dela também. Será que Sofia teria concordado com algo assim? Será que sua irmã não teria considerado que alguém como Camaleão estaria disposto a cruzar essa linha, sem nem piscar? Luci não sabia o que pensar de si mesma, só sabia que, quanto mais pensava no assunto, maior o peso daquela decisão. Não sabia se focar no objetivo era o suficiente para justificar o que acontecia no caminho.

— Por que você estava seguindo os pupilos de Maurício?

— Não estou, não exatamente. Mas não vim aqui para ser interrogado.

O peito de Luci pesou ainda mais, ela sabia que não tinha como enrolar Camaleão e fugir daquilo. Ela se levantou da cama, já temendo o que poderia acontecer.

— Não quero ser jogada no meio de um pesadelo e ficar presa — disse ela, tentando colocar o máximo de firmeza em sua voz.

12. Página 3

— Eu não faria isso, disse antes, isso não é para machucar você. — Ele se aproximou. — Se eu quisesse ferir você, já teria feito isso. Não seria vantajoso para mim, de qualquer forma.

Por que não seria? O que ele queria com tudo aquilo no final das contas? Luci sabia que havia motivos que Camaleão não dizia, ela não esquecera que ele a ajudara no teste para ser guardiã por causa de algum favor que devia a alguém. E ela também já conseguia calcular que Camaleão não era de aparecer tantas vezes para a mesma pessoa, a menos que precisasse de algo.

— Se alguma coisa acontecer, os sentinelas vão vir atrás de mim.

— Mais um motivo para eu não deixar nada de ruim acontecer com você. — Ele estendeu a mão para ela.

Luci hesitou. Tudo em seu corpo e em sua mente dizia para não fazer aquilo, mas ela tinha dado sua palavra e não imaginava que coisas boas aconteciam quando se fazia um acordo com o Camaleão e não se cumpria. Pelo menos era o que as histórias diziam. Ele já tinha provado ter habilidades sonhadoras e transformadoras poderosas. Luci não imaginava o que mais ele sabia fazer.

Ela deu a mão para o Camaleão. No mesmo momento, sentiu uma onda de magia no contato entre os dois, que a fez fechar os olhos. Quando Luci os abriu novamente, ela não estava mais na mesma área do Sonhar em que eles estavam antes. Na verdade, era muito pior.

Ela estava dentro de um pesadelo. Sentia isso com cada célula de seu corpo.

— Camaleão! — gritou ela, virando a cabeça para todos os lados, se mexendo de forma agitada e brusca.

Ele não estava por perto, não respondeu e Luci nem ao menos conseguia sentir sua energia. Se ele a estava observando, como tinha prometido, ela não tinha como saber, só podia confiar nas palavras de Camaleão, o que não ajudava em nada a ansiedade que crescia em seu peito.

Luci sentia seu corpo tremendo de medo, sentindo as energias do pesadelo em seu redor. Não era a mesma coisa que estar no pesadelo de Nicolas, o foco agora era ela, seu próprio subconsciente. Ela quase conseguia sentir as energias do Sonhar rastejando por sua cabeça, começando a se alimentar dos pensamentos da guardiã. Luci balançou a cabeça, como se aquilo fosse ajudar em alguma coisa, mas ela sabia que, quanto mais se desesperava, pior ficava.

Era uma sensação desesperadora, que só sua resistência ao pesadelo podia proporcionar. As pessoas geralmente ficavam perdidas nas imagens do pesadelo, sem perceber ao certo o que estava acontecendo até ser tarde demais, mas ela conseguia sentir a magia afetando sua mente de forma consciente, sabia em que memórias seria pega. Por isso podia tentar evitar, mas para isso precisava usar sua magia. Procurou em seu bolso o anel de Camaleão, até se lembrar que não estava ali fisicamente, então não tinha como usar o objeto.

Lembrou-se do que Juliano havia dito, como acalmar a mente e focar em sua própria magia. Tinha que acreditar que Camaleão estava ali, ao menos pelo efeito placebo que aquilo teria em sua mente. Quase se lamentava por ter parado de tomar o Noite Calma.

11. Página 4

Luci não sabia o que Camaleão queria que ela fizesse, pelo que tinha entendido ele só queria ver como sua mente agia naquele ambiente. Pensar era complicado, era como se estivesse dentro de um tornado sem ser jogada de um lado para o outro. Pelo menos ainda não. Mas não tinha como ficar ali, parada, esperando por algo, então decidiu que ia tentar procurar um lugar mais ameno dentro do pesadelo, algum ponto em que se sentisse menos instável.

Não adiantou muito.

Como se fossem pequenas lesmas, Luci sentia a energia do pesadelo dentro de sua cabeça, escorregando por suas barreiras. Piscou algumas vezes, quase viu sua sala em sua casa na superfície, com Sofia parada diante dela, com aquela expressão de desapontamento. Esfregou os olhos para tirar aquela ilusão do Sonhar de sua frente. Teve a impressão de que murmurava um “não” para si mesma, mas Luci sentia como se seus ouvidos estivessem entupidos.

