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Fazia tanto tempo que Luci não ia ao Ninho que até precisou parar por um momento para se lembrar do caminho e de como eles faziam para ir até lá da superfície sem chamar a atenção dos leigos. Ela ficou em silêncio durante a viagem inteira, sentada no metrô ao lado de Estela, tentando não pensar nos últimos acontecimentos. A Senhora da Superfície ainda tentou puxar conversa enquanto as estações iam passando, mas Luci não dava mais que uma ou outra resposta curta.

O truque era pegar a linha vermelha de metrô até a última estação. Quando o alto-falante anunciou a estação final, todas as pessoas nos vagões saíram. Era sempre um pouco impressionante como os leigos não questionavam seus pequenos hábitos do dia a dia. Ninguém as encarava e se perguntava porque aquelas duas mulheres não saíam do vagão. Às vezes, uma criança olhava para elas, mas não era como se os pais dela fossem dar atenção o suficiente. Depois disso, o metrô seguiria a rota para o Ninho antes de voltar e seguir pelas estações dos leigos.

Estela se ajeitou um pouco no lugar antes de o metrô continuar o caminho além das estações normais. Naquele vagão, elas eram as únicas, mas era bem possível que houvesse um ou outro ciente no resto do trem. O metrô voltou a andar, dessa vez seguindo sem parar por algum tempo, ao contrário do procedimento normal de ir parando de estação em estação. Elas sentiram a descida característica, mais inclinada e mais rápida que o normal, para diminuir o tempo de viagem. A magia no vagão permitia que as pessoas dentro não sentissem tanto o tranco. Luci não tinha muita noção do tempo que demorava, e isso só a lembrava como fazia tempo que não se dava ao trabalho de ir ao Ninho. Não tinha ido desde que sua irmã se tornara Guardiã.

Quando o trem entrava na região do Ninho, era como se estivesse em um daqueles metrôs que andam pela superfície. Sim, elas estavam mais no subterrâneo do que qualquer linha convencional de metrô chegava, mas a vista era aberta, dando para os cientes uma boa visão do Ninho quando olhavam pela janela. Luci virou os olhos para a nova claridade que entrava pelo vagão, uma iluminação completamente artificial feita com magia, para impedir que os cientes vivessem em completa escuridão. A luz podia mudar, de acordo com a hora do dia lá fora ou até por conta de uma data comemorativa. Tanto Luci quanto Estela, que viviam muito mais na superfície, percebiam como aquilo nunca chegaria a ser uma luz como a do sol.

O Ninho era uma construção impressionante, destoando bastante do que havia na superfície. Era como uma cidade grande dos leigos, só que menor, sem prédios tão gigantescos, quase dando um ar de que as coisas haviam parado no tempo. Os padrões estéticos eram bem simétricos, assim como era a arquitetura da maioria das fronteiras. Ali era o refúgio para a magia fluir solta, sem que ciente nenhum tivesse receio de ser descoberto.

A atmosfera do lugar também era diferente. Luci quase sentia essa outra presença no ar, algo que a cercava e rodeava tudo. Era uma sensação que às vezes cientes conseguiam ter em fronteiras na superfície. A magia vinha de todas as coisas, inclusive das pessoas, mas se não era usada sua força ficava cada vez menos detectável. Era sutil, era precisa já a ter sentido para poder explicar exatamente o que era. Uma sensação que, anos antes, Luci achava aconchegante e segura, mas hoje só lhe causava ansiedade.

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Lembrava-se de quando visitava o Ninho quando era criança. Só um ciente sabia a sensação de viver longe daquela atmosfera mágica, como aquilo fazia falta em seu dia a dia, e talvez Luci fosse uma das poucas que achavam aquele “vazio” mais relaxante do que agoniante. Porque magia lembrava Sonhar, e Sonhar a lembrava do que ela queria esquecer.

Luci viu a Torre do Sonhar se aproximando, sabendo que aquela era sua parada. Um choque de realidade a atingiu. Entraria na torre, depois de tanto tempo, e sua irmã nem estaria lá.

O sinal do metrô apitou quando o trem parou na estação da torre e as duas saíram. Aquela sensação da atmosfera mágica, que espetava a pele de leve, apenas aumentou. Talvez Estela não sentisse como Luci, por ter nascido leiga e não praticar nenhuma das linhas de magia.

A Torre do Sonhar era, de longe, a maior e mais linda construção do Ninho. Era simplesmente impressionante. Por fora era toda clara, quase branca; com inúmeras salas, apresentava um padrão simétrico que ia afinando até os últimos andares, com janelas em todos eles. Do ponto de vista arquitetônico, era o prédio com as características mais antigas, mas estava muito bem conservado por magia. Ele continha os arquivos históricos, magias específicas para os sentinelas, salas de treinamento e até lugares para habitação dos que ali trabalhavam. Na época em que Carmela vivia, Luci tinha um quarto onde era livre para ficar e usar o quanto quisesse.

