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         Luci tinha algumas memórias da época em que brincava com os gêmeos Alba. Ela era criança, eles e sua irmã eram adolescentes. Mesmo assim, ela tinha alguns momentos que guardava com carinho na memória. Conseguia se lembrar do quanto sua avó gostava quando os gêmeos a visitavam, como ficavam brincando em algumas salas da Torre do Sonhar enquanto os adultos trabalhavam.

        Assim como Sofia, Nicolas era o filho modelo. Sempre tinha sido o mais simpático, carismático, aquele que as pessoas acreditavam que poderia ser a melhor opção para o cargo de Senhor do Ninho quando o momento chegasse. Luci se lembrava como, às vezes, ele fingia perder as partidas de jogos entre os dois para que ela ficasse feliz. Na época, Luci nem sabia que ele fingia perder. Lembrava-se de como ele passava horas conversando com qualquer ser humano que o ouvisse. Nicolas sempre soube falar e se expressar bem.

        Tomas, seu irmão, era o mais quieto, e não se preocupava tanto em como suas palavras podiam soar. Menos sociável que o irmão, Tomas era muito inteligente. Estudava tudo que colocassem a seu alcance que chamasse sua atenção, sempre foi curioso. Por ser mais tímido, acabava tendo menos amigos que o irmão, mas Sofia sempre conseguira se dar bem com ele. Os dois tinham interesses parecidos, gostavam dos mesmos assuntos e compartilhavam suas curiosidades.

        Por mais que fossem gêmeos, pela postura e atitude era fácil notar quem era quem. Eles sempre andavam juntos, e entre si se davam muito bem, brigavam menos que Sofia e Luci. Algumas pessoas acabavam dizendo coisas que poderiam criar uma disputa entre os dois, mas ninguém mexia com um sem arrumar problema com o outro. Agora, quando Luci via Nicolas como o Senhor do Ninho, se perguntava o que Tomas faria se ainda estivesse ali. Ele tinha ido embora do Ninho há cerca de dez anos e ninguém tinha conseguido manter qualquer contato.

        A família Alba era bem unida, mas teve sua época de azar. O pai dos gêmeos tinha sido um sentinela, que morrera em uma missão quando os filhos eram bem jovens. A Senhora do Ninho seguira fazendo seu papel, mas, três anos antes de Luci se tornar guardiã, sua saúde tinha ficado cada vez mais frágil, o que fez que Nicolas assumisse sua posição, buscando realizar sua função da melhor maneira possível. Estela buscava ajudá-lo nas questões em que podia. Por mais que as pessoas não a levassem a sério, eles eram amigos e se apoiavam.

        No observatório da Torre do Sonhar, depois que Luci saiu de seu teste e recebeu os braceletes, todos os sentinelas vieram cumprimentá-la um a um, parabenizando-a pela conquista. Mestre Maurício também tirou um momento para cumprimentá-la. Era perceptível como o olhar deles tinha mudado apenas com o resultado do teste. Parecia que agora ela era alguém de verdade. Por mais que Luci sentisse o metal gelado ao redor de seus pulsos, ela sabia que ainda demoraria um bom tempo para se acostumar com o posto de guardiã. Com alguma sorte, não teria nem tempo de se acostumar, porque Sofia voltaria em breve.

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         Depois que todos tinham parabenizado Luci, os sentinelas se retiraram do observatório, junto com Maurício. A sala parecia muito vazia e quieta agora, apenas com as portas para o Sonhar ao redor deles. Luci aproveitou o momento para finalmente sentir o corpo relaxar e abraçar Nicolas, como queria fazer desde que o vira ali. Seu corpo doía de tão tensa que tinha ficado nas últimas horas. Todos eram estranhos para ela naquele lugar, causando uma sensação de não pertencimento. Mas pelo menos, com um rosto conhecido ali, Luci conseguia assimilar a situação um pouco melhor. Sem contar que ser amiga do Senhor do Ninho podia trazer algumas vantagens.

        — Faz tanto tempo… — murmurou ela, ouvindo a própria voz emocionada.

        — Bons tempos em que nossa maior preocupação era apenas não irritar nossos pais —sorriu ele. — Como você está, Luci?

        Ela não tinha a menor ideia de como responder aquela pergunta, mal sabia como estava se sentindo. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo… Tinha acabado de sair do Sonhar e ainda sentia como se as coisas em seu redor fossem maleáveis e incertas. Como se Camaleão fosse aparecer novamente a qualquer momento, tirá-la daquela outra armadilha do Sonhar.

        — Sofia desapareceu — começou ela. — Eu virei a guardiã e eu nem… — ela calou a boca. Ia falar que não sabia nem o que fazer mais no Sonhar desde o acidente. Eles ainda conviviam mais na época em que aconteceu. Mas seus olhos foram para Estela e ela voltou a ficar quieta.

        Não é como se ela se sentisse mal ou intimidada perto de Estela, mas não a conhecia tão bem ainda. Mesmo que as pessoas das fronteiras, inclusive seus pais, gostassem da Senhora da Superfície, Luci não sabia o quanto podia confiar nela, ou em qualquer pessoa ali que não fosse o próprio Nicolas. E se ela falasse sobre o trauma e Estela saísse por aí espalhando que ela era uma farsa?

