1. Página 1

2. Página 2

Estar fora do Sonhar, depois de tanto tempo, era uma sensação esquisita. Parecia que tudo estava fora de lugar, que as coisas eram mais mecânicas, e para Sofia era como se qualquer movimento de seu corpo parecesse falso. Ela sentia que, com um simples piscar de olhos, estaria dentro daquele casulo de novo. A proteção que tinha feito para si mesma era o maior acúmulo de magia de sua vida até aquele momento. A impressão que tinha era de que, agora, sua “realidade” era estar dentro do Sonhar, enquanto estar ali, de volta ao mundo material, era o estranho, o sonho esquisito do qual ela ia eventualmente acordar.

Sofia percebia os olhares dos poucos sentinelas que a viram na Torre naquele momento. Era palpável o espanto deles, pois a maioria devia ter pensado que nunca a veria de novo, pelo menos não com vida. Mesmo Ingrid, que costumava ser muito contida em suas reações, a havia encarado com certa estranheza. Sofia sabia que tinha emagrecido e que sua forma tinha mudado depois de tanto tempo no Sonhar. E quanto tempo tinha sido mesmo? Ela não tinha ideia, tinha perdido a noção de tempo. Em certos momentos, ela mesma se perguntava se ainda estava viva dentro daquele casulo ou se tinha apenas virado uma memória sem forma dentro do Sonhar, o que restou do que realmente tinha sido algum dia.

Dava para ouvir Ingrid falando com os outros sentinelas, se organizando para irem rápido até o teatro, passando as poucas informações que Luci tinha compartilhado antes de entrar pela porta do observatório novamente. Sofia sentia dificuldade de acompanhar as conversas, tinha passado muito tempo conectada ao fluxo do Sonhar para tentar se comunicar além do pesadelo no qual tinha ficado presa. A mudança a estava deixando confusa. Depois de orientar os sentinelas, Ingrid se aproximou de Sofia.

— Você precisa descansar —disse ela. — Vamos chamar um mago de cura para ajudá-la.

Sofia não discutiu, sabia que nenhum sentinela ali a deixaria ir até o teatro, e com razão. Então, assentiu, deixando-se ser guiada para o quarto da guardiã, que parecia não ter sido usado desde que ela fora embora. Agora algumas peças encaixavam em sua mente, como o fato de que Luci tinha ocupado seu lugar.

Ela entendia que deveria estar se sentindo aliviada. Tinha passado muito tempo imaginando e desejando o momento em que a encontrariam, que poderia sair daquele pesadelo, que poderia deixar de usar sua magia a todo o momento para se manter viva. O momento em que poderia finalmente descansar, sem ser porque desistira de continuar tentando. Agora, porém, que finalmente estava segura, seu corpo ainda parecia permanecer em estado de alerta constante. Ela caminhou até as fotos que estavam presas na parede de seu quarto. Parecia outra vida, não se reconhecia naquelas imagens. Não sabia se um dia voltaria a ser aquilo que estava vendo. Muito contato com o Sonhar podia mudar uma pessoa. Sofia não conhecia ninguém que tivesse ficado tanto tempo quanto ela e sobrevivido para contar a história.

Parou o olhar na foto que tinha tirado com Juliano e sentiu um aperto no peito, um misto de raiva e mágoa. Não gostava de dar vazão àquele sentimento, mas não conseguia evitar.

3. Página 3

Sofia sempre tinha dedicado a maior parte de sua vida a estudar e entender o Sonhar, desde que tinha dezesseis anos e passou no teste de guardiã. Mesmo antes, ela já tinha interesse nesses assuntos. Na época em que tinha virado guardiã, ela se achava muito adulta e perfeitamente capaz de qualquer coisa, mas o tempo fez que encarasse a realidade, que não foi gentil com ela. Quanto mais guardiã ela tentava ser, mais perdia a Sofia em algum lugar dentro de si. Mas queria provar que estava indo muito além do que imaginavam, queria provar que era tão capaz quanto qualquer um, então tinha resolvido estudar mais sobre pesadelos. Havia uma parte da população de cientes afetada por pesadelos todas as noites, que precisava enfrentar a própria doença do pesadelo em si, sem perspectiva de cura. Tentar achar uma cura para aquilo podia mudar muitas vidas. Foi no meio dessas pesquisas que começou a imaginar que a lenda do Guardião do Pesadelo era mais que apenas uma lenda. No final das contas, era verdade que tinha existido um guardião que, de tanto investigar o Sonhar, tinha se perdido lá e se modificado completamente.

Foi assim que conheceu Juliano. Assim como ela, ele também tinha interesse nesses estudos, em cuidar de problemas causados por pesadelos. O que começou como uma pesquisa se tornou um lugar de refúgio, aqueles poucos espaços em sua agenda para ficar longe da torre e se sentir um pouco mais normal. Juliano era uma ótima companhia, quase parecia que eles se conheciam desde sempre, e Sofia gostava muito de estar perto dele.

Até que ela entendeu que eles de fato se conheciam havia muito tempo.

Depois que tinha conhecido Juliano e antes do desastre da Alvorada, Camaleão surgiu em seus sonhos. Tinha oferecido ajuda com informações sobre o Guardião do Pesadelo, se Sofia permitisse que ele olhasse os arquivos trancados da torre. Aquilo tinha sido um pedido absurdo, e por mais que Sofia quisesse saber mais ela não permitiria aquilo, ela não sabia do que Camaleão era capaz nem seus reais motivos para olhar esses arquivos.