Antigamente, não tinha como pisar na estação da Torre do Sonhar sem ser recebido por um sentinela. Luci notou a diferença rapidamente. Ninguém veio recebê-las – não que ela se importasse com isso, mas o lugar parecia mais vazio do que ela se lembrava. Não era todo mundo que podia simplesmente parar naquela estação e entrar na torre. Só quando elas começaram a se aproximar da entrada, dois sentinelas vieram recebê-las. Eles aguardaram enquanto Estela dava um passo à frente.

— Vim trazer a irmã da Guardiã para realizar o teste, como ordenado pelo Senhor do Ninho.

Os dois sentinelas pareceram hesitar. Luci ficou um pouco confusa, mas ela percebeu como Estela respirou fundo, como se buscasse paciência. Ela estava prestes a abrir a boca novamente. Luci reparou quando ela apertou os dedos das mãos, que estavam atrás das costas. Mas Estela não precisou falar de novo. Mesmo hesitando, os sentinelas fizeram sinal para que as duas os acompanhassem para dentro da torre.

O pé-direito do primeiro andar era bem alto – felizmente, a torre inteira tinha sido equipada com elevadores para facilitar a movimentação; subir de escada seria complicado. Era um hall espaçoso, com luzes claras que iluminavam o caminho. O padrão geométrico era ainda mais evidente na parte interna da torre. Mais alguns sentinelas podiam ser vistos ali.

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Luci foi andando devagar atrás de Estela, olhando ao redor para se familiarizar novamente com aquele lugar. Fazia muito tempo, mas as memórias eram vivas. Ela quase podia ver a imagem de sua avó andando pelos corredores, sorridente e falando sobre qualquer assunto de uma maneira que fazia os olhos de Sofia brilharem.

Ela quase esbarrou em Estela, que tinha parado de repente no meio da caminhada. A Senhora da Superfície não era muito alta, mas o suficiente para dificultar a visão de Luci em relação ao que estava a sua frente. Assim, ela se colocou ao lado de Estela para ver o que a tinha feito parar.

Sentinelas costumavam se vestir com mantos cinza com e detalhes violeta, um roxo escuro, ao passo que o manto do Guardião era branco com detalhes em lilás, um tom de roxo bem mais claro. As pessoas a sua frente usavam os tons mais escuros, mas não em mantos, e sim em braceletes em ambos os pulsos – magos gostam de usar esses braceletes por cima das roupas para mostrar seu orgulho por serem formados na Escola dos Magos. O Guardião usava braceletes também, mas das mesmas cores de seu manto, para se diferenciar dos outros.

Apenas os formados podiam usar oficialmente o título de magos e os braceletes que o grupo usava. O violeta era a cor usada para simbolizar a área dos sonhadores, e o Guardião usava tons mais claros exatamente para se destacar. Dois magos formados acompanhavam um terceiro a sua frente, um homem alto, pálido e de cabelos grisalhos. Os braceletes dele eram mais grossos, o que indicava que ele ganhara o título de mestre sonhador, o que não era fácil. A linha de magia dos sonhadores era a mais complicada de se receber o título de mestre.

Luci e Sofia nunca haviam se formado na Escola dos Magos, mas sabiam as linhas de magia. Havia um nível de hierarquia, do tipo de magia considerado menos intenso até o mais intenso. Na base ficavam os encantadores, que usavam amarelo. Eles tinham vínculos fortes com a superfície, costumavam se ligar muito ao comércio. Os encantadores colocavam magia em objetos, encantavam coisas com propriedades mágicas. Esse era o tipo de magia que menos exigia esforço do mago em questão. Essa visão inclusive fez que a linha de encantadores se afastasse da Escola dos Magos, criando uma guilda própria. Em seguida, vinham os curandeiros, que usavam azul. Como o nome indicava, aqueles eram os magos que entendiam das propriedades de curas. Apesar de serem muito valorizados, acabavam ficando abaixo na hierarquia por não ser essa uma linha de magia que exigia tanto poder do mago quanto as outras. A terceira era a linha dos elementais, a área de especialidade de Giovani. Usando vermelho, eles controlavam os elementos naturais, podendo modificar a terra, controlar o fogo etc. Por isso era uma magia apreciada no Teatro dos Magos, por ser mais visual que as outras. A quarta linha era dos transformadores, representada pelo laranja. Eles tinham a habilidade de mudar a forma das coisas, criar ilusões e até modificar a própria imagem. A quinta era a linha de magia dos mentais, que usavam a cor verde. Eles encaravam sua magia como braços invisíveis. A partir do poder da mente, eles podiam mover objetos e até entrar na mente das pessoas, mesmo sendo essa uma prática vista como invasão de privacidade. A sexta, e última, era a dos sonhadores. Por lidar com o Sonhar, o inconsciente e todas suas distorções, era o tipo de magia que mais exigia de seus praticantes. Costumava ter menos aprendizes, mas todos os sentinelas deviam ser formados como sonhadores.

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O homem com os braceletes mais grossos se aproximou de Estela. Ele encarava a Senhora da Superfície de cima para baixo, erguendo o queixo levemente. Estela regulava de idade com Sofia, mas perto daquele homem parecia ser apenas uma criança. Luci tentou chamar o menos de atenção possível, sem encará-lo demais, mas atenta ao diálogo que estava para acontecer.

