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A primeira coisa que Helena notou foi que não mais sonhava. Estava acordada e seu corpo se agitava. Aquilo era importante, porque há poucos instantes estava tendo um pesadelo. Não era dos maiores e mais preocupantes, mas aqueles que deixavam a pessoa agitada quando acordava e podia significar algo importante. Ao se sentar na cama, sentindo a testa suada, percebeu que Giovani estava se remexendo também, agitado. Antes que ela pudesse tentar acordá-lo de seu pesadelo, ele abriu os olhos, parecendo tão afetado quanto ela.

— O que aconteceu? — perguntou Giovani acelerado, notando que Helena o encarava.

— Você estava tendo algum tipo de pesadelo, acho — disse Helena, enquanto ele se sentava. — Está tudo bem?

Caso Helena fosse uma leiga, apenas acharia a situação curiosa, ambos tendo pesadelos ao mesmo tempo. Levantaria, beberia um pouco de água, talvez conversasse com o marido e voltasse a dormir como se nada tivesse acontecido. Mas sua vida agora fazia parte de um contexto em que pesadelo, sonho e magia tinham outro significado. Duas pessoas terem um pesadelo ao mesmo tempo, em uma fronteira, dado o que já tinha acontecido ali, não era algo leviano.

— Mais ou menos, só tive um sonho chato — suspirou Giovani. — Por que você está acordada?

— Acho que tive um “sonho chato” também.

Os dois se entreolharam e finalmente Giovani entendeu o que Helena tinha pensado ao vê-lo tendo um sono agitado. Helena quase conseguia ver, nos olhos escuros do marido, ele fazendo a mesma linha de raciocínio que ela. A expressão dele foi mudando, assim como a dela própria, enquanto buscavam na memória com o que tinham sonhado.

Lembrar sonhos não era a tarefa mais simples, assim como a magia, que era um conhecimento que podia fugir de sua mente com a falta de contato. Sonhadores costumavam lembrar sonhos com muito mais facilidade, afinal essa era sua ferramenta e estavam acostumados em como tudo funcionava quando se tratava do Sonhar. Carmela tinha ensinado Giovani como não deixar o fio dos sonhos sumir completamente, pensando bastante no sonho quando acordasse no dia seguinte. Ainda era de noite, o quarto estava escuro, mas tanto ele quanto Helena agora buscavam lembrar o que tinham sonhado que os deixara tão alerta.

Então a lembrança veio como se os atropelasse.

Ambos tinham sonhado com Sofia.

Eles nem precisaram falar um para o outro, apenas os olhos arregalados e marejados deles já deixavam muito óbvio com o que os dois havim sonhado. Agora que Helena conseguia visualizar seu sonho, tinha a impressão de que tinha sido muito real, quase como se fosse uma lembrança perdida pelo tempo, não algo com o que tinha acabado de sonhar.

Giovani se levantou da cama, acendendo a luz e procurando a primeira roupa para vestir. Eram as roupas do último espetáculo, que tinha deixado em cima da cadeira, mas isso era o que menos importava agora. Helena fez o mesmo.

— Precisamos falar com Luci — dizia Giovani, enquanto se vestia de qualquer jeito. — Ou com qualquer sentinela acordado. Precisamos falar agora!

Helena concordava com a cabeça, terminando de se vestir. Enquanto Giovani pegava seu celular, Helena foi até a mesa de cabeceira de seu lado da cama. Procurou pelo colar, aquele que tinha ganhado de Sofia, que usara para perceber que Gabriel estava usando magia do Sonhar na fronteira. Desde o acontecido, sempre tentava mantê-lo por perto.

Por um segundo, Helena sentiu como se as coisas estivessem desacelerando. Pensou que sua pressão talvez tivesse caído, ou poderia estar com a visão um pouco embaçada por ter se levantado da cama tão rápido. Foi muito rápido que a sensação passou por ela, o que fez que não pensasse muito sobre o assunto. Até pegar o colar e ver sua cor.

O pingente branco estava em um tom roxo igual ao de um pesadelo.

— Giovani!

E o mundo parou.

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Luci abriu os olhos. Estava suando, seu corpo estava esquisito. A guardiã se levantou depressa, como se precisasse sair logo dali, com uma sensação de urgência que tomava conta de tudo. O quarto estava escuro, mas notou que suas mãos tremiam quando se apoiou na parede para se levantar.

