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Era isso. O teatro estava a salvo, o guardião do pesadelo tinha sido enfrentado, Sofia estava de volta e o Camaleão havia sido capturado. O conflito acabara e a sensação era de vitória e alívio.

Mas não para todos.

Ver o teatro destruído era uma visão difícil para a família que morava ali. Helena olhava os escombros e não conseguia assimilar que um dia aquela tinha sido sua casa, que agora estava aos pedaços. Ela entendia que os sentinelas e os cientes ali estavam aliviados, agora que tudo tinha acabado, mas ainda estava tensa. Encarar o que encontrou do lado de dentro foi ainda pior.

Luci estava em choque, ajoelhada no chão. Ela mexia no braço de Giovani, que estava caído e desacordado. Era como se tentasse acordá-lo, enquanto chorava e gritava de um jeito que Helena poucas vezes tinha visto. Ela não precisava se aproximar para entender o que tinha acontecido, mas o fez mesmo assim, porque precisava saber se um de seus piores medos tinha virado realidade e porque Luci precisava de ajuda.

Mais tarde, os magos de cura confirmariam que Giovani não tinha resistido ao guardião do pesadelo que tomara conta dele – talvez ele tivesse deixado de existir antes mesmo de Luci derrotá-lo. Mas Helena não precisava dessa confirmação formal quando se aproximou de Giovani.

Ele tinha partido e não havia nada que elas pudessem fazer.

Helena não se lembrava de todos os detalhes daquele dia depois que entrou no teatro e viu aquela cena. Lembrava-se da dor, do aperto no peito… Também se lembrava de ter pedido ajuda, de alguns cientes carregando o corpo de Giovani para fora dali e de Luci chorando.

— É minha culpa… — murmurava Luci, enquanto tentava limpar o rosto, mas não adiantava, porque novas lágrimas surgiam em seguida. — Se eu tivesse chegado antes, se eu o tivesse expulsado…

Helena se aproximou de Luci, sentindo o próprio rosto pesado e o choro já mudando o tom de sua voz. Mesmo assim, ela tentou conter a tristeza ao máximo, para ficar firme.

— Você não trouxe aquele pesadelo para cá, não é culpa sua, Luci. — Por mais que a tristeza de Helena fosse visível, ela falou aquilo com a voz mais séria e direta que conseguiu. Em seguida, abraçou Luci. Ela não podia fazer nada para ajudar Giovani, mas podia tentar impedir que a filha caísse em um vórtice de culpa.

Elas não tinham como saber se ter chegado antes adiantaria alguma coisa, nenhum dos cientes conseguiria dizer ao certo, mas nada mudava o fato de que Luci não era culpada. Ela não foi, entretanto, a única que se culpou por aquilo. Quando Sofia ficou sabendo, pode não ter dito em voz alta, como Luci, mas Helena leu em seu rosto que ela também se culpava. E, mesmo que Sofia não tenha dito nada, Helena fez questão de dizer para ela o mesmo que disse para Luci.

Helena só se permitiu chorar de verdade mais tarde, quando ficou sozinha e a verdade cruel tomou conta dela. Giovani estava morto. Tinha morrido na mão de um pesadelo, como o pai dos gêmeos Alba e alguns outros cientes que tinham um contato tão direto com pesadelos. Quanto mais pensava nisso, mais entendia o quão sortuda Sofia havia sido de ter conseguido sobreviver tantos meses no Sonhar. O guardião do pesadelo, contudo, não tinha invadido por completo a mente de Sofia como fizera com Giovani. Se pesadelos podiam matar, o maior deles com certeza conseguiria fazer o mesmo.

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O que não tornava nada daquilo menos doloroso.

O dia em que Giovani foi enterrado parecia ter durado muito mais do que dias 24 horas normais. O tempo se arrastava, as horas demoravam, quase como se aquele dia quisesse dar chance para a família se despedir. Giovani foi enterrado no mesmo lugar em que Carmela fora anos antes, o que deixava tudo mais triste para Luci e Sofia.

— Vocês deviam se despedir — falou Helena para elas, deixando cada uma ter seu momento com a situação. Despedir-se não faria qualquer diferença para Giovani, a menos que de alguma forma ele pudesse saber o que estava acontecendo. Enterros, porém, não são para os que partem, e sim para os que ficam.

Tanto Luci quanto Sofia precisariam de muito tempo para lidar com aquela perda, mas Helena sabia que as duas eram fortes o suficiente para isso. Luci saiu do enterro com o rosto muito inchado, e Sofia evitava ao máximo qualquer um que tentasse oferecer algum consolo. A própria Helena estava deixando sua tristeza mais evidente do que se permitia normalmente.

Quando chegou a vez de Helena se despedir, depois que as filhas já o tinham feito, ela viu diante de si, mais uma vez, a materialização de um de seus piores medos. Não precisava dizer muita coisa ali, porque felizmente teve a chance em vida de falar e mostrar para Giovani tudo que ele significava para ela. Helena se inclinou no caixão e deu um beijo na testa do marido.

— Obrigada por todos esses anos, meu bem… Nós vamos ficar bem, pode ficar tranquilo, vá em paz.

*

Não era a primeira vez que ele estava naquela cela. Talvez não naquela, especificamente, mas não era a primeira vez que havia sido preso pelos oficiais do Ninho. Nem sabia dizer como tinha chegado ali, mas, quando acordou, sentiu que estava em uma cama desconfortável, que mal podia ser chamada de cama. Assim que seus olhos se acostumaram com a falta de luz do lugar, ele soube onde estava. Aquele lugar costumava povoar seus pesadelos. Aquilo, porém, não era sonho, ele sabia muito bem a diferença entre sonho e realidade.