Era desesperador, parecia que ia perder o ar.

No segundo seguinte, se viu em sua casa da superfície, sem conseguir dissipar a imagem com sua magia. Era uma versão distorcida de sua casa, como se estivesse em parte corroída, parecia que um sopro a colocaria no chão. Sofia estava ali, como na última vez em que se viram. Quanto mais tempo passava naquelas imagens e memórias, mais fundo sabia que estava no pesadelo. Luci curvou o corpo, como se sentisse dor, mas era o medo tomando conta.

— Por você faz isso, Luci? Por que nunca me ouve? — A voz de Sofia parecia muito com sua irmã.

— Você não é real. — Luci abraçou a si mesma, olhando para baixo e sentindo as lágrimas encherem seus olhos. — Me deixa sair! Eu não quero isso de novo… Camaleão?

— Ninguém aqui vai lhe ajudar!

Aquela última voz era distorcida, não parecia mais nada com Sofia. A casa ficou escura, fazendo Luci perder a noção de onde estava. Deu uma volta ao redor de si mesma, procurando por algo. O rosto de Sofia apareceu, agora estava a apenas um palmo de distância do seu. O medo deixou Luci paralisada. Era a imagem da sua irmã, mas ao mesmo tempo não era, seus olhos pareciam maiores e assustadores, suas veias estavam mais visíveis em seu rosto.

— Não tem ninguém para lhe puxar desse pesadelo, Luci… — Agora, as formas do Sonhar ao redor de Luci não formavam mais sua sala, e sim o teatro, como na primeira vez em que ficara presa no Sonhar.

Tinha sido tão idiota…

Aquela dimensão, onde as coisas não eram físicas e não funcionavam de acordo com nenhuma lei, podia ser manipulada a partir de seu pensamento… Tudo isso tinha dado uma sensação de controle para Luci anos atrás, sentindo que podia deixar sua imaginação voar. Conseguia ver, quase literalmente, pelo efeito do pesadelo em sua mente, uma versão mais jovem de si mesma, muito animada em mudar as estruturas do Sonhar, transformando-os em lugares bonitos, cheio de flores e iluminação.

Mal se reconhecia naquela visão, até porque não era mais ela. Aquela Luci tinha ficado para trás há anos.

10. Página 5

O Sonhar é belo é perigoso, era isso que Carmela dizia. Ouvia a voz de sua avó ao seu ouvido. Mas Luci tinha achado que nada ia acontecer com ela. Era resistente, afinal de contas, não é mesmo? Naquele momento, ela conseguia ver como o Sonhar mudava para afetar sua mente. Outra pessoa em seu lugar não notaria, apenas afundaria cada vez mais naquelas imagens. Entender e ver o que acontecia não mudava, porém, o fato de que ela estava afundando também. Não conseguia mover um músculo, era como se tudo estivesse paralisado.

Sentiu alguém a abraçando por trás. Não era uma pessoa, era uma massa disforme de pesadelo da qual mal conseguia sentir a densidade. Sabia que aquilo tentaria engoli-la se não fizesse algo, jogando-a em outra situação ainda mais difícil de sair. Apesar de saber que estava sendo envolta em uma energia de pesadelo, quando olhava para baixo via como se fossem os braços de Sofia.

— Quem vai salvá-la agora? — A voz distorcida de Sofia sussurrava em seus ouvidos.

Um impulso de desespero fez que Luci acumulasse energia o suficiente para se soltar dali. Enquanto aquela energia recuava, ela se sentiu jogada para frente, como se uma pequena explosão tivesse acontecido entre ela e o pesadelo. Sentiu que conseguia respirar de novo, mesmo que ainda estivesse naquele turbilhão. Lembrava-se da sensação, já tinha passado por aquilo, sabia o quão perto do limite estava brincando.

— Luci!

Ela ergueu a cabeça, seu cabelo cacheado caindo na frente de seus olhos, mas sentiu uma presença diante dela. Era Camaleão. Por um momento, teve dúvida se era o pesadelo brincando com sua mente, com sua vontade de sair dali, ou se era o Camaleão de verdade. Ela começou a estender o braço, hesitando, mas, diferente de antes, ele a segurou pelo pulso, puxando-a para fora. Agora sabia que era o Camaleão, a densidade dele era diferente da do pesadelo.

Com o contato entre os dois, a magia dele e a energia dela tentando resistir, Luci foi jogada para outro lugar, mas não exatamente onde Camaleão queria que ela fosse.

Luci foi jogada em um mar de imagens, se movimentando pelo vazio. Fechou os olhos e tampou os ouvidos, enquanto seu ser era puxado pelo Sonhar, segurando o grito de desespero que ficou em sua garganta. Camaleão não estava mais ali, nada estava.

Mas havia imagens. E elas iam passando em sua frente sem parar, sem ordem, apenas acontecendo.

