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Luci dormiu e acordou algumas vezes nos três dias em que ficou na casa de Juliano, e eram raras as vezes em que acordava e Ingrid não estava sentada a seu lado. Tinha acordado e conseguido falar com ela no dia em que desmaiara, mas continuava fraca para voltar para a torre.

Era a tarde do terceiro dia, e pela posição do sol ela imaginava que já havia passado a hora do almoço. Estava tão acostumada aos últimos meses no Ninho que sentir o sol em seu rosto quando acordava parecia esquisito. Ela olhou ao redor, reparando em Juliano. Luci se sentou na cama enquanto o mago se aproximava dela, checando seus olhos e vendo se estava tudo bem.

— Onde está Ingrid? — Sua voz estava soando mais normal do que antes.

— Eu e Estela finalmente conseguimos convencê-la a dormir direito — falou Juliano. — Ela se importa muito com você, mas precisava descansar.

Luci assentiu, sentindo-se feliz que Ingrid havia se preocupado, mas também culpada por ela ter ficado exausta com aquela situação toda. Mal se lembrava do que tinha acontecido. Sabia que tinha discutido com Maurício e passado vergonha na frente das pessoas na Corte, mas quando tentava se lembrar do pesadelo que tinha vivido antes, sua cabeça doía.

— Sua mente demorou alguns dias para responder. — Juliano largou a ficha em que anotava as informações na mesa e se aproximou de Luci. — Por que você achou que era uma boa ideia se meter em um pesadelo? Sei que você já não está mais usando Noite Calma, mas pesadelos são perigosos para qualquer um, até mesmo para você.

— Achei que… Não seria problema, por causa da resistência… — falou Luci, evitando dizer exatamente o que tinha acontecido. Explicar que tinha feito um acordo com o Camaleão não era uma boa ideia.

Juliano suspirou, reprovando a resposta, mas, para a felicidade da guardiã, ele não insistiu em saber mais sobre o motivo, o que a deixou bem mais calma.

— Só tente não fazer isso de novo, seja lá o que foi. Pela reação de sua mente, deu para ver que foi perigoso. — Juliano cruzou os braços. — Então, você descobriu coisas novas sobre o paradeiro de Sofia?

Luci apertou os lábios. Ela se lembrava de ter falado para Ingrid algo sobre procurar por Sofia na Alvorada, antes de ficar fraca de novo. A sentinela devia ter achado que Luci estava delirando, poderia ter contado para Juliano – o que fazia sentido, ela provavelmente teria feito o mesmo, mas não queria que Juliano lhe desse um sermão sobre como ir atrás de Sofia na Alvorada podia ser uma ideia perigosa.

Ao mesmo tempo, Luci confiava em Juliano e ele se importava com Sofia, e no meio de tantas pessoas que podiam causar problemas, Sofia confiava em Juliano, e ele parecia preocupado de verdade.

— Vi algumas coisas no Sonhar… Não sei explicar exatamente como, mas… Acho que eu talvez consiga achar algo dela na área da Alvorada. Sei que parece absurdo, mas quero tentar.

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— Não acho que seja absurdo — disse Julian. — Acho perigoso, sim, mas não é esquisito. Afinal, foram dois grandes eventos ruins que aconteceram no mesmo ano. Mas você acha que pode encontrá-la no Sonhar ou pelo Sonhar?

Luci não respondeu, porque ainda não tinha certeza do que ia fazer.

— Estou perguntando porque um jeito é melhor que o outro. Pelo Sonhar, como você sabe, é uma busca como as que sonhadores fazem, se alguém estiver dormindo é fácil de entrar em contato. Talvez se Sofia estiver em algum tipo de coma, mas com o subconsciente acordado o suficiente, isso funcione. Se for no Sonhar… — a expressão dele ficou mais preocupada, quase parecia que não queria continuar falando. — Não sei quantas pessoas seriam capazes de aguentar meses lá dentro.

Na mesma hora, Luci pensou no Guardião do Pesadelo, o guardião Elias, que diziam que tinha ficado tanto tempo no Sonhar até que sua mente e tudo que ele era se perdesse para sempre. Ou pelo menos era o que uma das versões dizia. Sofia estava pesquisando sobre ele, afinal de contas, então seria irônico se a ideia não fosse horrível.

A menos que não fosse uma coincidência e sim a causa. Luci ficou um pouco mais tensa. Será que Luci tinha procurado pelo Guardião do Pesadelo… fisicamente? Isso explicaria a energia estranha que sentiu ao ouvir a voz da irmã no Sonhar – ou quando achou que ouviu.

Luci queria que a hipótese não tivesse feito tanto sentido em sua cabeça, mas fez. E ainda tinha a questão de Camaleão. Ela precisava conversar com Nicolas.

— O quão bem estou para voltar a trabalhar? — perguntou Luci, saindo da cama e apoiando os pés no chão.

— Eu diria para pegar bem leve.

O que, para Luci, significava que ela teria que pedir para Ingrid tomar ainda mais cuidado quando fossem fazer a busca na Alvorada. Não diria isso em voz alta, sabia que Juliano não aprovaria, e ele estaria com toda a razão.

