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Fazia tanto tempo que Luci não ia ao Ninho que até precisou parar por um momento para se lembrar do caminho e de como eles faziam para ir até lá da superfície sem chamar a atenção dos leigos. Ela ficou em silêncio durante a viagem inteira, sentada no metrô ao lado de Estela, tentando não pensar nos últimos acontecimentos. A Senhora da Superfície ainda tentou puxar conversa enquanto as estações iam passando, mas Luci não dava mais que uma ou outra resposta curta.

O truque era pegar a linha vermelha de metrô até a última estação. Quando o alto-falante anunciou a estação final, todas as pessoas nos vagões saíram. Era sempre um pouco impressionante como os leigos não questionavam seus pequenos hábitos do dia a dia. Ninguém as encarava e se perguntava porque aquelas duas mulheres não saíam do vagão. Às vezes, uma criança olhava para elas, mas não era como se os pais dela fossem dar atenção o suficiente. Depois disso, o metrô seguiria a rota para o Ninho antes de voltar e seguir pelas estações dos leigos.

Estela se ajeitou um pouco no lugar antes de o metrô continuar o caminho além das estações normais. Naquele vagão, elas eram as únicas, mas era bem possível que houvesse um ou outro ciente no resto do trem. O metrô voltou a andar, dessa vez seguindo sem parar por algum tempo, ao contrário do procedimento normal de ir parando de estação em estação. Elas sentiram a descida característica, mais inclinada e mais rápida que o normal, para diminuir o tempo de viagem. A magia no vagão permitia que as pessoas dentro não sentissem tanto o tranco. Luci não tinha muita noção do tempo que demorava, e isso só a lembrava como fazia tempo que não se dava ao trabalho de ir ao Ninho. Não tinha ido desde que sua irmã se tornara Guardiã.

Quando o trem entrava na região do Ninho, era como se estivesse em um daqueles metrôs que andam pela superfície. Sim, elas estavam mais no subterrâneo do que qualquer linha convencional de metrô chegava, mas a vista era aberta, dando para os cientes uma boa visão do Ninho quando olhavam pela janela. Luci virou os olhos para a nova claridade que entrava pelo vagão, uma iluminação completamente artificial feita com magia, para impedir que os cientes vivessem em completa escuridão. A luz podia mudar, de acordo com a hora do dia lá fora ou até por conta de uma data comemorativa. Tanto Luci quanto Estela, que viviam muito mais na superfície, percebiam como aquilo nunca chegaria a ser uma luz como a do sol.

O Ninho era uma construção impressionante, destoando bastante do que havia na superfície. Era como uma cidade grande dos leigos, só que menor, sem prédios tão gigantescos, quase dando um ar de que as coisas haviam parado no tempo. Os padrões estéticos eram bem simétricos, assim como era a arquitetura da maioria das fronteiras. Ali era o refúgio para a magia fluir solta, sem que ciente nenhum tivesse receio de ser descoberto.

A atmosfera do lugar também era diferente. Luci quase sentia essa outra presença no ar, algo que a cercava e rodeava tudo. Era uma sensação que às vezes cientes conseguiam ter em fronteiras na superfície. A magia vinha de todas as coisas, inclusive das pessoas, mas se não era usada sua força ficava cada vez menos detectável. Era sutil, era precisa já a ter sentido para poder explicar exatamente o que era. Uma sensação que, anos antes, Luci achava aconchegante e segura, mas hoje só lhe causava ansiedade.

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