Sua cabeça estava doendo. Colocou a mão na testa, tentando recuperar o fôlego. Não era uma fraqueza como no dia em que abordara Maurício, mas com certeza não era uma sensação boa. Sabia que não era porque havia decidido se jogar em um pesadelo sem supervisão, ou ao menos com uma supervisão duvidosa.

Ela havia sonhado com Sofia.

Luci se vestiu rapidamente, ainda colocando o casaco enquanto andava pelos corredores da Torre. Um ou outro sentinela a viu, sem lançar nenhum olhar estranho em sua direção e apenas a cumprimentando. Não era a primeira vez que eles viam a guardiã descabelada, apressada e parecendo que ia fazer alguma coisa em um horário esquisito. Mas talvez, naquela noite, alguém devesse ter parado Luci.

O observatório estava vazio, como de costume naquele horário. As janelas do lugar mostravam a noite sob o Ninho, a impressão falsa de que eles podiam ver as estrelas no céu. Ela deu pouca importância para o que havia além da janela. Estava agitada e determinada ao mesmo tempo. Tinha sonhado com Sofia, sabia que era ela, ou algo que restara dela, não importava. Era forte demais para ser ignorado ou apenas alguma manifestação do próprio subconsciente de Luci. Ela não podia esperar até de manhã para resolver essa questão. Talvez devesse ter chamado Ingrid, mas sabia que estava fazendo algo arriscado, que ia pisar em uma área do Sonhar com grandes chances de ser um pesadelo. Luci conseguia ser irresponsável com ela mesma, não com alguém com quem se importava.

— Desculpe, Ingrid —murmurou Luci para si mesma enquanto pegava na maçaneta de uma das portas a sua frente. A sentinela ficaria muito brava de saber que ela tinha saído sozinha, mas era uma emergência.

Para onde deveria ir? Não tinha nenhum lugar em mente, não tinha ideia de por onde começar, só sabia quem queria encontrar e aquilo já não tinha funcionado muito bem nas outras buscas por Sofia.

Isso não podia impedi-la agora. Os outros sentinelas não eram ela, Luci tinha poder e conexão suficientes com o Sonhar e com sua irmã para ir mais longe. Sem contar que agora tinha uma pista fresca, por mais que não fosse muito certeira. Respirou fundo, se concentrou e fechou os olhos, visualizando o pesadelo de novo. Não havia um cenário muito certo para se guiar, mas colocou a mente na memória de seu sonho da melhor forma que pôde. Sentiu a magia fluindo pelas mãos, ativando a porta do observatório.

E entrou.

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Luci girou ao redor de si mesma, perdendo completamente o equilíbrio quando deu o passo para frente. Estava em um lugar muito menos instável do que tinha sido seu sonho, sentia como se uma rajada de ar tivesse batido contra ela, fazendo-a perder o equilíbrio. Não conseguia ver nada com clareza em seu redor.

Com certeza estava dentro de um pesadelo, seu corpo inteiro formigava, como se fosse um grande alarme de perigo enquanto tentava ficar parada, retomando o equilíbrio. Será que um pesadelo, ou alguém criando um, tinha colocado um sonho em sua cabeça para forçá-la a ir até ali? Será que ela tinha acertado e caído no mesmo lugar do Sonhar que vira enquanto dormia?

A guardiã já teria vomitado se estivesse no plano material, mas ficou apenas sentindo o enjoo enquanto pendia para frente, ficando de joelhos e tateando o chão, tentando manter o corpo parado. Além disso, sentia as batidas do coração, que estavam muito mais aceleradas do que deveriam, aumentando o desconforto. Parecia que estava no lugar certo, havia algo de familiar aí, por mais esquisita e desconfortável que fosse a situação.

Não tinha ideia da dimensão do pesadelo em que havia se colocado. Não conseguia determinar onde ele acabava, onde começava, não conseguia captar nada com seu alcance mágico, só sabia que estava dentro de um pesadelo. Luci não tinha ideia do que estava acontecendo, mas seguiu engatinhando pelo que parecia ser o chão, não levantando muito a cabeça porque até mesmo isso era difícil.

Talvez devesse ter chamado Ingrid mesmo, tinha sido arrogante ao pensar que conseguiria entrar às cegas assim, sem ajuda, enquanto seguia um pesadelo. Ingrid poderia ter ficado do lado de fora e agora tentaria tirá-la dali. Ou não – se aquele pesadelo fosse tão poderoso quanto parecia ser, talvez nem com ajuda Luci consertaria d decisão estúpida que tinha tomado. Sentia como se todo o ar acima de seu corpo tivesse virado matéria concreta e pesasse sobre ela, cada movimento ficava mais difícil.