— Senhora da Superfície — o homem a cumprimentou. — Que coincidência encontrá-la aqui.

— Mestre sonhador — Estela respondeu ao cumprimento, sem sorrir. — O que veio fazer na torre?

— Apenas assuntos da Escola de Magos — a hesitação na escolha de palavras de Maurício não tinha parecido de todo um acidente. — Nada com que a Senhora da Superfície deva se preocupar.

— Qualquer coisa que envolva a Torre do Sonhar atualmente é assunto do Congresso, então tenho que me preocupar.

— Comunicarei caso precise da ajuda do Congresso — a resposta foi firme. Logo em seguida, ele virou o rosto para Luci: — Muito prazer, senhorita. Acho que não nos conhecemos.

— Ahn, não — Luci hesitou um pouco, estendendo a mão. — Meu nome é Luci, sou irmã da Guardiã Sofia.

A expressão dele mudou, mas Luci não soube dizer exatamente o porquê. Era como se agora ela tivesse virado alguém naquela sala, não apenas uma espectadora da tensão que acontecia entre ele e Estela – alguém bom o suficiente para ser reconhecida. Ele estendeu a mão e a cumprimentou.

— Ah é? Deveria ter notado a semelhança, me desculpe. Deixe-me que me apresente. Sou mestre Maurício. Espero que aproveite sua estada aqui e descanse para seu teste — ele encarou Estela antes de se retirar.

O mago e seus alunos desviaram de Estela e Luci, caminhando na direção da porta. Luci notou que a Senhora da Superfície estava incomodada, mas não pronunciou uma palavra sobre isso. Um sentinela se aproximou, avisando que Luci já podia ser levada para seu aposento. Estela andou tão rápido que Luci precisou correr um pouco para alcançá-la antes de ela chegar ao elevador.

Estela apertou o botão do penúltimo andar. Luci não queria dizer nada, mas não passou despercebida a ela a tensão da conversa com o tal mago mestre.

— Quem era aquele homem? — Luci perguntou.

— Mestre sonhador Maurício — Estela falou, séria. — Ele é o representante da Escola dos Magos no Congresso — ela não se estendeu na explicação e Luci preferiu não perguntar mais.

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Quando elas chegaram ao andar de destino, a porta se abriu. O corredor agora era bem mais estreito, o pé-direito era menor que o do hall, com inúmeras portas aparecendo à medida que as duas andavam. Aquele era o andar dos quartos dos sentinelas. Luci se lembrava daquele lugar como mais cheio do que estava agora, assim como o resto da torre. O quanto as coisas haviam mudado naqueles últimos tempos?

Estela hesitou um pouco, pois não estava completamente familiarizada com o lugar, mas eventualmente encontrou o quarto designado para Luci. Era espaçoso o suficiente, com móveis de tons claros. A cama de solteiro estava arrumada, e do lado havia um móvel pequeno com gavetas; perto da janela, um grande armário, maior do que Luci precisava. Além disso, também havia uma escrivaninha e uma cadeira, e acima, do mesmo lado, um aparelho de TV, feito por encantadores, para passar programas produzidos no Ninho e também os da superfície, os canais de leigos.

Luci colocou em cima da cama a bolsa que carregava e foi até a janela. A intensidade da luz dava a entender que era de tarde na superfície.

— Perdoe pela demora — Luci ouviu uma voz que não conhecia —, Senhora da Superfície.

Quando Luci se virou, viu uma mulher na frente da porta do quarto baixando a cabeça, um gesto respeitoso para com Estela. Nesse momento, Luci se deu conta de que não tinha visto nenhuma pessoa ali tratar Estela com aquele respeito, ou como os cientes faziam com ela na superfície. Luci conseguiu olhar melhor o rosto da mulher quando ela se aprumou novamente. Era uma sentinela, usava o manto característico e os braceletes de sonhadores. Os cabelos castanhos e curtos evidenciavam o formato de seu rosto. Era uma moça gorda, com um semblante sério, exatamente o que se imaginava quando as pessoas contavam as histórias grandiosas de sentinelas.

Da mesma forma que cumprimentou a Senhora da Superfície, a sentinela deu alguns passos para frente e também baixou a cabeça para receber Luci, que não sabia muito bem como responder, então apenas esperou que a moça ficasse ereta de novo, o que a fez perceber que a sentinela era alguns centímetros mais alta que ela. Por sua aparência, Luci poderia chutar que a sentinela era poucos anos mais velha que ela mesma.

— Muito prazer, meu nome é Ingrid, sentinela da Torre do Sonhar.

— Meu nome é Luci… — ela não tinha um título bonito para dar em troca —, irmã da Guardiã Sofia.

Ingrid assentiu e virou o olhar para Estela.

— Não sei se você já topou com ele, mas Maurício está aqui.

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— Sim, eu vi. Nós o vimos saindo — Estela continuava com o tom sério. — Você sabe o que ele estava fazendo aqui?

— Veio oferecer auxílio aos sentinelas por causa da situação toda.

Estela apenas assentiu. Em seguida, virou o rosto para Luci.