Sabendo hoje que o próprio Camaleão tinha causado o desastre da Alvorada, ela se questionava se aquilo não tinha acontecido exatamente para deixar Sofia em um estado de desespero tal que aceitasse a proposta. Quando a Alvorada foi atacada, a pressão por respostas, por alguém responsável e por explicações aumentou muito. Todos contavam com ela para que aquele tipo de desastre não acontecesse. Na época, Sofia não sabia que era um evento armado, nem imaginava quem poderia ter sido o responsável, o que fez parecer que tinha sido incompetência dela e dos sentinelas. Ela revisou todas as anotações e informações, mas nada indicava que algo assim estava para acontecer na Alvorada, qualquer sentinela teria percebido antes. Mas aconteceu e ela precisava de informações antes que algo pior se desse.

Quanto mais pensava em tudo, mais Sofia percebia o quão manipulada tinha sido. Era claro que Juliano não conseguia avançar e eles não descobriam nada novo, porque Camaleão precisava aparecer com sua proposta de novo, que agora era muito mais tentadora. Sofia não demonstrava, mas estava exausta, tanto tempo lidando com aquelas situações e a pressão do Ninho estavam pesando demais. Ela sempre tinha andado na linha, mas os magos que eram contra sua posição de guardiã agiam como queriam e ainda se sentiam no direito de jogar a culpa de tudo o que ocorreta na Alvorada em suas costas.

Ela estava cansada e aceitou a ajuda de Camaleão.

Depois de mostrar os documentos que ele queria ver, os dois caminharam algumas vezes pelo Sonhar buscando o Guardião do Pesadelo. Ele era um pesadelo de uma dimensão muito maior que qualquer outro, era possível se perder dentro de seu domínio sem nem ao menos perceber. Assim como já tinha salvo Luci de um pesadelo uma vez, em certo momento eles foram pegos desprevenidos e Sofia fez o mesmo por Camaleão. O impacto que ele tinha recebido dentro do pesadelo foi tão grande que seu disfarce mágico tinha se perdido por alguns instantes.

4. Página 4

E foi aí que ela entendeu que, esse tempo todo, estava andando com seu amigo de infância, Tomas. Ela tinha chorado muito quando ele desapareceu, tinha tentado entrar em contato, sem sucesso. Sentia falta dele todos os dias. Não sabia direito quais tinham sido seus crimes na época, mas sofrera muito com o ocorrido.

Por todo o sentimento que carregava por seu amigo, Sofia ficou dividida quanto ao que fazer ao descobrir a verdadeira natureza de Camaleão. Ela não queria acreditar, mas se ele já tinha mexido com o Sonhar de maneira errada antes, será que também era o responsável pelo que tinha acontecido agora? Sem chamar por ajuda, para não envolver mais ninguém em suas ações, ela decidiu investigar as regiões pelas quais o Guardião do Pesadelo andava. Se Tomas estava usando o poder dele de alguma forma para mexer no Sonhar e colocar a vida de pessoas em risco, ela precisava tentar impedir.

Foi nessa situação que superestimou suas capacidades, que percebeu que tinha ido longe demais e acabou caindo dentro do pesadelo. Devia ter sido mais esperta, devia ter pensado melhor, mas quando percebeu já estava muito dentro do pesadelo e muito afetada por toda sua energia para conseguir sair.

O que ela conseguiu fazer foi encontrar um jeito de manter sua energia viva. Não sabia se resistiria até alguém encontrá-la de novo, mas conseguiu usar os próprios domínios do Guardião do Pesadelo para formar um casulo em que pudesse ser o menos afetada possível. Dentro do casulo, usou sua magia para tentar encontrar qualquer energia que pudesse para pedir ajuda. Qualquer canal de comunicação com outro sonhador. Com o passar do tempo, foi ficando melhor nisso e conseguindo procurar melhor a energia das pessoas, ainda mais quando começou a perceber a presença de Luci.

Sofia sabia que ia demorar, havia a chance de nem conseguir, de seu corpo sucumbir antes, mas tinha que tentar.

Estar dentro de um pesadelo como aquele, talvez o maior que existia, fez que sua mente absorvesse imagens das quais nunca conseguiria se livrar. Todos os pesadelos que afetavam as pessoas já tinham cruzado seu subconsciente nos últimos meses. Mas também aprendeu como a energia do guardião funcionava, por isso entendeu por onde ele andava, até compreender que ele estava indo para o teatro. Não sabia se Camaleão o havia guiado para lá, como tinha feito com a Alvorada, mas quanto mais o pesadelo atacava, mais forte ele ficava. Dependendo do que acontecesse no teatro, ele podia tomar uma forma no mundo físico e aquilo era um dos piores temores de qualquer ciente.

Sofia precisava fazer melhor, precisava ajudar a resolver o problema pelo qual, de uma forma ou de outra, se sentia parcialmente responsável. Seja por não ter denunciado Tomas antes, como um fugitivo que havia rompido o acordo de exílio do Ninho e das fronteiras na superfície, seja porque tinha tomado decisões ruins.

