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Ah, Sofia…

A pessoa perfeita, a filha perfeita. Sempre tão madura, preparada, prestativa e com todo o conhecimento de que precisava para resolver absolutamente tudo, ou pelo menos era essa a impressão que ela passava. Quase parecia um robô, sabia agir exatamente da forma que precisavam.

Anos atrás, Giovani e Helena reuniram as duas filhas para falar da morte de Carmela. Luci já estava em lágrimas antes mesmo de os pais terminarem o relato. Mas não Sofia, claro que não. Ela se lamentou, mas sem perder o controle. Sofia era a mais próxima da avó, ninguém estranharia se ela colocasse as emoções para fora, mas não foi o que ela fez. Luci a ouviu chorando uma vez, na noite daquele mesmo dia, quando passou pelo seu quarto. Obviamente ela tinha guardado o choro para o momento em que não fosse atrapalhar ninguém, longe do olhar de todos.

Sofia tinha herdado cada gota do dom da avó, alguns chegavam a apostar que ela poderia ser até mais poderosa. Andar no Sonhar para Sofia era quase natural, ela parecia até mais feliz quando podia passar um bom tempo com a mente lá. Algumas pessoas que faziam isso acabavam se distanciando um pouco daqueles ao seu redor, mas não Sofia. Ela sempre estava no mundo real quando precisava, mesmo que passasse muito tempo no Sonhar. Todos viam o quão boa ela era, seu poder, sua responsabilidade e o conhecimento que fora adquirindo ao longo dos anos.

O dom de Luci era muito particular, mas era o de Sofia que aparecia mais. Por mais que um ciente nascesse com um dom para alguma das linhas de magia, isso não definia completamente para que lado ele seguiria, ou até se treinaria qualquer tipo de magia. Até certo ponto de sua vida, Luci gostou da facilidade que tinha de entrar no Sonhar. Hoje ela se lembrava muito pouco, mas sabia que, na infância, tinha gostado bastante de lá.

Até o maldito acidente.

Desde então, pensar no Sonhar a fazia ter arrepios. Passou boa parte da adolescência dormindo mal, e um lugar de que gostava tanto se tornou assustador em pouco tempo. Odiava dormir poucas horas por noite, ter medo de fechar os olhos e cair no meio de um pesadelo. Conseguia reviver a sensação de pânico e agonia que sentira no dia em que tudo tinha mudado.

E se hoje ela estava lá, de certa forma inteira, era por causa de Sofia.

Enquanto a irmã mais velha seguia vivendo, sendo reconhecida por seus atos, admirada e considerada uma grande promessa de Guardiã, Luci ia se afastando cada vez mais do lado mágico de sua família. Quanto mais ela se afastava, mais Sofia tentava trazê-la de volta. Sempre com aquele tom doce, como quem quer ajudar, “pelo seu próprio bem”, como se ela soubesse o que era melhor para Luci… E foi assim que, aos poucos, a relação das duas foi ficando complicada. Elas não batiam tanto de frente, mas bastava um comentário de Sofia para resultar em uma resposta grosseira de Luci.

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Quem via de fora sempre acabava ficando do lado da irmã mais velha. Claro, pobre Sofia, só queria o bem da irmã, queria fazê-la se reconectar com o Sonhar, com aquele dom maravilhoso que sua família tinha. Ela era neta da Guardiã, então nada mais justo. Sem contar que Sofia tinha salvado a vida de Luci. Mas ninguém conseguia entender o que Luci tinha passado, o que ela sentira todos aqueles dias. Ela não precisava ser lembrada do quão errada e fora do eixo era para a família, muito obrigada. Nem o quão “ingrata” poderia estar sendo com a irmã, sua mente já fazia aquele “favor” para ela. Não que seus pais cobrassem, mas, nos detalhes, o julgamento de Sofia era visível. A irmã mais velha entendia que Luci tinha um dever por ter os dons que tinha, que ela tinha que colocar os deveres acima de seus desconfortos. Bastava insinuar isso para Luci perder a cabeça.

Não havia conhecimento de Sonhar grande o suficiente para fazer qualquer pessoa entender o que Luci sentia depois do acidente.

De repente, a própria Sofia se tornara um grande lembrete do que Luci jamais seria. Ela não conseguiria ter aquele nível de pose, de serenidade e de poder que a irmã mais velha tinha. Tudo bem, eles só precisavam de uma Guardiã mesmo e Sofia tinha obviamente nascido para aquilo, mas ainda assim Luci sentia os olhares de julgamento. Sentia-se como a segunda, a que poderia, mas nunca seria.