O caminho de volta foi tranquilo para Luci, pelo menos o pedaço da superfície, mas quando saiu na estação da Torre do Sonhar ela percebeu que as pessoas a encaravam quando passava, mais do que o normal. Juliano insistiu para ligar para alguém buscá-la, mas Luci resolveu ir sozinha mesmo assim. Não precisava preocupar ninguém mais do que já tinha feito, e ela sabia bem o caminho de volta.

Algumas pessoas a cumprimentavam e perguntavam se estava tudo bem, mas a maioria olhava de longe. Era possível que alguns deles soubessem de alguma fofoca sobre o que acontecera com Maurício, mas Luci não queria pensar naquilo. Ainda não acreditava que Maurício não tinha nenhuma relação com o que tinha acontecido, mas, com alguma sorte, a visita na Alvorada a ajudaria a resolver aquela questão.

Luci subiu até o último andar, o do observatório, e pediu para que um dos sentinelas chamasse Ingrid. Ela nunca tinha ido até a Alvorada, mas sabia em que região da cidade ficava, já tinha visto fotos, poderia encontrar o lugar. Para ter certeza de que não falharia, abriu o celular e usou a busca para encontrar fotos. A maioria era da pousada de anos passados, mas viu algumas fotos do lugar destruído depois do acidente. Aquelas imagens causavam calafrios.

Quando ouviu a porta do observatório se abrindo, Luci se virou para cumprimentar Ingrid. Antes de poder fazer aquilo, foi surpreendida pela sentinela, que andou rápido em sua direção e a abraçou. Luci ficou alguns momentos sem reação, sentindo seu coração acelerado.

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— Que bom que você está bem! — disse Ingrid, demonstrando um lado emocional que Luci dificilmente via. A sentinela não era uma pessoa fria, mas costumava ser mais reservada nesses assuntos. —Quis ficar com você lá, sério, mas…

— Tudo bem, você precisava descansar, eu sei — falou Luci. Elas se afastaram o suficiente para que pudessem se encarar. —Preciso de sua ajuda agora. Temos ir para a Alvorada, acho que se usarmos o Sonhar…

— Luci, não.

A guardiã demorou um pouco para entender o que Ingrid tinha dito. De repente, a sentinela estava com a expressão séria de sempre, na verdade até mais séria que o normal, mas também dava para ver sua preocupação. Ingrid nunca negava nada para ela, seja porque concordava ou por causa do cargo que Luci tinha, mas agora ela estava se recusando.

— Podemos ir amanhã, ou depois, mas agora não. — Ingrid colocou as mãos nos ombros de Luci. — Você acabou de acordar, passou dias no curandeiro, desmaiou porque você fez não sei o que no Sonhar… Como sentinela, eu sigo o que a guardiã diz, mas me importo com você, de verdade, e seria irresponsável da minha parte deixar você fazer isso.

A sensação de Luci era um misto de gratidão e confusão. Queria argumentar que estava bem, que não tinham tempo a perder, que ela precisava verificar as imagens que estavam em sua cabeça… Explicar aquilo seria ainda mais complicado, Ingrid faria ainda mais perguntas.

— Por favor — insistiu Ingrid.

Luci respirou fundo e baixou a cabeça, sentindo as mãos de Ingrid em seus ombros. Ela tinha razão, não queria perder tempo, mas também não queria preocupar a sentinela ainda mais. Não custaria descansar mais um dia, e com certeza Juliano ficaria mais feliz se ela seguisse aquele conselho.

— Tá bom, você está certa… Mas amanhã nós vamos, tá? — Ingrid assentiu, relaxando visivelmente com a resposta da guardiã. — Obrigada pela preocupação.

Sem perceber, Luci se inclinou de novo para abraçar Ingrid, dessa vez sem pegar ninguém de surpresa, apenas parecendo o natural a se fazer.

*

Era frustrante ver como a Corte trabalhava no caso do julgamento de Maurício. Muitas pessoas falavam sobre isso e Nicolas se informava como podia. Maurício não foi acusado pelo sumiço de Sofia, por falta de provas, mas foi sim comprovado que ele tinha agido contra o bem-estar das fronteiras. A primeira coisa que frustrou Nicolas foi que a sentença de Maurício não envolvia também o bem-estar do Ninho, como se as pessoas das fronteiras fossem uma classe secundária. Porque, aos olhos das pessoas ali, elas eram mesmo.

Os crimes mais severos entre cientes eram os que colocavam o conhecimento do Ninho, de magia e dos próprios cientes em risco, expondo toda a vida deles para os leigos. Atacar uma fronteira agia diretamente contra isso, e a Corte já havia julgado outras pessoas com base nesse pensamento. Mas Nicolas conseguia ver que o fato de ser mestre Maurício o acusado fazia as coisas serem mais leves. Mesmo com provas de que pessoas a mando de Maurício estiveram na Alvorada, o veredito foi de que isso não necessariamente apontava que eles tinham sido os culpados.