— Você está em boas mãos e eu preciso ir agora. A Ingrid vai auxiliar você com o que precisar. Nós nos vemos em breve. Por favor, procure descansar.

Ela se despediu com um abraço tanto de Luci quanto de Ingrid, o que deixou a sentinela um pouco sem jeito. Por mais simpática que Estela estivesse tentando ser, dava para perceber que ela não estava completamente confortável desde o momento em que entraram na torre.

Ingrid encostou a porta quando Estela se foi.

— Precisa de alguma coisa? Tem fome? Sei que você está familiarizada com a torre, mas não hesite em pedir o que precisar. Todos os sentinelas vão fazer o possível para lhe ajudar.

— Estou bem — Luci se sentou na cama. Aquilo não era verdade, mas não havia nada que a sentinela pudesse fazer. Sem contar que Luci não queria demonstrar fragilidade logo no primeiro dia, mesmo que não estivesse fazendo um bom trabalho em esconder isso.

Obviamente Luci não estava bem, mas sentir fome ou se perder pelas salas da Torre do Sonhar seriam os menores de seus problemas no momento. Ingrid assentiu, aceitando a resposta.

— Você já deve saber tudo sobre o teste, mas preciso dar alguns avisos básicos que são padrão. Todo o candidato ao cargo de Guardião precisa passar por um teste. Independente da família, se a mente da pessoa não resiste ao Sonhar, não há como a pessoa assumir o cargo. Os sentinelas colocam o candidato em uma área do Sonhar e esperam pelo retorno da pessoa no observatório. Você terá quatro horas antes de irmos atrás de você — Luci sabia de tudo aquilo, mas deixou a sentinela continuar seu trabalho — Você terá apenas uma chance. Se conseguir, assume o cargo, mesmo que, nestse, caso seja até Sofia voltar. Caso contrário, não assumirá o cargo.

Ingrid falou com tanta certeza de que Sofia voltaria que aquilo até deu uma acalmada na mente de Luci.

— E se eu falhar?

— Bem, como não tem ninguém mais na linhagem, o teste seria oferecido para os magos sonhadores formados da Escola dos Magos.

Sim, agora Luci se lembrava. Assim sua avó fora escolhida. A família do Guardião antes dela tinha esgotado as possibilidades, então os melhores magos formados como sonhadores tinham o direito de fazer o teste.

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— Entendi. Mais alguma coisa de que eu precise saber?

— Agora não. O teste será feito amanhã e todos vamos trabalhar para que você possa realizá-lo da melhor forma possível. Recomendo que descanse bastante e entre em contato com o Sonhar. A falta de prática pode afetar o desempenho de qualquer um.

Será que estava estampado na cara de Luci que ela era tão desconectada assim com o Sonhar? Talvez Sofia tivesse comentado alguma coisa, ou as pessoas simplesmente imaginassem que, por ela ser da superfície, não poderia ser tão forte quanto eles. Luci não sentia essa maldade vinda de Ingrid, mas infelizmente não era um pensamento incomum entre cientes que viviam no Ninho.

— Muito obrigada, Ingrid.

A sentinela baixou a cabeça mais uma vez.

— Caso precise de alguma coisa, chame por mim ou qualquer um dos sentinelas.

Luci esperou Ingrid sair antes de deixar o corpo descansar na cama. Não ia passar no teste e aquela sua farsa ia acabar antes mesmo de começar. Por um lado, não estava tão chateada com a ideia. As quatro horas passariam, ela não teria o que fazer, os sentinelas a tirariam de lá e perceberiam que teriam que arrumar outra pessoa para ficar no lugar de Sofia.

Não era igual a sua irmã, nunca poderia ser. Tinha pensado que talvez, estando ali, poderia ajudar Sofia de alguma forma. Mas agora que de fato estava na torre, tinha uma certeza enorme de que não ia conseguir passar. Ela mal conseguia pensar em entrar no Sonhar sem sentir o desespero tomando conta de seu corpo, como então poderia caminhar por ele como se seu antigo trauma nunca tivesse existido?

Luci puxou a mochila e procurou o Noite Calma. Talvez não fosse a melhor ideia tomá-lo naquela noite, mas, honestamente, já tinha barrado tanto sua conexão com o Sonhar tomando aquilo que dificilmente uma noite a mais ou a menos faria qualquer diferença. Conseguia se lembrar de algumas coisas sobre como se movimentar no Sonhar. Sabia que a torre era uma construção que, mesmo estando no plano físico, possuía uma magia forte que permitia que fosse mais fácil localizá-la no Sonhar. Caso se focasse, poderia passar no teste. Ela sabia fazer isso, ou ao menos soubera um dia, e os sentinelas não a colocariam em uma área de pesadelo intenso.

Pelo menos ela esperava que não. Mas ela tinha que tentar. Se não por ela, ao menos para fazer algo por Sofia.