Camaleão agora estava sentado no chão da cela. Eventualmente, ele ouvia alguma conversa, ao longe, dos oficiais. Eles tentavam ignorá-lo quando passavam por sua cela, mas muitos não conseguiam fingir que não estavam chocados com sua presença ali. Será que já se espalhara a história de como o grande Camaleão, que era um mito para alguns, tinha sido capturado? Não só isso, será que todo o Ninho já sabia que o Camaleão era um dos gêmeos Alba? Pensar nisso o fez sorrir para si mesmo. Continuava a ser o gêmeo problemático, mas hoje aquilo não o machucava tanto. Aquele pensamento já tinha sido incômodo, em algum momento de sua vida, mas agora apenas fazia parte de ser quem era. Ele via além do que os outros viam e sabia que isso trazia um certo nível de solidão.

Não queria que as coisas tivessem acontecido daquele jeito, mas experimentos exigiam aceitar a possibilidade de que algo poderia dar errado. Arriscar do jeito que ele estava disposto a fazer exigia estar preparado para o pior. Nunca quis que Sofia ficasse tanto tempo presa no Sonhar e, de verdade, queria ter conseguido ajudá-la, mas ele não tinha forças para entrar no cerne do guardião do pesadelo para procurá-la. Achou que ninguém teria, mas, como muitos ali, ele também tinha subestimado a capacidade de Luci de manipular a magia.

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Ele já tinha aberto mão do perdão de Sofia. Camaleão sentia um carinho profundo por ela, não só pelo que tinham vivido nos últimos tempos, quando ele se disfarçava de Juliano, mas em tempos anteriores também. Antes de ele ser exilado, Sofia causava nele uma sensação de paz que poucas pessoas conseguiam, principalmente quando estava tentando ser o herdeiro da família Alba. Mas a raiva de Sofia era plenamente justificada, ele de fato a tinha manipulado e enganado. Por mais que ela, ou qualquer pessoa, não entendesse seus motivos, ele se agarrava a suas próprias razões para seguir fazendo o que acreditava que precisava fazer. Provavelmente o chamavam de egoísta agora, mas eles nunca o entenderiam. Camaleão sabia que, se fosse tão egoísta quanto os outros achavam que era, nunca teria ficado naquela situação, para começo de conversa.

Seus pensamentos foram interrompidos pelo barulho de um oficial caminhando até sua cela. Ele parou diante da grade. O oficial carregava uma algema da qual Camaleão podia sentir a magia emanando. Eles não o prenderiam com uma algema normal, claro que não.

— Aproxime-se da grade e não tente nenhuma graça.

Camaleão o fez, sabendo que não tinha porque tentar fazer algo para fugir, ao menos não agora. Será que o matariam? Fazia muito tempo que o Ninho tinha abolido qualquer forma de pena de morte, mas Camaleão se perguntava se abririam alguma exceção para ele. Será que o prenderiam e jogariam a chave fora? A grande família Alba sobreviveria a uma vergonha como aquela?

Depois que estava devidamente algemado, com suas mãos na frente de seu corpo, o oficial abriu a cela, guiando Camaleão pelos corredores. A maioria estava vazia, o Ninho não costumava prender tantas pessoas e, mesmo quando o fazia, usava celas diferentes daquelas. Ele sabia que estava ainda mais abaixo da superfície que o próprio Ninho, naqueles lugares que eram guardados para pessoas consideradas muito perigosas.

Camaleão conseguia sentir a magia em seus pulsos – a algema era encantada, feita para que o prisioneiro não conseguisse usar magia. Não podia mais manter a forma de Camaleão usando aquilo. O oficial continuou guiando-o para frente, segurando seu braço com força, até que pararam diante de uma porta de metal. Camaleão também sentia, naquele cômodo, uma aura que deixava sua magia mais fraca. O lugar todo era enfeitiçado, para que nenhum dos presos tentasse fazer algo para fugir.

Quando o oficial abriu a porta, ele deu espaço para que Camaleão passasse e entrasse na sala – provavelmente, não pretendia mais acompanhá-lo. Sem muita opção, o prisioneiro fez o que era indicado e deu de cara com uma pessoa, sentada em uma mesa, esperando que ele chegasse. Era como olhar seu reflexo.

Nicolas.

— Avise ao oficial que o trouxe quando quiser ir embora, senhor do Ninho — disse o oficial que acompanhou Camaleão, enquanto fechava a porta, se mantendo do lado de fora.

Não tinha mais ninguém na sala além dos dois. Atrás de Nicolas, havia outra porta, provavelmente por onde ele tinha vindo. O lugar tinha paredes claras, mas nenhuma janela, apenas a mesa e duas cadeiras no meio. Mesmo que houvesse alguma magia nas paredes, deixando que observassem a conversa do lado de fora, Camaleão não conseguia notar por causa de sua algema.

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— A que devo a honra de receber a visita do senhor do Ninho? — perguntou Camaleão.

— Eu não tenho tempo para jogos, Tomas — respondeu Nicolas, fazendo um sinal com a mão, pedindo que se sentasse.

Assim que Tomas o fez, um silêncio tomou conta da sala. Fazia mais de dez anos que os gêmeos não se viam, e havia muitos acontecimentos e sentimentos não resolvidos nesse tempo.

— Por quê? — perguntou Nicolas, interrompendo o silêncio. — Qual é seu problema, Tomas? Depois de tudo o que você já fez, como pôde fazer isso com as fronteiras?

— Não fale comigo como se eu fosse um dos fantoches de Maurício — respondeu Tomas — Não tenho nada contra as fronteiras, você sabe bem disso. Só precisava testar algumas coisas. Infelizmente, parte delas saiu do controle.

— É isso que você tem a dizer?! — Nicolas se mexeu na cadeira, não acreditando que o irmão podia falar do que tinha acontecido com tanta calma e falta de empatia. — A Alvorada foi destruída, Sofia ficou meses presa no Sonhar, ela podia ter morrido! O teatro foi destruído, inúmeras pessoas morreram… — Nicolas balançou a cabeça — A vida das pessoas vale tão pouco para você?