Houve um momento em que elas brigaram feio diretamente, a última vez em que Luci viu Sofia. O fato de aquela discussão ter sido o último momento que as irmãs passaram juntas não ajudava em nada a culpa que Luci sentia no peito por ter dito “não” para a Senhora da Superfície.

Depois que Sofia assumiu o cargo de Guardiã, elas se viam mais em encontros de família, o que diminuiu consideravelmente quando Luci deixou de morar no teatro e se mudou para um bairro com maioria de moradores leigos. Ainda assim, Sofia insistia em visitar a irmã. De vez em quando, Luci não tinha como inventar uma desculpa para evitar a situação, incluindo aquele dia, alguns meses atrás.

Nada em Sofia indicaria aos leigos que ela era um ser mágico extremamente poderoso. Ainda assim, ela não precisava mostrar magia para chamar a atenção. Sofia era muito bonita, um pouco mais alta que Luci, cabelos mais longos, mas os olhos de ambas eram muito parecidos, além do mesmo tom de pele escuro.

Foi um minuto de descuido. Luci queria mexer em algo na bolsa, que caiu aberta no chão. Prontamente, Sofia se abaixou para juntar as coisas e encontrou o remédio de Luci, o Noite Calma. O remédio que impedia que a mente de alguém perambulasse inconscientemente no Sonhar. Sofia segurou aquilo enquanto levantava, como se tivesse achado algo terrível.

— Você está tomando isso? —perguntou ela, o tom de voz muito sério que fez que Luci precisasse se segurar para não girar os olhos.

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— Não é nenhuma novidade. — Luci estendeu a mão para pegar o remédio de volta, mas Sofia não permitiu.

— Doses pequenas, controladas e por um período específico. Você sabe o que isso em excesso pode fazer para você? — Luci não precisava responder, porque obviamente Sofia explicaria. — Suas habilidades de sonhadora vão ficando cada vez mais fracas, quando você decidir entrar no Sonhar de novo vai ser um processo muito mais trabalhoso. Está perdendo o contato…

— …Com a minha magia. Eu sei. — Sofia falava aquela última frase com alguma frequência. Luci deu um passo para frente, tomando o objeto das mãos da irmã e jogando dentro da bolsa de novo. — E não tem isso de quando, eu não entro no Sonhar, eu não preciso nem quero.

— É parte de você, Luci.

— Foda-se! É fácil para você falar quando você consegue ter mais de quatro horas de sono sem isso aqui.

— Você assume demais… Eu não falo isso para te irritar, por mais que você aja como se eu estivesse contra você. Eu falo porque você passou por um trauma, e se os pesadelos estão voltando você precisa procurar ajuda. Não pode simplesmente…

— Se você veio para me dar outro sermão, pode ir embora!

Geralmente, Sofia teria suspirado e ido. Na próxima vez em que se vissem, ela agiria como se a discussão nunca tivesse acontecido, caso Luci tivesse sorte. Mas, caso desse azar, Sofia teria uma longa conversa com a mãe sobre o que acontecera. Luci já sentia a irritação muito presente em sua mente para se importar com essa segunda opção.

Mas a discussão continuou. Luci tinha ficado surpresa na época, mas depois juntou os pontos. O desastre da Alvorada tinha acontecido não fazia muito tempo. Da mesma forma que isso impressionou Luci, fazendo que ela voltasse a ter pesadelos, o acontecido também devia ter abalado Sofia. Agora, pensando melhor, talvez tivesse até alguma relação com o sumiço dela.

O desastre da Alvorada ganhou esse nome porque aconteceu em uma pousada chamada Alvorada, no interior de São Paulo. Luci não sabia como as coisas tinham chegado àquele ponto, mas as barreiras do Sonhar se abriram, liberando monstros do pesadelo pelo lugar. Aquilo não era muito comum de acontecer. Sem orientação, com uma ação repentina, vários sentinelas foram até a região. Dizem que cinco morreram, o que é um número alto para sentinelas especialistas nesse tipo de coisa. Luci nunca parou para pensar nisso, mas isso facilmente teria sido interpretado como culpa de Sofia.

— É tão difícil aceitar ajuda? — Luci praticamente ouvia a voz irritada da irmã, como se a discussão tivesse acontecido no dia anterior. — Um dia você vai tentar se reconectar com seus poderes e vai perceber que não consegue. Você é mais forte que um medo, Luci, mas age como se fosse uma criança!