Ela baixou a cabeça ainda mais, encarando as mãos e os braceletes nos pulsos. Os braceletes de guardiã eram chamativos, feitos para causar impacto. Sua linha de pensamento estava frenética. Ela não era merecedora daqueles braceletes, ao menos deveria tê-los deixado do lado de fora para que, caso se perdesse ali, uma pessoa mais capaz pudesse herdá-los.

Entrar naquele pesadelo fora um erro, assim como tinha sido toda a história até aquele momento, no final das contas. Essa certeza ia tomando o peito de Luci. Ela já havia pensado nisso antes, e por algum tempo se convencera de que agora as coisas dariam certo, depois de ter resolvido parte das questões das fronteiras, mas não sentia mais que isso era verdade. Perseguir um pesadelo a esmo, por causa de uma pequena esperança de achar Sofia, que podia estar morta, era irresponsável. Que tipo de guardiã faria aquilo?

Era nisso que Luci não queria pensar muito, mas que tomou seu cérebro de uma vez naquele momento. Mesmo que tivesse algum resquício de magia e memória de Sofia ali, presa no Sonhar, ela não podia estar mais viva. Era muita ingenuidade pensar que, depois de meses sem respostas ou qualquer sinal, ela ainda estava viva e apareceria, fazendo que todos pudessem voltar para a vida normal de antes, que Luci pudesse voltar para a superfície e fingir que nada aquilo havia acontecido.

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A vida de Luci nunca mais seria como antes e esse pensamento também era assustador. Ela não podia mais fingir que a magia e a verdade sobre os cientes não existiam, enquanto ficava na superfície entre leigos. Talvez fosse melhor ela apenas esquecer, sair andando para longe de tudo e deixar a mente esquecer que magia existia, como um sonho qualquer.

Tinha entrado no Sonhar tão determinada, tão cheia de vontade de descobrir a verdade e resolver aquela situação de uma vez por todas… Mas agora estava engatinhando no chão, quase sem conseguir se mover pelo peso do pesadelo em seu redor. Sentia que algo ia sugando sua vontade de ficar de pé. Pensar de forma lógica ficava cada vez mais difícil, enquanto os piores pensamentos iam tomando conta de sua mente…

…Porque ela estava em um pesadelo.

Quando aquele estalo veio em sua mente, Luci sentiu toda sua força voltando. Ela estava no meio do que era possivelmente o maior pesadelo que tinha visto em sua vida, e é claro que estava se sentindo como se não pudesse fazer nada. Era esperado que todos os piores pensamentos afetassem sua mente naquele momento. Mas ela precisava quebrar o fluxo de pensamento e se levantar, ainda mais porque tinha mais facilidade para identificar aquele tipo de situação. Outra pessoa poderia ainda estar no chão – não ela. Gemendo de dor pela força que fazia, Luci ergueu a cabeça e começou a ficar em pé de novo, vendo o nada que se formava por todas as direções que ela via em seu redor.

Estava ali por um motivo e não ia sair antes de ter respostas.

Luci respirou fundo e começou a seguir em frente; ia de maneira acelerada, aquilo não era apenas um passeio. Em sua mente, juntando a magia que tinha, começou a usar as ondas do Sonhar para chamar por Sofia. As coisas pareciam tão reais que ela conseguia ouvir a própria voz gritando por sua irmã, por mais que sua boca não se mexesse.

Por um tempo, que a guardiã não sabia mais dizer se tinham sido minutos ou horas, ela só seguiu andando do nada para o nada. Luci controlava a sensação desesperadora que aquilo causava. Sabia que estava cada vez mais longe da porta pela qual havia entrado, mas aquela podia ser a única chance de entender o que estava acontecendo.

Ela parou de repente quando sentiu que seu pé pisou em algo gosmento e escuro, como se fosse lama. Luci se abaixou e tocou a gosma com os dedos. Era como se o próprio Sonhar estivesse deformado naquela área, uma mistura da dimensão dos sonhos e a real. Assustada, a guardiã se levantou e limpou a substância na calça. Mudar as formas do Sonhar daquele jeito não era algo simples. Que tipo de pesadelo era aquele?

Luci continuou a caminhar, sentindo seus pés grudando um pouco na substância gosmenta. À medida que andava, seus pés afundavam ainda mais. Luci hesitou, não queria afundar em um mar de gosma de pesadelo e ficar presa. Ela olhou adiante, para o nada. Podia tentar seguir, pelo menos mais um pouco antes de afundar. Decidiu continuar andando. Aos poucos, a gosma começou a tomar conta de seu tornozelo, subindo pela panturrilha e chegando às coxas.