        Estela percebeu a hesitação e se virou para Nicolas.

        — Eu posso deixá-los sozinhos, se preferir.

        — Não é necessário, pelo menos não agora. Precisamos explicar para Luci tudo o que está acontecendo.

        — Como assim? — Luci se ouviu perguntando antes ao menos de pensar. — O que mais está acontecendo?

        Todos os piores cenários passaram pela mente de Luci. Sofia, na verdade, estava morta, mas por qualquer motivo eles não podiam dizer aquilo publicamente ainda. Ou talvez Sofia tivesse feito algo terrível e sido exilada, o que talvez, para a irmã, fosse pior do que morrer. O exílio de um ciente era muito ruim. Dependendo do crime, se que ameaçasse a existência ou a proteção do Ninho, o ciente era mandado para a superfície, sem poder voltar e sem ser bem-vindo nas fronteiras. O problema é que a falta de contato com magia fazia que, pouco a pouco, o ciente fosse perdendo a conexão com seus próprios poderes, e em certos casos até esquecia a própria existência do Ninho, que era baseada em magia. Por causa disso, era compreensível que alguns cientes não suportassem a ideia de viver na superfície. Perder o contato com os poderes acabaria com Sofia.

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        Por isso as fronteiras eram importantes para aqueles que moravam na superfície. Era a forma que eles tinham de manter contato com o que eram, mesmo longe do Ninho. No caso de Luci, isso nunca fora um problema. Ela mantinha um contato regular com os pais e o teatro, o que não permitia a ela chegar no estágio grave de esquecer, por mais que a falta de prática tivesse afetado seu controle da própria magia.

        Se o exílio era o caso de Sofia, ela devia ter feito algo muito irresponsável, o que não tinha nada que ver com seu comportamento. Mas, se era isso mesmo, ela não teria tentado ao menos entrar em contato com a família?

        — Vamos para o escritório da Torre — falou Nicolas, interrompendo os pensamentos conturbados de Luci.

        O escritório da guardiã ficava no andar abaixo do observatório, e era onde ela recebia pessoas para assuntos oficiais. Mesmo com a diferença de apenas um andar, o caminho até lá foi o suficiente para Luci imaginar todos os cenários terríveis sobre os quais Nicolas poderia falar, sentindo a barriga doer de antecipação. Por que ele não podia simplesmente contar de uma vez?

        Luci sentiu uma sensação esquisita ao abrir a porta do escritório da guardiã. Seu escritório agora. Tinha entrado lá na infância, uma vez ou outra, para ver sua avó. Anos atrás, era uma sala que ela via como “para adultos”. O lugar estava diferente, mas é como se a atmosfera toda não tivesse mudado ao longo dos anos. Havia uma escrivaninha no centro, com várias gavetas e estantes com documentos. Os móveis eram de madeira escura, fazendo as estantes, cadeiras e escrivaninha combinarem, contrastando com as paredes claras. A janela estava fechada, com uma cortina branca na frente. Estava arrumado daquele jeito porque Sofia gostava de deixar suas coisas organizadas. Os três se sentaram e Luci estava pronta para ouvir a pior notícia possível.

        — Nicolas, por favor, me conte — pediu ela, ficando cada vez mais nervosa.

        Ele respirou fundo e se curvou um pouco.

        — Há muita coisa acontecendo por aqui, Luci, imagino que você já tenha calculado isso. O desastre da Alvorada, seguido do sumiço da sua irmã, desestabilizou muito todos nós e criou atritos políticos. Estela e eu estamos tomando cuidado com as informações que passamos. Não é nada contra você, mas precisávamos que o teste acontecesse antes de tratarmos dessa próxima parte. Como você passou e está em uma posição em que pode nos ajudar, podemos conversar de forma mais aberta.

        — Vocês descobriram alguma coisa, não é?

        — Não exatamente — respondeu Estela — Nós não sabemos o que aconteceu, mas temos algumas suspeitas sobre o que pode ter acontecido.

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         — Eu imagino que você entenda hoje que sua avó não era exatamente amada por todos quando era guardiã — continuou Nicolas. — Ela foi a primeira guardiã que veio de uma fronteira, de uma família que incluía muitos leigos. Todos que trabalharam com ela, que dependeram dela, todos nós… — ele falava aquilo com pesar. Nicolas sentia falta dela, mesmo depois de todos aqueles anos. — Nós sabíamos que ela era uma boa pessoa, poderosa, e que não faltou com seu dever.

        — Mas a origem dela sempre fez que ela fosse um alvo — completou Estela.

        Hoje Luci entendia aquilo. Antigamente, ela não entendia bem o preconceito que Carmela tinha que enfrentar por parte dos cientes mais conservadores. Ser a primeira guardiã que vinha da superfície e não do Ninho não tinha sido fácil. Ainda mais porque Carmela não seguia as regras à risca, não era a figura séria e inabalável da guardiã. Ela expressava o que pensava quando queria, seus sentimentos e suas impressões. Tinha noção de quando podia ou não fazer certas coisas, mas costumava ser mais honesta. Ela dava mais liberdade para os sentinelas e também nas vistorias das fronteiras. Antes dela, o Ninho tinha visto uma sequência de guardiões bem conservadores, que achavam que, quanto menos liberdade as fronteiras tivessem, melhor seria para os cientes.

