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— Lembrando — a voz de Ingrid dizia. — Você tem quatro horas para voltar. Caso não consiga, os sentinelas entrarão no Sonhar para lhe tirar de lá. Quando você voltar, teremos que nos certificar de que você não contraiu a doença do pesadelo. Alguma dúvida?

Luci estava no automático, não sabia o que era mais alto: a voz séria de Ingrid ou as batidas do próprio coração. Obviamente, não tinha dormido bem como gostaria, não só pelo nervosismo mas pelo turbilhão de pensamentos que povoara sua mente naquela noite, sem contar as memórias da visita de Camaleão. Mas só tinha a opção de assentir e tentar fingir que estava tudo bem.

Ingrid a levou até o observatório, onde estavam todos os outros sentinelas. Era uma sala oval, com inúmeras portas que não ficavam fixadas nas paredes, do mesmo tom claro que a torre tinha por fora. Na sala também havia uma grande janela, com uma vista incrível para o Ninho. Luci estava com medo de notarem que ela tremia. Sentia o olhar de todos os sentinelas, que não eram tantos, mas eram mais do que ela queria que estivessem ali. Queria desvendar o que eles estavam imaginando: se estavam torcendo para ela conseguir, com medo de uma possível falha ou apenas a comparando com Sofia. Luci poderia apostar que a irmã havia entrado no observatório com uma pose diferente: queixo erguido, certa do que estava fazendo, a figura perfeita da Guardiã.

Mas Luci não era assim. Ombros encolhidos, olhar baixo e não vendo a hora de aquilo acabar. Ela conseguiu identificar alguns olhares tortos, de rabo de olho. Estava acostumada com aquilo, ela não era o que imaginavam da irmã da Guardiã Sofia, menos ainda da neta da Guardiã Carmela. Bom, era o que tinha para hoje.

Ingrid, que tinha acompanhado Luci até ali desde seu quarto, olhou para os lados e franziu o cenho, procurando por alguém que não estava no observatório.

— Onde está a Senhora da Superfície?

— Não sabemos — respondeu um dos sentinelas da ponta, se aproximando. — Não deveríamos começar o quanto antes?

— Sem ela?

— O teste precisa começar.

Luci conhecia aquela voz e sentiu um arrepio na espinha quando ligou os pontos. Ela se virou para trás – havia entrado no observatório querendo tanto se esconder de tudo que não vira Maurício ali.

— Mestre Maurício! Que bom que já está aqui.

— Não gostaria de atrasar o teste. — Ele andou na direção das duas. — Deveríamos começar o mais rápido o possível.

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Os sentinelas todos pareceram concordar. Quem dava início ao teste podia variar – às vezes era iniciado por um sentinela, às vezes por um mestre sonhador, dependia da situação. Ingrid não tinha recebido nenhuma informação sobre quem iniciaria o teste de hoje, mas ela sabia que Estela iria queria estar lá.

 — Com certeza, mas o Senhor do Ninho não virá? — perguntou ela.

— Ele não se pronunciou sobre o assunto e anda muito ocupado. Ele vai compreender.

Ingrid respirou fundo, mas apenas assentiu. Não havia uma liderança fixa na torre agora, geralmente o sentinela mais experiente cuidava de tudo durante a troca de Guardião, mas os mais velhos haviam morrido no desastre da Alvorada. Com a presença cada vez maior de Maurício na torre, não era de surpreender que os sentinelas o aceitassem como uma espécie de guia. Assim como Estela, Ingrid não era fã de Maurício, mas não iria questionar sua autoridade – até porque não havia nada contra as regras naquela situação.

Percebendo que Ingrid não diria mais nada, Maurício deu alguns passos à frente, ficando no meio do observatório, diante dos olhos de todos os sentinelas. Luci se viu também no centro das atenções, o que a fez se sentir ainda menor.

— Estamos em um momento complicado. Mas o teste da Guardiã é uma das tradições mais antigas entre nós e deve ser respeitado — disse Maurício. — O Sonhar é o terreno que todos os magos temem. Nós não – o Sonhar precisa ser familiar para nós, principalmente para a Guardiã, que ajuda a proteger nosso Ninho e doa sua vida para observar, guardar e prezar por nossa segurança. — Os olhos dele se fixaram em Luci, que, a essa altura, já sentia o estômago inteiro contraído. — Luci, em sua família corre o sangue de duas Guardiãs, o dom dos sonhadores está em você.

Maurício caminhou até uma das portas. Ele esperou um minuto enquanto segurava a maçaneta, ativando sua magia, e a abriu. Parecia uma porta comum, de madeira escura. Mesmo parecendo velha, por estar aí há centenas de anos, era bem firme. A maçaneta era a única coisa que saltava mais aos olhos, prateada e gelada. Caso fosse uma porta normal, sem magia nenhuma, a passagem mostraria o resto da sala. Mas não foi isso que aconteceu. Todas as portas ali eram encantadas. Quando Maurício a abriu, a passagem adiante revelou a dimensão do Sonhar, com seus tons roxos característicos, sem nenhuma forma física podendo ser distinguida. Luci controlou o impulso de dar um passo para trás.

— Que seu corpo e sua mente caminhem com tranquilidade pelo Sonhar. Nós nos veremos em algumas horas, — Maurício finalizou o discurso.