Luci se levantou. Estava com medo, mas ficar na cama tendo pena de si mesma era a pior coisa que podia fazer naquele momento. Se ia desistir antes mesmo de tentar, não tinha qualquer sentido ter ido até ali. Sofia não teria desistido, Carmela muito menos. Ainda se lembrava onde a biblioteca da torre ficava, então caminhou até o elevador para tentar buscar algo que a ajudasse com o dia seguinte. O elevador se movia de forma tão suave pela magia que ela mal sentia que de fato estava se mexendo. Muito mais rápido do que em qualquer elevador da superfície, ela chegou ao andar da biblioteca antes de conseguir pensar em outra coisa. Se tudo desse certo, aprenderia um truque ou outro que a ajudaria a não passar completamente por uma impostora.

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Estela não sabia mais dizer quantas vezes tinha respirado fundo naquele dia. Aquilo acontecia com alguma frequência, sempre que tentava falar com Nicolas e pegava os guardas mais conservadores. Tinha que esperar muito mais tempo que o necessário para falar com o Senhor do Ninho, o que era sempre um grande teste de paciência.

Devia ser enlouquecedor morar na mansão dos Alba. Não era apenas um lar, mas o local onde aconteciam reuniões, cheio de guardas e um certo vaivém constante. Não era possível ter descanso e Nicolas sabia na pele o que era aquilo. Nos últimos tempos, dava até para ver o cansaço nele.

A Senhora da Superfície levantou o rosto quando ouviu a porta se abrindo. Nicolas apareceu, sempre bem arrumado, com as roupas impecáveis e fazendo jus às histórias que falavam sobre o gene da vaidade correr no sangue dos Alba. Nicolas era um homem bem alto, os cabelos muito bem presos para trás, sem um fio fora do lugar. Sua pele estava mais pálida que o normal, provavelmente pelo cansaço por conta de tudo o que vinha acontecendo nos últimos tempos.

Os Alba não eram obrigados a se formar como mestres na Escola de Magos, mas, exceto pelo irmão de Nicolas, todos tinham se formado em alguma das linhas de magia. Os braceletes verdes grossos do Senhor do Ninho faziam todos saber, e temer, sua posição como mestre mental. Nicolas também usava um segundo conjunto de pulseiras laranja, essas finas, dos transformadores.

Nicolas fez um sinal para que Estela entrasse em sua sala. O escritório do Senhor do Ninho tinha tudo em seu lugar, com mais espaço do que talvez fosse necessário para um escritório. Havia muitas folhas em cima da escrivaninha dele, mas estava tudo organizado.

— Desculpe, Estela. Não sabia que era você, se soubesse a teria atendido mais rápido.

— Não tem problema.

— Por favor, me dê boas notícias — ele se sentou na beirada da escrivaninha.

A postura de Nicolas estava mais relaxada agora, mas sem perder a pose. Mesmo perto de pessoas de quem gostava e nas quais confiava, como Estela, ele ainda era o Senhor do Ninho e sempre agia como tal. Mas Estela preferia ficar na companhia dele do que da maioria, ele era um dos poucos cientes em cargo alto que não a desrespeitava por sua origem.

— A irmã de Sofia está na Torre do Sonhar e fará o teste amanhã. No começo ela hesitou em aceitar, mas já está tudo conforme os planos.

— Ótimo. E como estão os pais dela?

— Não estão bem — Estela sabia que as famílias eram próximas, Carmela fora quase uma avó para Nicolas. — Mas estão esperançosos de que Sofia pode ser encontrada.

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Nicolas assentiu, baixando a cabeça de leve. Ele se sentia culpado, tinha que ter ido ele mesmo até lá. Conhecia Giovani e Helena, passara parte da infância e adolescência com Sofia, era apenas quatro anos mais velho que ela. Sofrera com a morte de Carmela e o mínimo que podia fazer era ter ido até à fronteira falar sobre a situação ele mesmo. Estela tinha ficado bem surpresa quando ele pedira que ela o fizesse. Não só porque imaginou que o próprio Nicolas gostaria de falar sobre o que acontecera, mas também porque era uma tarefa importante. Pouquíssimos cientes do Ninho levariam Estela a sério o suficiente para deixá-la tratar de um assunto que envolvia o Sonhar.

Ele tinha dito que estava exausto, que as últimas reuniões tinham sugado muito dele e precisava descansar. O que era compreensível – estavam passando por tempos complicados e a próxima reunião seria uma dor de cabeça sem fim.

— Também há mais uma coisa que eu preciso falar —disse Estela. — Mestre Maurício estava na torre quando chegamos. Ingrid disse que ele foi oferecer ajuda aos sentinelas, mas ele não explicou isso quando eu perguntei. Disse que eu não precisava me preocupar.

Nicolas suspirou. Ele sabia bem que Maurício não estava apenas sendo educado, ele não comunicaria seus assuntos a Estela porque não a considerava digna de saber o que acontecia por lá.

— Maurício um dia vai precisar entender que os da superfície também são cientes.

— Infelizmente não acho que esse dia vá chegar — Estela suspirou. — Você deu permissão para que ele fosse falar com os sentinelas?

— A cadeira dos sonhadores é dele, eu não posso impedi-lo de ir até a torre — Estela sabia bem disso. Cada linha de magia da Escola dos Magos tinha uma cadeira, ocupada por um mestre que liderava aquela área específica. — Mas isso não veio de nenhuma conversa nossa. Ele provavelmente está procurando furos na torre para ir ganhando mais espaço. Você explicou a situação política para Luci?