        Amada por uns e odiada por outros, Carmela tinha deixado sua marca como uma guardiã poderosa, reputação que Sofia tinha buscado seguir. Não era surpresa que Estela se identificasse com aquilo. De todos ali, ela era a que mais entendia o que era se esforçar tanto e não ter o mesmo reconhecimento, só porque tinha vindo de um lugar diferente.

        — Eu sei de tudo isso — disse Luci — Mas o que essas coisas têm que ver com o sumiço de Sofia?

        — Carmela passou seu tempo todo como guardiã lutando contra pessoas que queriam tirá-la do cargo. Sempre houve tensão política sobre isso. Quando ela morreu, os magos mais conservadores imaginaram que sua linhagem no cargo tinha acabado, que não precisariam mais aguentar uma família da superfície em um dos cargos mais altos do Ninho — Nicolas continuou explicando — Giovani é um bom mago elemental, mas nunca mostrou nenhum interesse em aprender habilidades de sonhadores. As pessoas imaginavam que ele não passaria e, sem irmãos, a disputa pelo cargo cairia para a Escola dos Magos.

        Aquilo não era incomum. Não seria a primeira vez que o cargo de guardião sairia de uma família e iria para os mestres sonhadores tentarem ocupar. Aliás, era apenas por causa dessa regra que Carmela conseguira a chance de passar pelo teste. Ela era uma das formadas com maior renome na época.

        Luci se lembrava de quando seu pai fora chamado para fazer o teste. O acidente que ela teve no Sonhar ainda estava recente e ficou imaginando várias possibilidades horríveis que poderiam acontecer com seu pai.

        — O próprio Maurício estava pronto para concorrer na época — completou Estela. — Ele ainda não comandava a linha dos sonhadores na escola dos magos, mas já era bem conhecido.

        — Mas eles nunca fizeram o teste. Sofia passou — falou Luci.

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        — Sim, uma adolescente de 16 anos tirando o cargo mais poderoso das mãos de uma elite conservadora que já estava querendo aquilo há algum tempo… Entende? — Nicolas foi construindo o raciocínio. — Dessa vez foi até pior que Carmela, porque Sofia nem era uma sonhadora formada.

        A verdade era que Luci nunca havia parado para pensar que, politicamente falando, Sofia ser a guardiã só aumentava uma tensão que já existia. Luci tentava não pensar muito nessas coisas. Assim como Carmela, ela era uma moça que vinha de uma fronteira. Além de tudo, era uma adolescente que, apesar de ter aprendido magia com a própria guardiã, nunca se formou como sonhadora. Ao menos isso Carmela tinha feito. Quando Sofia pediu permissão para fazer o ritual, ninguém imaginava que ela ia passar, nem seus próprios pais acharam que ela passar. Como ela era da família, era um direito seu e deixaram que ela realizasse o teste.

        Muitos magos devem ter se sentido até ofendidos pela forma como as coisas aconteceram. Por mais inteligente que fosse, Sofia nem devia saber em que situação estava se metendo quando passou no teste e aceitou tudo aquilo. Quando Luci pensava agora sobre isso, se dava conta de que provavelmente tinha sido uma decisão prematura da parte de Sofia. Ela se achava madura o suficiente e ainda não estava sabendo lidar com a perda da avó. Talvez aquela fosse a forma que ela entendia de honrar a memória de Carmela e, de certa forma, ficar mais próxima de alguém que já tinha partido.

        Um novo cenário surgiu na mente de Luci e ele não era nada bom.

        — Vocês acham que fizeram algo com Sofia por causa disso?

        A forma que Estela e Nicolas se entreolharam era a resposta de que ela precisava. Os olhos de Luci se arregalaram.

        — Não temos como afirmar com certeza — respondeu Nicolas rapidamente, quando percebeu a reação de Luci, tentando acalmá-la. — Sofia era uma guardiã muito mais rígida do que Carmela, mantinha uma aparência que ninguém esperava. Mas ela ainda era uma jovem que vinha da fronteira, não formada e que não seguia a agenda conservadora. Minha mãe a ajudou até deixar de ser a Senhora do Ninho, eu continuei fazendo isso depois dela, mas não era fácil. Ao contrário de Carmela, Sofia buscava muito mais mostrar serviço e provar que merecia ser a guardiã, tudo isso mantendo os ânimos sob controle.

        — Mas nunca era o suficiente, porque Sofia era quem era — Estela buscava com todas as forças manter seu rosto sério, sem deixar óbvia a irritação que aquele assunto causava — Eles nunca deixaram Sofia em paz. Eu admiro muito sua irmã por tudo isso. Tudo parecia estar sob controle… Até o desastre da Alvorada.

        Um silêncio incômodo caiu sobre eles, o que deixou Luci muito desconfortável e com medo da continuação de toda aquela história.

        — Eles usaram isso para afetar a reputação dela?