Agora era a hora dela. Luci sentia como se todo seu corpo estivesse petrificado. Ela mal conseguia se mexer. Queria poder olhar ao redor e encontrar seus pais, ou qualquer rosto conhecido, mas não havia ninguém. Ingrid era a pessoa mais próxima de um rosto conhecido no qual Luci poderia buscar ajuda, mas estava muito longe de ser o que ela queria.

Mais do que nunca, Luci precisava de uma mente calma. Precisava relaxar, buscar na memória tudo o que sua avó lhe havia ensinado sobre o que fazer quando estava no Sonhar. Tentou se lembrar de tudo que sabia quando entrava lá conscientemente. Não de maneira física, pois aquela seria a primeira vez, mas o conhecimento que tinha do passado era tudo em que ela conseguia se segurar agora. Seu corpo dava passos duvidosos até a porta que Maurício havia aberto.

Uma de suas mãos segurou na madeira escura da porta. Tentou ignorar os olhares que a encaravam, quase os sentia pesando em seus ombros. Será que estariam rindo de sua postura? Ela fechou os olhos, não procurou por ninguém e sentiu seu corpo passando para o outro lado.

Um passo adiante. A porta tinha se fechado. Agora ela estava lá.

No Sonhar.

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Nicolas e Estela pretendiam chegar para o começo do teste. A Senhora da Superfície tinha acordado boas horas antes e se preparado para possíveis situações desagradáveis. O Senhor do Ninho acabou demorando mais.

Estela nunca tinha ido até o observatório. A entrada da sala era bem estreita, sem contar que, caso houvesse chegado lá sozinha, era bem possível que não a deixassem entrar. A autoridade da Senhora da Superfície só ia até o limite do preconceito dos cientes. Mas ela estava acompanhada do Senhor do Ninho, Nicolas Alba, e não havia nenhum ser humano no subterrâneo que ousasse impedir a passagem dele em qualquer lugar. A magia era mais forte naquela sala, até Estela conseguia sentir.

Os dois não esperavam que o teste já tivesse começado quando chegassem. Não estavam muito atrasados, e não era completamente necessário que qualquer um dos dois estivessem lá, mas Estela também sabia que Maurício não se importaria de começar na hora em que quisesse. Ele andava com uma necessidade ainda maior do que a normal de mostrar sua autoridade. Não à toa: se Luci não conseguisse passar no teste, seria vantajoso para ele.

Quando eles entraram, os sentinelas foram aos poucos se curvando. O próprio Maurício fez o mesmo quando reparou que eles estavam ali. Todos fizeram uma reverência respeitosa enquanto os olhos escuros de Nicolas checavam a sala. Um silêncio incômodo encheu o ambiente. Não era improvável que Nicolas estivesse presente, mas, assim como Maurício tinha dito antes, os sentinelas não esperavam que ele aparecesse.

— Senhor Alba — Maurício se aproximou de Nicolas, de forma respeitosa. Estela notou que Maurício nem notou em sua presença. — Não sabia que viria para o teste. Nós já começamos.

— Bom dia, Mestre Maurício. Sim, eu percebi. — Ele fez uma pausa, observando todos os olhos tensos dos sentinelas que os encaravam. Nicolas passou os olhos pela sala, encontrando quem queria. — Sentinela Ingrid — chamou ele.

A mulher prontamente deu alguns passos à frente.

— Você chefia o teste por enquanto. Nós três precisamos alinhar algumas questões. Por favor, continuem — ele deu um sorriso reconfortante para os outros.

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Por mais que a figura de Nicolas fosse intimidadora, por causa de sua posição política, ele em si era um homem que trazia muita simpatia. O Senhor do Ninho não usava intimidação ou contava com o medo que as pessoas tinham dele para fazer seu trabalho. Era carismático, tinha um sorriso convincente e tendia a ser a pessoa que conversava em um tom de voz baixo – o que não significava que era facilmente manipulável. Nicolas tinha uma boa ideia do que acontecia em seu redor, apenas escolhia não bater tão de frente se pudesse evitar.

Ingrid e os outros sentinelas olhavam enquanto os três saíam do observatório. Um burburinho se espalhou pela sala, mas no momento seguinte Ingrid limpou a garganta, indicando que eles deveriam voltar a ficar vigilantes para o retorno de Luci. Não que ela não estivesse curiosa para saber o que ia acontecer, mas compreendia quando um assunto não era para seus ouvidos.

Os três se afastaram pelo corredor. Não era um problema começar o teste sem Nicolas, considerando que ele não tinha avisado. Mas Estela tinha avisado, e Maurício deveria saber. Era só mais uma demonstração de descaso. Ela estava se controlando para não externalizar seu desgosto.

Quando Nicolas parou de andar, os outros dois fizeram o mesmo. Ele se virou, encarando Maurício, e Estela parou ao lado dele.

— Entendo que não avisei sobre minha presença aqui hoje, foi falha minha, sinto muito — disse Nicolas. — Mas acredito que a Senhora da Superfície tenha informado que estaria presente, não?

Estela prendeu a respiração por um momento. Ela não sabia que Nicolas falaria sobre isso, ao menos não tão cedo e não de forma tão direta. Não é como se eles precisassem ficar observando cada minuto do evento, havia sentinelas o suficiente, e dificilmente Luci voltaria em menos de duas horas. Pelo menos era a média geral das pessoas que passavam no teste.

— Sinto muito pelo mal-entendido. Imaginei que a Senhora do Superfície me avisaria.