Viu Sofia diante de si, sentada em uma cadeira perto de uma janela. Quando piscou, sentiu Sofia a abraçando, enquanto chorava. Estava mais alta que sua irmã, o que a fez se desconectar um pouco do momento. Sofia era mais alta que ela, sempre fora.

Depois viu Maurício sorrindo, aquele jeito dele de quem zombava de todos, de quem se sentia superior. Estava sentado, um pouco longe, Luci não conseguia identificar o resto. Ouvia a voz de Sofia distante:

— Ele estava mesmo relacionado ao que aconteceu na Alvorada?

Agora Luci tinha a sensação de que estava em uma estufa, muitas plantas crescendo em seu redor. Quando passou a mão nos olhos, percebeu que estava chorando. Ao contrário das suas mãos, de pele escura, aquelas eram brancas.

9. Página 6

Não era ela.

Luci sentiu seu corpo cair, como se tivesse chegado ao fundo depois de uma longa queda.

A sensação era claustrofóbica. Luci protegeu a cabeça, sentindo que não conseguia mais se mexer direito, seja lá onde estivesse. Ainda não sabia onde Camaleão tinha ido parar, mas Luci conseguia sentir sua presença, de alguma forma. Depois de alguns momentos, e de respirar fundo, ela abriu os olhos, tentando entender onde estava.

Mesmo que sentisse a presença de Camaleão, não o via em lugar nenhum. Luci conseguiu ir movendo seu corpo aos poucos, tudo parecia muito sólido, como se ela fosse feita de rocha. Aos poucos, foi sentindo seu corpo melhor, mais maleável, e conseguiu dar alguns passos para frente. A cada passo que dava, cada momento em que sua mente conseguia ficar mais leve, ela tinha a sensação esquisita de que conhecia aquele lugar que o Sonhar estava mostrando.

Luci foi andando com as costas curvadas, se perguntando onde tinha se sentido tão imóvel e dura antes. Ela ainda estava no domínio do pesadelo, cada parte de seu ser sabia disso, mas alguma coisa na energia do pesadelo tinha se modificado quando Camaleão a alcançou.

— Camaleão? — chamou ela, conseguindo finalmente se sentir confortável para endireitar a postura. Ela passava por um caminho tortuoso, tentando achar a saída daquele lugar.

Mais alguns passos para frente, que pareciam mais longos do que deveriam ser, fizeram que Luci chegasse em uma área em que não se sentia tão comprimida. Sua cabeça já começava a doer de tanto esforço que fazia, sentia sua magia latejando ao redor de seu corpo, tentando manter a situação o mais estável possível.

Quando olhou para frente e entendeu onde estava, não conseguiu conter o susto que subiu pela sua garganta.

— Volta logo, Tomas… dizia — uma criança, chorando enquanto abraçava os próprios joelhos. — Por favor…

Ela conhecia aquele pesadelo. Era de Nicolas. E de Tomas.

Foi um momento, apenas um vislumbre da cena, e quando sua mente começou a juntar os pontos ela sentiu uma grande onda de energia passando por seu corpo, quase rasgando seu controle mágico de tão forte que era. Nunca tinha sentido tamanho poder. Não eram as forças do pesadelo, pelo menos não só. Era algo, ou alguém, a expulsando dali, daquele canto fundo do Sonhar. Ela sentiu sua mente latejar ainda mais, enquanto gritava de desespero.

Seu corpo físico levantou com tudo da cama, fazendo que ela perdesse o equilíbrio e quase rolasse para fora da cama. Estava no quarto da guardiã, seu coração batia muito rápido, sua cabeça doía e suas mãos suavam. Estava tão enjoada que colocou sua última refeição para fora ali mesmo.

Luci não sabia como aquilo tinha acontecido, mas sabia que, quando Camaleão tinha tentado puxá-la para fora do pesadelo, ela tinha ido parar em outro lugar. Não era mais o pesadelo em si, era dentro da cabeça de alguém. Sentindo o gosto ruim na garganta, tateou o bolso e colocou no dedo o anel de Camaleão, como que para se convencer de que estava ali, fisicamente.

Por um breve momento, Luci tinha entrado no subconsciente de Camaleão.

*

8. Página 7

Ingrid sabia muito bem que aquilo não era nada bom. Maurício estava novamente em uma das salas de interrogatório da Corte, mas ele continuava dizendo muito pouco. A sentinela o observava através do vidro, que do lado de Maurício eram apenas paredes sólidas, mas ele sabia que elas eram enfeitiçadas para que as pessoas do lado de fora conseguissem vê-lo. As investigações de seu material estavam falando por ele. Todo um esquema contra as fronteiras, para favorecer leis mais rígidas, estava sendo revelado. Ingrid tinha tentado mandar uma mensagem para Luci, mas a guardiã não respondia. Estava quase indo até a torre para se certificar de que tudo estava bem.