Com isso em mente, Sofia deitou na cama, fechou os olhos e focou para entrar no Sonhar. Tinha que encontrar Luci e ajudá-la a impedir que sua casa fosse destruída. Sentia o corpo doer, o eu esforço mágico já afetava seu corpo fisicamente, mas ela não ia ficar parada. Até descobrirem o que ela estava fazendo, os sentinelas não poderiam impedi-la.

*

5. Página 5

O teatro tinha virado um pesadelo. Por mais absurda que aquela ideia fosse, era a melhor forma de descrever o que Luci estava vendo. Tudo em seu corpo era desespero, dor e medo. Nos últimos meses, tinha sentido a própria vida que conhecia desmoronando em seu redor e o teatro agora era a representação física de tudo o que tinha sentido. Sentia sua garganta fechando de horror.

Quando pensava no teatro de antes, que tinha deixado quando foi chamada por Estela, e o comparava com a visão que tinha agora, Luci queria apenas se enrolar sobre si mesma e começar a chorar. Ela ouvia gritos e gemidos a sua volta, muitos que não estavam vindo de pessoas reais, mas sim do pesadelo que tinha passado pelo Sonhar e engolido a fronteira em sua forma física.

Estava vendo o que todo o ciente da superfície mais temia, o que teve medo de causar em sua casa anos atrás, o que os sentinelas tinham visto na Alvorada.

Sua casa estava destruída, tomada por um pesadelo.

Luci sabia que agora ela estava em algum lugar entre o Sonhar e a dimensão material e física. Um meio-termo enquanto o pesadelo ia digerindo tudo na fronteira. Estava no hall de entrada do teatro, onde as pessoas compravam seus ingressos e esperavam para assistir às peças. O ambiente em seu redor estava deformado, o imaginário do Sonhar tinha se mesclado com o que o teatro era fisicamente. As paredes estavam distorcidas, com rachaduras que emanavam magia. Algumas partes pareciam corroídas e queimadas. Luci sentia todo seu corpo ser comprimido pela força do pesadelo, sua cabeça tinha voltado a doer.

Ela passou o dedo pelo anel do Camaleão. Se o usasse para ficar focada, teria uma chance. Não tinha como fazer o teatro voltar ao normal sozinha, nem sabia se aquilo era possível a essa altura, mas precisava achar seus pais. Helena e Giovani estavam ali. Pensar que eles podiam não estar mais vivos fazia Luci sentir o desespero aumentar ainda mais dentro dela. Eles não podiam estar mortos, não era possível, eles estavam bem fazia pouco tempo…

Quando a ponta de seu dedo passou pelo anel, sentiu algo errado no material, como se tivesse algo quebrado na superfície. Ela passou o dedo de novo e olhou para baixo a tempo de ver o anel cair no chão.

Estava quebrado.

Luci abriu a boca, tomando um susto com a visão.

— Não não não… — murmurava, enquanto se abaixava e via o anel quebrado em dois. Luci já não sentia a energia mágica emanando dele.

Não sabia exatamente como aquilo havia acontecido, mas conseguia imaginar. Quando um objeto mágico ficava exposto a uma grande quantidade de energia, ou um ciente exagerava seu uso, ele podia falhar e quebrar. Luci tinha andado por um pesadelo, arrancado sua irmã de uma magia que a própria Sofia tinha criado e depois usado ainda mais energia para controlar Tomas. Não era absurdo imaginar que ela tinha chegado ao limite do uso do objeto, era muita energia ao mesmo tempo.

Então ela sentiu seu corpo tremer de medo, erguendo a cabeça. O hall a sua frente continuava deformado, como se o próprio ar estremecesse e deixasse sua visão confusa. Parecia um dia de sol, em que a paisagem sofria com o desvio de luz. Conseguia voltar a ouvir alguns gritos e gemidos a sua volta, como acontecera quando tinha visto as memórias da Alvorada. Ela estava na área do Guardião do Pesadelo, em sua casa destruída e sem nada para ajudá-la.

6. Página 6

Não tinha Camaleão ou Sofia para resgatá-la, não tinha Ingrid para vigiar de longe e nem mesmo um anel para ajudá-la a manter a cabeça no lugar, mesmo que parte do efeito funcionasse como placebo.

Agora ela estava só.

Luci se ergueu. Não tinha confiança em si mesma para continuar andando, mas não tinha escolha. Se não fizesse algo podia morrer, seus pais podiam morrer e qualquer outra pessoa que ainda estivesse viva no teatro também não teria chance. Sem contar que, se o pesadelo se expandisse o suficiente, leigos ao redor poderiam ser afetados.

Ela era a guardiã, ela existia para controlar aquele tipo de situação. O guardião era um sonhador poderoso que controlava quando os pesadelos saíam do controle, que vigiava para manter as pessoas seguras. Luci teve vontade de rir, porque se ver naquela situação agora parecia uma piada.

Como se seu pensamento ganhasse forma, ela ouviu uma risada ao fundo.

Luci olhou para frente, com os olhos arregalados de medo, e não viu nada. Ela respirou fundo. Não sabia exatamente por que Juliano havia investigado sua mente, mas ele a tinha ajudado a retomar parte de seu controle mágico, então era hora de usá-lo. Um passo atrás do outro, em um ritmo bem lento, ela foi andando na direção da risada. De vez em quando ela olhava ao redor, com medo de ser surpreendida por algo. As paredes estavam rachadas, parecia que o ambiente a seguia com olhos invisíveis, esperando para ver o que a guardiã ia fazer.