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Nicolas praticamente conseguia ouvir a risada de Tomas, como se o irmão estivesse bem ali, atrás dele. Caso ele estivesse realmente lá, Tomas estaria rindo como forma de desaforo. Nicolas tinha pensado muito no irmão, não era surpreendente que agora ele viesse em sua mente. Tomas nunca acreditara na imparcialidade da Corte. Ele mesmo havia sido julgado por ter colocado o Ninho em risco.

Por mais que fosse seu irmão, contudo, Tomas tinha sim cometido erros. Assim como Maurício, mas para o mestre a pena estava sendo a perda de seu lugar no congresso, o afastamento da Escola dos Magos e regime aberto.

Parecia pouco. Depois de tudo, quando os olhos do Senhor do Ninho cruzaram com os de mestre Maurício no julgamento, era como se ele estivesse rindo dele, rindo de todos. E, o que era ainda pior, quando Nicolas saía de lá ouviu alguns murmúrios em favor de Maurício. Nicolas sempre ouvia Estela quando dizia que ele nunca entenderia completamente a frustração que ela e outros cientes da superfície sentiam, mas agora, mais do que nunca, ele entendia o que a senhora da Superfície queria dizer. Então era essa a sensação de impotência que eles sentiam…

No final do dia, Estela convidara Nicolas para visitar sua casa na superfície, para poderem passar um tempo juntos fora de qualquer ambiente formal. Aquilo não era novidade para ele, já tivera um namorado antes, mas mesmo assim sentia o nervosismo de ver Estela de uma maneira mais íntima e diferente.

Dessa vez ele não se perdeu, mas isso foi porque Estela mandou direções detalhadas. Nicolas saiu em uma estação de metrô perto de uma praça, de lá seguiu por uma rua e no final chegou ao prédio em que Estela morava. Era tudo muito diferente do Ninho, parecia fora de ordem, o caos das cidades da superfície.

Quando Nicolas foi atendido na porta, Estela o recebeu beijando seus lábios e por uns instantes ele até esqueceu um pouco a própria frustração. Não durou muito, mas estar ali era muito melhor do que estar na Corte. O apartamento de Estela era mais humilde do que ele havia imaginado, ou talvez ao que estava acostumado. Era pequeno, com um quarto, várias estantes cheias de objetos colecionáveis, livros e fotos. Apesar da quantidade de objetos, o apartamento era arrumado. Nicolas também percebeu que tudo em Estela indicava o quão mais confortável ela ficava ali. Ele tinha se perguntado, quando a vira na superfície, se era impressão sua ou se ela ficava realmente mais tranquila ali e mais tensa no Ninho, e agora confirmava o que havia intuído.

O cheiro do apartamento também estava ótimo. Estela tinha prometido que ia cozinhar algo para eles e, seja lá o que fosse, o cheiro estava muito bom.

— Então, o que eles decidiram? — perguntou Estela, quando Nicolas se acomodou no sofá. Quando ele suspirou, ela falou: — Vamos só acabar esse assunto antes de curtirmos o resto da noite, tá?

— Claro, tudo bem — sorriu ele. — Maurício foi afastado da Escola, perdeu o lugar no congresso e vai ficar em regime aberto.

— Já é mais do que o que eu achei que eles iam fazer, o mais importante aconteceu. — Estela sentou-se ao lado dele. — Apesar de que não tenho muita esperança na pessoa que vai entrar no lugar dele. Já tem algum nome?

— Não temos nenhuma certeza, mas a linha dos mentais está se movimentando. Talvez mestre Mariana ou Dante, se eu tivesse que apostar.

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— Seria interessante se eles chamassem alguém de cura ou elemental, eles nunca chegam nesses espaços. Um mestre de transformação já seria novidade também, eles sempre alternam entre sonhadores e mentais.

— Improvável, mas sim, a chance de ser um conservador como Maurício seria menor. — Ele passou as mãos nos cabelos. — Só estou muito frustrado, mas prometo que isso não vai atrapalhar a noite.

Estela se aproximou de Nicolas, passando o braço pelas costas e pelos ombros dele, em um gesto carinhoso.

— É chato, né? —perguntou ela. — Não me entenda mal, mas não acho que os Alba estão acostumados com frustrações assim.

— Acho que não. — Nicolas olhou na direção dela. — De onde estou é fácil só achar que está tudo bem e vai dar tudo certo. É preciso muita força para seguir nisso, parece que é dar murro em ponta de faca. É que… Ele devia estar preso, pagar pelo que fez.

— Não acredito mais que trancar essas pessoas em um lugar longe dos outros seja a resposta. Por isso acho que o mais importante aconteceu, ele ser afastado do lugar em que mais causa influência e mais pode afetar os outros. Não acho que ele vá aprender, mas pode servir de exemplo para que outros aprendam. Eu esperava que a Corte fosse “boazinha” com alguém que eles consideram um aliado, mas só de ele ter menos chance de fazer mal para os meus já é muito.