Os oficiais da Corte já não estavam completamente felizes com a presença de uma sentinela, mas o fato de Estela estar ali parecia ofender alguns pessoalmente. Ela não teria conseguido entrar se Ingrid não tivesse usado seu título para insistir, e mesmo assim eles tinham dificultado, dizendo que apenas os envolvidos na investigação podiam entrar. Estela sabia muito bem que ser parte do Congresso já daria a ela a possibilidade de falar com Maurício, mas se usasse aquilo de argumento provavelmente teriam rido da cara dela.

— Não acredito que depois de tudo que já encontraram nas coisas dele… —murmurou Ingrid, apenas para os ouvidos de Estela. — Ele vai continuar negando.

— Maurício é… — A senhora da superfície controlou o xingamento que subiu pela sua garganta — assim. Enquanto ele puder fingir que não tem culpa, ele vai. Para muitos, o que ele diz ainda importa e ajuda a manter a imagem que ele construiu. O que temos até agora?

— Ele negou ter feito uma conspiração contra as fronteiras, mesmo que seus documentos apontem isso. Está jurando que estava trabalhando no melhor interesse do Ninho.

— O pior de tudo é que ele realmente deve acreditar nisso — suspirou Estela. — Talvez se blefarmos…

Elas ouviram algo acontecendo do lado de fora. Quando viraram na direção da porta, viram Luci entrando pela sala, seguida de um oficial, que provavelmente tentou impedi-la, mas não tinha como argumentar contra os braceletes da guardiã que ela carregava. Ingrid viu o cabelo bagunçado de Luci, como quem tinha tentado arrumar tudo às pressas antes de chegar ali, mas tinha falhado. Apesar de não estar entendendo porque Luci tinha ido até ali, se aproximou da guardiã.

— Luci — disse ela, mal percebendo que a tinha chamado pelo primeiro nome. — Eu mandei mensagem… O que está fazendo aqui?

— O que ele está dizendo? O que conseguiram descobrir? —perguntou Luci, ignorando a pergunta da sentinela. Sua respiração estava mais rápida que o normal.

Ingrid dispensou o oficial, enquanto Estela se aproximava da guardiã, também preocupada com o que estava acontecendo.

— Luci, você não quer se sentar? Eu e Ingrid estamos cuidando da situação.

— O que ele disse? —insistiu Luci.

— Ele, em si, não muito, só que estava trabalhando em prol do Ninho —respondeu Ingrid. — Os documentos confirmam que ele estava conectado com as questões das fronteiras, até mesmo havia alguns sonhadores a mando dele que tinham andado pela Alvorada, mexendo no Sonhar. Não prova que o acidente foi culpa dele, mas é provável que…

7. Página 8

— Ele disse algo sobre Sofia?

Ingrid e Estela se entreolharam, confusas com a pergunta. Não que aquela possibilidade não tivesse passado na cabeça de Estela algumas vezes, de ele ser culpado pelo que acontecera com Sofia, mas nem ela nem Ingrid esperavam que ele fosse falar algo sobre o assunto.

— Não… — respondeu Estela, ainda confusa.

Luci encarava Maurício através da parede mágica. Ele estava sentado, com os olhos fechados, parecia que estava calmo e descansando. Luci estava com os sentimentos à flor da pele, ainda se sentia enjoada, mas não conseguia ignorar o que tinha visto no Sonhar. Não sabia o que tinha acontecido, mas tinha ouvido Sofia falar do mestre sonhador e aquilo não tinha sido algo inventado pelo pesadelo. Tinha visto Sofia e Maurício, não apenas alucinações, mas memórias efetivas dele. Ainda não sabia exatamente como aquilo tudo estava na mente de Camaleão, mas Luci sentia que a resposta para a pergunta que mais queria resolver estava alguns passos a sua frente.

Sem avisar, ela ativou a passagem pelo vidro, que foi se abrindo aos poucos, revelando uma passagem como uma porta entre Maurício e a guardiã. Tanto Estela quanto Ingrid demoraram um momento para entender o que estava acontecendo. Antes da sentinela conseguir perguntar o que a guardiã ia fazer, Luci ativou a passagem de novo para que se fechasse atrás dela, deixando apenas Luci e Maurício dentro do cômodo.

Ingrid já estava pensando em que desculpa daria para os oficiais que olhariam através das câmeras.

— Deveríamos impedir isso? — perguntou Ingrid.

— Vamos ver o que acontece. — Estela conseguia entender o que via em Luci.

Frustração, Estela conhecia bem o sentimento. Ficar quieta, aguentar firme, ver pessoas que se sentiam no direito de fazer tudo o que bem entendiam, sem consequências, sem qualquer respeito por outras pessoas. Era isso que sentia sempre que via Maurício, toda a vez que se segurava para não gritar na cara do mestre sonhador, toda a reunião em que sentia uma pontada em um de seus discursos que pareciam sensatos e inteligentes, mas que vinham de um homem completamente cheio de si.