A expressão de Camaleão mudou. Ele ficou mais sério, não parecia mais estar se divertindo tanto quanto antes. Era irritante o quão pouco Nicolas conseguia entender de suas motivações.

— Por que está tão surpreso, irmão? Você me bloqueou completamente de sua vida depois que eu fui exilado.

— Não jogue isso em mim! — disse Nicolas. — Você sabe muito bem o que eu tinha passado, contraí a maldita doença do pesadelo por causa de sua falta de noção. — Ele percebeu que estava elevando o tom de voz e respirou fundo, fazendo uma pausa antes de falar. — O que Maurício tinha que ver com a história toda? Você tentou jogar a culpa nele através de Luci.

— O idiota? Nada. — Tomas voltou a sorrir. — Quero dizer, ele armou sim todo o plano de fazer as fronteiras parecerem perigosas, eu só me aproveitei para distrair a atenção de vocês.

Nicolas balançou a cabeça em desaprovação, mas Tomas não se importava com isso. Quando ele fora preso pela primeira vez, Maurício tinha feito de tudo para que ele fosse punido. O mestre não estava de todo errado, afinal de contas Tomas realmente havia cometido um crime, mas ele não se esquecia daqueles que tinham agido contra ele. Apesar de ter errado em alguns passos do caminho, Tomas se divertiu ao incriminar Maurício quando ajudou Luci a prendê-lo. Não que ele não fosse culpado, Maurício tinha sua própria cota de atos ilegais pela qual pagar, mas Tomas não se importava em aumentar o problema para o lado do mestre sonhador. Muitos anos tinham se passado, mas eventualmente Maurício tinha experimentado do próprio veneno.

— Você ainda não me disse o porquê — falou Nicolas. — Preciso entender…

— Para usar contra mim? — Tomas sorriu com desdém. — Imagino que você já tenha provas o suficiente, senhor do Ninho.

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— Não, seu idiota! — Nicolas bateu a mão na mesa, frustrado. — Porque preciso entender o que deu em você! Sim, cortei suas tentativas de falar comigo depois que você foi exilado. Eu estava bravo! Pode me culpar?

Naquele momento, Nicolas tirou o anel do dedo em que deixava o feitiço para mudar sua aparência. Em poucos instantes, Tomas viu a verdadeira face de seu irmão atualmente. Pelo rosto de Nicolas, surgiram as marcas do pesadelo, olheiras escuras tomando conta de seu rosto – elas desciam até a bochecha. Nicolas também parecia um pouco mais magro agora. Tomas quis virar os olhos, mas não se afastaria do que ele tinha causado.

— E mesmo depois disso — Nicolas apontou para o próprio rosto — você continua?! Foi sua falta de noção que fez que nós ficássemos presos naquele pesadelo! Você quase matou Sofia com seus “testes”. Mas você não aprende nunca, Tomas!

A cara de Tomas se fechou de novo. Ele colocou as mãos algemadas em cima da mesa e se inclinou para a frente. Aquilo doía mais do que tinha imaginado. Como Camaleão, sempre tentou agir como se nada o abalasse, mas sabia que tinha chegado no final da linha. Nicolas não recuou com a aproximação do irmão, não acreditava que Tomas pudesse fazer algo contra ele, ao menos não intencionalmente.

— Quer saber o porquê? — falou Tomas entre os dentes. — Por você. Eu “não aprendi” por sua causa, Nicolas.

O senhor do Ninho deixou o corpo cair para trás, como se tivesse sido atingido por um tapa no rosto. Seus olhos se arregalaram.

— Do que você está falando? — perguntou Nicolas. — O que tenho que ver com tudo isso?

— Como você gosta de me lembrar, irmão, eu que fiz isso em você. — Tomas fez uma pausa. — Você tem razão, a vida das pessoas na superfície pode me valer pouco, mas a sua não.

A sala ficou em silêncio novamente por um tempo, enquanto Nicolas digeria o que tinha acabado de ouvir e Tomas recuperava o fôlego. Apesar de tudo, de seus erros, de seu exílio, ele tinha um motivo para continuar mexendo onde não devia. Ninguém tinha encontrado uma cura para a doença do pesadelo, mas Tomas acreditava que era inteligente o suficiente para conseguir, se mexesse onde as pessoas geralmente tinham medo de ir. Por isso queria examinar a mente de Luci, entender como sua resistência a pesadelos funcionava, e por isso precisava ter acesso aos documentos na torre do Sonhar. Por isso ele precisava caminhar pelas áreas mais perigosas do Sonhar e, por mais que não quisesse, colocar os outros em risco.

— Você está mentindo… — disse Nicolas, mas seu próprio tom de voz o denunciou. O senhor do Ninho não achava que o irmão estava mentindo, o que tornava tudo ainda pior. A fala era uma tentativa inútil de se convencer.

— Acredite no que quiser. Eu não faço questão de me explicar. — Tomas deu de ombros. — Era isso? Posso voltar para minha cela? Ou vocês pretendem me exilar de novo?

Nicolas abaixou a cabeça e Tomas entendeu que sua sentença já tinha sido resolvida, seja lá qual fosse. Naquele momento, acreditou que tinham decidido por sua morte, porque a expressão de Nicolas era de tristeza. Apesar de todos os problemas entre os dois, havia uma preocupação mútua ali.

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— Sinto muito, Tomas. — Nicolas ergueu a cabeça. — De verdade.

Antes que Tomas pudesse dizer qualquer coisa, sentiu uma força intensa invadindo sua mente. Era Nicolas que, sem nenhuma cerimônia, usava a própria magia mental para invadir a mente do irmão. Tomas tentou lutar contra aquilo, mas as algemas enfeitiçadas impediam qualquer resistência que ele pudesse oferecer. Mesmo em um ambiente normal, era possível que não conseguisse lutar contra Nicolas com aquele tipo de magia – afinal, habilidades mentais eram a especialidade do senhor do Ninho.