Estela se levantou para ir à cozinha, as palavras dela ressoando na cabeça de Nicolas. Quanto mais convivia com ela e mais se aproximavam, mais ele conseguia ver as coisas de outra perspectiva. Era desafiador para a forma como sempre vira as coisas, mas não era ruim no final das contas.

Enquanto continuava sentindo o cheiro bom da comida, Nicolas se levantou e foi até a cozinha, vendo Estela arrumando o prato de lámen para eles comerem. Ele precisava considerar o que ela havia dito e o que mais podia fazer para deixar as coisas melhores. Era seu papel, afinal de contas.

— Mudando de assunto, e eu vou entender se você não quiser falar… — disse ela. — Como você acha que Luci achou o anel de seu irmão? Quero dizer, você tem certeza que é o mesmo anel?

— Sim — respondeu Nicolas. — Eu não me enganaria sobre isso. Mas não tenho ideia de como ela o conseguiu — suspirou ele. — Preciso encontrá-la o mais rápido possível. Talvez ele tenha vendido quando foi mandado embora, ou ele pode ter entregado para Luci antes de sumir e agora ela começou a usar… — Nicolas balançou a cabeça. — Não sei, fazia tempo que não sentia a energia dele, foi esquisito.

— Tenho certeza de que há uma boa explicação para isso. — Ela colocou os hashis nos dois pratos. — Esse é o seu, espero que goste.

Nicolas nunca tinha comido lámen, mas adorou o prato. A conversa ficou mais leve à medida que a noite foi passando. Estela falou sobre o que fazia na superfície antes de descobrir sobre a magia, sua faculdade em ciências sociais e como tinha aprendido a receita de lámen com a mãe. Era uma vida bem diferente do que Nicolas tinha vivido, mas talvez não tivesse demorado para entender várias coisas se não tivesse ficado só rodeado da elite do Ninho.

Ele queria passar a noite inteira ali, mas ficou envergonhado de se convidar para ficar mais, por isso foi um alívio quando Estela sugeriu que ele dormisse lá. Dentro daquele apartamento, a sensação era de relaxamento e paz. Também foi de paixão, de poder se envolver com Estela de um jeito que eles nunca tiveram a chance antes, de não ter medo de se entregar ao que sentiam. Nicolas só queria que aquela noite não acabasse.

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*

Luci nunca tinha visitado a pousada da Alvorada, e era horrível ir até lá daquela forma pela primeira vez.

A ideia inicial era usar o Sonhar, mas Ingrid insistiu que elas podiam tentar ir lá fisicamente e, se sentissem algo, saberiam que o Sonhar na região estaria ainda pior. Luci sabia que Ingrid estava com medo de algo acontecer com a guardiã no Sonhar de novo, então aceitou. A Alvorada ficava na zona norte de São Paulo. Durante todo o caminho, Luci tentou se preparar psicologicamente para a cena que veria, mas não deu certo. O lugar sempre tinha sido bonito, ela já tinha visto imagens, era um espaço com várias casas que pareciam de bonecas, bem organizadas, com um jardim todo verde. Nem parecia ser um lugar na cidade de São Paulo, mas era uma das fronteiras mais pacíficas e bonitas, ou costumava ser.

O lugar estava todo queimado, não havia mais jardim verde ou o ar de casa de bonecas, não havia pessoas sorridentes e a aura de magia que ocupava a região, como era característico das fronteiras. Luci parou diante da visão de destruição, o “fogo” havia comido tudo, e ela conseguia sentir a energia pesada do pesadelo que tinha corroído o lugar. Fora muito forte, o corpo dela parecia mais pesado pelos resquícios de pesadelo que ainda estavam ali.

Ingrid se aproximou, ficando ao lado de Luci. Ela olhou ao redor, sentindo a mesma coisa que a guardiã.

— Foi horrível o que aconteceu aqui —comentou Ingrid. — Tem certeza de que quer continuar? Podemos voltar.

— Acho que vi alguma ligação no Sonhar entre Sofia e o acidente aqui — ela olhou para a sentinela. — Não tenho certeza, na verdade, mas é o que tenho. Obrigada por vir comigo.

— Eu não lhe deixaria sozinha.

Luci sorriu, sentindo as emoções se misturando em seu corpo. Então ela olhou para frente de novo, tinha que focar no que tinha vindo fazer. Não sabia o que procurava, mas tinha ouvido a voz de Sofia falando da Alvorada. Ela girou o anel em seu dedo antes de começar a andar na direção da pousada, pisando entre os destroços e entrando na casa maior, que tinha servido como recepção da pousada.

Do lado de dentro era ainda mais triste. Luci via as cadeiras, o balcão, as mesas e os quadros destruídos. Atrás do balcão havia uma passagem, assim como uma escada para o andar de cima. Antes do ocorrido, o lugar tinha cores brancas e tons pastel, mas agora era como se tivesse pegado fogo, as paredes estavam manchadas, tudo era apenas um rascunho do que um dia tinha sido.