Luci parou diante de Maurício, que abriu os olhos aos poucos ao sentir a presença de outra pessoa na sala. Tinham dito que ele seria interrogado por uma sentinela, mas não achou que no final das contas seria a própria guardiã.

— Boa tarde, guardiã —sorriu ele, como se estivessem se cumprimentando em um dia normal. — Se me permite dizer, você parece cansada.

— O que você sabe sobre a Alvorada? E Sofia?

Não estava interessada em floreios, tinha passado os últimos meses fazendo aquilo. Queria respostas. Maurício a encarou por um momento, como se pensasse no que iria responder ou como se apenas testasse a paciência de Luci.

6. Página 9

— Não sei nada sobre a Alvorada, como já falei antes para um dos oficiais da Corte — falou ele com calma. — Sim, alguns dos sonhadores que respondiam a mim tinham visto a fronteira, por vontade própria, mas eu não tenho nada que ver com isso. E não sei o que você quer saber sobre Sofia, sei tanto quanto qualquer outra pessoa.

— Mentira!

Ingrid e Estela tomaram um susto. Até Maurício pareceu se surpreender por um momento. A sentinela não se lembrava de ter visto a guardiã erguendo a voz para ninguém antes. Já a tinha visto chorar, mas expressar sua raiva daquele jeito era a primeira vez.

Luci se inclinou na direção de Maurício, como se tentando olhar mais fundo nos olhos dele. Por um momento, desejou saber magia mental.

— Você está ligado à Alvorada, que está ligado a minha irmã.

— É claro que a guardiã Sofia queria saber o que aconteceu na Alvorada. Foi um erro dela que fez que aquele desastre acontecesse.

— Armação sua! — Luci endireitou a postura — Assim como foi agora. Você acha que vai se livrar do que fez com o teatro? Logo vão saber disso e da Alvorada e você não vai poder mais se esconder.

— Eu entendo que é difícil compreender isso, ainda mais você, que não está acostumada em como as coisas acontecem aqui no Ninho, mas eu não vou passar a ser culpado porque você quer.

Luci fechou o punho. Por um segundo, Ingrid achou que ela fosse agredir Maurício fisicamente. Mas não era bem isso que ela estava fazendo. Ingrid percebeu quando Maurício falou:

— Você não faria isso. — Era difícil saber se era uma afirmação ou uma provocação.

A sensação de magia era inconfundível. Era sutil, estava surgindo devagar, mas, pela proximidade e treino, tanto Maurício quanto Ingrid conseguiam reconhecê-la. Luci não se lembrava da última vez que tinha sentido tanta raiva. Ela não tinha como usar suas visões no Sonhar como provas, mas sabia que ele estava escondendo algo e ambos sabiam que ela não podia fazer nada.

Luci sentia a magia fervendo em seu punho fechado. Será que conseguiria descobrir alguma coisa usando o Sonhar? Não era prático como um mental poderia fazer, mas não era impossível. Tinha entrado sem querer na cabeça de Camaleão mais cedo, não?

Novamente o questionamento veio, até onde ela estava disposta a ir para conseguir o que queria?

— Ela vai usar magia — disse Ingrid.

— Ingrid — falou Estela. — Abra a porta, agora, não consigo ativar a magia da parede.

A sentinela não questionou, estava com medo do que Luci podia fazer acumulando aquela magia. Algo tinha acontecido com a guardiã, mas, independentemente do que fosse, se ela continuasse a ameaçar Maurício e usasse sua magia contra ele pegaria mal para todos eles, e Luci mesma poderia ser detida. O mestre sonhador parecia estar muito sereno com a situação toda.

5. Página 10

Quando a passagem se abriu novamente, Estela entrou. Ela caminhou na direção de Luci e segurou o punho cerrado, sentindo o formigamento da magia em seus dedos. Pousou sua outra mão no ombro da guardiã, tentando acalmá-la.

— Ele não vai dizer mais nada, Luci. Não vale a pena.

Estela estava certa e Luci sabia disso. Sua cabeça ainda parecia enevoada pela visita do Sonhar, estava agindo muito mais rápido do que conseguia pensar. Nunca teria acusado Maurício de mentiroso em outras circunstâncias, muito menos teria pensado em usar sua magia daquele jeito. Ele não valia a pena mesmo. Quando ela se virou, ambas as mulheres ouviram a voz do sonhador.

— Acredite ou não, eu não tenho nada que ver com o desaparecimento de Sofia — disse Maurício. — Sinto muito não poder ajudar mais.

A mão de Estela se manteve firme no ombro da guardiã, sem deixá-la se virar para encarar Maurício. Luci queria responder a provocação, mas Estela não ia deixar. A senhora da superfície direcionou um olhar frio para o mestre sonhador, depois abaixou o olhar para Luci.

— Vamos. — Ela voltou a olhar para Maurício e, depois, para Luci. — Eu sei o que você está sentindo, mas não perca seu tempo, ele não merece.