— A sentinela Ingrid estava avisada.

Só naquele momento Maurício pareceu de fato se dar ao trabalho de olhar para Estela, reconhecendo que ela estava ali. Se não sentisse tanta raiva daquele homem, ela talvez tivesse tremido com o olhar duro que ele lhe lançou. Mas foi apenas por um momento, e logo em seguida sua atenção voltou a Nicolas.

— Novamente, Senhor, sinto muito — voltou a falar Maurício. — Acreditei que o mais certo era começar logo o teste, já que nenhum de vocês dois me comunicou sobre o assunto. Sem contar que Luci parecia estar nervosa, então achei que o melhor era começar de uma vez.

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Quem não o conhecia podia achar que ele se importava com Luci de verdade, mas Estela entendia aquele jogo muito bem. Apesar de ser rígido e firme, Maurício era visto por muitos como um homem sensato, que apenas fazia o que devia ser feito. Privilégios de ser quem era. Se Estela fizesse qualquer coisa a mais que um espirro, ela era a irresponsável, pouco educada e incompetente. Se tivesse tomado uma decisão daquelas sozinha, Maurício usaria todo um argumento sobre como ela colocara Luci em risco, ou pior, como manchara toda a tradição, como se aquilo fosse o ponto mais importante naquele momento.

— Tenho andado com a cabeça muito ocupada, é verdade, mas você pode falar com a Senhora da Superfície nessas situações — disse Nicolas.

Estela queria muito conseguir ver através da pose de Maurício, tentar entender se ele estava com ódio ou apenas ignorando o que Nicolas havia dito. Mas ele não deixava nada transparecer, claro que não.

Ele fez um gesto com a cabeça, como se concordasse, mas Estela sabia que não levaria a nada. Quando Maurício ergueu a cabeça de novo, ele disse:

— Em tempos difíceis precisamos estar unidos. Há mais alguma coisa em que eu possa ajudar?

— Não, pode voltar para o observatório. Em cinco minutos estaremos lá de novo.

Com uma reverência, Maurício deu as costas e voltou para seu lugar. Estela suspirou quando a porta se fechou e os dois ficaram sozinhos de novo.

— Agradeço o que você tentou fazer — disse Estela. — Mas ele… não vai passar a me respeitar do dia para a noite. Maurício é o tipo de homem que não respeita nada que considere inferior.

— Entendo que não será do dia para a noite, mas ele está oficialmente avisado. O que significa que ele pode ser cobrado.

— Mas será que isso vai ser o suficiente?

— Talvez. Não acredito que ele vá querer desobedecer minhas ordens diretas.

Por também ser um homem privilegiado, Nicolas não conseguia entender como era estar na posição de Estela, mas aqueles avisos sutis podiam fazer Maurício pensar duas vezes antes de tentar alguma coisa, o que era importante. Nicolas odiava ter alguém por perto em quem não pudesse confiar, mas também não podia expulsar Maurício de seu cargo ou tirar à força sua influência.

Estela achou melhor não discutir. Apreciava a tentativa, de verdade, mas já tinha aprendido que, para algumas pessoas, não havia o que fazer -só lhe restava continuar com seu trabalho da melhor forma e torcer para que algum dia isso fosse o suficiente.

— Está tudo bem, Estela? — perguntou Nicolas, percebendo a expressão no rosto dela.

— Claro, precisamos manter o foco — não estava tudo bem, mas ela não queria admitir. — O teste já começou e Luci vai ficar feliz em ver você quando voltar.

Ela ainda estava incomodada ao voltar para o observatório. Era bom ter alguém poderoso a seu lado, mas queria não precisar daquele tipo de escudo. Sonhava com o dia em que poderia dizer tudo que queria na cara de Maurício. Estela trocou olhares com Ingrid, apenas por um breve momento, e depois passou a encarar a porta por onde Luci deveria sair. Ela podia não entender nada do Sonhar ou de magia, mas queria fazer o que estivesse a seu alcance para manter aquele lugar funcionando.

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Era uma sensação esquisita estar no Sonhar fisicamente.

Quando a pessoa cruzava a porta de uma dimensão para a outra, a sensação diferente não vinha de imediato. Era quase como entrar em uma piscina, mas sem aquele contato presente da água. À medida que os passos eram dados, a energia do Sonhar ia ocupando espaço no corpo e na mente da pessoa, pouco a pouco. Tudo ficava conectado de alguma forma, dando uma sensação de vulnerabilidade. A magia fluía lá muito mais livremente, mas usá-la exigia mais controle, porque perder a noção do quanto de energia era gasto ali ficava muito mais fácil. Sem contar os pesadelos que isso podia atrair.

Luci sentia sua mente pesada, provavelmente pelos anos de tomar Noite Calma para barrar sua entrada no mundo dos sonhos. Fisicamente, não havia nada que a segurasse, só o próprio medo. Era como se uma dor constante martelasse sua cabeça.

A sensação de tempo também era incerta. Luci sentia como se estivesse no Sonhar havia poucos minutos, mas era bem possível que já estivesse batendo quase na primeira hora. Lembrar-se desse detalhe fazia que ela sentisse uma energia agitada por todo o corpo, retumbando forte em seu peito. Tudo era muito cru e sensível no Sonhar, ela sabia que tinha que tomar cuidado para onde sua mente ia, se não poderia divagar para um lugar horrível.