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— Desculpe, senhora perfeita, se eu não consigo ser essa pedra de gelo que você é! O que eu faço com minha vida e meu poder é da minha conta, não da sua. Se você quer mandar em sonhadores, você tem inúmeros sentinelas que estão lá apenas para dizer “sim, senhora” para tudo que você quiser.

— Eu não quero mandar em ninguém, muito menos em você. Eu quero ajudar. Você não pode só se isolar dos problemas. Está fazendo isso de forma errada!

— Não quero sua ajuda! Nunca pedi sua ajuda! Quero que você saia da minha casa!

E ela saiu. Agora Luci estava sentada na sua antiga cama do teatro, com a cabeça encostada na parede. Talvez não devesse ter sido tão grosseira, ainda mais quando a ajuda de Sofia no passado a tinha salvado, mas na época a irmã só soava irritante. Luci poderia querer ajuda se a irmã ao menos a deixasse lidar com essa situação em seu próprio tempo. Mas não, ela sempre precisava insistir no que Luci deveria fazer, no que era certo ou errado. O pior de tudo é que Luci sentia que, quanto mais Sofia insistia, menos vontade ela tinha de encarar esse trauma de novo. Luci queria poder ter autonomia em suas escolhas, mesmo que significasse aceitar o medo que tinha de usar os próprios poderes.

Agora não importava, porque Sofia tinha desaparecido. Lembrar toda aquela briga só a fazia se sentir ainda mais culpada. Se o sumiço fora escolha de Sofia, se ela decidira partir por qualquer motivo que fosse, será que aquela briga tinha sido um dos gatilhos?

Ela nem se moveu quando a mãe abriu a porta e entrou no quarto, já imaginava que alguém viria falar com ela depois de ter deixado a Senhora da Superfície sem reação. Helena sentou a seu lado na cama, primeiro sem dizer nada.

— Eu não quero, mãe — falou Luci. — Eu entendo tudo isso, mas eu não posso…

Helena não respondeu, apenas esperou que ela desabafasse o que precisava. Mas Luci sabia, não havia como choramingar, ela era a próxima na linhagem, ela ao menos tinha que falhar no teste antes de eles pensarem em procurar uma pessoa fora da família.

Luci apenas nunca imaginou que precisaria pensar nisso. Muito menos queria. Sofia era a mais velha, que a salvara dos pesadelos do Sonhar algum tempo antes de virar Guardiã. Suas habilidades eram conhecidas desde que ela era adolescente. Ninguém achou que algo iria acontecer com ela, por que aconteceria? Quando eles tivessem que pensar em trocar, Sofia provavelmente já teria filhos e netos.

— Já faz muito tempo que aquilo aconteceu, filha. Você terá sentinelas por perto. E não será para sempre. Talvez você nem passe no teste, para começo de conversa. Eles não a colocariam em risco.

Mas ninguém sabia se de fato era temporário. Ninguém tinha certeza se Sofia voltaria de verdade, nem se estava viva, e aquilo fez o corpo todo de Luci se arrepiar. Não tanto por ela, mas a ideia de que a irmã podia não existir mais era completamente assustadora.

Assim como a possibilidade de entrar no Sonhar de novo.

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Pensar daquela forma, sob aquele ângulo, fazia seu medo parecer mesquinho.

— Você talvez nem precise entrar no Sonhar — disse Helena, como se lesse sua mente. — Pode ser que eles precisem de alguém só para ocupar o espaço, impedir algum grande problema político. Estela disse que havia coisas acontecendo, e nós sabemos que há muita tensão atualmente sobre a liberdade das fronteiras, principalmente depois do que aconteceu na pousada da Alvorada. Mesmo que acabe precisando usar o Sonhar para algo, como eu disse, os sentinelas estarão com você.

Não havia uma opção de verdade. Luci não podia simplesmente pegar um ônibus, correr para o outro lado da cidade e fingir que tinha uma vida leiga. Aquilo era muito mais sério do que seu medo, o que em si era assustador. O que era um trauma pessoal perto de toda a história de sucessão do Ninho? Luci sentia como se não tivesse qualquer controle sobre os próximos acontecimentos.