Estela sempre quis ter a chance de dizer tudo o que pensava para Maurício, sempre sentia os xingamentos entalados em sua garganta, que controlava para seu próprio bem. Já tinha que fazer o dobro para provar seu lugar. Mas agora ela entendia que, qualquer coisa que ela falasse para ele, só o divertiria. Com algumas pessoas valia conversar, mas Maurício não era uma delas. Não queria deixar Luci perder o controle por causa dele.

Ela levou a guardiã pela passagem e Ingrid fechou o caminho quando elas passaram. Luci ainda parecia um pouco perdida com o que tinha acontecido, sabia que sua magia estava fragilizada depois do que passara no Sonhar, mas ainda se sentia mal pela falta de controle. Os oficiais tinham entrado na sala em que Ingrid estava.

— Acho que é melhor vocês encerrarem por hoje — falou um deles.

Ingrid não iria contrariá-lo, muito menos Estela. Guiando Luci pelos ombros, a senhora da superfície saiu com a sentinela, andando pelos corredores da instalação.

— Eu não devia ter dito nada… — murmurou Luci.— Minha cabeça está doendo, não consegui pensar.

— Não se preocupe, Luci, você não tinha como saber…

Antes de Estela conseguir terminar a frase, ela sentiu o corpo de Luci fraquejando. As pernas da guardiã perderam a força, tremendo e fazendo o peso dela ser mais do que podia suportar. Estela tentou puxá-la, impedindo Luci de cair, mas foi tão repentino que a guardiã terminou com os joelhos no chão.

— Luci! — Ingrid se abaixou no mesmo momento, tentando ajudar a guardiã. — O que está acontecendo?

— Eu não estou bem… — Ela se virou para Estela — Me leve até Juliano…

Sem conseguir responder mais nada, a visão de Luci escureceu completamente e ela perdeu a consciência.

*

4. Página 11

Nicolas se perdeu algumas vezes antes de conseguir encontrar Estela no lugar em que ela havia pedido. Já sabia que Maurício não diria nada, saber disso não o incomodou, mas saber como a guardiã invadira a sala de interrogatório e passara mal depois era algo que ele não esperava e preferia que não tivesse acontecido. Quando recebeu a notícia de Estela, ele insistiu para encontrá-la.

O endereço que Estela tinha passado era na superfície. Ainda não estava acostumado a como as ruas funcionavam, tudo parecia muito igual para ele. Devia parecer tolo, o grande senhor do Ninho sendo incapaz de fazer a curva certa em uma rua. Quando finalmente acertou o caminho, para sua felicidade viu Estela na frente do portão de uma casa. Seu estômago reagiu nervosamente, mais do que ele achava que poderia acontecer. Tinha pensado muito em Estela depois que eles tinham se beijado.

Estela se aproximou e o abraçou. Nicolas sentiu ainda mais aquela sensação boa de estar na presença dela, enquanto a abraçava de volta.

— Obrigada por ter vindo — agradeceu ela, enquanto se afastava.

— Não se preocupe, você estava ocupada e isso aconteceu… — suspirou ele. — E o que aconteceu exatamente?

— Eu já contei o que sei. Luci entrou na sala, falou várias coisas para Maurício, eu entrei para tirá-la de lá e depois ela desmaiou.

— De quem é essa casa?

— É de um mago de cura chamado Juliano, ele cuida de cientes na superfície. Parece que ele estava ajudando Luci com algumas coisas, mas ele não me falou nada nem Ingrid. Sigilo de paciente, imagino.

— E como você está? —perguntou Nicolas, antes de entrarem. — Eu sei que Maurício não é fácil.

— Eu me sinto… Bem, na verdade. — Estela deixou os ombros relaxarem. — Não entendo. Sempre quis falar um monte de coisas na cara dele, mas quando eu o vi com Luci… — Ela balançou a cabeça.

Nicolas se aproximou, colocando as mãos nos ombros de Estela.

— Você fez bem. Para que discutir com alguém que não vai ouvir?

Talvez, se estivesse no Ninho, Nicolas teria controlado melhor seu impulso, mas naquele momento ele só se viu sorrindo e dando um beijo em Estela. Ele não queria hesitar tanto, mas não queria causar problemas para ela por causa daquilo que estava nascendo entre eles. Mas Estela não recuou, parecia querer tanto quanto ele. Nicolas não sabia para onde aquilo ia, nunca tinha se relacionado com alguém que participasse da política do Ninho.

Os dois entraram na casa. Era um lugar simples, Nicolas estranhava um pouco a arquitetura, mas conseguia ver, pelos objetos mágicos e sentindo a energia do lugar, que aquela de fato era a casa de um ciente.

3. Página 12

Mal tinham entrado na sala quando Juliano saiu de uma porta, fechando-a do lado de fora. Ele abriu a boca para começar a falar, mas quando olhou para frente tomou um susto. Não foi muito óbvio, apenas uns instantes de surpresa até Juliano se recompor novamente. Mas Nicolas viu, ele estava acostumado a notar esse tipo de coisa.