Esse era o tamanho da importância de Luci – ela precisava impedir que aquele tipo de coisa acontecesse nas fronteiras. A guardiã observava e protegia os cientes, entendia o Sonhar e buscava manter as coisas em paz. Se ela, agora, sentia aquela dor de ver o resultado de toda aquela tragédia, Sofia devia ter se comido por dentro pensando que a culpa era sua.

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— Vamos nos dividir para acabarmos logo com isso — falou Luci. —Vou subir as escadas. Procure qualquer coisa que lembre a energia de Sofia, ou algo que explique que tipo de pesadelo veio parar aqui. Qualquer coisa que os sentinelas possam ter perdido nas buscas.

Ingrid assentiu, mas seu silêncio fez que Luci olhasse para ela novamente e visse a expressão de tristeza em seu rosto.

— Você está bem? — Luci se aproximou.

— Desculpe… — Ingrid comprimiu os lábios, tentando segurar as emoções que estavam ficando cada vez mais visíveis. — Essa energia… Alguns de nós morreram aqui. Nenhum sentinela que morre em serviço vai de uma maneira pacífica, ou é o que dizemos. Desculpe, não tem que ver com o que viemos fazer aqui, mas…

Luci abraçou Ingrid enquanto a sentinela começava a sentir as lágrimas escorrendo pelo rosto. Devia ter impedido Ingrid de acompanhá-la, se imaginasse que ela sofreria ali, não a teria colocado naquela situação.

— Lamento muito, Ingrid… — Luci sentiu os braços da sentinela a abraçando, buscando conforto.

— Estou bem. — Ingrid limpou as lágrimas, retomando sua postura. — Vamos lá. Vou dar uma olhada lá fora.

A guardiã esperou Ingrid seguir seu caminho antes de subir as escadas. A cada passo que dava, mais pesado parecia que o ambiente ficava, e ela se lembrava da sensação de estar em um pesadelo. Luci começou a tocar no corrimão da escada, em seguida nas paredes, para ter certeza de que não estava sonhando. Sabia que não estava, mas não queria cair em algum tipo de pegadinha do Sonhar. A sujeira ficou em sua mão, mas ela não se incomodou.

O andar de cima não estava tão destruído quanto o de baixo, mas o suficiente para a visão deixar qualquer pessoa mal. Os leigos já tinham se comovido com o acontecido, mesmo que não entendessem completamente o que havia destruído a pousada, e para os cientes era ainda pior. Aquele era o maior medo de qualquer um que vivia na fronteira. Quando Luci ficou presa em um pesadelo, anos atrás, poderia ter causado algo parecido no teatro. Não gostava nem de imaginar o que de pior poderia ter acontecido.

Luci deparou com um corredor comprido na parte de cima. As paredes, antes brancas, estavam manchadas por causa de tudo que tinha acontecido ali. Havia várias portas, e Luci não precisava abrir todas elas para investigar o que tinha acontecido no Sonhar, mas não queria perder a chance de encontrar algo físico que houvesse ficado para trás.

Ela deu um passo para frente, depois outro, e sentiu um estalo na cabeça. Parou. A sensação era de que conhecia aquele lugar. Luci nunca tinha visitado a Alvorada antes, disso tinha certeza, mas havia algo de familiar, que a fazia ficar assustada por causa do tipo de magia que havia ali.

A magia do Sonhar era muito complicada e exigia bastante de um ciente. Luci tocou em uma das paredes, sentindo os rastros de magia ali junto com a poeira colando na palma da mão, que começou a formigar.

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Sabia que, se ativasse a própria magia, podia entender o que tinha acontecido ali depois que o Sonhar começara a afetar a fronteira. Como no Sonhar o tempo e o espaço funcionavam de forma diferente, era quase como se ela pudesse buscar o que tinha acontecido antes. Os sentinelas provavelmente já tinham feito aquilo e não haviam encontrado a fonte, mas não era isso que ela buscava agora.

Respirando fundo, Luci lançou a magia pelos dedos.

Ela ouviu um grito.

Não era de Ingrid, nem de ninguém que realmente estivesse lá. Era um grito, agora mais de um, oriundos do momento em que o pesadelo invadira a Alvorada. Luci fechou os olhos, buscando pela energia de sua irmã, mas foi só quando os abriu que entendeu por que aquele lugar parecia tão familiar.

A guardiã precisou manter todo o eu controle para não gritar e soltar a mão da parede, quebrando sua magia. A visão era horrível, Luci sabia que não era real, mas acessando o Sonhar podia ver parte das memórias do lugar afetadas pelo pesadelo que destruíra a Alvorada. Agora ela ouvia mais gritos, o corredor estava mais afetado do que antes, com corpos no chão.

Ela já tinha visto aquilo no Sonhar, mais especificamente durante seu teste para se tornar guardiã. Era de lá que conhecia aquele lugar. Mas por que a Alvorada aparecera para ela no Sonhar antes, sendo que ela nunca tinha visitado o lugar?