— Estou com medo… — falou Luci finalmente. Ela pensou em contar que os pesadelos tinham voltado, mas não queria dar mais uma preocupação para a família. — Eu lembro como se fosse ontem…

O choro a impediu de continuar a frase. Helena a abraçou, deixando Luci chorar o quanto precisasse. Mas aquele não era apenas um choro de medo do que podia acontecer no Sonhar, mas também de raiva. Luci sentia as unhas apertando as palmas das mãos, deixando marcas. Ela tinha medo de entrar no Sonhar, claro que tinha, mas se sentia extremamente egoísta. Não havia nenhuma garantia de que ela ajudaria a achar sua irmã, mas através do Sonhar poderia encontrar coisas, e pessoas, perdidas. Era a melhor posição que se podia estar para ajudar a achar Sofia.

E mesmo assim, quando Estela veio chamá-la para algo que ela nem podia negar, Luci disse não. Porque seu eu assustado era mais egoísta do que Sofia jamais teria sido – ela teria feito tudo que deveria. Tanto teria que já tinha provado aquilo, não só tinha virado Guardiã ainda adolescente mas, antes disso, tinha entrado no Sonhar sozinha para salvar a irmã de um pesadelo.

Helena esperou Luci parar o choro. Quando isso aconteceu, a ajudou a se deitar. Ficou um pouco lá até Luci parecer mais calma, o máximo que ela conseguiria ficar naquela noite.

— Quer que eu passe a noite aqui?

Luci balançou a cabeça negativamente. Esperou a mãe sair do quarto para alcançar o Noite Calma e  o tomou a seco, tamanho era seu nervoso. Mesmo assim, duvidava de que teria uma noite muito tranquila.

Lembrava-se como se fizesse pouquíssimo tempo, de repente ela tinha 11 anos de novo, não 22. Assim como Sofia, ela um dia também tinha amado o Sonhar. Ainda mais quando Carmela falou para a família que Luci tinha uma questão especial. Ela tinha facilidade em identificar pesadelos e, portanto, evitar cair neles dentro do Sonhar. Por causa disso, Luci nem sabia o que era ter um pesadelo naquela época. Para cientes que escolhiam estudar a magia do Sonhar, aquela era uma habilidade invejável.

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Luci aproveitou aquela vantagem. Entrava no Sonhar, e saía dele, com facilidade, mantinha a mente exatamente onde queria, sabia colocar seus pensamentos em ordem o suficiente para aproveitar as pequenas visitas. E, como qualquer pessoa naquela idade, cada vez que conseguia sair ilesa, na próxima ia um pouco mais longe, sem pensar nas consequências. Ela tinha facilidade em lidar com pesadelos, não? Algo que nem a própria Sofia tinha. Não havia nada o que temer.

Mas facilidade não era imunidade.

Com certa inconsequência, Luci passeou por áreas mais perigosas, deixando sua mente entrar em pensamentos mais profundos, controlando cada vez menos suas emoções. Mas tudo o que se pensa no Sonhar pode afetar o ambiente ao redor. Naquela época, o debate sobre as fronteiras ficava cada vez mais acalorado. Muitos cientes achavam que a mera existência das fronteiras era perigosa. E se alguém perturbasse o Sonhar na superfície? Dependendo do tamanho do estrago, algum leigo poderia perceber. Toda uma passagem entre Sonhar e o mundo real poderia se abrir. Não era à toa que cientes que moravam na superfície eram vistos com maus olhos.

Foi exatamente esse pensamento que cruzou a cabeça de Luci enquanto ela estava dentro do Sonhar. E uma vez que sua mente entra em uma linha de pensamento, pode ser difícil sair dela. Luci pensou no que faria o Sonhar se perturbar a ponto de leigos perceberem. Por que os cientes do Ninho se preocupavam tanto? Não era à toa? Teria que haver uma mudança muito brusca, algo que abrisse uma passagem entre os dois planos. Luci já tinha ouvido falar sobre isso. Caso um desastre desses acontecesse, a fronteira toda podia ser afetada. Um passo em falso dela ou da irmã poderia causar isso, e os monstros do pesadelo poderiam entrar no Teatro, atacar seus pais, sua irmã, tudo…

No Sonhar, tudo pode tomar forma.

Quando Luci olhou ao redor, o ambiente já tinha escurecido e ela estava dentro daquele pesadelo. O medo de errar, de falhar, de se perder lá dentro e abrir passagem para algo que poderia destruir sua casa… Tudo estava ali. Por mais que Luci entendesse que aquele sentimento estava sendo criado por algo de fora, ela era muito nova para separar aquela lógica de suas emoções, de seu medo, de seu receio.