— Juliano, esse é o senhor do Ninho, Nicolas Alba —apresentou Estela. — Este é o mago de cura, Juliano.

— Mas que honra! — disse Juliano. — Perdoe a surpresa, nunca imaginaria ver o senhor do Ninho em minha casa.

Nicolas sorriu e estendeu a mão para cumprimentá-lo, mas Juliano fez uma pequena reverência no lugar. Ele estava acostumado a receber esse tipo de cumprimento no Ninho, mas alguns cientes da superfície agiam da mesma forma.

— Não houve nenhuma mudança, houve? — perguntou Estela.

— Infelizmente, não — respondeu Juliano. — Vocês podem entrar, se quiserem. Ingrid continua lá dentro.

A sentinela tinha se recusado a sair do lado de Luci. Quando a porta se abriu, Ingrid levantou a cabeça, que estava encostada na parede a seu lado. Ela estava sentada em uma cadeira, de braços cruzados. Na maca, Luci estava dormindo, parecendo serena. Juliano deu privacidade a eles, encostando a porta.

— Isso não tem nada que ver com pesadelos, não é? — perguntou Nicolas.

— Juliano disse que a mente dela está sobrecarregada. — Ingrid se levantou, em respeito à presença do senhor do Ninho. — Ela estava procurando sinais da irmã no Sonhar, talvez tenha exagerado.

Nicolas sentiu medo. Só faltava mais essa agora. Ele sabia que Luci já tinha passado por problemas com pesadelos, mas sabia que ela era resistente. Será que tinha passado do limite? Será que tinha encontrado algo e por isso apareceu daquele jeito no interrogatório de Maurício?

— Quando as coisas parecem que vão se resolver, acontece mais outro problema — lamentou Estela.

Ingrid respondeu alguma coisa para Estela, tentando acalmá-la, mas Nicolas não prestou muita atenção. Ele encarou o rosto de Luci, procurando com os olhos se havia algum indício de pesadelo, se ele conseguia sentir alguma coisa. Não que fosse entender mais de doença do que uma pessoa especializada em cura, mas sabia o que era cair em um pesadelo. Não era impossível que ela tivesse perdido a noção do limite. O desespero de Luci devia estar cada vez maior.

Ele notou os braceletes da guardiã em seus pulsos, mas não foi isso que atraiu seu olhar. Havia um anel na mão de Luci, e não era um anel qualquer. Ele nunca reparara que Luci usava aquele anel, isso era algo que ele particularmente prestava atenção. Como usava itens encantados para esconder seus sinais físicos de doença de pesadelo, ele sempre tentava ver se alguém tinha algo parecido.

Luci nunca tinha usado nada assim antes. Nicolas se concentrou, tentando sentir se havia alguma magia ali. Não era uma magia de transformação especificamente, mas aquela energia era familiar.

Seus olhos se arregalaram quando sentiu um estalo em seu próprio anel.

2. Página 13

— Onde Luci conseguiu isso? — Ele apontou para o anel, interrompendo algo que Ingrid dizia.

As duas mulheres olharam para o objeto, mas nenhuma delas parecia saber.

— Por que a pergunta? Ele é encantado?

— É — respondeu Nicolas, seco.

Ingrid olhou para o lado quando Juliano abriu a porta, mas Nicolas continuou prestando atenção no objeto. O mago de cura se aproximou do senhor do Ninho.

— Vou precisar pedir para vocês me darem licença — pediu Juliano. — Tenho de verificar a mente de Luci de tempos em tempos e preciso de privacidade.

Não havia o que discutir, por mais que Nicolas ainda não estivesse entendendo como Luci estava com aquele anel, para começo de conversa. Ele se virou para Juliano.

— Por favor, me avise assim que ela acordar. — Apesar do pedido firme, ele fez isso da forma mais educada que conseguiu.

Ingrid decidiu ficar na casa, esperando na sala, para ficar acompanhando Luci, enquanto Estela e Nicolas saíam de lá. O sol estava se pondo. Nicolas ficou um pouco chocado, maravilhado com as cores que o céu formava. De uma forma esquisita, quase parecia o Sonhar.

— Qual é o problema do anel? — perguntou Estela.

— Nada demais, acho, só estava procurando alguma…

Estela parou na frente de Nicolas, cruzando os braços, os olhos escuros dela encarando bem os dele.

— Não minta para mim.

Ele pensou em inventar alguma coisa, mas não queria mentir. Não era justo com ela, não era certo. Também não queria que ela achasse que ele estava pensando demais, mas Nicolas não podia ignorar o estalo de magia que tinha sentido na própria mão.

— Eu reconheci o anel. — Nicolas desviou o olhar — Quero dizer, estava diferente, mas a energia… Eu a conheço.

Estela franziu o cenho, indicando que ela não tinha entendido. Nicolas apontou o próprio anel que usava.