Poderia acontecer tudo de novo. E ainda pior, considerando que estava ali fisicamente.

Os arredores pareciam preenchidos por fumaça em tons de roxo, mesclando e formando um fundo infinito. As áreas de pesadelo eram as menos iluminadas e aquilo sim a deixava apavorada, mas não era essa a situação do lugar em que estava agora. A sensação de afogamento se tornaria muito presente e ela sabia bem que não teria emocional, força ou magia para conseguir se libertar. Tirou a mente desse fluxo de pensamento na hora, pois se enveredasse por aí poderia ser um caminho sem volta.

Focou no formato de seu corpo, na materialidade dele. Suas mãos estavam segurando seu rosto, enquanto seu peito tentava conseguir uma frequência calma de respiração. Buscou sentir do topo da cabeça até os dedos dos pés, tendo noção de toda sua forma ali. Agora sentia como se pudesse andar melhor, se movimentar, menos presa às energias daquele lugar. Luci tirou as mãos do rosto, voltando a olhar os arredores. Via formas se materializando, como se fosse uma cidade. Prédios e casas iam se formando na rua, por entre a neblina roxa que o Sonhar formava. A calçada estreita estava vazia, com pouca sujeira no chão e parcas árvores ao longo do quarteirão. Quanto mais Luci andava naquela direção, mais nítidas as formas se tornavam e menos presente a fumaça ia ficando.

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Bem perto dela, havia uma rua que se inclinava um pouco para baixo. Um ônibus estava parado ali, perto de um posto de gasolina. Parecia ser fim da tarde. Por mais que andasse, o lugar continuava parecendo deserto. Ela reconhecia aquela região – se descesse aquela rua e virasse à direita, estaria em casa. Seu pequeno apartamento, muito leigo e aconchegante, seu refúgio desde que decidira largar a fronteira.

Luci tentou fazer um teste. Olhou em volta e, se certificando de que não havia ninguém nem nenhuma forma estranha, desceu a rua, mantendo a imagem do teatro em sua mente. Quando fez a curva, viu uma paisagem esquisita. Era a rua em que morava, via a entrada do prédio ali, mas a alguns passos de distância também identificava o teatro de seus pais. Havia uma fila de pessoas sem rosto esperando para entrar. O som era praticamente nulo.

Ela já tinha sido melhor nisso. Se estivesse mais acostumada e menos assustada com o Sonhar, conseguiria manipular melhor a fábrica dos sonhos. Teria conseguido virar à direita e encontrado a fronteira de forma nítida. Mas sua mente ainda estava enevoada pela falta de prática, então os dois pensamentos recentes que teve se cruzaram, formando um só. O Sonhar não tinha forma física por si só, ele ia se moldando a partir da mente da pessoa que estava em determinada região – por isso os pensamentos de alguém poderiam atrair pesadelos.

Passando por algumas pessoas, agora umas com rostos e outras sem, ela entrou no teatro e se encaminhou até uma das salas de espetáculo. No dia anterior, tinha estado no lugar real com seu pai, assistindo a um ensaio. Mas agora aquele lugar estava vazio, com a fumaça do Sonhar tomando conta de certos pontos específicos, lembrando Luci perfeitamente de onde estava.

Leigos não tinham ideia do quão manipulável toda a existência e a vida poderiam ser. Parte da magia e de sua prática era questionar a realidade material como ela existia, tentar alterá-la de alguma forma. Mas com respeito ao outro, pois usar magia para ferir era algo muito mal visto, por mais que algumas pessoas acabassem fazendo exatamente isso.

Apesar do medo que teve por anos,  estar ali de novo agora fazia Luci se lembrar um pouco de por que um dia gostara tanto de estar lá. Fazer aquilo fisicamente era ainda mais potente. Sofia devia fazê-lo com alguma frequência, depois de virar Guardiã, mas também com cautela. Nunca se brinca com o Sonhar e Sofia era a primeira a dizer aquilo. Os olhos de Luci pousaram no palco, e ela viu outra coisa se materializando ali.

Esse era o perigo da mente no Sonhar. Com controle, ou a falta dele, as paredes daquela dimensão podiam se dobrar e formar qualquer coisa. Sofia estava no palco e Luci quase tomou um susto, até sua mente se lembrar de que aquilo era só uma reprodução daquilo que gostaria de ver. Se Luci olhasse bem, veria que a forma de Sofia estava bem enevoada, pouco física, o que fazia todo sentido. Ela dançava no palco, como fizera durante algumas apresentações na adolescência. Seu corpo fluía como água. Ela parecia mais nova, com os cabelos de cachos grandes soltos, sua pele escura brilhando e um sorriso em seu rosto.

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Aquelas pequenas mudanças eram cruciais para um sonhador. Quando uma pessoa sonhava, não notava como essas mudanças não faziam nenhum sentido, mas elas aconteciam. A pessoa só aceitava e seguia o fluxo do sonho, o rio de pensamentos que o subconsciente criava. Mas, por mais fechada para sua mente que Luci estivesse, ela conseguia discernir que aquilo era a materialização de um sonho e que aquela não era sua irmã. Não de verdade, não a Sofia que ela procurava. Ainda assim, a visão lhe dava alguma calma de que, de certa forma, Sofia estava por aí em algum lugar. Talvez.

— Sofia… — murmurou ela, sentindo os olhos se encherem de água. Tudo que queria era poder saber alguma coisa, qualquer coisa.