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Quando a gosma já estava batendo em sua cintura, Luci notou algo logo adiante. Era como se fosse uma forma daquela gosma, só que sólida, construindo um casulo. Estava um pouco acima do nível da gosma. Não era como se flutuasse, apenas como se estivesse presa ali. Luci avançou até aquela forma diante dela. Tinha cerca de um metro e meio de comprimento e emanava muita energia. Não era a mesma do pesadelo, não exatamente, parecia uma anomalia ainda maior naquela situação toda, que já era esquisita por si só.

A guardiã encarou a forma diante de si, tentando procurar em suas memórias o que aquilo poderia ser, mas não tinha a menor ideia. Ela tocou o casulo com a palma da mão e sentiu algo, uma energia, um grito vindo de dentro como um relâmpago:

— Luci!

Um soluço subiu repentino por sua garganta. Ela conhecia aquela voz, aquela energia, sabia muito bem que era Sofia. A magia da guardiã e da irmã deviam ter se encontrado de alguma forma no meio do Sonhar, o que guiou Luci para aquele ponto.

Ela ergueu as mãos e juntou toda a magia que conseguiu, se aproveitando do anel de foco que estava em seu dedo. Luci acumulou o poder nas palmas de suas mãos, usando até mais energia do que talvez fosse aconselhável no meio de um pesadelo. Não importava. Luci tinha muita certeza do que devia fazer agora.

De uma vez, ela enfiou as mãos naquele monte de gosma, sentindo a textura desagradável, mas também percebendo que a magia fazia efeito. Ela ouviu o barulho de algo se rachando, e percebeu que havia quebrado parte do casulo. Ainda mais determinada do que antes, Luci foi puxando as partes que fechavam aquele casulo, quebrando-as e jogando para trás.

Quanto mais destruía aquela forma, que parecia cada vez menos oferecer resistência, era como se entendesse do que aquilo era feito. Conseguia sentir com muita certeza agora a energia de Sofia ali, aquele casulo era obra de sua irmã. Luci começou a sentir uma dor tomando conta de sua cabeça, sabia que estava usando magia demais, mas não podia parar agora.

Luci deixou sair um som do fundo da garganta, tamanha a força e magia que ela usava para terminar de destruir aquele casulo. Aos poucos, não havia mais nada entre ela e o que estava guardado nele.

A guardiã inclinou o corpo, sentindo a respiração pesada com o esforço que tinha feito. Mas não durou muito tempo, logo em seguida ela se endireitou e olhou para dentro do que restara do casulo.

Havia uma pessoa ali.

Sofia.

Era surreal para Luci ver o rosto de sua irmã de perto de novo, sem ser em algum sonho ou qualquer peça do Sonhar. Sabia que era Sofia, conseguia sentir e ver. Os cabelos estavam bagunçados, por toda a parte do rosto, que estava consideravelmente mais magro. Luci sentiu o choro subindo pela garganta.

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Será que estava viva? Luci não sabia dizer. Quando a guardiã tocou em seus braços, não sentiu a irmã gelada como um cadáver, mas dizer que era uma temperatura normal para um ser humano também não parecia uma afirmação correta.

— Sofia? — chamou Luci, com a voz trêmula e emocionada. Ela chacoalhou a irmã de leve. — Sofia, acorda!

A mão de Luci estava trêmula. Não podia ter chegado tão longe apenas para descobrir que Sofia estava morta dentro de um casulo em um pesadelo. Isso não era justo, depois de tudo… Sofia era forte, tinha que estar viva. Mas como ela tinha ido parar ali? Por quanto tempo tinha ficado daquele jeito?

Era como se o próprio Sonhar tivesse ouvido os pensamentos de Luci. As pálpebras de Sofia estremeceram. Luci prendeu a respiração, parecia que os segundos tinham virado horas antes de Sofia abrir os olhos.

Luci não conseguia dizer nada.

Ela se inclinou para frente enquanto se deixava chorar. Sofia estava viva, ela estava ali, tinha encontrado sua irmã e aquela loucura de entrar no pesadelo não tinha sido em vão. Parecia brincadeira, Luci sentia o corpo tremer, mal lembrava que estava coberta de gosma até a cintura. Ela percebia que Sofia estava diferente, fraca. Sofia se moveu, encarando Luci. Da melhor forma que pôde, a guardiã abraçou a irmã, ainda deitada no que restara daquele casulo estranho. Luci sentiu os braços fracos de Sofia a abraçando de volta.