A risada ecoou pelo teatro de novo enquanto Luci entrava no corredor que dava para as salas de apresentação. Não parecia real que aquele fosse o mesmo lugar em que crescera. Havia sombras na parede que se mexiam freneticamente. Luci sentia os pensamentos do pesadelo tentando invadir sua mente, tomar conta dela através do medo ou da dor, mas continuou focada em dar um passo de cada vez. Ela sabia fazer aquilo, só precisava vencer o medo.

Suas mãos já estavam suando quando chegou ao salão de espetáculo. As cadeiras estavam vazias, algumas rasgadas, outras quebradas. Ela viu uma pessoa sentada em uma delas, mas quando se aproximou percebeu que era uma pessoa morta. Sentiu o estômago se revirando, ficou com vontade de vomitar. Aquilo era terrivelmente real.

De repente, os holofotes se acenderam na direção do palco e Luci colocou a mão na frente do rosto, evitando a iluminação súbita.

— Respeitável público! — falou uma voz retumbante e distorcida a plenos pulmões. — É uma honra receber todos aqui para nossa peça! E, vejam só, temos uma ilustre convidada: a Guardiã do Sonhar!

Luci conhecia aquela voz, mesmo que estivesse em parte distorcida, mais rouca e assustadora do que o normal. Ela tirou a mão da frente do rosto e viu seu pai, em cima do palco, com o chapéu e a roupa característica que usava quando ia apresentar as peças como narrador.

Mas Giovani não era ele mesmo, o que fez Luci soltar o ar, tomando um susto. Sua pele estava acinzentada, marcas arroxeadas lhe desciam pelos olhos como lágrimas sombrias. O sorriso dele estava maior do que o normal, maior do que a própria boca. Os cabelos estavam emaranhados e as tranças na barba estavam desfeitas. Sua roupa também estava um pouco rasgada, mas ainda servia nele de uma forma esquisita.

7. Página 7

O corpo podia ser de Giovani, mas Luci sabia que aquele não era seu pai. Era o guardião do pesadelo.

Em um ímpeto de fúria com a cena, e sentindo lágrimas de raiva ameaçando cair, Luci deu alguns passos para a frente, encarando o monstro. Ela sentia uma energia muito forte vindo da direção do pai e, se prestasse bastante atenção, veria as marcas arroxeadas aparecendo nas mãos dele também.

— Saia de dentro dele! — gritou Luci.

Algumas gargalhadas explodiram no salão, o que fez Luci estremecer. Os corpos que estavam ali não tinham se levantado, mas suas bocas tinham se aberto e estavam rindo como se tivessem ouvido a melhor piada de suas vidas.

— Lembra que você prometeu ver uma apresentação da peça do Guardião do Pesadelo com todos aqui? — Giovani continuava a sorrir. — Chegou a hora! Você nunca imaginou que seria tão bem ambientada, não?

É claro que o guardião sabia daquilo, se ele tinha tomado o corpo de Giovani podia ler suas memórias e sentimentos. Luci tentou manter a respiração estável, porque sabia que no momento em que se distraísse a magia do guardião tomaria conta dela também.

— Eu não te prometi nada, você não é meu pai! — respondeu Luci. — Eu consigo ver além de seus truques.

— Claro que vê, Luci, eu te conheço. — Giovani saltou do palco para o chão, ficando no mesmo nível de Luci. A guardiã se forçou para não se mexer ou correr de medo, porque sabia que seu medo apenas o alimentaria ainda mais, mas era difícil se manter parada enquanto aquela forma distorcida de seu pai se aproximava dela. — Sua resistência é algo que qualquer guardião morreria para ter. Elias, a quem chamamos hoje de guardião do pesadelo, adoraria ter essa habilidade. Se bem que ele não teria virado o que virou se não tivesse mergulhado em pesadelos. — Giovani estava tão perto agora que Luci ergueu a cabeça para olhá-lo nos olhos. Ele deu outra risada. — Talvez você não seja minha filha mesmo — a voz de Giovani agora era menos distorcida, mais similar ao que Luci conhecia. — As guardiãs de minha família não teriam deixado as coisas chegarem aonde chegaram.

— Eu sei o que você está tentando fazer, não vai funcionar — disse Luci em voz alta, mas achava que era mais para ela mesma do que para a figura a sua frente. Não sabia se o guardião estava usando outra pessoa para tentar atingi-la ou porque estava muito longe do humano que já fora um dia.

— Ou talvez não, afinal de contas Sofia também deixou algo assim acontecer, não? — riu ele, dessa vez sendo acompanhado de novo pelos mortos ali. — Nenhum de vocês sabe o que é poder de verdade, todos têm muito medo do que os pesadelos podem fazer, todos acordam tomando susto por causa disso! — Ele ergueu os braços, como se mostrasse as coisas em seu redor. — Você também morre de medo, não é? — Ele se inclinou, para ficar na mesma altura que ela, o que fez Luci dar um passo para trás. — Eu sinto, aqui na Alvorada, quando fez seu teste patético… Você não passou de verdade, só passou porque teve ajuda. É uma fraude!

— Fraude, fraude, fraude! — Os mortos se uniram em coro para dizer.