Luci foi andando na direção dela. Sem parar seus movimentos, Sofia puxou alguma coisa do bolso. Suas pernas continuavam dançando enquanto suas mãos puxavam um manto de dentro de suas roupas. Aquilo não fazia qualquer sentido, mas Luci voltou a lembrar que aquele era o Sonhar, então tudo podia ser. Ela vestiu o manto da Guardiã, prendendo-o habilidosamente ao redor de seus ombros, sem deixar nada fora do lugar. Ela nunca deixava nada fora do lugar.

E, só então, Sofia parou de dançar.

Estava parada em uma pose perfeita. Luci ouviu algumas palmas vindo de trás dela, mas não se deu ao trabalho de virar para ver. Se Aproximou-se um pouco mais do palco. Os olhos da irmã passaram do fundo da sala para Luci. Naquela hora, ela se lembrou de quanto tempo fazia que não via Sofia.

— Achei que odiasse esse lugar.

O tom de superioridade de Sofia estava ali, porque era assim que Luci via a irmã. Era muito leve e sutil, e em momentos talvez até saísse sem querer, mas existia. Sofia sabia exatamente porque a irmã mais nova se recusava a pisar naquele lugar, e falar daquela forma era desnecessário.

Mas aquela não era bem Sofia, e sim uma das inúmeras formas como Luci via Sofia, ou ao menos a forma que estava sendo representada naquele momento. Tinha que manter isso em mente a todo o momento. Sua cabeça doía mais agora. Há quanto tempo estava lá mesmo?

— Eu odeio —respondeu Luci.

— Então o que está fazendo aqui?

Luci começou a responder, então percebeu que nenhuma palavra saíra de seus lábios. Por um momento, ela não se lembrou exatamente por que tinha entrado no teatro. Pensou em sua casa, na verdade, mas não estava em casa antes disso. Tinha ido parar lá de outra forma. Luci foi puxando pela memória, lembrou de reencontrar os pais, de visitar o teatro de novo, não ali, mas de forma física.

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Então se lembrou dos olhos da Senhora da Superfície. Por que estava com aquela mulher na memória? Ela tinha ido ao teatro, mas para que mesmo? Estela tinha pedido para que ela a acompanhasse até o Ninho. Luci não queria, mas foi mesmo assim. Pensou em seus pais, em como se abraçaram antes de se despedirem.

Tinha um objetivo em mente. Estava fazendo o teste da Guardiã.

Luci sabia que era fácil esquecer as coisas no Sonhar. O fluxo da mente era muito mais intenso, manter o foco era mais difícil, ainda mais para uma pessoa que não fazia aquilo há anos. Quanto mais adentrava naquela dimensão, mais seu foco ia se esvaindo. Ainda mais considerando que estava vendo uma representação de Sofia, e que isso estava abalando seu emocional.

Quanto tempo já havia se passado? Será que os sentinelas já estavam vindo buscá-la? Luci precisou se concentrar para não deixar aquela sensação de medo tomar conta de seu corpo.

As luzes se apagaram de repente e Luci se ouviu gritar. Não enxergava nada ou ouvia nada. Tudo estava escuro. Não eram os tons de um pesadelo, era como se todas as luzes tivessem parado de funcionar, o que não fazia sentido, mas Luci só sabia que não conseguia ver nada. Ela deu dois passos para trás antes de as luzes acenderem de novo.

Muito mais próximo do que Luci imaginava, Sofia estava diante dela, no chão. Sentada, agarrando as próprias pernas, ela estava mais encolhida do que Luci jamais a vira, e imóvel. Seus cabelos estavam bagunçados e suas roupas, sujas. Luci temeu se aproximar, não sabia dizer se era mesmo a imagem de sua irmã vinda da própria mente ou alguma forma de pesadelo se aproveitando dela. Esse pensamento a fez pensar em dar outro passo para trás, mas estava paralisada.

Havia algo muito cru naquela Sofia, ou seja lá o que fosse. Uma forma que ela não tinha visto, que não se lembrava de canto nenhum de sua mente. Luci procurou memórias de já ter visto Sofia chorando, mas a verdade é que dificilmente via a irmã em qualquer posição de fragilidade.

Na hora em que estendeu o braço para tocá-la, a mão de Sofia a segurou. Em seu olhos escuros, do rosto que tinha acabado de se levantar para encará-la, Luci viu.

Era tudo confuso, como ver emoções. Cores fortes e agitadas passando diante de seus olhos. Um furacão de emoções que sufocou Luci por alguns instantes.

Viu um lugar, grande, com vários quartos. Estava no meio de seus corredores, andando de um lado para o outro, tentando encontrar o equilíbrio, mas sem conseguir ficar de pé direito. Viu pessoas caídas no chão, corpos, o que a fez tropeçar para trás, fugindo do horror que via e sentia. Era como se gritos e choros rasgassem as próprias paredes do Sonhar, arranhando seus ouvidos, seu pescoço e seu peito.

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Sabia muito bem o que era. Um pesadelo, ou ao menos parte dele. Sabia identificar um e conseguir se manter relativamente estável fazia parte da resistência que tinha. Mas Luci sabia que aquilo poderia não significar nada se não saísse dali logo. Os corredores eram sem fim e cada passo era uma tortura. Não estava mais no teatro ou na rua de sua casa. Não sabia onde estava, só sabia que tudo doía.