— Torci tanto para você me encontrar… — A voz de Sofia estava mais baixa que o normal. — Quando senti sua presença começando a caminhar no Sonhar…

— Você me chamou? — Luci se afastou para encará-la. — Hoje, aqui?

— Chamei, tentei, eu tentei muitas vezes… — A expressão de Sofia mudou — Eu estava sentindo a movimentação desse pesadelo… — Ela tossiu enquanto falava, sem conseguir terminar a frase.

Luci tinha que tirá-la dali. Elas não podiam ficar ali por muito tempo, Luci precisava tirar Sofia de lá o mais rápido possível, era mais seguro para as duas saírem do Sonhar o quanto antes.

— Você me explica depois que chegarmos ao observatório. Vamos.

Luci ajudou Sofia a se sentar no casulo e a descer em direção à gosma. Agora que a via de pé, estava ainda mais chocada com o quão magra sua irmã estava. Parecia que não comia há muito tempo. Sofia tentou retrucar alguma coisa, mas seu corpo cambaleou um pouco no processo. Ela deixou um dos braços ao redor dos ombros de Luci e começou a acompanhar seus passos. À medida que andavam, elas se distanciavam mais da área mais pesada do pesadelo, onde o casulo estava. O nível da gosma ia diminuindo, fazendo que fosse mais fácil para elas andarem.

— Você precisa… — começou Sofia.

— Focar na porta da torre, eu sei, estou fazendo isso — interrompeu-a Luci.

— Não, eu sei que você sabe disso. Quero dizer que você precisa me escutar, não dá tempo de esperar a gente cruzar a porta…

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Sofia parou de repente, cortando a própria fala e se virando para outro lado. Elas já tinham se livrado de boa parte da gosma, só havia um pouco ainda na altura de seus pés. Era como se uma força estivesse tomando conta de Sofia, ela não parecia mais tão frágil quanto antes. Luci se virou para a mesma direção, só agora percebendo que uma presença se aproximava. Talvez fosse isso que Sofia tivesse sentido.

Dentre as formas do pesadelo, ambas viram uma figura conhecida aparecer. Ambas sabiam bem quem era aquela pessoa.

Camaleão estava sem seu chapéu e sua expressão era mais séria que o normal, porém suas roupas continuavam sem um detalhe fora do lugar. Luci prendeu a respiração, não havia percebido a presença dele, talvez por ter usado muita energia mais cedo. Mas Sofia parecia estar alerta.

— Você estava aqui, então — disse ele.

— Camaleão? O que você está fazendo aqui? — perguntou Luci, dando um passo na direção dele, mas sendo parada pelo braço de Sofia, que se colocou a sua frente — O que está acontecendo?

— Como você quer ser chamado para essa conversa? — perguntou Sofia, séria e mais firme do que estava antes. — Tomas? Juliano?

Para nenhum dos dois aquilo parecia ser uma novidade, mas Luci arregalou os olhos e colocou a mão na frente da boca.

Ela já havia entendido a conexão entre a persona de Camaleão e Tomas. No dia em que Camaleão testara a resistência a pesadelos de Luci no Sonhar, ela tinha entrado na mente dele por acidente e vira as memórias de Tomas. Mas Juliano…? Como? Luci sentia sua cabeça girando, tamanha a confusão.

Juliano era Camaleão esse tempo todo? Ambos uma persona criada por Tomas com suas habilidades de magia de transformação?

— Como você preferir —respondeu ele, quase parecendo triste com a provocação.

— Espera aí! — Luci se desvencilhou do braço de Sofia, dando outro passo para frente. — Como assim? Você é…?

— Com qual dos nomes você está surpresa, Luci? — Ele finalmente olhou na direção dela. —Imaginei que você tivesse entendido que eu era Tomas quando viu minhas memórias. Foi uma falha de minha parte, eu não imaginei que seus poderes reagiriam daquela forma.

— Mas você… — Luci balançou a cabeça — Juliano…? Eu não entendo.

— Também demorei para entender —completou Sofia. — Eu o conheci como um curandeiro primeiro.

— Você está brava comigo, eu entendo, Sofia.

Aquela cena era completamente fora do que Luci imaginava que podia presenciar um dia. Camaleão, Tomas ou Juliano, parecia realmente chateado e triste. Já Sofia, mesmo parecendo fraca, tinha tomado uma postura mais firme. Parecia que ela estava lutando internamente entre a raiva e a frustração.