Aquilo era combustível para o pesadelo aumentar.

Lembrar isso era o suficiente para que a Luci adulta sentisse tudo de novo. Era como se larvas subissem por seu corpo, uma sensação de desespero que não tinha fim. A visão ficava esquisita, os ouvidos captavam sons agudos que provavelmente nem existiam, o ar faltava. Era como se afogar em um oceano sem fundo ou luz. Não via a superfície, por onde sair ou como havia entrado ali. Apenas seu peso a trazendo para baixo, mãos invisíveis vinham puxá-la. A única coisa que sua mente conseguiu pensar foi em um grito de ajuda para Sofia. Ela sabia que tinha entrado no Sonhar de noite, era provável que a irmã estivesse dormindo também e, portanto, em algum lugar daquela dimensão.

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Foram minutos, mas pareceram horas. Luci viu todas as possibilidades de destruição de sua casa, de como ela, seus pais e até sua avó, a Guardiã, seriam culpados por um erro estúpido de uma criança. Ela sentia a culpa e a angústia envolvendo-a.

Ela podia praticamente ver a cena. A sua perturbação no Sonhar, atraindo e formando pesadelos, causaria uma agitação muito grande ali. Uma perturbação de pesadelos grande o suficiente poderia fazer uma abertura entre o Sonhar ali e o mundo real se abrir. Pesadelos passariam para o outro lado, infestando todo o Teatro, destruindo tudo e podendo até ferir as pessoas que estavam lá. Sem contar a possibilidade de leigos serem afetados no meio de tudo. O Ninho tomaria medidas graves, tudo porque ela não tinha sido forte o suficiente.

Aquilo poderia destruir toda a vida que seus pais construíram.

Poderia destruir sua família de uma maneira literal.

Poderia destruir inúmeras outras famílias que dependiam deles.

Tudo porque ela perdera o controle.

Nem lembrava mais que tinha chamado por Sofia quando sentiu como se fosse uma mão puxando-a para fora daquele mar de pesadelo. Mas Sofia estava de fato no Sonhar, e as duas tinham uma ligação forte o suficiente na época para se encontrarem.

Só depois Luci teve a dimensão de como ela, de fato, quase tinha causado uma tragédia. Aquela situação tinha ficado a um passo de fazer Luci contrair a doença do pesadelo, que era o que os sonhadores mais temiam. Geralmente, quando alguém contraía a doença, ela tomava o Noite Calma para amenizar, por mais que só servisse para alongar uma sentença sem cura. Impedir a mente de alguém de entrar no Sonhar diminuía a velocidade com que os pesadelos se espalhavam na mente da pessoa. Luci tinha ficado mentalmente fragilizada depois do que acontecera, mesmo sem contrair a doença. Foi aí que o Noite Calma virou  parte de sua vida, pelo menos por um tempo, até se fortalecer e poder parar. Mas o desastre da Alvorada aconteceu, e o medo foi grande o suficiente para que Luci tomasse a decisão de voltar a tomar.

Enquanto Luci se recuperava, Sofia foi notada por todos. Tirar alguém de um foco de pesadelo não era nada fácil, ainda mais quando se é adolescente. Sonhadores treinados tinham dificuldade com aquilo, então fora um feito impressionante. E, claro, tinha salvado a vida de Luci. E talvez a vida de todos no teatro.

Foi com esse episódio que Sofia começou a criar o prestígio de tinha.

E que os pesadelos de Luci começaram.

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Na manhã seguinte, Giovani foi acordar Luci. Não era muito cedo, mas ela não estava com a menor vontade de levantar.

Seus pais tinham jeitos específicos de lidar com os problemas. Helena dava espaço para a pessoa falar e desabafar, como tinha tentado fazer com Luci na noite anterior. Giovani, por outro lado, tentava distrair a cabeça da filha, para que ela entendesse que estava tudo bem, ou ao menos sentisse como se aquilo fosse verdade.

— Hora de levantar, os ensaios vão começar! — dizia Giovani enquanto abria a cortina.

Luci esfregou os olhos, tentando se esquivar da luz que vinha de fora. Ela resmungou, não dava para entender direito o que ela tinha dito, mas Luci não tinha nenhuma vontade de levantar. Ela puxou o lençol para cima da cabeça.

— Vamos! Eu quero sua opinião na próxima peça!