Tomas sentiu sua mente se distanciando de seu corpo, como se não estivesse mais ali de verdade. Ele teve a impressão de gritar, mas não sabia se algo realmente tinha saído de sua boca. Era isso? Depois de tudo que fizera por Nicolas, ele estava sendo morto pelo próprio irmão? Tendo a mente destruída pela magia dele? Não, não era isso que Nicolas estava fazendo, Tomas já estaria morto se fosse o caso.

Ele tentou mexer o próprio corpo, para se afastar de Nicolas, mas nada o ajudaria. Eram as mãos invisíveis de seu irmão que abriam a sua mente e mexiam em sua cabeça. Tomas sentiu vários pequenos choques, estalos dentro de seu cérebro, e, cada vez que isso acontecia, mais fraca sentia que suas defesas ficavam. Quando se deu conta disso, entendeu o que estava acontecendo.

Seus olhos se arregalaram, mas já era tarde demais.

Tomas estava exausto quando a magia de Nicolas saiu de sua mente. Ele arfava enquanto o senhor do Ninho se levantava, colocando o anel de volta em seu dedo. A aparência de Nicolas voltou a ficar enfeitiçada, ocultando de sua forma física qualquer resquício da doença do pesadelo. Tomas ergueu a cabeça, mechas de cabelo caindo sobre seus olhos.

— Como você pode?! — Tomas quase gritou.

— Você será liberado em breve. Seu exílio ainda está válido, mas foi decidido que algo mais precisava ser feito. Os fins não justificam os meios, Tomas, você não podia ter colocado a vida de inocentes em jogo por causa disso… Você cometeu um crime tentando corrigir outro — suspirou Nicolas. — Novamente, sinto muito. Sei que você não vai me perdoar, então… Acho que estamos quites. — Dizendo isso, ele se virou na direção da porta atrás de si. — Acabei aqui.

Assim que Nicolas falou, as duas portas se abriram. Um dos oficiais acompanhou Nicolas para fora. Antes de sair, o senhor do Ninho olhou para seu irmão e Tomas viu tudo que estava em seu olhar: dor, angústia e decepção. Nicolas tinha razão, ele não se via perdoando o irmão por aquilo, só conseguia sentir raiva subindo pelo corpo e, se não estivesse algemado, não duvidava que tentaria pular em cima dele e socá-lo.

O outro oficial puxou Tomas pelo braço, fazendo-o se levantar. Ele provavelmente percebeu que o prisioneiro estava mais fraco, mas devia ter sido avisado sobre o que aconteceria ali. Tomas caminhou de volta para sua cela. Em breve estaria livre dela, pelo que tinha entendido. Livre para voltar para seu exílio, se é que aquilo era liberdade de verdade, mas o vazio que sentia em seu corpo não o deixava pensar em mais nada. Tomas sabia que teria que encarar algo terrível, ele entendia que tinha cruzado todos os limites, mas nunca imaginara o que acabara de acontecer.

Poucas pessoas na história do Ninho tinham passado por remoção de magia, que fazia que o mago nunca mais pudesse usar sua magia novamente, mas agora Tomas era uma dessas pessoas.

Nunca mais seria o Camaleão.

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*

Nicolas segurou o choro preso na garganta enquanto saía da prisão do Ninho. Um oficial o levou até o prédio da Corte, que ficava ao lado. Nicolas pediu para ser deixado sozinho, afirmando que sabia por quais corredores andar. Não era mentira, mas ele só queria ter alguma paz enquanto lidava com o que tinha acontecido.

Tinha arrancado a magia de Tomas.

Quando a sentença tinha sido decidida pela Corte, ele pedira, mesmo sabendo o quanto aquilo lhe seria dolorido, para ser a pessoa que faria a remoção – não por qualquer senso de vingança ou raiva, mas porque aquilo já era algo ruim o suficiente, ainda que necessário. Ainda mais para seu irmão, que sempre tinha sido muito ligado a sua magia. Se Tomas fosse passar por isso, que ao menos fosse por alguém que sabia o que estava fazendo. Um mago mental sem preparo podia destruir parte da mente de Tomas e Nicolas nunca permitiria aquilo, apesar de suas diferenças.

Fazer aquilo tinha sido ainda mais difícil quando Nicolas ouviu os motivos por trás de tudo que Tomas fizera. Ele tinha buscado uma cura, uma forma de ajudá-lo… Nicolas se sentia um traidor, mas precisava ser racional agora. Os fins não justificavam os meios que seu irmão tinha escolhido. Mesmo com um objetivo que poderia ser nobre, Tomas tinha trazido o caos e machucado inúmeras pessoas inocentes no processo. Ele precisava ser detido de alguma forma, por mais doloroso que aquilo fosse para Nicolas. E tinha sido, ele sentia a presença de Tomas em sua mente e só queria que aquela sensação fosse embora.

Quando passou pela recepção da Corte, viu Estela sentada em um dos bancos, esperando por ele. A senhora da superfície o viu e foi rápido em sua direção. Ela percebeu em um minuto a expressão abalada de Nicolas e, deixando qualquer formalidade social de lado, o abraçou. Nicolas deixou o corpo dele relaxar ali.

— Vamos sair daqui — falou Estela. Ela sabia do julgamento, todos do Congresso sabiam, Luci já tinha mandado algumas mensagens em nome dela e de Sofia para saber como estava a situação. — Você não está bem, Nicolas. Precisamos ir.

Não era uma constatação difícil de fazer. As poucas pessoas ali falariam sobre como viram o senhor do Ninho derrotado, de uma maneira que nunca tinham visto antes. Mas Estela agiu rápido. Sem demorar, tirou Nicolas dali e o levou até a mansão Alba, passando pelo menor número de pessoas possível. Já fora dos olhares curiosos, ela segurou a mão de Nicolas e o levou até seu quarto.