Além disso, havia uma presença muito mais pesada ali do que antes, como se o lugar ainda estivesse engolido, de alguma forma, em um pesadelo. Não parecia uma energia tão caótica quanto costumava ser, era contida, como se o pesadelo que dominara o lugar tivesse um foco específico. Para um pesadelo ser controlado assim, porém, só se alguém o tivesse moldado dessa forma. Havia lendas que falavam sobre pesadelos quase cientes de sua existência, mas não podia ser algo assim, alguém teria percebido.

Adiante, Luci sentiu algo, uma presença que parecia puxar tudo para si. Uma fumaça de um tom roxo escuro se formava no fundo do corredor, Luci não sabia se estava vendo aquilo de verdade ou se era a memória do que havia acontecido. Fosse o que fosse, parecia assustador. A sensação da presença era horrível.

A guardiã tirou a mão da parede, achando que a cena cessaria por completo. Os gritos pararam e os corpos sumiram, mas a presença ainda estava ali. Luci não via mais a forma, mas continuava sentindo sua presença. O que quer que fosse aquilo, ainda estava ali, a sua frente.

De uma forma torturante e lenta, a presença começou a se aproximar.

O que aconteceu a seguir foi muito rápido. Luci deu um passo para trás, pensando se seria certo gritar por ajuda ou se devia apenas sair correndo. Talvez isso piorasse tudo, não sabia o que fazer, estava paralisada. Nunca tinha sentido um pesadelo fisicamente, fora do Sonhar. Sua cabeça estava a mil, pensando se havia alguma magia que podia usar para se proteger, se estava apenas imaginando algo como aquilo. Seria possível que nenhum sentinela tivesse percebido aquela coisa ali antes? Será que tinha aparecido depois, ou voltado agora?

Então ela sentiu algo que não soube explicar. Era como se fosse um ímpeto, uma vontade muito forte de se afastar, quase como se algo passasse por seu corpo, para se colocar à frente, tentando afastá-la. Tinha a impressão de que tinham falado em seu ouvido, mas não sabia dizer o que havia sido dito.

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Mas assim como sabia que conhecia aquele corredor, agora teve certeza de que aquela segunda presença, o que quis tirá-la dali, era a energia de Sofia. De alguma forma.

Luci deu alguns passos para trás, sentindo duas energias se chocando no corredor. Era desesperador não poder ver, só podia confiar em sua magia e em suas sensações. Enquanto estava focada no que acontecia ali, não ouviu Ingrid subiu as escadas correndo. A sentinela tinha sentido a movimentação de energia do andar de cima. Ela segurou nos ombros de Luci.

— Luci, precisamos ir! — falou Ingrid.

— Não! Não, é a energia de Sofia…

— Luci, por favor me escute. — Ela olhou diretamente para a guardiã. — A gente não sabe o que está acontecendo, mas se nós virarmos o foco não sei se temos energia para lutar contra isso. — Ela foi puxando Luci pelo braço, sem machucar, mas com firmeza. — Não podemos ficar!

Ingrid estava certa, mas Luci ainda resistiu um pouco antes de sair, olhando para trás, procurando ver alguma coisa, mas ainda falhando.

O que aquilo tudo significava?

Enquanto elas saíam da Alvorada, e sentiam a diferença de energia ao se afastar da pousada, Luci pensava em um milhão de coisas ao mesmo tempo. Ingrid confirmou que os sentinelas não encontraram nenhuma energia como aquela depois do ataque, mas dada a intensidade da força que sentiram era bem possível que o pesadelo que encontraram pudesse ser o responsável pelo desastre.

— Nunca senti nada como isso antes — disse Ingrid, parecendo assustada como Luci nunca havia visto. — Não sei nem como começar a definir. Parecia uma pessoa, mas como se fosse um pesadelo… Não me lembro nem de ter estudado tipos de energia assim. Talvez seja algo para os estudos dos mestres? Mas como não percebemos isso antes no Sonhar? Deve ser alguma anomalia.

Luci não saberia dizer, e nessa hora quase desejou que Maurício fosse uma pessoa decente, para poder consultá-lo, pois ele provavelmente saberia. Mas por que aquela “coisa” estava lá agora? E por que Luci tinha sentido Sofia? Ela não ia mais ignorar suas intuições, aquilo era ao menos algo de Sofia, mas como? Estava no Sonhar? Teria morrido e parte de sua energia tinha ficado na Alvorada? Se fosse o caso, ela devia ter morrido na própria pousada, mas por quê?

— Sei o que eu senti, Ingrid — disse Luci em dado momento, quando estavam no metrô voltando para o Ninho. Já era noite, ambas estavam cansadas e nervosas, mas Luci não conseguia parar de pensar. — Não sei como, não sei explicar, mas é ela. Eu preciso voltar lá pelo Sonhar.

Ingrid se inclinou para frente no assento do metrô. O vagão estava bem vazio, o que dava certa liberdade para elas falarem sobre o assunto sem ter medo de algum leigo ouvir.

— Você não pode ir sozinha, é perigoso! Se a gente já sentiu tudo aquilo fisicamente, imagina no Sonhar? Pode ser um pesadelo muito maior do que pensamos.