Não tinha muito como ir contra o pai quando ele estava animado. Luci se levantou devagar. Giovani parecia se levantar junto com o sol, o rosto abatido do dia anterior quase completamente recuperado. As outras pessoas do teatro provavelmente não sabiam o que estava acontecendo e ele entendia, melhor do que ninguém, que o show sempre precisava continuar.

Depois de comer, Luci acompanhou o pai até um dos palcos de apresentação. Sentou-se ao lado dele em uma das cadeiras da frente, com o roteiro daquela peça na mão, enquanto os cientes faziam seus aquecimentos, repetiam suas falas e até treinavam fazer que algumas faíscas saíssem de seus dedos. Algumas magias mais visuais sempre eram úteis para chamar a atenção dos leigos.

A sala de espetáculo tinha bastante espaço, inclusive com alguns lugares nos mezaninos para os ingressos mais caros. As cadeiras eram pretas e confortáveis. As cortinas no palco tinham detalhes em linhas douradas, mas o tecido era cor de vinho. Havia várias luzes menores pelas paredes, mas a maior parte da iluminação vinha de um grande lustre no meio da sala. Todas as luzes mantinham um tom amarelado no cômodo. O lustre não costumava ficar aceso durante o espetáculo, apenas iluminando no começo e no final da peça, mas agora ele estava aceso. Mesmo sendo de dia, a sala era toda fechada e não entrava luz nenhuma. Também havia iluminação vinda das luzes no topo do palco, que agora estavam desligadas.

— O que eles vão ensaiar hoje?

— O Guardião do Pesadelo. É a nossa próxima peça.

Todo o ciente tinha escutado ou lido aquela história em algum momento da vida. Luci tinha ouvido aquela de seu pai, ele tinha contado várias histórias para as filhas ao longo dos anos. Era também uma das mais controversas do Ninho, porque, mesmo que não passasse de lenda urbana, havia muitas coisas nela que faziam sentido. E, claro, sempre existe aquela parcela de pessoas que acreditava que era real.

O Guardião do Pesadelo tinha sido uma das pessoas a ocupar o posto de Guardião séculos antes, segundo a lenda. Diziam que ele preferiria passar o tempo vagando pelo Sonhar em vez de no mundo material. Esperava-se que o Guardião transitasse bastante entre essas duas dimensões, mas a lenda dizia que ele costumava exagerar.

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Ele ficou obcecado por pesadelos e suas criaturas. Aquela parte sempre causava um certo calafrio em Luci. Não imaginava como alguém poderia ficar tão intrigado com algo tão assustador, mas a lenda dizia que o Guardião passava muito tempo trabalhando no pesadelo, estudando, desvendando e procurando todas as informações possíveis. Até que, um dia, quando ele passou tempo demais entre pesadelos, acabou contraindo a doença do pesadelo.

Sem cura, essa doença consumia a pessoa aos poucos. Era impossível dormir em paz, porque a mente no Sonhar começava a ser consumida por pesadelos, que afetavam a pessoa interna e externamente. Aqueles em estágios mais avançados da doença não conseguiam discernir o que era real ou não, vendo partes do Sonhar na dimensão material. Eventualmente, os pesadelos começavam a atormentar a pessoa ainda acordada. Na parte física, a pessoa ganhava olheiras fundas, que iam descendo como traços escuros ao longo do rosto, podendo chegar até o pescoço.

A lenda dizia que, mesmo depois da doença, o Guardião continuou visitando o Sonhar, o que era muito desaconselhável, considerando a condição em que estava. Antes das pessoas poderem impedi-lo de fazer qualquer outra coisa, ele sumiu entre pesadelos para nunca mais voltar. Hoje, dizem que é uma das criaturas de pesadelos mais terríveis que vaga pelo Sonhar.

Obviamente, nada assim nunca foi encontrado por nenhum sentinela, mesmo que algumas pessoas que acreditassem nas lendas realmente tivessem procurado. Mas a história servia bem para assustar os sonhadores sobre os perigos do Sonhar, para que eles se lembrassem, mesmo que sua linha de magia fosse uma das mais poderosas, que mexiam com algo perigoso e sempre precisavam ter cuidado.