Precisaria falar para a senhora Agnes o que tinha acontecido. Ela estava em sua estufa, provavelmente lidando com o que precisava ser feito a sua própria maneira, mas agora Estela ficaria com Nicolas.

— Eu me sinto culpado, Estela — falou Nicolas, enquanto se sentava na cama. — Tomas me disse porque fez tudo o que fez… Ele estava procurando uma cura para mim e eu… Merda! Que merda! — Nicolas fechou os punhos com força, machucando as próprias mãos.

— Ei! — Estela sentou-se ao lado dele. — Foi você que destruiu a Alvorada? Que enganou Sofia? Não, né? Então, não foi culpa sua. — Ela pegou nas mãos dele, para que deixassem de ficar tensionadas. — Seu irmão não é uma criança, ele sabia o que estava fazendo. Há inúmeras formas de estudar a doença do pesadelo sem colocar os outros em perigo.

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— Será? — Nicolas começou a sentir o choro descendo pelos rosto.

— Não posso sair por aí matando pessoas e colocando a superfície toda em perigo e alegar um motivo nobre. — Estela respirou fundo, tentando não deixar os próprios nervos tomarem conta de sua fala. — Tomas é seu irmão, é normal que você se sinta mal, mas não tire a culpa dele e a torne sua.

Nicolas puxou Estela para perto e a abraçou, soluçando enquanto encostava a cabeça no ombro dela. A própria Estela sentiu vontade de chorar junto, era como se pudesse sentir a dor dele como se fosse sua. Não seria agora que ele conseguiria lidar com aquilo, mas em algum momento ele lidaria com a situação, assim como estava começando a lidar melhor com o fato de que tinha a doença do pesadelo.

Estela adoraria que houvesse uma cura para aquilo, pensar que ainda teria que ver Nicolas sucumbindo para aquela condição fazia seu coração se apertar. Não estava pronta, muito menos Nicolas, mas ela tinha aceitado que conviveria com aquilo quando entendera o quanto Nicolas era importante para ela.

A respiração do senhor do Ninho foi se acalmando aos poucos e Estela esperou o tempo que ele precisava. Mesmo quando Nicolas parou de chorar, ele continuou ali, aproveitando a proximidade dos dois.

— Você devia comer alguma coisa… — disse Estela, finalmente. — E se hidratar, você não bebeu nada…

— Eu te amo.

Estela engasgou com as próprias palavras quando ouviu aquilo e sentiu o coração acelerar.

Nicolas ajeitou o corpo, e ela precisou erguer um pouco a cabeça para olhá-lo. Seus olhares se cruzaram por um tempo e ela sorriu, com uma sensação gostosa no peito.

— Eu também — e ela deu um beijo nele, sentindo o gosto salgado das lágrimas recentes. — Mas não é para ignorar o que eu falei, você precisa se cuidar.

Nicolas riu baixinho, sentindo um raio de felicidade no fim do túnel que era sua mente agora. Por mais difícil que fosse, ele tinha Estela ali. Ela não podia resolver seus problemas, só ele poderia, mas estava feliz por poderem lidar com aquilo juntos.

*

Helena nunca se acostumaria com o céu encantado do subterrâneo. Ficar no Ninho tinha suas vantagens, mas era muito estranho para ela olhar para cima e perceber que não havia um céu de verdade ali, que aquelas estrelas eram só um brilho feito por magia.

Ela trocaria todas as estrelas verdadeiras para reverter o que tinha acontecido com Giovani.

Aquela perda ainda era muito recente, muito dolorida. Ela sabia que logo faria dois meses que o teatro tinha sido atacado, mas ela revivia aquela noite todos os dias, especialmente quando dormia. Helena guardava os momentos de melancolia para quando estava sozinha, ou só com suas filhas, porque só aquela família saberia o que era ter alguém arrancado de suas vidas por um pesadelo de forma tão cruel.

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Nenhuma magia do mundo podia curar aquela dor, mas talvez, com o tempo, ela se tornasse mais suportável.

O teatro nunca mais seria o mesmo, mas Helena tinha decidido que queria que ele fosse reformado para voltar às atividades assim que fosse possível. O teatro tinha sido a casa de muitos cientes da superfície, todos eles tinham virado parte de sua família, de uma forma ou de outra. Giovani não gostaria de que o sonho do teatro morresse com ele, e Helena também não queria isso. Iria doer por um tempo, talvez para sempre, mas deixar tudo para trás doeria ainda mais.

Quando Helena tomou sua decisão, Estela mandou que as reformas no teatro fossem feitas o mais rápido possível. Muitas pessoas da superfície se voluntariaram para ajudar. Aquela união como comunidade era algo que o Ninho não conhecia e Helena sentia falta disso quando estava no subterrâneo. Enquanto as reformas aconteciam, ela tinha se mudado para a torre do Sonhar, onde Sofia também estava e Luci seguia fazendo seu trabalho como guardiã. Ainda não se sabia qual das duas assumiria a posição, tudo ainda estava muito recente.

Helena ouviu uma batida na porta e deu permissão para que a pessoa entrasse. Sofia apareceu através da porta, junto com um cheiro ótimo de torta. Helena se levantou de sua cadeira, onde passava a maior parte do tempo lendo para distrair a mente, e abraçou a filha.

— Eu vou ficar mal acostumada se você me trouxer uma delícia dessas todo o dia — disse Helena, pegando o prato com a torta e o garfo que Sofia trazia.

— Todo esse tempo livre está me fazendo aprender umas receitas novas — sorriu Sofia.

Assim como fazia com seu marido, ela via a mentira pelo sorriso da filha mais velha. Sofia também ocupava a mente da forma que podia para não se afogar na própria tristeza. Ela tinha sentido muito a morte de Giovani. Não era algo inesperado, afinal Giovani sempre fora um pai presente e a família deles costumava se dar bem, mas Sofia estava lidando ainda com mais peso desde que voltara do Sonhar. Helena também via culpa ali, tinha visto desde o primeiro dia, Sofia não precisava falar para que a mãe entendesse aquilo.