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— Brava é uma forma de descrever, sim. Tomas, você… — Ela apertou os lábios, demorando um pouco para continuar. — Você não aprendeu nada?

— Aprendi sim, mas precisava saber mais.

— Foi ele quem fez isso com você? — Luci se aproximou da irmã de novo — Foi ele quem prendeu você aqui?

— Não, mas eu não vou tirar a parte dele da culpa do que aconteceu. — Ela continuava falando enquanto encarava Camaleão. — Entrei no Sonhar para entender o que estava acontecendo com os pesadelos e, quando entendi o que era, tentei impedir que ele os usasse para machucar mais pessoas. A Alvorada aconteceu porque Tomas não aprendeu que não pode brincar com a vida dos outros usando o Sonhar.

Luci arregalou os olhos mais uma vez, ficando ainda mais chocada com aquela revelação. Ela ainda acreditava que a Alvorada tinha sido culpa de Maurício, por mais que o mestre jurasse que não.

Parecia que, ao menos nesse ponto, Maurício havia dito a verdade.

— Mas… Encontraram ligações do acontecimento com Maurício… — Luci começou, depois ela se virou na direção de Camaleão — As provas que você encontrou…

— Não eram falsas, antes que você me acuse — disse Camaleão. — Maurício de fato estava mexendo com coisas que ele não deveria nas fronteiras. A prova era legítima e ele foi preso por isso. Eu nunca provei que a Alvorada era culpa dele, mas eu sabia que as pessoas relacionariam os fatos.

— E não fez nada para impedir que o que você fez fosse colocado como culpa de outra pessoa — completou Sofia.

— Sofia, por favor! — falou Camaleão. — Maurício nunca foi inocente, ele também não precisava ter incentivado que eu fosse exilado, mas incentivou. Carma. Ele cometeu crimes o suficiente para merecer perder todos os títulos.

— Dois errados não fazem um certo, você acabou com uma fronteira para fazer um teste! Você trouxe o guardião do pesadelo para perto de cientes…

— Como?! — gritou Luci. — Como assim?!

— Eu nunca quis que o Guardião do Pesadelo destruísse a Alvorada, mas esse “teste”, como você chama, me tirou muitas dúvidas que podem salvar vidas no futuro. Você pensa nisso, Sofia? Em quantas pessoas podemos salvar de pesadelos?

— Não ao custo de outras vidas!

Dizendo isso, Sofia ergueu as mãos e Luci sentiu a magia dela. Não estava tão estável como costumava ser, mas ainda era forte o suficiente para chamar atenção. O chão em que Camaleão estava pisando começou a ficar mais mole, como a gosma que estava na área do pesadelo. Camaleão moveu o pé de lugar.

— Você é forte, Sofia, mas não tem forças para me prender, não agora, depois de meses presa no Sonhar.

Meses presa no Sonhar. 

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Aquilo ressoou fundo na mente de Luci. Sofia estava aquele tempo todo mesmo dentro do Sonhar? Mas como tinha sobrevivido? E o que era aquela história do Guardião do Pesadelo? Era uma lenda, não era? Ou será que os documentos em que Sofia andava mexendo provavam que a criatura existisse de verdade?

Não havia como descobrir nesse momento, nenhum deles ia parar para explicar o que estava acontecendo direito, ainda mais agora que Sofia tentava prender Camaleão – mas como ele mesmo havia dito, ela estava fraca demais para conseguir.

Ou ao menos para conseguir sozinha.

Camaleão usou a própria magia para mudar a forma do Sonhar em seu redor, impedindo que qualquer coisa o prendesse. Sofia deu um passo para trás, sentindo a magia dele contra ela. Em um combate direto normal, era provável que ela conseguisse vencer, ou pelo menos causar mais dificuldade para Camaleão, mas não naquela situação, não depois de ficar meses ali dentro. Sem contar que, sendo Tomas, Camaleão era muito bom em magia sonhadora.

Luci não sabia como modificar as formas do Sonhar a ponto de conseguir prender Camaleão, mas ela podia fazer outra coisa. Primeiro ela gritou o nome de Ingrid em sua mente, com toda a força que podia, sentindo que havia alcançado o subconsciente da sentinela. Da forma mais calma que conseguiu, tentou enviar a mensagem de que ela fosse para o observatório. Se Ingrid não estivesse dormindo, não receberia a mensagem.