O ator principal interpretava o Guardião, começando a história a partir de sua nomeação na Torre do Sonhar. A peça focava emsua obsessão pelos pesadelos, a maquiagem e as roupas do ator iriam mudando à medida que a peça fosse se desenrolando. Um dos pontos altos era quando o Guardião contraía a doença, e todos os que estavam na Torre ficavam abalados com o acontecido. Nas cenas dentro do Sonhar, a cada momento o cenário ficava de um jeito diferente, com tons lilases e mais coloridos, ao contrário das cores usadas nas cenas que aconteciam fora do Sonhar. No final, como em uma tragédia, o Guardião se perdia no Sonhar, e um truque de sombras fazia que o público pudesse ver uma criatura grande e aterrorizante se formando, dando a entender o final terrível do Guardião.

Apesar do bom ensaio, Luci não conseguia tirar Sofia da cabeça, nem a conversa com Estela no dia anterior. Giovani sempre tinha uma forma divertida de orientar os atores, também perguntando para filha com frequência o que ela achava. Isso ajudou a mente de Luci a relaxar vez ou outra. Ela nunca teve amor pelo palco, mas chegou a apontar algumas vezes que os atores deviam estar mais assustados nos pesadelos. Nenhum deles sabia o que era estar no meio de um pesadelo como ela sabia. Ainda bem.

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— Vamos fazer uma pausa para almoçar — disse Giovani eventualmente, fazendo Luci perceber como a hora tinha passado. — Todo mundo aqui de volta em duas horas.

Enquanto os atores saíam, Luci devolveu o roteiro para o pai.

— Você devia vir assistir um dia. Faz tempo que você não vem para cá.

Essa era a forma de Giovani dizer que sentia falta de Luci. Fazia sim muito tempo que eles não aproveitavam a companhia um do outro. Ela abaixou a cabeça. Estela voltaria para o teatro em breve, Luci não teria muita opção quanto ao que deveria fazer. Caso ela passasse no teste, isso poderia afetar o quanto poderia ver os pais. Sempre teve a chance, mas agora que talvez não pudesse mais vê-los por um tempo sentia que tinha perdido a oportunidade. Não que o Guardião ficasse preso na Torre do Sonhar, mas era comum que eles passassem muito tempo lá, ainda mais em momentos difíceis como aqueles.

— Eu não sei se vou poder… — murmurou ela. Giovani não precisava ouvir o motivo com todas as letras para entender.

— Então, quando tudo estiver bem, você vem ver uma apresentação aqui com todo mundo. Promete?

Ela assentiu, segurando o choro. Quando tudo estivesse bem, se desse tudo certo, “com todo mundo” iria incluir Sofia. Obviamente era assim que Giovani imaginava esse momento. Com alguma sorte, as duas irmãs poderiam ficar sem brigar por boa parte da apresentação, mas pelo menos toda a família estaria bem.

— Eu sei que você não vai gostar, mas eu seria um péssimo pai se não te dissesse… — falou Giovani quando estavam sozinhos. — O teste do Guardião. Você sabe como funciona, não?

— Entrar no Sonhar e fazer alguma coisa, acho. — Luci deu de ombros, ela nunca prestava atenção quando Sofia falava disso.

— Entrar no Sonhar está certo. Eles te deixam em algum ponto, que sempre varia, e você terá que voltar para o mundo material sozinha.

Luci não conseguiu esconder a expressão de medo que surgiu em seu rosto. Não era absurdo que fosse algo assim, mas pensar que teria que fazer aquilo já era o suficiente para que suas emoções ficassem fora de controle.

Giovani colocou as mãos nos ombros da filha.

— Os sentinelas estarão te olhando. Eles não vão te largar em uma área de pesadelo, só querem saber se você sabe andar por lá. Você sabe que eu fiz, sei muito pouco de habilidades sonhadoras e nada de assustador aconteceu. O pior que acontece é não passar. Você ficará bem.

— Não sei se tem como ficar bem com tudo isso, né?

Ele não respondeu, apenas a abraçou. Luci estava certa, afinal.

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Estela não podia mentir, já estava impaciente. Helena estava fazendo sala para ela, que já tinha começado a pensar nas coisas mais improváveis. Já estava torcendo para que aquilo não fosse uma maneira de dar tempo para Luci fugir, porque Nicolas não precisava de outra fonte de irritação. Sim, ela sabia que era um pouco absurdo, mas nunca se sabe. Quase conseguia ouvir a voz de sua mãe dizendo “Estela Wu, você precisa parar de ser tão impaciente”.