— Eu ganhei da minha mãe, quando fiz 18 anos. Estou sempre usando, por isso coloquei o feitiço para mudar minha aparência. — Ele abaixou a mão. — Era um anel de família, mas minha mãe pediu para derreter e fazer dois, um para mim e um para meu irmão. Quando estávamos usando e nos aproximávamos, sentíamos que o outro estava próximo.

A expressão de Estela foi mudando, imaginando já qual seria a conclusão daquela história.

— Aquele anel era de meu irmão, de Tomas.

*

1. Página 14

As imagens estavam embaralhadas na mente de Luci. Ela não tinha dúvidas de que estava sonhando, mas sua mente parecia frenética, sem descansar e sem ter qualquer controle sobre conseguir acordar.

Ela sabia que parte daquelas imagens em sua mente não eram só dela, ainda estava sofrendo as consequências de ter sua mente no pesadelo por tanto tempo, nem sabia dizer exatamente quanto tempo tinha sido. Com o pouco de autonomia e força que tinha, Luci tentou focar nas imagens de Sofia. Por que Camaleão estava com a imagem de sua irmã na mente? Será que Sofia o tinha conhecido como Camaleão e entendido quem ele era? Luci não podia ignorar que talvez fossem suas próprias memórias misturadas com as dele, ela não sabia discernir.

Assim como não entendia se a imagem dos gêmeos Alba vinha do próprio Camaleão ou dela mesma, mas só de começar a pensar nisso sua cabeça parecia ficar mais densa, por causa da força daquela imagem.

Quanto mais se focava em imagens de Sofia, maior era a impressão de estar dentro de um pesadelo, como se Camaleão tivesse encarado o pesadelo inúmeras vezes, de alguma forma. Quando tinha sorte, via outro lugar, cheio de corredores e quartos. Luci tinha a impressão que conhecia aquela segunda imagem, mas não sabia de onde. Era como se andasse em memórias, mas tudo estava distorcido e confuso.

Não tinha qualquer noção de tempo, mas era como se flutuasse, como se uma correnteza de pensamentos confusos a levasse por inúmeros lugares. Conseguia sentir as emoções do momento – as que envolviam Sofia sempre pareciam ter alguma tensão, mesmo que ela estivesse sorrindo.

Como se sua mente voasse, Luci sentia sua consciência pairando, pousando em algum lugar. Seu corpo não se mexia, parecia que estava presa em algum ponto entre o Sonhar e estar acordada. Era uma sensação esquisita e ruim. Tinha consciência de seu corpo, mas não tinha controle sobre ele. Sabia que aquilo era uma forma de sua resistência a pesadelos proteger sua mente, outra pessoa poderia estar muito mais perdida, mas não mudava o fato de que ainda era desagradável. Luci sentia que estava deitada em uma sala… Parecia o consultório de Juliano.

Diante dela, Sofia estava sentada em uma cadeira. Sabia que não podia ser real, tinha consciência de que Sofia ainda estava desaparecida, mas ver sua irmã se levantando da cadeira e parando a seu lado parecia muito real. Seus cachos longos caíram pelos ombros quando ela se inclinou diante dela.

— Como você se sente? — Por mais que Sofia falasse de maneira normal, era como se o som estivesse abafado, mal podia ouvir o que ela dizia enquanto seus lábios se moviam. Luci tentou se concentrar ainda mais, tentando mover os lábios para responder, mas falhando. Por mais que ela não respondesse, Sofia continuava a falar como se houvesse uma conversa acontecendo. — …Por isso trouxe você aqui… Quase não acreditei que era realmente você… — Ela sorriu e, por um momento, Luci achou que sua irmã estava ficando emocionada. — Eu avisei que a região da Alvorada era perigosa…

Luci sentiu sua mente tremer. A imagem de Sofia voltou a ficar borrada e sua voz parecia sofrer com algum tipo de interferência abafada. A guardiã fez um último esforço para focar em Sofia, mas quando o fez a imagem dela foi aos poucos se transformando. Não era mais o rosto de Sofia a sua frente, e sim o de Ingrid.

Foi nesse momento que percebeu que seus olhos estavam abertos. Seu corpo tremia de leve e tudo parecia abafado. Luci puxou o ar com força, tossindo em seguida, o que fez Ingrid se inclinar diante dela.

— Luci! — Ingrid parecia aliviada, como se estivesse emocionada, assim como a imagem de Sofia antes de ela acordar. — Como se sente?

A guardiã não conseguia responder, apenas tentava respirar e tomar o controle de seu corpo, sentindo sua parte física o máximo possível. Ingrid endireitou o corpo, era possível ver a preocupação no rosto da sentinela.

— Vou chamar Juliano…

Antes de Ingrid sair, Luci fez um esforço para segurar o pulso dela. A sentinela se virou na mesma hora.

— Acho que sei como achar Sofia… — Luci falou e sua voz saiu mais baixa do que o que ela esperava — Preciso ir para a pousada da Alvorada.