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        — Infelizmente — assentiu Nicolas, medindo as palavras. — O estrago na pousada foi muito grande; teoricamente, a guardiã deveria ter visto a movimentação no Sonhar e entendido o tamanho da ameaça. Ela mandou apenas uma sentinela checar uma situação que precisaria de mais pessoas, mas quando ela percebeu isso… Tudo desandou rápido — suspirou ele. — E também foi muito… esquisito. É como se os pesadelos naquela região tivessem agido de maneira muito mais rápida que o normal. Acredito que sua irmã tomou as decisões do protocolo para uma situação que, infelizmente, era anormal. Talvez, se outro guardião tivesse feito o mesmo, as pessoas tivessem buscado entender se foi irresponsabilidade mesmo ou um caso fora do controle. Mas foi muito fácil para quem já não gostava dela apontar o dedo para uma suposta incompetência de Sofia. Isso a foi afetando, não só pelo problema todo, mas pelas vidas que foram perdidas. Sofia nunca me disse isso com todas as palavras, mas eu a conhecia.

        Luci se lembrou da última vez em que se viram, depois do desastre. Ela tinha reparado que sua irmã estava diferente, com menos paciência do que ela teria. Na época, Luci só estava brava e não se deu ao trabalho de pensar que isso era sintoma de uma questão muito maior.

        A culpa pesou em seus ombros de novo. Elas tinham brigado exatamente na época em que tudo de que Sofia precisava era apoio. Se ao menos Luci soubesse, se tivesse se informado um pouco mais, se tivesse apenas perguntado… Poderia ter conversado com Sofia, tentado ajudar, talvez até evitado o que quer que tenha causado seu desaparecimento

        Agora eles não tinham como saber.

        — Foi complicado. Faz muito tempo que não vemos uma fronteira ser tomada por pesadelos —  comentou Estela. — Isso colocou todos em risco, não só os que estavam lá no momento em que aconteceu. Os mentais se esforçaram para tirar o fator mágico da memória dos leigos envolvidos.

        — Vocês acham que essa foi a gota d’água para ela desaparecer?

        — É possível — disse Nicolas. — Como eu falei, algo mudou. Não acredito que ela tenha desistido e ido embora, mas acho que seria o cenário menos pior. — Ele passou a mão nos cabelos e olhou para o fundo da sala, quase como se falasse sozinho. — Fico arrependido de não ter interferido mais, mas não queria passar por cima das decisões dela. Você conhece sua irmã, Sofia acredita que pode fazer tudo sozinha — ele voltou a encarar Luci. — Agora ela está desaparecida.

        — Não sabemos se foi o desastre, se alguém tentou desaparecer com ela ou… — Estela suspira, preferia não falar, mas Luci precisava saber. — Se atacaram Sofia, a deixaram presa no Sonhar… Pensamos em várias alternativas. Quando Nicolas decidiu que alguém deveria ocupar o cargo, mesmo que provisoriamente, eu fui buscar você.

        — Para os sonhadores que queriam um guardião mais conservador, era muito conveniente que sua irmã tivesse sumido dessa forma. Isso me fez considerar que algum deles poderia estar envolvido de alguma forma. A movimentação entre os sonhadores para a possível substituição foi mais frenética do que o normal.

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        — Quem seria o primeiro candidato a fazer o teste? — perguntou Luci, já imaginando a resposta antes de ouvi-la.

        — Mestre Maurício — respondeu Nicolas.

        Luci sabia que, independente de serem leigas ou cientes, as pessoas eram capazes de fazer coisas horríveis por poder. Tinha visto isso acontecer na política da superfície e já ouvira histórias de alguns casos no Ninho. Mas quando era algo tão próximo dela, era menos palpável, mais difícil de acreditar. Parte dela nem queria acreditar. Luci mal conseguia conceber alguém ferindo sua irmã por causa de seu cargo.

        Mas fazia sentido e aquilo era assustador. Ela sentiu uma raiva súbita tomando conta de seu corpo.

        — Então a culpa é dele?! — Luci não controlou sua própria indignação.

        — Não sabemos — Estela tentou acalmá-la.

        — Maurício é o mago que comanda os sonhadores na Escola, ele também é o representante da Escola dos Magos no Congresso. Ele tem muito poder e influência, talvez não colocasse tudo isso a perder. Maurício é um homem complicado. Eu não quero acreditar nisso, mas não é impossível, e se for verdade ele precisa ser detido e ficar longe do cargo de guardião.

        Luci colocou as mãos nos bolsos, tentando se controlar. A vontade era de gritar, até bater em Maurício. Quando fechou as mãos no bolso, tocou no anel que o Camaleão tinha dado para ela. Então Luci se lembrou. De acordo com o Camaleão, Maurício a tinha colocado em uma região complicada do Sonhar. Será que aquilo era só parte do teste ou era intencional? Porque se ele queria tomar o cargo para ele, faria muito sentido ela ter cruzado com um pesadelo no meio do caminho.

        — Não dá para interrogá-lo? Vasculhar as coisas dele?

        — Sem provas? Nunca seria permitido — falou Nicolas. — Estamos tentando descobrir o que podemos sem alertá-lo e sem fazer uma acusação falsa. Procuramos por qualquer pista no quarto de sua irmã, mas não encontramos nada e não sabemos como acessar o computador dela. Deve ter alguma magia específica que ela colocou que não sei decifrar. Mas com você tendo acesso ao Sonhar e aos privilégios de guardiã, é possível que encontre alguma coisa que nós não conseguimos.