Ainda não tinha conseguido digerir a ideia de que Luci tinha dito “não”. Nem sabia que essa opção existia. Ninguém negava o chamado para fazer o teste, seja porque era um dever ou porque era uma honra. Talvez por ser da linhagem da última Guardiã, achasse que podia fazer o que quisesse. Estela suspirou. Não queria ser injusta, Luci estava abalada com a situação toda. Estava tão acostumada a achar que cientes estavam dificultando sua vida que possivelmente estava fazendo um julgamento errado.

Estela estava se coçando para voltar, as pessoas não a atualizavam do que acontecia do Ninho, então ainda ia ter que fazer um esforço de tentar descobrir o que acontecera naqueles últimos dias. Mais uma vez, a última a ficar sabendo. Tinha ficado um pouco incomodada quando Nicolas pediu a ela – pediu e não mandou, como ela notou bem – que fosse buscar Luci. Ele deveria ter ido, conhecia aquelas pessoas, as famílias eram amigas, mas já havia algum tempo que o Senhor do Ninho parecia mais cansado do que o normal. A situação dos últimos dias certamente estava estressante o suficiente para irritar até mesmo ele.

Ela estava a ponto de abrir a boca, dizer que não, não queria comer mais nada, e pedir para que Helena fosse, por favor, chamar Luci. Mas, antes de conseguir falar, a porta se abriu e a figura da moça pequena entrou no escritório acompanhada de seu pai.

A tensão entrou junto com Luci, Estela conseguiu sentir. Mas vê-la com uma mochila nas costas fez o coração desacelerar. Agora parecia que tinha voltado a respirar. Luci afastou os cabelos do rosto, muito diferentes do de Estela, que era bem liso e comprido.

—Perdoe-me por ontem. — Luci abaixou a cabeça um pouco. — Foi um baque. Mas podemos ir.

— Tudo bem, eu entendo que está tudo muito difícil.

Estela saiu antes da sala enquanto a família se abraçava. Luci quis chorar outra vez, uma parte dela queria era sair correndo, acordar daquele pesadelo. Mas era real, não havia o que fazer. Seus pais seguravam o choro como ela. Nenhum deles estava preparado para aquilo, e a família parecia terrivelmente incompleta sem Sofia ali, para ser um pilar de calma.

— Não tem problema se você não conseguir passar no teste, tá? — disse Helena. — Faça o seu melhor, mas não se cobre. Não tente fazer tudo sozinha.

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— E lembre-se de que os sentinelas estarão de olho —completou Giovani. — Vai dar tudo certo. Estaremos aqui esperando você, seja daqui a alguns dias ou mais.

Luci não conseguiu dizer nada, nem quando os pais disseram que a amavam. Ia chorar se abrisse a boca e não queria que Estela visse aquilo. Já devia parecer uma moça mimada por causa da confusão do dia interior, não precisava dar mais um motivo.

Helena e Giovani não acharam sábio fazer um grande anúncio para todos do teatro sobre Luci ou a situação real de Sofia. Estela inclusive tinha dito que era melhor não. Eventualmente as pessoas ficariam sabendo, de uma forma ou de outra, mas por enquanto era melhor ser discreto. As coisas estavam fora do controle deles agora, só podiam ficar no teatro e esperar pelo melhor.

A senhora da superfície aguardou, dessa vez pacientemente, a família terminar de se despedir. Esperava do fundo do coração que a situação de Sofia fosse resolvida logo. Sim, em parte porque seria melhor para todo o Ninho, mas honestamente a imagem daquela família perdida partia seu coração. Estela nunca teve irmãos, mas sempre amou muito a própria mãe. Não tinha ideia do que faria na posição de qualquer um deles.

A mente de Luci ainda não assimilava bem o que estava acontecendo. Saiu de perto dos pais e seguiu Estela para fora do teatro. Sem olhar para trás. Sua ficha só ia cair quando estivesse na Torre do Sonhar. Tentou engolir toda aquela incerteza e medo, em breve seus pais não estariam ali para dar apoio, estaria cercada de pessoas que mal conhecia. Mesmo que conhecesse Nicolas, fazia algum tempo que eles não se viam.

Sentia que ia perder de qualquer forma. Caso falhasse no teste, poderia voltar, mas se sentiria uma inútil em não poder fazer o que esperavam que ela fizesse. Mas, se conseguisse, não sabia nem como começar a ser a Guardiã.

E, se conseguisse, estaria mais perto de tentar encontrar Sofia, se fosse possível.

— Vamos para o metrô — disse Estela, tentando quebrar o silêncio.

Seria uma boa descida.