— Estela comentou comigo que as reformas estão quase prontas, então logo você vai poder voltar para a superfície — falou Sofia. — Sei que ainda é tudo muito esquisito aqui para você, mãe.

Helena comeu um pedaço da torta. Era de maçã e estava uma delícia. O cheiro da torta tinha tomado conta do quarto.

— É verdade, mas vou sentir falta dos doces — sorriu ela.

— Acho que não — respondeu Sofia. — Devo voltar com você. Não tem muita coisa para mim aqui agora.

Aquilo doeu em Helena, porque ela sabia o quanto pesava para Sofia dizer aquelas palavras. Por mais que tivesse finalmente se livrado do Sonhar e que estivesse segura, era como se as coisas ruins a continuassem perseguindo. Helena queria proteger sua filha de tudo, mas havia coisas que simplesmente estavam fora de seu alcance.

— Converse com Luci antes — pediu Helena. — Mas se decidir voltar mesmo, não se preocupe, o teatro sempre foi e sempre será sua casa.

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Helena colocou o prato na mesinha ao lado de sua cadeira e estendeu os braços para abraçar Sofia, que correspondeu ao gesto. Em alguns de seus pesadelos, ela acordava preocupada, com medo de que Sofia não estivesse lá de verdade, de que tudo tivesse sido apenas sua imaginação e ela ainda estivesse presa no Sonhar. Mas Sofia estava lá, de verdade.

— Obrigada, mãe. — Ela se afastou — Vou falar com Luci ainda hoje sobre isso.

Quando Sofia se virou para sair do quarto, Helena a chamou:

— Filha — Sofia parou perto da porta. — Sei que já te disso isso antes, mas não se culpe, por favor. Nada disso foi culpa sua.

Sofia abriu a boca, mas não disse nada. Ela abaixou o rosto. Sentia como se não tivesse mais lágrimas para chorar, por mais que a tristeza ainda tomasse conta de seu peito. Ela não forçou um sorriso daquela vez, porque seria desnecessário. Helena já sabia tudo que ela estava sentindo.

— Eu vou tentar… É que… Sinto muita falta dele. — Sofia foi baixando o tom de voz à medida que ia falando.

— Eu também — respondeu Helena. E não havia mais nada que qualquer uma deles conseguisse dizer.

Sofia sabia que precisava falar com Luci sobre ir embora da torre, mas estava adiando o momento. Voltou para a cozinha e comeu mais um pedaço da torta que tinha sobrado, depois de distribuir alguns pedaços para os sentinelas que estavam por ali. Sofia não suportava o olhar de pena que recebia deles, mas entendia que era algo que não tinha como evitar.

Era difícil não se sentir culpada por tudo, ainda mais porque se sentia constantemente punida. Não tinha conseguido encarar Tomas e agora ele já tinha sido mandado para algum lugar da superfície. Talvez tivesse energia para vê-lo de novo algum dia, mas agora doía demais.

Tudo doía.

Então, recebeu a notícia da morte de seu pai e qualquer estabilidade que tinha sentido de voltar para o mundo material havia desaparecido. O que o pesadelo tinha feito com seu pai no teatro era completamente diferente do que Giovani realmente era e a imagem disso ainda estava queimada em sua mente.

Como se não bastasse, desde que tinha usado sua magia no teatro, não a tinha sentido mais. Tinha desmaiado depois de ajudar Luci e acordara com curandeiros preocupados em seu redor. Só então percebeu que aquela energia, a magia que sempre existira dentro de si, não estava mais lá. Tudo tinha desaparecido. Não era comum, mas havia uma história ou outra de magos que tinham ultrapassado seus limites e perdido contato com sua própria magia. Caso um dia Sofia reencontrasse Tomas, ela já imaginava a ironia que veria estampada em seu rosto.

Sofia não sabia o que fazer, porque toda sua vida ela tinha sido, em parte, sua magia. Mas agora sentia um eterno vácuo dentro de si. Tinha passado as últimas semanas estudando e passando por exames para tentar descobrir uma forma de contornar aquilo, mas ainda não tinham encontrado uma solução. E, sem sua magia, não podia voltar a ser a guardiã. Nicolas e Luci tinham determinado, durante o Congresso, um prazo de mais algumas semanas para darem uma resposta final sobre quem ficaria no cargo de guardiã, para que ainda houvesse tempo de ajudar Sofia, mas ela já tinha desistido. Voltar para a superfície com Helena seria a melhor coisa a fazer.

Não era à toa que Sofia sentia olhares de pena. Uma vez, ela tinha sido uma guardiã prodígio, mas hoje nem ao menos tinha poderes.

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*

Já era de noite, o céu encantado do Ninho tinha escurecido do lado de fora da torre do Sonhar. Luci sentiu a presença de alguém entrando no observatório enquanto olhava através do interior de três portas, que estavam abertas em contato com o Sonhar.

Nenhum sentinela entrava sem autorização, menos Ingrid.

Com um movimento do pulso, a magia de Luci fez que todas as portas se fechassem. Ela se virou e viu Ingrid se aproximando, com um sorriso no rosto. Luci sabia que não tinha mais ninguém ali, então abraçou a sentinela e beijou seus lábios. Ingrid tinha passado alguns dias longe, mas para Luci pareciam semanas e meses. Não era mais muito segredo que algo acontecia entre as duas, mas elas prezavam a discrição.

— Você vai finalmente me contar a tal surpresa que você está armando? — Luci perguntou. Ingrid tinha pedido alguns dias de folga para resolver questões que, segundo a sentinela, era uma “surpresa, eu conto depois”.

— Na verdade, sim — respondeu Ingrid.