Depois, concentrou-se na luta de magia entre Sofia e Camaleão. O Sonhar estremecia ao redor dos dois. Luci conseguia ver as energias tomando forma no espaço vazio entre eles e Sofia não estava com a vantagem. Luci se concentrou, voltando a sentir a dor de cabeça mais forte, mas conseguiu reunir energia o suficiente para bloquear a onda de magia de Camaleão que ia na direção de Sofia. Ele percebeu no mesmo momento, voltando seu olhar e sua atenção para Luci.

Quando a magia de Camaleão começou a vir na direção dela, afetando sua concentração, ela entendeu que ele não queria machucá-las muito, apesar de que o faria, se precisasse. Ele queria tempo suficiente para fugir, mas elas não podiam permitir isso. Luci acreditava em Sofia, e ela tinha dado motivos suficientes para Luci acreditar que Camaleão devia ser detido.

Enquanto Luci tentava bloquear e conter o dano da magia de Camaleão contra ela, Sofia voltou a fazer o que havia começado antes, modificando as formas do Sonhar para prendê-lo. Quando ele percebeu, tentou se desvencilhar novamente, se movendo fisicamente – mas com sua atenção na magia de Luci, era mais complicado.

Era irônico que Luci só tivesse a força que tinha agora porque Juliano, o próprio Camaleão, a ajudara. Mas talvez ele nunca tivesse imaginado que ela teria força para vencê-lo com a própria magia. O que provavelmente não teria – Luci conseguia sentir a intensidade da energia dele e sabia que ele era mais forte. Mas ela não estava sozinha enquanto o encarava e sua magia era forte o suficiente ao menos para contê-lo enquanto Sofia seguia com seu plano.

Enfrentamentos mágicos diretos assim eram exaustivos e Camaleão não era tolo. Ele não ficava parado no mesmo lugar tempo o suficiente para ser pego, mas Sofia não teria sido o prodígio que era se não tivesse os próprios truques.

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Com uma alavancada de magia que fez o Sonhar ao redor deles tremer literalmente, Sofia soltou um grito e ergueu os braços, conseguindo fazer que a gosma subisse de uma vez, cobrindo boa parte do corpo de Camaleão. Ele se debateu e gritou alguma coisa que elas não conseguiram entender, mas não adiantava: ele havia sido pego desprevenido. Luci sentiu a magia dele se esvaindo e agradeceu muito a Sofia por ter conseguido fazer aquilo. Aos poucos, a gosma ao redor de Camaleão foi endurecendo, formando um casulo que o prendeu no lugar.

Quando Luci olhou para a irmã, viu Sofia perdendo o equilíbrio de novo. A guardiã se aproximou e viu que a irmã sangrava pelo nariz e pela boca, parecendo ainda mais fraca do que antes.

— O que você fez? —perguntou Luci ao se aproximar.

— O que era preciso. Estou fraca, mas precisamos sair daqui e levar o casulo conosco. Talvez ele consiga se soltar se o deixarmos ele aqui.

Luci não pensou duas vezes. Enquanto empurrava o casulo em que Camaleão estava preso, fez a mesma magia de antes para pedir que Ingrid a encontrasse no Sonhar, que seguisse o traço de sua energia até onde elas estavam. Depois de algum tempo, a sentinela surgiu diante das duas irmãs e a expressão de Ingrid se modificou completamente quando viu Sofia. Seu rosto não escondia sua surpresa.

— O que está…? — começou Ingrid.

— Depois eu explico, me ajude. Vamos! — falou Luci.

A sentinela não perguntou mais nada, até porque conseguia ver que algo sério estava acontecendo ali. Ajudou Sofia a andar enquanto Luci empurrava o casulo até passarem pela porta do observatório. Sofia caiu no chão pela mudança repentina de uma dimensão para a outra, e a única coisa que a impediu de se machucar foi o apoio de Ingrid.

A substância do casulo fora do Sonhar era muito esquisita, parecia menos espessa do que era do lado de dentro. Luci nunca tinha visto aquele tipo de magia se moldar no Sonhar, mas não tinha muito tempo para ficar pensando nisso.

— Precisamos guardar isso em algum lugar — disse Luci sobre o casulo. — Há uma pessoa aí. E precisamos achar um curandeiro para você, Sofia.

— Ainda não, tem outra coisa. — Sofia segurou o braço de Luci. — Eu não procurei só por você essa noite, Luci. Eu senti sua presença mais palpável depois que você visitou a Alvorada.

— Mas como…?