        — E também ganhamos tempo — completou Estela.

        — Sem pressão, né? — Luci tentou brincar, mas falhou. Estava óbvio em seu rosto que a situação pesava cada vez mais para ela. Ao contrário de sua irmã, Luci não era tão boa em fingir que estava tudo bem.

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        Ela curvou o corpo, apoiando os braços nas coxas. Nicolas olhou para Estela. Agora sim ele queria um tempo sozinho com Luci. Antes de sair, a Senhora da Superfície se aproximou.

        — Estou ao seu dispor, guardiã. Pode contar comigo.

        Estela disse aquilo tocando o ombro de Luci suavemente, tentando passar algum conforto. Depois disso, ela se retirou do escritório, deixando Luci e Nicolas sozinhos.

        — Perdoe-me por tudo isso — disse ele.

        — Não é culpa sua.

        — Não, mas eu podia ter tomado decisões diferentes. Devia ter ido pessoalmente até a fronteira, era o mínimo que eu devia a vocês. As coisas não têm sido fáceis… — ele balançou a cabeça. — Não vou dar desculpas para mim mesmo. Eu também devia ter tido uma conversa de amigo com sua irmã antes. Assumi que estava tudo sob controle, que era questão de tempo… Assumi errado.

        — Ela finge que consegue aguentar tudo e sempre fez isso bem, por isso nós acreditamos — suspirou Luci.

        — Eu me sinto péssimo por colocar você no meio dessa situação, mas acredito que nós vamos conseguir — ele sorriu e Luci quase conseguia acreditar que tudo se resolveria da melhor forma possível. — Vai dar certo. Vamos achá-la e eu estou com você.

        — Não sei como você espera que eu ajude… — confessou Luci. — Não tenho treinamento, não sei fazer nenhuma dessas coisas que vocês esperam que eu faça. Se tentarem me derrubar como fizeram com Sofia, eu não vou aguentar.

        — Você é mais forte do que eles. Você é resistente a pesadelos, você vem de uma família de guardiãs, não importa o que eles achem.

        Luci respirou fundo, tentando se acalmar. Não tinha nenhuma daquela fé que Nicolas tinha nela, mas tinha muita vontade de não deixar as coisas ficarem mais desastrosas do que já estava. Acima de tudo, tinha muita vontade de encontrar Sofia.

        — O que eu faço agora?

        — Ingrid está avisada de que deve lhe ajudar com sua magia. Ela era uma das sentinelas em quem sua irmã mais confiava, fez buscas no Sonhar depois que ela sumiu. Ela também vai ajudar você quanto a seus deveres como guardiã. Nós vamos conseguir, só precisamos dar um passo de cada vez — ele se endireitou na cadeira. — Amanhã o Congresso fará uma reunião para discutir fronteiras e vai querer uma apresentação formal sua. Estela e eu estaremos lá com você. E, por favor, não fale a ninguém sobre essa nossa conversa.

        Não seriam dias fáceis. Luci segurou o anel do Camaleão de novo. Será que devia falar para Nicolas? Pior, será que Camaleão saberia de alguma coisa? Ela podia perguntar se ele aparecesse em sua mente de novo, porque não tinha ideia de como encontrá-lo. Por enquanto, achou melhor não falar nada. Os cientes do Ninho sempre se dividiam em acreditar na existência do Camaleão e achá-lo uma ameaça em potencial. Ela sabia que Nicolas estava em algum lugar no meio daquilo.

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        Não falaria do Camaleão, pelo menos não por enquanto. Mas tinha uma coisa que poderia falar.

        — Acho que… Maurício me colocou em uma área ruim do Sonhar de propósito.

        Nicolas ficou bastante sério com o que ela disse. Aquela era uma acusação grave. Afetar o teste de um candidato a guardião não era aceitável.

        — Conte-me.

        Luci se encolheu um pouco. Talvez tivesse exagerado, mas o próprio Camaleão tinha afirmado que a região não era boa mesmo. Se Maurício era o culpado, aquilo podia ser uma informação valiosa.

        — Passei por uma espécie de pesadelo — Luci tinha que tomar cuidado para não falar demais. Nicolas sabia que ela não estava em sua melhor performance de magia, e dependendo do que ela dissesse ele poderia achar a história esquisita. — Não aconteceu nada demais, mas talvez com outra pessoa, sem minha resistência, as coisas poderiam ter dado errado. Ele sabe de minha resistência a pesadelos?

        — Não que eu saiba — Nicolas cruzou os braços. — Pesadelos já apareceram durante o teste, mas… — ele parou e pensou por um momento. Luci estava agitada e passando por muitos problemas, aquilo poderia ter atraído um pesadelo para perto dela. Mas era conveniente que justo Maurício tivesse sido o responsável por abrir a porta e colocado Luci no Sonhar — Mais alguma coisa?

        Luci balançou a cabeça negativamente. Um mental com os poderes de Nicolas, sem qualquer ética, poderia invadir sua mente e descobrir a verdade. Mas ele não faria aquilo, para a sorte dela.