Antes de Luci poder perguntar qualquer coisa, viu Ingrid tirando seu manto de sentinela. A guardiã franziu o cenho com aquilo.

— O que está fazendo? — perguntou Luci.

— Estou pedindo demissão — sorriu Ingrid. — Não quero que a gente tenha que ficar pisando em ovos quanto a… Bem, nós. Sei que não tivemos tempo para conversar sobre a gente… Muita coisa aconteceu. — Ingrid fez uma pausa. Não tinha muito tempo para falar sobre elas quando Luci estava lidando com a morte do pai e a perda de poderes da irmã mais velha. — Mas eu não quero desistir da gente.

— Você não precisa abrir mão de sua posição por isso. Você adora mexer com o Sonhar! — falou Luci. — Ainda estamos tentando cuidar da situação de Sofia e…

Ingrid não queria dizer o que Luci e Nicolas tinham ignorado nas últimas semanas, mas quais eram as chances de os poderes de Sofia voltarem a aparecer? Muito poucas. A ex-sentinela pensou com cuidado nas palavras que diria a seguir. Luci ainda estava frágil com tudo o que tinha acontecido, não tinha porque ser insensível.

— Mesmo assim, Luci, ainda seria sua irmã. Não quero ninguém usando nossa relação contra vocês.

Luci não sabia o que responder. Ela sabia que poderia haver consequências em ter um relacionamento com uma sentinela, sabia que em alguns momentos teria que ser a chefe e não a namorada e que isso podia ser complicado, mas ver Ingrid desistindo de algo que ela tinha lutado para conseguir era dolorido.

Ingrid abraçou Luci, dando um beijo em sua bochecha.

— Ei, não fica com essa cara — falou Ingrid. — Eu não ia sair daqui com uma mão na frente e outra atrás. Não quer ouvir meu plano? — Luci assentiu com a cabeça. — Fui aceita em um novo grupo de pesquisa de sonhadores na Escola. Acho que você sabe exatamente qual — sorriu Ingrid. — Eles ficaram bem felizes em saber que uma sentinela queria participar.

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A guardiã estava prestes a perguntar qual grupo era, mas se tocou rápido do que Ingrid estava falando. Luci e Nicolas tinham traçado esse projeto por dias e recebido várias broncas de Estela por estarem trabalhando por tempo demais. Depois de toda a questão com Tomas e a própria situação do guardião do pesadelo, a guardiã e o senhor do Ninho conversaram muito sobre a necessidade de um espaço seguro para magos estudarem e entenderem melhor sobre os pesadelos. Apenas temê-los não era mais uma opção, mas as pesquisas precisavam ser feitas de maneira responsável.

Por isso, criaram o grupo dentro da escola dos magos, coordenado por sonhadores que, felizmente, eram contrários às ideologias de Maurício. Não eram muitos, mas o suficiente para fazer o grupo nascer. Luci não sabia se teriam resultados rápidos sobre a doença do pesadelo, era muito improvável que Nicolas visse uma cura, mas as gerações seguintes podiam se beneficiar daquilo.

— A Ciência dos Pesadelos? — perguntou Luci. — Sério? Se você queria entrar, eu podia…

— Eu não queria entrar porque estou saindo com a guardiã — falou Ingrid. — Mas a prova foi tranquila, eles gostaram de meu currículo e achei esse projeto que você fez genial.

— Você está feliz com isso? — perguntou Luci, apertando o tecido da blusa de Ingrid.

— Estou — sorriu a ex-sentinela. — Vai ser uma boa mudança e, se tudo der certo, vamos ajudar muitas pessoas. — Ingrid beijou Luci mais uma vez. — Vou ficar mais feliz se você aceitar jantar comigo hoje.

— Quando você coloca dessa forma… — riu Luci. Só Ingrid conseguia tirar aquelas risadas dela naqueles últimos tempos. — Vamos em algum lugar na superfície para evitar olhares estranhos.

Antes de Luci poder continuar a falar qualquer coisa, viu uma figura aparecendo pela entrada do observatório. Ela se afastou um pouco de Ingrid, enquanto a irmã se aproximava.

— Posso voltar outra hora… — falou Sofia.

— Ah, não se preocupe, eu já estava de saída — disse Ingrid. Ela se virou para Luci. — Vou arrumar minhas coisas no quarto e te espero lá, tá?

Luci assentiu com a cabeça, enquanto a ex-sentinela se retirava do observatório. Quando ela saiu do local, as duas irmãs ficaram sozinhas. Sofia ainda tinha uma expressão diferente da que Luci se lembrava, não tinha recuperado todo o peso que havia perdido no tempo em que passara presa no Sonhar, mas já aparentava estar bem melhor do que quando Luci a encontrara.

— Está tudo bem? — perguntou Luci.

— Conversei com Estela hoje, falamos sobre a reforma… Nos próximos dias, o teatro já deve estar pronto de novo — sorriu Sofia. — Ela e Nicolas estão tão apaixonados quanto você e Ingrid, é fofo de ver.

A guardiã encolheu um pouco os ombros, ficando sem graça e sentindo o rosto ficar vermelho. Isso fez Sofia rir.

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— De qualquer forma — Sofia mudou de assunto —,tenho pensado muito e… Acho que vou voltar com a mãe para a superfície, ajudá-la com o teatro.

— Que? Mas espera… — disse Luci. — E quanto à torre? O Congresso concordou em esperar mais algum tempo para ver como as coisas ficavam!

— Ah Luci, eu agradeço muito, mas…

A expressão de Sofia ficou mais séria. Então, ela se virou, andando na direção das janelas do observatório. Dali, dava para ver praticamente toda a extensão do Ninho. Tinha sentido muitas saudades de ficar ali, apenas perdendo tempo enquanto mergulhava em seus próprios pensamentos.

— A verdade é que não devo conseguir meus poderes de volta de novo — suspirou ela. — Me dói pensar nisso, mas não podemos negar para sempre. Você tem melhorado cada vez mais como guardiã, a torre não precisa mais de mim. Como vamos ter uma guardiã sem magia?

