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Ah, Sofia…

A pessoa perfeita, a filha perfeita. Sempre tão madura, preparada, prestativa e com todo o conhecimento de que precisava para resolver absolutamente tudo, ou pelo menos era essa a impressão que ela passava. Quase parecia um robô, sabia agir exatamente da forma que precisavam.

Anos atrás, Giovani e Helena reuniram as duas filhas para falar da morte de Carmela. Luci já estava em lágrimas antes mesmo de os pais terminarem o relato. Mas não Sofia, claro que não. Ela se lamentou, mas sem perder o controle. Sofia era a mais próxima da avó, ninguém estranharia se ela colocasse as emoções para fora, mas não foi o que ela fez. Luci a ouviu chorando uma vez, na noite daquele mesmo dia, quando passou pelo seu quarto. Obviamente ela tinha guardado o choro para o momento em que não fosse atrapalhar ninguém, longe do olhar de todos.

Sofia tinha herdado cada gota do dom da avó, alguns chegavam a apostar que ela poderia ser até mais poderosa. Andar no Sonhar para Sofia era quase natural, ela parecia até mais feliz quando podia passar um bom tempo com a mente lá. Algumas pessoas que faziam isso acabavam se distanciando um pouco daqueles ao seu redor, mas não Sofia. Ela sempre estava no mundo real quando precisava, mesmo que passasse muito tempo no Sonhar. Todos viam o quão boa ela era, seu poder, sua responsabilidade e o conhecimento que fora adquirindo ao longo dos anos.

O dom de Luci era muito particular, mas era o de Sofia que aparecia mais. Por mais que um ciente nascesse com um dom para alguma das linhas de magia, isso não definia completamente para que lado ele seguiria, ou até se treinaria qualquer tipo de magia. Até certo ponto de sua vida, Luci gostou da facilidade que tinha de entrar no Sonhar. Hoje ela se lembrava muito pouco, mas sabia que, na infância, tinha gostado bastante de lá.

Até o maldito acidente.

Desde então, pensar no Sonhar a fazia ter arrepios. Passou boa parte da adolescência dormindo mal, e um lugar de que gostava tanto se tornou assustador em pouco tempo. Odiava dormir poucas horas por noite, ter medo de fechar os olhos e cair no meio de um pesadelo. Conseguia reviver a sensação de pânico e agonia que sentira no dia em que tudo tinha mudado.

E se hoje ela estava lá, de certa forma inteira, era por causa de Sofia.

Enquanto a irmã mais velha seguia vivendo, sendo reconhecida por seus atos, admirada e considerada uma grande promessa de Guardiã, Luci ia se afastando cada vez mais do lado mágico de sua família. Quanto mais ela se afastava, mais Sofia tentava trazê-la de volta. Sempre com aquele tom doce, como quem quer ajudar, “pelo seu próprio bem”, como se ela soubesse o que era melhor para Luci… E foi assim que, aos poucos, a relação das duas foi ficando complicada. Elas não batiam tanto de frente, mas bastava um comentário de Sofia para resultar em uma resposta grosseira de Luci.

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