— Preciso saber o que aconteceu com Sofia. Não importa o que houver no Sonhar.

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A sentinela abriu a boca para contestar, mas fechou em seguida, sem saber o que dizer. A preocupação estava estampada em seu rosto.

— Eu sou a guardiã, Ingrid — falou Luci. — Eu posso fazer isso, você sabe.

— É claro que sei, mas nós duas também sabemos que aquilo foi muito esquisito. — Sem perceber o que estava fazendo, Ingrid segurou a mão de Luci enquanto continuava a falar. — Vamos pelo menos tentar procurar o que isso pode ser, para você ficar mais preparada.

Luci queria dizer que não era possível esperar muito tempo, porque se Sofia estivesse de alguma forma no Sonhar não podiam perder um minuto. Mas a verdade é que fazia meses que ela tinha sumido, então se estava no Sonhar… já não havia mais o que fazer.

Quando aquele pensamento a atropelou, Luci sentiu como se todo seu corpo e sua mente amortecessem. Ela encostou a cabeça no ombro de Ingrid, sem continuar a conversa. Era a opção que ela nunca quisera pensar, mas fazia sentido. O fato de Luci sentir Sofia no Sonhar podia ser porque ela acabara ficando presa e perdera a vida ficando presa na outra dimensão. Todos na torre sabiam o perigo de passar muito tempo no Sonhar; talvez algum resquício de sua magia tivesse restado, ou suas memórias que ainda haviam sobrado, mas Sofia provavelmente não estava mais ao alcance de Luci.

O metrô fez o caminho para o Ninho e Luci se endireitou no assento do metrô. Não queria que as vissem tão próximas uma da outra, não queria que a proximidade delas trouxesse problemas para Ingrid, mas não soltaram as mãos.

— Obrigada por ter vindo comigo e por se preocupar. — Luci estava olhando para a janela e virou o rosto para Ingrid quando viu o Ninho se aproximando. —Não sei o que faria se… Ah, enfim, obrigada.

— Estou com você, Luci.

A guardiã esperava do fundo do coração que aquilo não causasse problemas para nenhuma delas mais tarde, porque, quando percebeu, havia se aproximado de Ingrid o suficiente para beijá-la. Não sabia explicar direito o que sentia, só sabia que ficava muito feliz e confortável perto da sentinela. O beijo foi curto, porque logo o metrô chegou à estação da torre e talvez não fosse bom que os outros sentinelas as vissem assim. Mas o sorriso no rosto de Ingrid fez que Luci ficasse mais tranquila.

Elas saíram do metrô, as mãos afastadas agora. Enquanto Ingrid cumprimentava os sentinelas na entrada da torre, Luci pegou o celular, que tinha uma chamada perdida e algumas mensagens. Eram de Nicolas.

— Ingrid, preciso ir para a mansão Alba —disse ela, andando para perto da sentinela. — Nicolas está querendo me ver.

*

O dia tinha sido uma mistura de emoções. Luci já começara a aceitar que Sofia podia estar morta, tinha finalmente achado coragem para beijar Ingrid e agora estava entrando no escritório do senhor do Ninho porque, segundo as mensagens, ele precisava conversar urgente com ela. Por causa do horário, ela até podia ter pedido para eles conversarem no dia seguinte, mas a ansiedade no estômago não a deixaria relaxar, era melhor saber agora.

Nicolas a recebeu em seu escritório. Luci só conseguia pensar que não queria receber uma má notícia. O senhor do Ninho a olhou, baixando o olhar para a mão dela. Quando Luci percebeu que ele olhava para o anel, se perguntou se havia algo discreto que ela podia fazer para escondê-lo de alguma forma, mas Nicolas foi mais rápido:

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— Onde você conseguiu esse anel?

Luci gelou. Ela passou os dedos em cima do anel que usava. Devia ter tirado depois que voltara para a torre, mas ficara tão perdida pelo que tinha acontecido na Alvorada que nem se preocupou com isso. O anel agora fazia tão parte de sua vida que mal o percebia.

— Ganhei de Sofia — mentiu Luci, esperando que a resposta fosse suficiente.

— Foi mesmo? — Nicolas a encarou seriamente. Ele não estava bravo, mas o assunto parecia ser sério. Ele mexeu nos dedos, mostrando um dos anéis que usava. — Esse e o seu foram feitos juntos. Minha mãe deu para mim e para Tomas.

O coração de Luci pareceu parar quando ouviu aquilo.

Como assim aquele anel era de Tomas?

A guardiã tirou o anel do dedo, olhando-o e tentando compará-lo com o que Nicolas usava. Não eram parecidos, mas ela não duvidava das palavras de Nicolas.

— Mas como…? —perguntou a si mesma, mas alto o suficiente para que Nicolas ouvisse.

— Não sei, por isso estou perguntando. Ele não… — Nicolas fez uma pausa. — Nunca achei que Tomas fosse deixar isso para trás. Mas talvez, na frustração do que aconteceu, ele tenha dado isso para Sofia. Eles eram bem amigos.