— Não, eu estava mais preocupada com o teste dela. Não sabemos se ela vai passar, mas se tudo der certo amanhã, eu mesma posso explicar toda a situação.

— Nós faremos isso juntos — Nicolas se levantou. —Já não fui até à fronteira, o mínimo que posso fazer é ajudar Luci aqui.

Estela assentiu. Era melhor mesmo, ele conhecia Luci e ela provavelmente ficaria mais tranquila com algum rosto conhecido por perto. Já era uma situação incômoda o suficiente para ela.

— Como você está? — Estela perguntou.

— Bem, só um pouco sobrecarregado.

— Foi ver um curandeiro?

— Não se preocupe, essa época só precisa passar e tudo vai ficar bem — ele sorriu. — Amanhã me espere para ir até a torre. Vamos torcer para que o Sonhar esteja tranquilo.

— O que faremos se ela não conseguir?

— Ela vai — podia ser o otimismo de Nicolas falando, mas ele parecia acreditar muito naquilo. — Está no sangue dela.

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A pequena Luci sabia que não era certo estar no observatório da Torre do Sonhar sem permissão, mas aquele lugar sempre a fascinara. A sala possuía várias portas com partes de madeira que, quando ativadas com magia, mudavam para um portal que revelava a dimensão do Sonhar. Era assim que os sentinelas e a Guardiã entravam lá fisicamente.

Ela estava diante de uma delas, tocando na maçaneta e imaginando o quanto de magia teria que usar para abri-la. Empurrou a porta e, quando ela cedeu, só viu o fundo da sala, parecendo uma porta inútil para qualquer leigo.

— Um dia nós vamos aprender a usá-las como vovó faz — Luci ouviu a voz de Sofia atrás de si. A irmã, também não muito alta, tinha os olhos mais encantados que os dela. Conhecimentos e coisas novas sempre fascinaram Sofia.

— Mas você será a Guardiã — Luci respondeu, olhando para ela.

Sofia apenas deu de ombros, andando pelo resto do observatório. Carmela estava ali também, a Guardiã que observava, sabia de tudo, ou ao menos deveria. Devia ser um pouco assustador saber que era a pessoa com mais poder do Ninho, que uma falha podia afetar toda a população de cientes, que já tinha medo o suficiente de tudo a ponto de se esconder no subterrâneo. A banalidade da vida dos leigos deixava muitos cientes extremamente infelizes, sem contar que a falta de contato com a magia fazia que o domínio sobre ela fosse se esvaindo, como um sonho, que ao longo do dia a pessoa esquecia, a menos que buscasse se lembrar do que vira enquanto estava dormindo.

Algo passou pela visão periférica de Luci. Tinha a impressão de que algo passara voando por seu campo de visão. Seu olhar alcançou as janelas do observatório, mas não encontrou nada lá. Voltou a encarar a porta e tentou abri-la novamente. Dessa vez, o que apareceu diante dela não foi o fundo da sala em que estava, mas sim aqueles tons roxos característicos do Sonhar. Mas como ela tinha conseguido? Nem sabia ativar uma porta daquelas.

Foi aí que Luci percebeu que tudo estava mudando, que os tons de cores que caracterizavam o Sonhar estavam se espalhando pelo ambiente inteiro, o que não era o esperado.

De repente não era mais uma versão menor de si mesma, e sim a Luci de 22 anos. Sua irmã e sua avó não estavam lá. Nem a área em seu redor estava mais lá. Em vez de estar no observatório da torre, com portas em seu redor, agora estava cercada por toda aquela atmosfera imaterial. Era o Sonhar, estava conscientemente lá, de alguma forma.

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Ao perceber isso, sentiu o medo tomando conta dela. Sua respiração começou a ficar acelerada e pesada. Como tinha ido parar no Sonhar? O Noite Calma devia ter barrado sua conexão. Não era nem para ter tido um sonho comum como o que estava tendo antes, muito menos um consciente como o de agora.

Luci buscou controlar a respiração, tentando focar no pensamento mais lógico possível. Quanto mais deixasse o medo invadi-la, maiores as chances do Sonhar se modificar e dar espaço para um pesadelo.

Ela não queria nem imaginar aquela possibilidade.

— Achei que você não tomaria o Noite Calma justo antes de fazer seu teste.

Não conhecia a voz que tinha acabado de ouvir. Era como uma lâmina que cortava todo o resquício de confusão que ela ainda poderia ter, toda a atmosfera aérea e incerta que ainda tinha restado do sonho. As certezas foram pousando em sua mente. Ela não estava no observatório, Carmela estava morta e Sofia estava desaparecida.

Estava de fato no Sonhar. Aquela sensação era tão familiar e distante ao mesmo tempo… Mas, acima de tudo, assustadora.

A figura que estava com Luci levantou um de seus braços na altura de sua cabeça. Ela sentiu perfeitamente enquanto a magia daquele homem atuava em sua volta, construindo todo um cenário ao redor deles. Luci viu a biblioteca da Torre do Sonhar se formar ali, exatamente aquela onde ela tinha ido antes… Será que tinha dormido lá sem querer? Lembrava-se de ter passado algumas horas lendo. Não era incomum que ela pegasse no sono enquanto lia.