8. Página 8

As palavras entravam por seus ouvidos e doíam, Luci tinha a impressão de que começaria a sentir o sangue descendo pelas orelhas, assim como as lágrimas desciam pelo rosto. Ele estava certo, se não tinha passado em um teste controlado, como poderia enfrentar o maior pesadelo já documentado na história do Sonhar até agora?

— O guardião do pesadelo está cansado de ser isso, um pesadelo, sabe? — Giovani virava a cabeça devagar, como uma boneca quebrada. Luci sabia que era o guardião falando com ela, mas continuava falando de si mesmo na terceira pessoa. — Pesadelos consomem a mente, mas o que mais podemos consumir com formas físicas? E tudo só foi possível porque você é péssima como guardiã.

— Péssima, péssima, péssima! — Os corpos se uniram ao coro.

— Cale a boca… — Luci colocou a mão sobre os ouvidos. — Pesadelos manipulam a mente das pessoas, usam seus medos…

— Nós só podemos usar o que existe no subconsciente de alguém, você sabe disso, Luci. — Pela primeira vez, o guardião falou em primeira pessoa. Luci ouviu risadinhas e seu nome sendo repetido várias vezes. — Se você não soubesse que é uma fraude, eu não teria o que usar aqui. Assim como esse corpo que uso. — Ele abanou os braços. — Se não fosse sua culpa acumulada, o peso na consciência, eu teria sugado outra pessoa, como sua mãe.

Luci arregalou os olhos, lembrando que não tinha visto nenhum sinal de sua mãe ainda. Nem seu cadáver, o que por um lado era ótimo, ou qualquer coisa que pertencesse a ela. Luci ergueu o rosto.

— Onde ela está?

Giovani apenas riu, se divertindo com a súbita onda de coragem que Luci tinha conseguido naquela hora.

— Você não salva nem a si mesma, imagine qualquer outra pessoa, menina!

— Fraude, fraude, fraude!

Luci deu mais um passo para trás. Fechou os punhos, sentindo a falta do anel ali. Era aquilo que fazia que as pessoas caíssem tanto em pesadelos, porque era algo que elas achavam de si mesmas, seja porque alguém as convencera ou por qualquer outro motivo. O medo, a sensação de ser uma fraude, uma impostora, vinha tudo de dentro dela. E ela tinha sido mesmo, não tinha passado pelo teste de forma justa, era para ter falhado e voltado para casa, ela sabia disso. Se não fosse por Camaleão, qualquer que fosse a dívida que Tomas tinha com Sofia, ela nunca teria conseguido passar daquele momento, e agora podia ser uma das pessoas afetadas naquele pesadelo. Talvez fosse ela a pessoa sugada pelo pesadelo e não seu pai.

Ela via a imagem maior das coisas, era isso que sua estabilidade de resistência com pesadelos a fazia ter, era mais difícil distorcer os pensamentos dela.

— O que foi que você fez além de chorar e ter medo nesses últimos meses, Luci? Você só queria Sofia de volta para poder sair correndo! — A voz de Giovani ficou ainda mais distorcida.

Um estalo passou pelo corpo de Luci, uma energia emanou, que o guardião diante dela devia ter sentido. Ela levantou o rosto na direção dele, ajeitando o corpo enquanto passava a mão no rosto, limpando as lágrimas.

9. Página 9

— É verdade! — gritou ela na direção de Giovani. — Eu queria sair correndo, achar Sofia e voltar para minha vida! Na verdade, era para eu ter falhado no teste da guardiã! — Luci forçou os dentes uns contra os outros.

Estava cansada. Tão cansada, tão frustrada e com tanta raiva… Tinha acabado de encontrar Sofia, mas a todo momento parecia que alguém colocava um problema a sua frente e ela se contorcia de medo. Era como Maurício a via, como uma criança que não tinha o que fazer ali. E talvez não tivesse mesmo, Luci sabia que não era a melhor escolha para ser a guardiã.

E era por saber disso, saber de todos seus medos e olhar para eles, como encarava a visão corrompida do guardião usando o corpo de seu pai, que sentia a magia passando por seu corpo.

—Sei de tudo isso, não é novidade. — Luci endireitou o corpo. —Também sei que encontrei Sofia, andei por seus domínios sem ficar presa, enfrentei Camaleão, consegui fazer Maurício pagar ao menos um pouco pelo que fez! Já é mais do que você, que se deixou ser corrompido e traiu tudo o que um guardião deveria ser!

Giovani rugiu, como se quisesse atingi-la com seu som. Luci estremeceu, mas manteve o rosto sério. Quando o guardião começou a se mover em sua direção, Luci sentiu a energia em seu corpo explodir, lançando sua magia para todos os lados, estremecendo as estruturas do Sonhar. Giovani foi jogado para trás, enquanto os cadáveres gemiam, sendo expelidos para todos os lados.

— Você está na minha casa! Isso não vai virar a Alvorada e você não vai tomar o corpo de ninguém!

Gritando de novo, o corpo de Giovani se levantou. Suas articulações pareciam as de um robô, como se o corpo não conseguisse se mover como o esperado. A expressão dele estava toda diferente, parecia se derreter no meio das marcas arroxeadas. Luci quis chorar com aquela visão de seu pai, não sabia se aquilo um dia poderia ser remediado.