O pesadelo que tentava puxá-la começou a chegar perto demais. Sentiu sua mente pesar, seu peito afundar, e passou a ver coisas piores. Não sabia por onde ia, a sensação era péssima e sufocante.

E foi aí que ouviu.

— Luci…

Ela parou e olhou para trás. Era a voz de Sofia, mais presente. O pesadelo devia ter entrado em algum lugar de seu subconsciente. Não viu nada concreto, só aquela massa disforme e cheia de dor tomando conta dos corredores. Luci hesitou por um segundo, o que era um grande erro.

— Luci!

Não era mais a voz de sua irmã.

Era como se as paredes em seu redor desmoronassem, ela sentiu um braço a puxando para fora de… Não sabia bem de onde. Já tinha passado por aquela sensação havia anos, mas pelo menos aquela tinha sido mais curta e menos intensa. Quando se deu conta de sua presença física novamente, estava de joelhos no chão. Abriu os olhos devagar, dessa vez vendo os tons mais iluminados do Sonhar. Uma sensação de calma inundou seu corpo e sua mente voltou a um estado emocional aceitável.

Não havia mais teatro ou qualquer outra coisa conhecida. Estava no meio do Sonhar, puro, sem ser alterado. Um universo de energia. Ela inclinou a cabeça para olhar para cima e viu a mão de Camaleão estendida para ela. Da forma que estava quando se viram pela primeira vez… Suas roupas continuavam impecáveis. Dessa vez usava um chapéu preto, que ajudava a compor o resto de sua imagem.

Luci não fez perguntas. Sua mente ia lentamente se colocando no lugar enquanto ele a ajudava a se levantar. A iniciação, a torre do Sonhar, ela tinha que voltar, os sentinelas a estavam esperando há… Quanto tempo já fazia?

— Era um pesadelo.

— Era. Aquele metido do Maurício não ia largá-la em um lugar completamente calmo — disse Camaleão, arrumando o colete que usava. — Você está bem?

Só nesse momento Luci percebeu o quanto não estava bem. Seu rosto estava molhado. Passou os dedos para sentir as lágrimas que tinham ficado ali. Seu queixo ainda tremia, nem percebia que tinha começado a chorar, mas quando percebeu a onda de sofrimento veio com toda a força em seu peito, fazendo os soluços virem um atrás do outro.

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Ela se abaixou novamente, escondendo o rosto nas mãos. Estava pronta para ouvir Camaleão dizendo que eles precisavam se apressar, que não era hora para chorar… Mas não foi isso que ele fez. O homem se aproximou, tirou um lenço do bolso e entregou a ela. Luci amassou o pano entre os dedos enquanto soluçava. Ela sentia o ambiente em volta deles muito calmo, uma emoção que vinha de onde Camaleão estava, de sua presença firme e estável. Ele estava usando sua própria magia para criar um ambiente seguro. Emoções fortes daquele jeito eram capazes de atrair formas do Sonhar que poderiam ser desagradáveis.

A mão dele ficou no ombro de Luci enquanto ela chorava. Sentia aquela dor característica na garganta e a cabeça pendendo para frente. Os soluços passaram a vir sem lágrimas, apenas mexendo seu corpo para tentar se livrar de tudo aquilo que tinha sentido. Ela nunca queria ter que sentir algo assim de novo, mas lá estava ela, se recuperando de um pesadelo. A sorte é que tinha sido breve.

— O que aconteceu? —perguntou ela, passando o lenço pelo rosto, sua voz tremendo pelos soluços.

— A região não era favorável e sua mente estava agitada. Você tem pensado muito em Sofia, o Sonhar apenas deu forma a tudo isso.

— Mas… Tinha alguma coisa diferente nesse pesadelo…

— Como o quê, por exemplo?

— Eu sei que ele veio em minha direção, mas… — lembrou-se de Sofia ajoelhada no meio do teatro. — Nem todas as imagens eram minhas, pelo menos eu acho que não eram de minha cabeça.

— O Sonhar não é literal, ele pode pegar vários elementos de sua mente e trazer à tona. Ou traduzir sentimentos em imagens, o que também não é sempre óbvio. Está melhor?

Luci assentiu. Ela tremia de leve, mas buscou manter os pés firmes no chão e a cabeça alta.

— Quanto tempo ainda tenho? Ou já falhei?

— Eu não me atraso —sorriu ele. — Não temos tanto tempo quanto eu gostaria, mas o suficiente. Preciso que você acalme sua mente.

— Não sei se consigo manipular energia nenhuma agora…

— Você precisa. Se eu mexer seu caminho todo por você, eles podem perceber.

Ela não queria fazer isso, quis se abaixar e voltar a chorar, pedir para que ele a levasse e revelasse de uma vez que ela era uma grande farsa. Mas não queria ser uma criança chorona. Deixar-se afundar naquela espiral de pensamento podia apenas piorar a situação, sem contar que ela não queria testar a paciência do Camaleão. Ele não precisava estar ajudando, mas, por algum motivo, estava.

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— Você precisa tranquilizar sua mente —começou ele. — Feche os olhos — ela o fez. — Concentre tudo dentro de você em um ponto específico. — Luci sentiu a mão dele em seu ombro. Dava para sentir parte da energia dele ali, emprestando sua magia para ajudá-la. — Você precisa encontrar a porta para voltar, aquela mesma que abriram para lhe colocar aqui dentro. Consegue visualizar?