Luci parou para ver o homem diante dela. Ele não era uma construção de sua mente ou do Sonhar, era alguém que estava ali de verdade, fisicamente, diante de Luci, o que era uma ideia assustadora. Não só significava que ele tinha um grande domínio de habilidades sonhadoras, o que sempre era impressionante, como também tinha poder suficiente para entrar no subconsciente de outros, porque Luci definitivamente não se lembrava de ter deixado qualquer pessoa ter acesso a seus pensamentos.

Pior ainda: era uma pessoa que sabia tanto de habilidades sonhadoras que conseguia burlar os efeitos do Noite Calma. O remédio era feito exatamente para o subconsciente da pessoa ficar menos fluido, dificultando ou até mesmo cortando por inteiro qualquer chance de a mente flutuar pelo Sonhar, dependendo da dose.

Mas, seja lá como, aquele cara conseguira alcançar o subconsciente de Luci.

O homem abaixou a mão quando tudo em volta deles estava idêntico à biblioteca do Sonhar. Isso fez a mente de Luci se acalmar – pensar em um lugar conhecido sempre era uma das dicas que os magos sonhadores davam para evitar situações agitadas dentro do Sonhar. Dava uma sensação de normalidade, de estar de fato em um lugar e não vagando por uma dimensão imaterial.

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Luci não tinha a menor ideia de quem o homem era. As roupas dele eram arrumadas, usando apenas preto e branco, uma calça social, uma blusa de manga comprida com botões e um colete por cima. Seu rosto era fino, tinha postura reta e era um pouco mais alto que Luci. Ele sorriu para ela, como se aquela fosse a situação mais normal do mundo.

— Olá, Luci. Prazer em conhecê-la.

— Quem é você?

— Pode me chamar de Camaleão.

Ao contrário dele, Luci não se importava em manter qualquer pose. Seu olhar na direção do homem tinha mudado completamente.

O Camaleão.

Era quase uma lenda, uma muito controversa, por sinal. Os cientes diziam que o Camaleão sabia de tudo, que tinha contatos em vários lugares. As pessoas mencionavam muito o nome dele quando precisavam de informações ou algum favor, principalmente entre os cientes da superfície. Ainda havia os mais ousados que diziam que o Camaleão era a pessoa que verdadeiramente controlava o Ninho, mas também tinha aqueles que até duvidavam de sua existência. O apelido que aquele homem ganhara era exatamente por sua maestria nas habilidades transformadoras.

Luci sabia que ele era real, ela era ciente da fronteira e lá as pessoas geralmente não duvidavam de sua existência. Brincavam que ficar devendo um favor para o Camaleão e vender a alma era muito parecido. Giovani já tinha usado a figura dele em algumas de suas histórias, geralmente como uma imagem de coringa, que poderia guiar algum de seus personagens para o bem ou para o mal.

— Como eu sei que você está falando a verdade?

Aquilo fez o Camaleão rir. Luci teria esperado uma risada debochada, mas ele realmente ria como se aquilo fosse uma piada. Talvez fosse mesmo.

— Não tenho uma identidade para mostrar provando quem eu sou — enquanto ele falava, seu corpo mudava.

Ele não ganhara aquele apelido à toa. Sim, ele era conhecido por ter grandes habilidades de sonhadores, geralmente se movimentando pelo Sonhar. Mas, além disso, as pessoas diziam que ele podia se transformar em qualquer pessoa. Era o que acreditavam ser a fonte de suas informações, a facilidade que ele tinha para se infiltrar nos lugares, ou na vida de cientes.

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— Mas talvez eu tenha argumentos convincentes — Luci viu a metamorfose nele acontecer, enquanto Camaleão andava ao redor dela. Em um piscar de olhos, não era mais a figura esguia, e sim a imagem de seu pai. A voz tão parecida quase fez Luci gritar: — Quantos magos você conhece que conseguem entrar na mente de cientes na forma que estou agora? — O corpo dele mudou mais uma vez enquanto ele se mexia, agora tomando a forma de Helena. — Ainda mais quando esses cientes usam Noite Calma como você usa — Luci girava nos calcanhares para acompanhá-lo, vendo-o mais uma vez se transformar. Sua cabeça ganhava cabelos brancos, mostrando a imagem de Carmela. — Sua mente está agitada, não foi fácil — A figura de sua avó parou na sua frente, depois de dar uma volta completa ao redor de Luci. Ela se sentia tonta, não pelo giro, mas por todas as mudanças de aparência e vozes, ainda mais considerando que aquela imagem que via agora era de uma pessoa que estava morta. A voz de Carmela, ainda que falsa, causou uma onda de saudades em Luci. — Também não conheço muitos transformadores que mudem de forma tão rápido e tantas vezes como fiz agora.

A habilidade de transformação exigia muito de um mago, tanto mental quanto fisicamente. Não era algo banal, longe do que o Camaleão demonstrava ali. Claro que fazer aquilo no Sonhar era mais fácil do que no mundo físico, mas ainda assim não era tarefa simples.