Não pense nisso agora, falou uma voz em sua cabeça. Você está indo bem, você tem poder, Luci. Muitos estão mortos, mas precisamos derrubar Elias. Eu vou te ajudar. Os sentinelas já estão lá fora, vai dar certo.

            Era a voz de Sofia, e Luci sabia que era mesmo sua irmã. Pela energia diluída que Luci sentia da irmã, imaginava que ela tivesse entrado lá enquanto sonhava, de alguma forma. Não era hora para perguntar.

Naquele momento, sentiu uma onda de energia se fechando em seu redor, o que a fez gritar e fechar os olhos. A voz de Sofia sumiu no ar, como se o mundo inteiro tivesse ficado em completo silêncio. A energia do guardião estava toda ao redor dela, repetindo imagens em sua mente de todas as coisas em que evitava pensar. Quando tentou olhar ao redor, não conseguiu ver nada do teatro.

Era apenas pesadelo.

10. Página 10

*

Ingrid chegou com os outros sentinelas ao teatro. Alguns magos mentais também estavam presentes, tinham sido avisados da situação. Ingrid sabia o que devia fazer, os sentinelas precisavam conter a situação e os mentais iriam cuidando das mentes dos leigos que vissem o que estavam acontecendo. Com poder o suficiente, eles podiam criar uma ilusão conjunta de que o teatro ainda estava normal e de pé.

Estela ajudava algumas pessoas que tinham conseguido escapar. Helena estava sentada na calçada, seu corpo apresentava machucados da explosão de magia que tinha acontecido mais cedo. O colar que Sofia tinha lhe dado estava com a pedra rachada, tamanha a magia que tinha no lugar. O olhar dela parecia distante. Estela correu na direção dela.

— Precisamos te levar para um curandeiro, Helena, você não está bem.

— Eu não vou sair daqui… — Helena olhou na direção da senhora da Superfície. Sua testa tinha um corte que ainda sangrava, mas parecia mais grave do que realmente era. — Giovani ainda está lá dentro!

Helena não sabia ao certo a ordem em que as coisas tinham acontecido. Lembrava-se do momento da explosão, de como as paredes de seu quarto tinham desmoronado e ela caíra debaixo de alguns escombros. A perna latejava, mas tinha conseguido se arrastar para fora. Viu algumas pessoas mortas, mas não tinha encontrado Giovani em lugar nenhum. As energias do pesadelo começaram a consumir toda a estrutura do teatro, fazendo que sua mente fosse afetada pelos piores pensamentos e cenários possíveis. Tinha perdido alguns pedaços de sua memória do evento todo. Ela foi se arrastando, até ser ajudada por um mago mental, levada para fora do foco do pesadelo. Tinha sentado ali, junto com outros sobreviventes que não conseguiam se focar nem para ficar de pé.

Sua casa estava destruída. As imagens que vira da Alvorada agora tinham se materializado diante dela. Tudo que tinha lutado para construir com sua família, tanto a de sangue quanto aqueles que viviam dentro do teatro, tudo tinha desmoronado em um piscar de olhos. Era cruel como bastava um pequeno instante para tudo ser destruído diante deles. Muito mais do que um espaço físico, era a vida e a energia de tantas pessoas que tinham sido colocadas ali. Helena não conseguia chorar porque a incredulidade tinha tomado conta de sua mente. Ela sabia o tamanho do estrago que a magia podia fazer, principalmente quando se tratava do Sonhar, tinha se informado muito sobre isso, principalmente depois que Sofia passou a ser a guardiã. Mas vivenciar a situação era completamente diferente.

— A área será contida por sentinelas, você não pode entrar lá agora e ficar aqui não vai ajudar.

— Essa é a minha casa, Estela —disse ela, deixando de lado qualquer formalidade em chamá-la pelo título. —Não vou abandonar esse lugar…

A fala dela foi ficando menos forte, era necessário um grande esforço para manter a cabeça erguida, focada em qualquer coisa, e Estela conseguia ver aquilo.

—Vou chamar alguém para te atender aqui então, mas você precisa confiar no trabalho dos sentinelas.

— Luci está aqui? —perguntou ela.

11. Página 11

A verdade é que Estela não sabia. Não tinha visto Luci em lugar nenhum, apenas os sentinelas chegando com seus mantos, começando a criar focos de energia ao redor da área do teatro. Tinha visto Ingrid há alguns metros dali, mas não tinha mais nenhuma informação útil.

O processo era simples na teoria, mas muito mais complicado na prática. Os sentinelas se posicionavam ao redor da fronteira. Agora estavam em números maiores que na Alvorada, mesmo os que estavam receosos focaram suas energias na magia que faziam. Com as mãos brilhando com a magia do Sonhar, eles guiavam as atividades do pesadelo para um polo central -,no caso, o teatro. Assim, o pesadelo não poderia se expandir. Ao redor deles, os magos mentais que chegavam rapidamente se organizavam para apagar as memórias dos leigos e montar a ilusão. Ingrid viu alguns transformadores chegando, a Escola dos Magos já devia estar se movendo em peso para lá naquele momento, logo os curandeiros chegariam também. Transformadores também eram bons em manter ilusões. Agora, qualquer magia era necessária para manter tudo o menos caótico possível.

— Precisamos da guardiã! — gritou um sentinela perto de Ingrid. — Se não um de nós precisa entrar lá para destruir o pesadelo!