        — Vá descansar, você merece — falou ele, por fim — Amanhã temos muito o que fazer.

        Ela o abraçou antes de sair. O pouco que tinha de familiar naquele lugar, parte vinha de Nicolas. Não era mais apenas seu amigo de infância, mas continuava a seu lado. Queria poder falar do Camaleão, mas isso seria admitir que tinha roubado no teste, e sabe-se lá o que Nicolas faria com aquela informação. Poderia anular o teste todo. Não, depois de tudo que Luci havia descoberto, só podia sair dali quando descobrisse o que tinha acontecido de verdade com Sofia.

        Naquela noite, Luci mandou uma mensagem para sua mãe dizendo que estava tudo bem, que tinha passado no teste e que começaria seus deveres no dia seguinte. Quis ligar e chorar no ouvido de Helena, mas, se começasse, provavelmente contaria tudo o que Nicolas tinha dito. Por mais que confiasse na mãe, tinha medo de a informação vazar de alguma forma. Sem contar que Helena não precisava de mais preocupações. Saber que a filha mais velha estava desaparecida já era difícil o suficiente, e seria apenas pior se ficasse sabendo que tudo podia ser parte de um complô por poder.

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        Sem conseguir relaxar, ela foi até o aposento da guardiã. Aquele quarto deveria ser seu, mas não se sentia confortável em ficar lá, trazer suas coisas e agir como se sua irmã não estivesse desaparecida. Aquele era o quarto de Sofia, ainda era, e logo ela estaria ali de novo.

        A suíte da guardiã era maior que os outros quartos, no mesmo andar do escritório. A cama grande estava arrumada, com um mural de fotos em cima. O armário grande estava fechado, a escrivaninha tinha alguns livros sobre o Sonhar em cima e outros de ficção que Sofia gostava de ler. Não tinha televisão no quarto, a irmã mais velha nunca tinha gostado muito de assistir a televisão, mas o computador dela estava ali, desligado. Luci se aproximou do mural de fotos. Tinha uma foto da família toda, de quando Luci ainda era criança e Sofia não era guardiã. Também tinha uma foto só de Carmela, outra com a avó e as duas netas. Em um dos cantos, uma foto das duas meninas com os gêmeos Alba, todos mais novos. Em algumas fotos Sofia estava com pessoas que Luci não conhecia. Uma foto específica chamou sua atenção.

        Luci se ajoelhou na cama para alcançar aquela, que estava mais em cima. Era uma foto das duas irmãs, cerca de dez anos atrás, pouco tempo antes de Sofia se tornar Guardiã. Naquela época, o trauma de Luci era recente e elas ainda não brigavam com frequência. Era aniversário de Helena e elas passaram praticamente o dia inteiro sem discutir.

        Apenas quando sentiu a atmosfera do quarto mudando foi que percebeu que aquelas fotos eram encantadas. Luci não tinha mais nenhuma assim em sua casa, por isso nem esperou que fosse uma daquelas. De repente, como se o quarto tivesse entrado em uma névoa, Luci viu a situação em que a foto foi tirada acontecendo diante de seus olhos. Helena pedia para as duas irmãs se juntarem para bater a foto. Luci viu que sua versão mais nova estava tão de bom humor que não hesitou em sorrir do lado de Sofia. A irmã mais velha estava tão perto… Quase parecia real. Quando terminaram, as duas pediram para ver a foto. Agora Giovani entrava na sala, com o bolo que tinha feito para o aniversário de Helena. As fotos encantadas não mostravam muito além do momento em que elas eram tiradas, elas serviam mais para que as pessoas pudessem reviver a sensação do momento.

        Nada estava errado, a família estava junta, calma e feliz.

        Tinha sido um dia bom.

        Luci colocou a foto no lugar de novo e desceu da cama, sentindo vontade de chorar. Será que tinham arrumado o quarto? Nicolas tinha falado que olharam a suíte toda, mas não conseguiram achar nada nem mexer no computador. Luci saiu de perto da cama e sentou na cadeira próxima da escrivaninha, ligando o computador. Mirou a tela inicial. Não havia nenhuma barra para senha, apenas uma foto do teatro como plano de fundo.

        Luci franziu o cenho, estranhando a falta de opções. Quando inclinou as mãos para tentar clicar em alguma coisa, sentiu os braceletes da guardiã brilhando. Um brilho roxo tomou conta daquele espaço e, diante dela, o computador mudou de página para a tela inicial normal. Por isso não tinha senha… Sofia devia ter pedido a algum encantador que tornasse seu computador algo que ninguém poderia acessar, a menos que estivesse usando os braceletes.

        O coração de Luci acelerou. Poderia encontrar alguma coisa realmente importante ali. Ela mexeu no histórico do computador, procurando os últimos arquivos que Sofia havia acessado. Eram sobre a doença do pesadelo e possíveis efeitos do Sonhar na consciência dos magos. Luci franziu o cenho mais uma vez. Por que Sofia estava pesquisando sobre aquela doença específica?