Luci continuou quieta. Não conseguia se mexer. Olhava para o anel sem saber o que dizer. Nicolas não sabia, não poderia saber, mas ela só conseguia pensar em como realmente tinha conseguido o anel.

Era de Camaleão, mas como ele tinha conseguido o anel de Tomas?

As possibilidades quase faziam Luci tremer.

— Sofia nunca lhe contou sobre o anel? — perguntou Nicolas, na esperança de conseguir mais alguma informação.

A guardiã balançou a cabeça negativamente. Não confiava em sua voz para falar. Claro que era interessante para Camaleão conseguir um anel tão poderoso, e não era impossível que Tomas tivesse trocado o anel por algum favor, depois de ter saído do Ninho, ou até mesmo antes.

Luci, porém, não tinha como pensar só nisso depois das coisas que tinha visto dentro do pesadelo. Não era só isso.

— Sinto muito deixá-la preocupada com esse assunto. — Nicolas relaxou na cadeira. — Faz tanto tempo que não vejo nenhuma novidade de Tomas que… Não sei, achei que podia significar algo. Quando Sofia voltar preciso me lembrar de perguntar isso para ela.

A ironia era que, assim como eles sabiam que encontrar Tomas depois de tanto tempo era improvável, Luci estava começando a aceitar que ver Sofia de novo era cada vez mais impossível. Os dois ali tinham irmãos que não sabiam onde estavam, com seus próprios conflitos e problemas.

Agora, porém, Luci começava a entender que encontrar Tomas talvez fosse mais fácil do que Nicolas podia imaginar.

*

13. Página 13

Tudo era caos. Gritos, dor, desespero.

Você consegue sentir tudo, mas também não consegue sentir nada ao mesmo tempo, como se seu corpo flutuasse no meio de uma tempestade no oceano. Você não tem qualquer controle sobre para onde é levado, sua mente só segue o rumo em que foi colocado.

No começo, você não consegue ver nada, é como se tudo se movesse tão rápido que fica impossível distinguir formas, eram apenas vultos. Era nauseante, muito mais fácil ficar de olhos fechados e só esperar aquilo acabar. Mas não ia acabar, não se nada fosse feito para mudar aquela situação. Era preciso encontrar o controle, o foco, e tentar se livrar de todo aquele caos, que cada vez mais tomava conta de tudo.

Você respirou fundo, buscando algo estável dentro de si, era como se tudo em redor fosse se acalmando, esperando, prendendo a respiração para ver o que você ia fazer. Sua pele toda ficou arrepiada, mas é quase como se seu corpo flutuasse, descendo devagar até encostar os pés no chão, ou em uma superfície dura o suficiente para não lhe deixar cair.

Era o máximo de estabilidade que parecia existir.

Você conseguia se mover, olhar ao redor e procurar por algo, buscar a fonte de tudo aquilo, mas, independente do que fizesse, nenhuma resposta parecia estar a seu alcance. O que se podia notar é que, quanto mais tempo você ficava ali, mais o cansaço tomava conta de tudo. Era como se aquele ambiente inteiro sugasse sua energia, pouco a pouco, de forma tão sutil que só era percebido uma vez que respirar ficava um pouco mais difícil. O peito pesado não ajudava em nada naquela situação.

Havia um motivo, porém, pelo qual você estava ali, tinha que ter, porque aquilo não era normal e isso não costumava acontecer.

Então, lá longe, você conseguiu ver algo tentando se aproximar. Vinha devagar, mas se piscasse os olhos parecia que a figura havia se aproximado mais do que o esperado. O espaço era esquisito ali, não funcionava da forma que as coisas deviam funcionar.

A primeira coisa que dava para notar eram os olhos grandes e escuros. O rosto era de uma mulher, com cachos longos e tão escuros quanto seus olhos e sua pele. Era uma mulher bonita, mas sua expressão era de preocupação. Quase de desespero. Ela queria se aproximar de você o máximo que podia, mas parecia evitar tocar você.

Ela falava, seus lábios se moviam com rapidez, mas para seus ouvidos era como se ouvisse uma estática de rádio. A mulher pareceu notar, talvez fosse sua expressão de confusão que a fez compreender que você não entendera nada. Apesar de a frustração aumentar cada vez mais, a mulher possuía um autocontrole muito grande. Ela continuava lutando para lhe passar uma mensagem.

Então ela começou a gritar e, no meio da estática e de todo o caos ao redor de vocês, parecia que uma voz se formava. Não dava exatamente para ouvir, era mais como sentir o que estava sendo dito, no fundo do peito.

O que a mulher estava tentando dar era um aviso, fazer um pedido para você fugir, se afastar e se proteger. Mas do quê? Ir para onde? Antes que você pudesse pensar em elaborar uma pergunta, a expressão da mulher ficou ainda mais desesperada, e no ímpeto de se fazer entender ela tocou em seu braço.

Tudo desmoronou como em uma avalanche.

Mais de uma pessoa teve pesadelo com Sofia naquela noite.