Apenas conter um pesadelo não era o suficiente, ainda mais um daquele tamanho. Os sentinelas sentiam o tamanho da força, alguns deles começavam a se curvar, outros já começavam a sangrar pelo nariz e sentir a cabeça doer. Alguém precisava destruir o polo do pesadelo porque a contenção não duraria para sempre.

— A guardiã já está lá! — gritou Ingrid para os sentinelas próximos dela, enquanto mantinha o foco na magia que fazia. — Ela vai destruir o pesadelo.

Os sentinelas foram passando as informações uns para os outros. Saber que alguém já estava trabalhando para a contenção não ser em vão ajudava o moral dos sentinelas, o que podia melhorar o desempenho da magia. Mas Ingrid não estava mentindo apenas para ajudar os companheiros. Luci tinha ido para lá de verdade. Confiava em Luci, sabia que ela tinha força o suficiente para impedir o que estava acontecendo.

Em seus pensamentos, Ingrid repetia para si mesma para que, por favor, Luci voltasse viva daquela. Não estava pronta para perdê-la.

*

12. Página 12

Maurício ria diante dela. Nicolas também, junto com Estela. Todos os membros do congresso estavam ao redor de Luci, dando gargalhadas daquele rascunho de guardiã. Até mesmo Sofia tinha aparecido entre os rostos que zombavam dela. Luci não via mais as formas do Sonhar, e sim inúmeros corredores da mansão Alba, e, por mais que tentasse correr para longe deles, não conseguia achar a saída.

Ela tropeçou e percebeu suas mãos muito menores do que eram. Mãos de uma criança, uma menina que tinha brincado dentro do Sonhar e ficado presa lá dentro. Luci olhou ao redor, assustada, esperando que sua irmã viesse salvá-la, que alguém viesse consertar mais uma besteira que ela tinha feito, mas ninguém veio.

Viu os gêmeos Alba a sua frente, ainda jovens, falando sobre qualquer coisa enquanto riam. Sofia se juntou a eles. Luci correu para alcançá-los, mas, quanto mais a viam se aproximando, mais se afastavam. Não tinha ninguém ali agora, nem seus pais estavam por perto. Luci estava sozinha.

O sentimento de solidão e fracasso lhe subia pelo corpo, como algo físico que a corroía de dentro para fora. Ela se abaixou, com a testa encostada no chão, e fechou os olhos. Uma sensação de nada se expandiu ao redor dela.

Então ela sentiu.

Havia muito em seu redor. Sentia uma presença que conhecia… A de Sofia! E, além dela, conseguia sentir muita magia sendo usada a sua volta, não só a do Guardião do Pesadelo, mas magia de sonhadores. Eram os sentinelas criando um ponto de foco onde ela estava. Tentavam controlar a magia do guardião para que alguém pudesse impedi-lo de uma vez por todas.

Para que Luci pudesse impedi-lo.

Sua mente pareceu encaixar e tudo fez sentido naquele momento. Era o poder de sua resistência dando sentido a tudo o que Luci via e sentia. Ela entendeu perfeitamente que estava presa dentro de uma bolha de pesadelo, feita pela magia do guardião, usando seus próprios medos de reflexo para atormentar sua mente. Luci se ergueu e, com o movimento de suas mãos, como se abrisse uma janela, rompeu a cortina de pesadelo diante de si. A guardiã se viu de novo no teatro, agora sentindo a presença mágica de Sofia e voltando a ver a forma distorcida de seu pai diante dela.

Por um momento, Luci percebeu a expressão de surpresa do guardião ao vê-la sair de sua bolha de magia. Mas em seguida ele sorriu, aquele sorriso medonho e distorcido.

— Eu sinto outra pessoa entre nós! — riu Giovani, dessa vez sem ser acompanhado pelos cadáveres.

Uma versão translúcida de Sofia apareceu ao lado de Luci, como se fosse o espírito da irmã ali. Luci não virou para ver, mas sentia a magia da irmã presente. O teatro tremia ao redor delas, as paredes começavam a se rachar de novo. As duas irmãs sentiam o pesadelo acumulando energia, o que fazia ainda mais marcas aparecerem no corpo de Giovani.

13. Página 13

— Precisa ser salva de novo, Luci? — provocou o guardião, tentando cavar em seus medos novamente.

Você não precisa ser salva. Luci ouviu a voz da irmã em sua mente. A energia que você usou contra ele foi toda sua. Você saiu da bolha dele por conta própria.

            Mas você está aqui, pensou Luci, sabendo que a irmã a ouviria. Sofia devia ter ido até lá porque sabia que Luci não conseguiria sozinha.

O fato de você ser capaz não quer dizer que não vou ficar a seu lado. Essa é minha casa também.

            Luci sentiu tanta verdade naquilo que, ao redor dela, o teatro se estabilizou. Nas áreas mais longe delas, tudo ainda era caos, mas Luci sabia como o guardião ia tentar afetá-la, e se ela sabia como, podia usar suas fraquezas como suas forças.

Enquanto juntava energia, sentindo o corpo inteiro formigar, Luci também percebeu algo a mais se juntando a sua magia. Toda a energia focada de Sofia estava se acumulando em suas mãos, braços, pescoço… Por toda a parte. Cada vez mais a região ao redor da guardiã ia ficando estável. Giovani olhava ao redor, agora seu sorriso não estava mais tão superior e certo da vitória.