— Me escuta! — Sofia tossiu, enquanto limpava o sangue que voltava a escorrer pela boca. —Passei muito tempo no Sonhar e comecei a entender um pouco como o Guardião do Pesadelo funcionava, a entender que ele é real. Ele está agitado com o que Camaleão tem feito e com as interferências de Maurício, ele sente tudo o que acontece. E acho que ele está indo na direção do teatro.

Luci não aguentava mais notícias que faziam sua cabeça doer, mas aquela era a pior delas, com certeza. Ela podia perder algum tempo perguntando como Sofia sabia daquilo, mas se fosse verdade, e Luci não estava disposta a ficar duvidando, cada segundo que elas perdiam era precioso. A guardiã se lembrava muito bem do que tinha visto na Alvorada e não queria imaginar que o teatro pudesse ficar daquela forma.

— Ingrid, ache um curandeiro para Sofia e junte os sentinelas para irem ao teatro.

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— Onde você vai? — perguntou a sentinela.

— Pelo Sonhar eu vou mais rápido.

Era mais uma ideia não muito sensata que Luci tinha naquela noite, mas a primeira até que tinha dado certo, então apostaria mais uma vez. Ingrid e Sofia começaram a protestar contra o plano de Luci. Os sentinelas tentavam resolver as questões de pesadelo no Sonhar, mas com um pesadelo tão grande como aquele era muito perigoso usar as portas daquele jeito, ainda mais sozinha.

Mas se aquilo fosse verdade mesmo, Luci não queria nem saber. Ela conseguiria usar o Sonhar para ir mais rápido até o teatro. Se tudo estivesse bem, ou ainda tivessem tempo, não teria problemas além de um pesadelo chegando perto da área. Mas se o pior já tivesse acontecido, o plano material e o Sonhar estariam tão misturados que Luci poderia tentar usar a conexão entre os dois para sair de perto do pesadelo e entrar no teatro em sua forma física.

Ao menos em teoria.

Luci segurou a maçaneta, pensou no teatro e ativou sua magia. Ainda ouvia os protestos para não ir quando passou pela porta.

*

Muitos magos sentiram o que havia acontecido. O impacto era muito semelhante ao que ocorrera quando a Alvorada foi atacada. Os magos do Ninho, a menos que estivessem observando o teatro, não saberiam, mas os da superfície sentiram quando aconteceu.

Estela acordou no meio da noite, com o celular tocando e inúmeras chamadas perdidas. Era Otávio, assistente de Juliano. O rapaz contou que tinha saído com os amigos de noite e teve aquela sensação, como se afetasse todos os magos que estavam relativamente perto da região. Não foi só ele que ligou para Estela naquela noite. Os cientes da superfície tentavam ajudar os outros e, já tendo a experiência da Alvorada, começaram a checar uns com os outros nas fronteiras para ver quem tinha sido atingido.

A senhora da superfície se vestiu com pressa, já tomando o rumo do lugar que Otávio dissera que tinha sido atingido. Estela tentou repetir várias vezes para si mesma de que aquilo não era verdade, que tinha sido apenas um engano de algum ciente que teve um pesadelo ruim.

Mas nenhum dos cientes da superfície brincaria com isso, principalmente nos últimos tempos. Ninguém se enganaria com algo tão grave assim, a ponto de várias pessoas tentarem entrar em contato com ela no meio da madrugada. Não podia ser apenas uma brincadeira, por mais que Estela desejasse que fosse.

Depois de pegar o metrô, ela começou a descer a rua com pressa, até não estar mais andando e sim correndo. Com um quarteirão de distância, ela parou com o susto e o peso no coração de que não era mentira: o que estava vendo era bem real e tão horrível quanto ela imaginava que tinha sido o começo do desastre da Alvorada.

O teatro de Giovani e Helena estava tomado por uma aura forte e pesada, com partes do Sonhar aparecendo fisicamente, os tons roxos escuros tomando conta da construção e ameaçando começar a passar para a rua. Algumas pessoas estavam mais perto que ela, olhando ao redor, e era bem possível que parte delas não fosse ciente, o que deixava a situação ainda pior. Não deveria demorar muito para que algum veículo de imprensa aparecesse ali, ou até alguma autoridade da superfície, o que dificultaria a vida de todos. Ela precisava de ajuda, precisava de sentinelas e magos mentais para controlar a mente das pessoas ao redor.

Quando fez a ligação em seu celular, demorou um pouco para que Nicolas atendesse. Ela foi muito direta:

— O teatro está sendo atacado.