— Saia da forma de minha avó — Luci tentou soar intimidadora, mas o sorriso que continuou nos lábios dele indicava que ela tinha falhado.

Ainda assim, o Camaleão obedeceu, ou pelo menos não via mais a necessidade de provar quem ele era. Voltou a sua forma de antes, com a roupa preta e branca. Até a postura era completamente diferente daquelas que ele tinha mostrado nas três transformações que fizera.

— Por que está em minha cabeça?

— Porque você vai realizar um teste amanhã para ficar no lugar de sua irmã. E você vai falhar.

Luci sentiu uma onda de raiva e frustração passar por seu corpo. Ela estava acostumada às pessoas duvidarem de sua magia, afinal ela sempre estava vários degraus abaixo de Sofia, a “Guardiã todo-poderosa”, mas nenhum deles costumava ter coragem de ser direto daquela forma. Bom, o Camaleão tinha.

— Vai se ferrar — ela disse, sem pensar muito que talvez não fosse uma boa ideia irritar alguém que tinha poder suficiente para invadir a mente dos outros no Sonhar. — Se você veio aqui para me dizer isso, pode ir embora.

— Eu não vim aqui dizer o que você já sabe — ele se aproximou. —Vim ajudar. Se você pensa que sua resistência com pesadelos vai lhe safar amanhã, está errada. Esses sentinelas sabem de qualquer truque que você possa imaginar e mais.

— Como você sabe de minha resistência?

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— Não precisa ficar na defensiva. Como falei, vim para ajudar.

— Nem vem, sei que sua ajuda nunca é de graça.

— De fato, mas sou um homem de negócios. Da mesma forma que não gosto que me passem a perna, não gosto de ficar devendo para os outros. Ajudar você é uma dívida que estou pagando.

Luci franziu o cenho, não acreditando muito naquilo. Ela estava apenas esperando quando ele ia revelar o jogo, mas o semblante dele não mudou. Estava muito sério quanto ao que dizia.

— Como vou saber que você não vai cobrar isso mais tarde?

— Você não sabe. Mas que escolha você tem? Assim, pode recusar minha ajuda e completar o teste amanhã sozinha. Mas acho que nós dois sabemos que suas chances são bem baixas.

— Se eu falhar é porque não mereço o cargo, simples assim.

— E é isso que você quer que aconteça?

Luci não saberia responder. Por um lado, falhar tiraria toda a responsabilidade com a qual não queria lidar. Mas a sensação de falha, derrota e até impotência com qualquer tentativa de ajudar Sofia seria esmagadora. Estela e Nicolas estavam contando com ela. Não queria ser Guardiã, nunca quis, mas já tinha entendido que aquela situação toda ia além de seu querer.

— Que tipo de ajuda você está oferecendo?

— O básico. Amanhã eles vão jogar você em algum lugar do Sonhar e eu vou ajudá-la a se encontrar.

— Eles são sentinelas, como você mesmo disse, vão perceber se tiver alguém a meu lado apontando o caminho da saída.

Camaleão ergueu uma sobrancelha e balançou a cabeça de leve.

— Não sou um principiante, Luci, sei o que estou fazendo. Vou encontrar você amanhã — ele se afastou, como se estivesse indo embora. — Eu, se fosse você, levantaria dessa cadeira e procuraria um lugar mais confortável para dormir. Consigo ajudar você, mas não faço milagre com uma mente exausta.

Luci tentou chamar a atenção do homem de novo, queria perguntar que dívida era aquela que ele estava pagando. Mas antes que as palavras pudessem sair de sua boca, não estava mais sonhando. Seu entorno não estava mais com os tons característicos da dimensão do Sonhar. Quando ela olhou ao redor, viu a biblioteca. Era um salão bem grande, um andar praticamente só para ela. Inúmeras estantes com livros e arquivos mágicos, com várias mesas e cadeiras para que os sentinelas pudessem consultar o que precisassem. Não era incomum encontrar pessoas lá, mas aparentemente Luci estava sozinha.

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Levantou o corpo de cima da mesa, tentando desamassar as páginas sobre as quais havia adormecido. Limpou a baba que escorrera da boca e fechou o livro, torcendo para que ninguém tivesse visto aquela cena. Luci olhou ao redor, esperando encontrar o Camaleão, ou ao menos algo fora do lugar, mas tudo parecia estar normal.

Por mais que toda aquela situação fosse esquisita, Luci fez o que lhe fora sugerido. Saiu da biblioteca, sem chamar a atenção dos sentinelas e voltou para seu quarto. Sua cabeça ainda estava confusa com toda a experiência no Sonhar, até porque fazia algum tempo que não tinha qualquer sonho.

Ela havia encontrado o próprio Camaleão. Ele a tinha alcançado, de alguma forma, por algum motivo, para ajudá-la no teste para se tornar a Guardiã. Luci jamais acreditaria naquela história se a ouvisse de alguém, mas lá estava ela, se deitando na cama e lidando com o fato de que tinha sido verdade.

Só não sabia se ele de fato apareceria no dia seguinte.