Luci viu uma porta a sua frente, mas podia ser qualquer uma das portas do observatório. Tentou desenhar bem em sua cabeça a imagem das portas que existiam lá, mas sabia que sua energia ainda estava desfocada.

Sentiu como se uma mão firme a ajudasse a segurar toda aquela energia. Era a presença do Camaleão bem ali, sua magia muito perto e poderosa. Ele não parecia fazer muito esforço, o que a fez considerar por um momento o quanto de domínio de magia aquele homem poderia ter. Manter a própria mente focada no Sonhar já não era tarefa fácil, ajudar outra pessoa agitada na tarefa era mais difícil ainda.

— Lembre-se do observatório. Você visitou o lugar algumas vezes, não só agora, mas com sua avó também. Puxe essas memórias.

Luci não entendeu o que ele estava fazendo. Memórias como aquelas vinham carregadas de emoções e isso podia ser perigoso. Ela viu o observatório, sua avó lá com as duas netas. Sentia tanta saudade de Carmela que chegava a doer; mesmo tantos anos depois, era como se parte dela ainda estivesse ali de alguma forma.

Era por isso que Camaleão queria que ela se lembrasse daquilo. Tinha as emoções dela controladas com seu foco. Lembranças que vinham com emoções eram sempre mais fortes, o suficiente para fazê-la lembrar do lugar que precisava encontrar. No Sonhar, o caminho para as coisas estava muito mais na mente do que em posições geográficas.

— É para lá que você precisa voltar. Eu não posso lhe acompanhar, mas sei que, uma vez que sua mente estiver focada, você verá o caminho. Confie nas ondulações que o Sonhar lhe mostrar e não tire o objetivo de sua cabeça. — Luci sentiu o Camaleão colocando algo na palma de sua mão, mas não soube dizer o que era. — Segure isso como se fosse sua vida e não mostre para ninguém ou eles saberão.

Luci sentiu, pouco a pouco, a firmeza da magia do Camaleão se dissipando. Ela não percebeu quando ele tirou a mão do ombro dela, estava tão focada no que precisava pensar que só tentou manter a própria magia no lugar. Sentia energia emanando de seja lá o que ele tivesse colocado em sua mão, um formigamento.

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Quando ela abriu os olhos, ele não estava mais lá.

— Camaleão! — chamou ela, mas ninguém respondeu.

Não sabia o que procurar, mas se recusou a deixar o desespero tomar conta de seu corpo e mente, isso não podia acontecer de forma nenhuma. Teve medo de se mover, então apenas procurou com os olhos o que precisava achar, seu caminho. Buscou sentir com cada pedaço de seu ser. As ondulações…

Estavam ali, diante dela. As tais das ondulações, como se indicando a direção certa. Eram sutis e pouco perceptíveis, mas o suficiente para serem notadas. Luci enfiou a mão que segurava o objeto de Camaleão no bolso, segurando-o com força. Parecia um anel, mas não se atreveu a puxá-lo de volta. Devia ser algum tipo de objeto encantado, mas não pensou muito nele no momento. Os sentinelas suspeitariam se vissem em sua mão algo que ela nunca teve, e se era aquilo que a faria sair dali, iria guardá-lo e usá-lo.

Luci manteve o foco e os olhos direcionados para frente. Via imagens e ouvia alguns sons em seu redor, mas ignorou-os, não podia dar bola para eles ou poderiam puxá-la na correnteza do Sonhar. Ela estava andando para frente, cada passo com extremo cuidado, como se fosse cair de um precipício a qualquer momento.

Ela viu a porta se formando diante dela. Esperava que fosse a mesma que usara para entrar. Bem, qualquer porta do observatório funcionaria, ou ao menos ela gostava de imaginar que sim, mas era melhor não testar a paciência dos sentinelas.

Cada passo era mais difícil, mas ela sabia que podia.

Um passo de cada vez, fechando cada vez mais a mão ao redor do objeto que Camaleão havia entregado a ela.

Manteve em mente o observatório, a porta e até a memória de Carmela, sem olhar para trás ou se atrevendo a pensar em qualquer outra coisa.

Luci conseguiu encostar a mão na maçaneta da porta.

E empurrou.

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Estela já não conseguia esconder mais sua agitação. Sua perna balançava incansavelmente, atraindo alguns olhares de reprovação de um ou outro sentinela. Até a segunda hora, Estela ficou relativamente tranquila. Tirando um ou outro Guardião, incluindo a própria Sofia, o teste nunca era concluído na primeira metade. Mas quando a terceira hora passou, ela começou a ficar realmente preocupada.

E se Luci falhasse? Seria uma grande dor de cabeça para Nicolas tentar resolver quem seria a próxima pessoa a tentar, ainda mais com Maurício em seu ouvido. Foi Estela quem tinha ido até a fronteira pedir para que Luci assumisse esse risco, não queria que o motivo da falha dela fosse algo ruim, não queria ter que voltar lá e dar uma segunda notícia ruim para o casal do teatro. Eram pessoas boas, sempre a respeitaram e agiam de forma honesta. Sem contar que casal nenhum merece sofrer com a perda das duas filhas em um espaço tão curto de tempo.