— Você nem guardiã é de verdade! — disse Giovani, como se cuspisse a frase na direção dela. Luci respirou fundo, barrando a energia que vinha com aquelas palavras para derrubá-la.

— Meus braceletes dizem outra coisa — falou Luci, enquanto a energia dela ia emanando para cada vez mais perto do guardião. — Os sentinelas lá fora dizem outra coisa…

Luci deu dois passos para frente, fechando os punhos e sentindo a energia se acumulando. Mal sentia suas mãos, mas não parou, não podia parar agora. Precisava vencer. Não estava sozinha. Os sentinelas ao redor diminuíram o alcance do guardião, a energia de Sofia estava somada à dela.

Ia conseguir, tinha que conseguir.

O guardião começou a acumular energia também. Os dedos de Giovani estavam todos corroídos pela magia do Sonhar. Luci tentou não olhar para aquilo, não podia perder o foco. Se parasse a força do guardião, ele não teria mais como ficar dentro do corpo de Giovani e tudo ficaria bem. Ao redor dele, tudo tremia, mas Luci ia tentando expandir sua magia cada vez mais.

— Você vai morrer aqui. — A voz de Giovani estava completamente diferente agora. Na verdade, seus lábios nem se moviam, era a voz do pesadelo retumbando por todo o teatro. — Vai ser destruída com essa fronteira!

— Não vou. — Luci o encarou. — Eu sou a guardiã do Sonhar e sou mais forte do que você.

14. Página 14

Soltando um grito, Luci ergueu os braços, sentindo sua própria magia e a de Sofia  passando por todo seu corpo e causando uma explosão. Era um impacto de intensidade como o guardião do pesadelo tinha feito para tomar o teatro, mas que fez tudo ao redor parar de estremecer. Não havia espaço dentro de Luci para inseguranças e dúvidas, não agora. Ela até podia ter algumas, mas a fraqueza do pesadelo era que, mesmo com todas elas, e todas as certezas de seus erros, sua magia não era afetada.

Giovani gritou e a energia do pesadelo se esvaiu de dentro dele e dali de maneira geral. As cores do teatro tinham voltado, mas as rachaduras e as marcas de magia ficaram, cicatrizes do que tinha acontecido. Ao redor do teatro, todos os cientes sentiram o impacto. A energia que eles tentavam conter foi se esvaindo, até não existir mais um foco de pesadelo para eles segurarem. Todos sentiram que a guardiã tinha conseguido expulsar o pesadelo do mundo físico.

Luci caiu de joelhos, enquanto tremia e sentia sangue escorrendo pelo nariz. Suas mãos tremiam e sua visão não estava completamente focada. Tinha sobrevivido. O pesadelo não tinha sido destruído, mas não estava mais ali.

O teatro estava a salvo.

Você conseguiu. Luci ouviu o pensamento de Sofia, antes de sentir a energia dela se afastando. A guardiã sentiu as lágrimas escorrendo pelo rosto e nem sabia por que – se era alívio, medo, exaustão, satisfação… Estava completamente perdida depois do tanto de magia que tinha usado.

Na torre do Sonhar, Sofia acordou na mesma hora. Virou o corpo para o lado e vomitou no chão. Sua boca estava cheia de sangue e sua visão estava embaçada. Tinha doado toda sua energia para Luci, tinham que impedir o guardião do pesadelo de qualquer forma, ela nem ao menos pensou em qualquer consequência. Qualquer coisa valeria a pena.

Aos poucos, Sofia foi percebendo que não sentia sua magia. Seu corpo perdeu a força e seu mundo escureceu.

No teatro, diante de Luci, o corpo de Giovani estava caído ao lado do palco. Luci olhou ao redor. Os corpos estavam imóveis, mortos de vez. A visão era similar à da Alvorada, para sua infelicidade, mas ao menos ela tinha conseguido parar antes de o pesadelo ter saído da fronteira com um corpo físico. Elias tinha que ser destruído de alguma forma, mas isso exigiria uma missão de sentinelas focados para isso.

Aos tropeços, Luci correu na direção de Giovani caído no chão. A visão era horrível, nunca imaginou, nem quis, ver o pai daquele jeito. A carne dele estava toda marcada pelas feridas causadas pelo pesadelo. Suas mãos pareciam queimadas. Luci virou o pai para que seu rosto ficasse para cima.

— Pai! —gritou ela, mexendo em seu braço. — Pai, acorda!

Não podia perdê-lo agora, não depois de tudo o que tinha feito. Não era justo. Tinha prometido que ia voltar, que veriam a peça juntos, que a família toda assistiria à peça e ficariam bem como nos velhos tempos. Era para Luci estar incomodada com alguma coisa que Sofia estaria comentando sobre sua vida, não tendo que lidar com um teatro destruído e seu pai desacordado. Ou pior.

— Eu preciso de ajuda! — Luci não queria sair de perto, então gritou para que alguém ouvisse. Os sentinelas começariam a caminhar pela fronteira em breve, investigando os detalhes da situação. — Socorro! Preciso de um curandeiro! — Luci se virou para olhar Giovani de novo, segurando sua mão queimada. — Não faz isso, por favor, pai, acorda…

Não houve resposta.