Luci balançou a cabeça, não querendo aceitar o que ouvia. Sim, ela sabia que aquilo era uma possibilidade muito real e por isso tinha adiado o máximo que podia a decisão final sobre quem ficaria com o cargo de guardiã. Luci foi para perto da irmã, parando a seu lado.

Por mais que ela tivesse aprendido a ser a guardiã, e se redescoberto nesse tempo que passara no Ninho, não tinha o mesmo amor ou até vocação para a função como Sofia. Luci não teria conseguido se manter viva no Sonhar por tanto tempo, e ainda tinha muito o que aprender em vários outros aspectos. Por muito tempo, Luci pensou que, assim que Sofia voltasse, ela poderia virar as costas para o Ninho e fingir que nada daquilo havia acontecido, mas não dava mais. Não só por Ingrid, que ela queria ter a seu lado, mas porque nada seria igual depois daquela época que o Ninho tinha passado, nem no subterrâneo e muito menos na superfície.

A verdade é que Luci demorou muito para encarar a questão de quem seria guardiã porque tinha ficado, e ainda estava, de luto pelo pai. Ainda se culpava por não ter sido mais rápida, por mais que sua família insistisse que não era o caso. Helena, Sofia e Luci tinham se apoiado muito nas últimas semanas, por mais que estivessem sofrendo, e estavam unidas. Pensar que nunca mais ouviria a risada alta de Giovani era dolorido, e era ainda mais cruel pensar que Sofia estava lidando com o luto e a falta de sua magia.

Luci via em Sofia a dor de abrir mão daquilo tudo. A posição de guardiã tinha tomado muito de Sofia, mas, mesmo assim, ela sempre tinha tentado fazer o melhor com sua responsabilidade.

A guardiã olhou para os braceletes em seus pulsos. Ela já tinha comentado no Congresso que algumas coisas teriam que mudar para evitar novos acidentes, por isso até tinha conseguido criar o grupo de pesquisa de que Ingrid agora fazia parte. Algumas coisas deviam mudar dentro da torre também, para que ninguém mais tivesse que passar pelo que elas, sua avó e outros guardiões tinham passado.

Luci agiu um pouco por impulso, mas em parte também por algo que já tinha passado por sua mente algumas vezes.

Sem dizer nada, ela tirou o bracelete do pulso esquerdo. Sofia olhou para o lado, notando o que a irmã estava fazendo. Quando Luci terminou, ela estendeu o bracelete para Sofia, que ficou confusa e não se moveu.

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— O que você está fazendo? — perguntou Sofia.

— Ninguém é e nunca será uma guardiã tão competente quanto você — disse Luci. — Mesmo que seus poderes nunca voltem, ninguém entende o Sonhar como você entende, Sofia. E isso é importante. É verdade, algumas coisas de nossa função exigem magia, mas essa parte eu posso fazer. — Luci levantou mais o bracelete em sua direção. — Não precisa ter só uma guardiã.

Sofia arregalou os olhos, olhando para o bracelete na mão de Luci e depois olhando para o rosto da irmã de novo.

— Não, isso não existe, nunca antes…

— Quem se importa com o que o Ninho nunca fez antes? — perguntou Luci. — Nunca existiu uma senhora da superfície, mas Estela está aí fazendo o que ninguém conseguiu antes. Nunca existiu uma guardiã da superfície até vovó assumir o cargo, assim como nunca teve uma guardiã não formada até você chegar. O Congresso pode dizer não, é verdade, mas se você aceitar vou fazer de tudo para que eles me escutem quanto a isso. — Luci falava muito sério. — Sendo duas, não vamos ficar sobrecarregadas, cada uma poderá cuidar de uma área, analisar melhor o que acontece no Sonhar e ainda poderemos nos revezar quando a mãe precisar da gente.

Sofia hesitou e o mundo pareceu parar ao redor delas.

Depois que as palavras de Luci foram tomando espaço em sua mente, Sofia estendeu a mão na direção do bracelete, aquele que ela tinha usado por tantos anos e do qual, às vezes, sentia falta do peso em seus pulsos. Com essa ideia, o peso não seria tanto e Sofia entendia o que Luci estava dizendo. A gema lilás brilhou na joia, enquanto Sofia a mexia entre as mãos.

— Não sei se sou mais uma guardiã decente, nem só por causa da falta de meus poderes — disse Sofia.

— Você fez tudo o que podia e mais, Sofia. Talvez você se sinta assim porque carregou muita coisa sozinha por muito tempo… — respondeu Luci. — Não tem por que isso ser um papel solitário. Nós enfrentamos o guardião do pesadelo juntas, né?

Luci encarou a irmã, sentindo os segundos passarem enquanto Sofia olhava o bracelete em suas mãos. Talvez ela não aceitasse, talvez sentisse que já tinha passado por muita coisa ou que não era capaz, o que era uma mentira. Ou poderia simplesmente não querer mais estar ali. Ser a guardiã do Sonhar exigia muita responsabilidade, mas não precisava ser um fardo tão grande assim, ou ao menos não tão difícil de carregar.

Quatro mãos eram mais fortes do que duas.

A guardiã estava prestes a abrir a boca para falar, quando se calou ao ver Sofia colocando o bracelete no próprio pulso. A verdade era que a magia de Sofia poderia estar comprometida para sempre, mas ela era mais do que isso, ou ao menos queria ser. Sofia ergueu o rosto e sorriu para Luci. Elas já tinham brigado e discordado muito, mas elas eram mais que os desentendimentos do passado.

— Se o Congresso aceitar… Então vamos, é isso que faremos — falou Sofia, com uma determinação que fez Luci reconhecer mais a irmã. — Obrigada por confiar em mim, guardiã.

— Eu que agradeço por você aceitar ficar, guardiã.