        Luci abriu um dos arquivos com várias anotações que Sofia tinha feito. Nada era comprovado, apenas suspeitas e palpites sobre como funcionava a doença do pesadelo e possíveis formas de curá-la. Sofia devia saber, melhor do que ninguém, que a doença do pesadelo não tinha cura, havia apenas formas de retardar seu efeito, como o próprio Noite Calma. Ela foi passando pelas páginas até encontrar um nome que se repetia. Em algumas partes do documento estava escrito “consultar Juliano”, especialmente em momentos em que ela escrevia sobre possibilidades de cura.

        Mas quem era Juliano?

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        No dia seguinte do teste, era Helena que estava cuidando do ensaio da próxima peça. Giovani tinha mentido que estava com dor de cabeça, e Helena fingira acreditar. Ela costumava saber quando ele mentia, resultado de tantos anos de convivência. Quando receberam a notícia de que tudo tinha dado certo com Luci, Helena tinha se permitido chorar de alívio. Não queria pensar em alguma coisa acontecendo com ela. Já era tão difícil, tão dolorido…

        Na hora, Giovani pareceu animado, feliz com a notícia e esperançoso. Helena percebia que parte de sua animação era forçada, mas era melhor tentar forçar um otimismo do que ser sugado pela espiral de tristeza. Não que qualquer um deles tivesse controle das emoções quando o assunto era o desaparecimento de Sofia, e agora, com Luci como guardiã, era impossível ficar calmo ou agir como se nada estivesse acontecendo. Mas otimismo não machucava ninguém.

        Naquela manhã, porém, Giovani quis ficar sozinho e Helena ficou preocupada. Escolheu dar espaço, o marido não era um homem de se abrir muito. Em público, gostava de ser o dono animado do teatro o tempo todo. Helena sabia que ficar segurando aquelas emoções ruins não era nada bom; então, se só quando ele estava sozinho se sentia livre para chorar, que botasse para fora. Giovani tinha melhorado ao longo dos anos, mas ainda tinha vergonha de mostrar suas fragilidades, até para ela.

        O ensaio estava acontecendo como esperado. As fofocas já estavam acontecendo, mas Helena ainda não tivera a chance de explicar para todos a situação. Fazia alguns dias que Estela viera conversar sobre Sofia, e a visita da Senhora da Superfície não tinha passado despercebida. Por mais que não convivessem tanto atualmente com as filhas dos donos, todos sabiam quem Sofia e Luci eram, e era apenas justo que eles soubessem que aquilo estava acontecendo. Sem contar que acabariam descobrindo de qualquer forma. A notícia de que Luci havia assumido o cargo de guardiã se espalharia, o que traria perguntas sobre o que tinha acontecido com Sofia.

        Antes do almoço, Helena pediu para que todos esperassem um momento. Os atores se sentaram nas poltronas, no chão e no palco, observando a dona. Helena manteve o rosto o mais calmo possível.

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        — Alguns de vocês já sabem que a Senhora da Superfície veio buscar Luci e levá-la para o Ninho. Talvez alguns de vocês já saibam até o porquê, mas gostaria que soubessem por mim — ela fez uma pausa, encontrando as palavras. — Luci é a nova Guardiã do Sonhar. Sofia está desaparecida, por isso Luci foi chamada.

        As reações foram mistas, mas nenhum deles estava preparado para aquilo. Um ou outro parecia já ter ouvido algo sobre o assunto, mas a maioria foi pega de surpresa. Alguns ficaram mudos, com o queixo caído. Outros se agitaram em seus lugares, fazendo perguntas. Alguns até olhavam ao redor, procurando a reação dos outros, perdidos e sem saber o que fazer. Não era só a guardiã desaparecida, o que era algo que nunca tinha acontecido, mas era alguém que tinha frequentado aquele mesmo lugar.

        — O que aconteceu? — perguntou uma das atrizes.

        — Não sabemos ainda ao certo, infelizmente — respondeu Helena.

        Apesar de algum burburinho, ela percebeu que todos eles estavam se controlando para não serem inconvenientes e fazerem perguntas demais. A curiosidade estava a mil, mas a própria Helena não tinha como responder muito mais do que o que eles provavelmente queriam saber. Ela deixou as reações ficarem menos intensas antes de voltar a falar.

        — Continuaremos os ensaios como sempre. Caso algo mude, vocês serão avisados o mais rápido possível. Podem ir almoçar agora, nos vemos de novo para o ensaio da tarde.

        Alguns atores a abraçaram e desejaram boa sorte, outros se ofereceram para ajudar caso ela e Giovani precisassem, enquanto outros apenas se permitiam um olhar solidário enquanto saíam do local. Helena esperou que todos tivessem se retirado antes de ir ela mesma até a cozinha. Não estava com fome, não tinha conseguido comer direito desde que a Senhora da Superfície fora até o teatro. Fez uma xícara de chá para si. Terminou de beber e em seguida fez mais uma para Giovani. Queria checar e ver como ele estava.

        Helena não esperava que o marido estivesse bem, mas se surpreendeu ao encontrá-lo no quarto. Giovani estava muito melhor do que esperava. Seus cabelos estavam úmidos e o vapor da água quente ainda estava saindo do banheiro. Ele estava arrumando a barba, já vestindo a calça, mas ainda não tinha colocado a blusa.