Mais de três horas e meia tinham se passado e a expressão de Nicolas estava tranquila. Estela o encarou por um tempo, até que o Senhor do Ninho percebeu. Seus olhos estavam completamente calmos. Muito discretamente, ele a encarou, como se dissesse “Fique tranquila” sem emitir som nenhum. Isso não ajudou Estela a relaxar completamente, mas talvez parte de seu cérebro ficasse feliz em saber que Nicolas tinha tudo sob controle, ou ao menos acreditava ter.

Havia histórias de Guardiões que conseguiam chegar no último minuto, assim como também de candidatos que atrasavam por pouco. Estela não via sentido em ser tão rígida com a questão do horário, mas por mais cabeça aberta que algumas pessoas do Ninho fossem, havia algumas tradições que pareciam impossíveis de se mudar, e tudo que se relacionava ao teste do Guardião estava nessa lista. Já era surpreendente que Nicolas tivesse convencido a maioria a aceitar aquele teste antes de declarar Sofia morta. Uma pessoa até podia largar o cargo, mas era raro e considerado desonroso. Um Guardião só podia assumir quando o antigo não estava mais lá, mas não havia histórico de desaparecimento. O máximo que existia era a lenda do Guardião do Pesadelo.

O tempo estava acabando. Estela sentiu que estava segurando a respiração nos últimos quinze minutos. Estava prestes a encarar Nicolas de novo…

Então, a porta se abriu.

Exatamente aquela pela qual Luci havia entrado.

A mulher saiu, cambaleando e caindo de joelhos no chão, ofegante.

O silêncio da sala foi quebrado. Alguns sentinelas bateram palmas, incluindo Nicolas e, eventualmente, Estela. Ela também soltou um suspiro de alívio, junto com outras pessoas da sala. Maurício demorou para bater palmas, e quando o fez foi bem discretamente. Ingrid, por outro lado, deu largos passos à frente e se ajoelhou diante de Luci.

Sem cerimônia, Luci sentiu seu queixo ser levantado pela sentinela. O movimento a pegou um pouco de surpresa. Ingrid procurava por indícios da doença do pesadelo, mas aparentemente não encontrou nada fisicamente.

Ela colocou suas mãos de ambos os lados da cabeça de Luci, procurando indícios internos de qualquer rastro de pesadelo que tivesse se prendido a ela. Luci sabia que ela não encontraria nada, mas prendeu a respiração mesmo assim até que Ingrid voltou o rosto para o lado e anunciou que ela estava bem.

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Tão rápido quanto se ajoelhou, a sentinela se ergueu e em seguida ajudou Luci, que mal sabia como as próprias pernas a sustentavam, mas de alguma forma deu certo. Ela tinha voltado, tinha conseguido e seu corpo estava aliviado, relaxado. Aquele final tinha sido muito difícil, qualquer pensamento fora do foco poderia tê-la levado por outro caminho do Sonhar, mas Luci tinha voltado. Ainda sentia sua mente fraca e abalada por tudo que havia acontecido. Perguntou-se onde Camaleão estaria, mas ele não teria problemas para sair de onde quer que estivesse.

— Sete minutos — ela ouviu alguém dizer. — Por sete minutos.

Não era a marca impressionante que Sofia tinha feito, mas o suficiente para fazer de Luci a nova Guardiã. O pensamento quase fez suas pernas fraquejarem de novo. Ter saído do Sonhar não era apenas ter sobrevivido ao que poderia acontecer, mas significava que, agora, todos aqueles sentinelas diante dela a obedeceriam. Significava que ela tinha virado uma das pessoas mais importantes do Ninho.

Ela percebeu um homem se aproximando dela. Não era tão alto quanto Maurício, mas maior do que ela. Quando direcionou seus olhos para ele, o reconheceu. Fazia anos que não via Nicolas.

Sentia-se tão sensível naquele momento que quase quis abraçá-lo, mas segurou a vontade. Não seria certo ser tão informal com o Senhor do Ninho na frente de tantas pessoas.

— Parabéns Luci, excelente trabalho — falou Nicolas.

— Você usou todo seu tempo — completou Maurício. — Que bom que está bem.

Pelo canto do olho, Luci reparou em Ingrid se aproximando, carregando uma espécie de bandeja com dois braceletes. Luci reconheceu os braceletes de sua irmã, brancos com os detalhes em roxo, mais claro que o que estava no bracelete de Maurício. Ficou paralisada com a visão, sentindo um frio na barriga.

Nicolas pegou um dos braceletes e Luci estendeu o braço, repetindo o processo com a outra mão. Eles não eram pesados, mas havia algo de diferente ali. Por mais que fossem meramente simbólicos, Luci quase sentia a magia agora que os usava. Nicolas se colocou ao lado dela.

— Essa é a nova Guardiã do Sonhar, Luci —disse ele para todos no observatório. — Que sua magia seja usada de maneira justa e possa proteger todos os cientes.

Todos abaixaram a cabeça e Luci perdeu o fôlego. Nem conseguia acreditar que aquilo era para ela. Por um lado, sentia-se uma impostora. Não fizera aquilo sozinha: se não fosse por Camaleão, ainda estaria lá dentro. Afastou o pensamento, era apenas temporário e fazia aquilo por Sofia. Agora ela tinha acesso a tudo o que podia ajudá-la a encontrar a irmã. Tinha sido por uma causa maior, e repetiria aquilo em sua mente quantas vezes fossem necessárias até que ela mesma acreditasse.

Luci tocou em um dos braceletes. O metal era frio, mas se acostumaria com a sensação, muito antes de se acostumar a ser a Guardiã do Sonhar.