        Giovani assobiava uma música qualquer, feliz e animado, nem parecia o homem que havia acordado com a energia baixa naquela mesma manhã. Helena colocou o chá cuidadosamente em cima da mesa que eles tinham no quarto e só aí Giovani pareceu perceber que ela tinha entrado. Ele foi até ela, abraçou-a e beijou como se não se vissem há algum tempo.

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        — Você está se sentindo melhor? — perguntou ela.

        — Estou ótimo, eu só precisava dormir mais e a dor de cabeça passou — ele dizia isso enquanto procurava uma camisa para vestir. Helena estranhou aquilo.

        — Meu bem, você tem certeza de que está tudo bem?

        Ela sabia que não estava, mas também conhecia o marido bem o suficiente para saber que lidar com tristeza não era o forte dele. Levou meses para falar sobre o assunto da morte da mãe depois que Carmela morreu. Mesmo com aquelas dores que ninguém estranharia, que eram praticamente universais, como a morte da mãe e o desaparecimento da filha, Giovani fingia já ter trabalhado tudo dentro de sua cabeça.

        Depois de abotoar os botões da camisa branca, contrastando com o tom de sua pele, ele se virou para ela, um pouco mais sério do que antes, mas ainda mantendo aquela aura de que estava tudo bem e tranquilo. Helena quase conseguia acreditar que ele de fato estava com dor de cabeça de manhã e que tudo se resolvera.

        — Acho que “ótimo” foi uma palavra forte — sorriu ele. — Mas estou bem, na medida em que dá para ficar. Luci está bem, conseguiu passar no teste de guardiã, isso é uma notícia boa — ele se aproximou dela. — Não quero me deixar abater pela tristeza, quero manter o pensamento positivo e continuar mantendo as coisas no lugar. Quando Sofia voltar, ela vai ter uma nova peça linda para ver — ele pegou a xícara que Helena tinha trazido para ele e cheirou. — Camomila? Obrigado!

        Aquilo não era de todo uma mentira. Esse era o modo de agir de Giovani, tentar manter pensamento positivo, ver o lado bom e enfrentar a tristeza dessa forma, e em muitos momentos isso até ajudava de verdade, ainda mais quando estava tentando consolar outra pessoa. Mas Helena também sabia que aquilo podia funcionar como um tipo de máscara, uma forma de evitar o que não podia ser evitado.

        — Tudo bem, eu entendo — disse Helena enquanto ele tomava o chá — Só não quero que você finja algo que não está sentindo. Não precisa se abrir com todo mundo, mas aqui entre nós não tem por que fingir. E não me diga que você não faz isso, porque você sabe que faz.

        — Eu sei, eu sei — ele levantou os braços, como em um gesto de rendição, mas ainda sorrindo. — Vou te procurar se precisar, prometo. E como você está?

        — Preocupada — ela tensionou os ombros. — Só quero que Luci mande uma mensagem dizendo que Sofia apareceu, que está tudo bem. Quase queria que ela tivesse tido um momento rebelde e saído por aí sem avisar ninguém.

        — Você ficaria brava se fosse isso.

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        — Ficaria, mas é a melhor opção — o silêncio ficou entre eles, Helena não queria pensar nos outros cenários, mas já tinha considerado todos. — Desculpe, não quero deixar você com um humor ruim.

        — Meu bem, não precisa pedir desculpas. Você disse que não tem por que fingir entre nós. Eu também estou aqui para você — ele a abraçou e beijou sua testa. — Isso vai acabar em breve, tudo será resolvido. Você verá.

        Que ele estivesse certo, que aquele otimismo quase inacreditável fosse a verdade. Helena só queria Sofia sã e salva, e que nada mais acontecesse com Luci também. Porque se algo mais grave tivesse acontecido com Sofia, Luci poderia ser atingida também. Helena afastou aquele pensamento de sua mente. Já tinha pensado nisso demais durante as noites mal dormidas.

        — Posso continuar o ensaio se você estiver se sentindo mal — falou Helena.

        — Podemos fazer juntos, o que acha? Quero ocupar minha cabeça, mas acho que nós dois precisamos. Como estão as cenas?

        Eles saíram conversando sobre o último ensaio, Helena dizendo onde os atores podiam melhorar e até adicionar mais truques mágicos. Era perigoso mexer com magia do Sonhar na superfície, mas havia formas controladas de fazer efeitos mágicos visualmente convincentes para leigos e que não afetassem a segurança do teatro.

        Podia ser uma forma de ignorar o problema, mas a energia positiva de Giovani, mesmo que às vezes forçada, ajudava Helena a manter o foco fora de sua tristeza. Não era para menos que tinha escolhido ficar ao lado dele… Giovani sempre fazia que ela se sentisse bem. Eram tempos difíceis, alguns cientes acreditavam que épocas mais conturbadas eram provações do destino, mas Helena só queria que tudo fosse resolvido o mais rápido possível.

        Helena buscava encarar um dia após o outro. Por enquanto, Luci estava bem, eles tinham tido a chance de ter um pequeno alívio.

        Mas não sabiam por quanto tempo aquela breve sensação de esperança ia durar.