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A existência do Congresso era uma das tradições mais antigas do Ninho. A cidade subterrânea gostava de manter certos costumes intactos, e esse era um deles. O Congresso era o encontro daqueles que decidiam o futuro do Ninho, por mais que se deixasse nas mãos de poucas pessoas essa responsabilidade. Agora Luci fazia parte delas. Todos estavam reunidos na Mansão dos Alba, que também era a casa de Nicolas.

Algumas pequenas mudanças tinham acontecido ao longo dos anos. A cadeira do representante dos encantadores não havia existido sempre. Um dos motivos da linha mágica de encantadores ter se afastado da Escola dos Magos é que dificilmente tinham suas vozes ouvidas, mesmo que fossem responsáveis pelo fato de a economia do Ninho conseguir se manter de pé com o isolamento da superfície. Hoje, a representante política dos encantadores, Isabel, fazia parte do Congresso. Era uma mulher alta, de cabelos curtos, pele escura, e que não se sentia intimidada para falar em nome dos encantadores, mesmo que fossem vistos como magos com “menos poder”.

O representante da Corte também tinha um espaço no Congresso: Fernando era a imagem típica padrão do que alguém esperaria de um juiz tradicionalista. Ele era um homem por volta dos seus sessenta anos, de pele pálida, cabelos grisalhos, que gostava de menos drama e mais resoluções, mesmo que a resposta fosse jogar um problema para debaixo do tapete. As pessoas que participavam do sistema de justiça do Ninho andavam divergindo muito sobre fazer mudanças ou não. De tempos em tempos, eles trocavam o representante no Congresso, mas nos últimos tempos Fernando vinha mantendo seu lugar.

A cadeira da Escola dos Magos, que era uma das mais antigas, hoje era ocupada por Mestre Maurício. Geralmente era um sonhador ou um mental que ocupava esse posto, outro motivo para os encantadores terem se separado. Todos sabiam que qualquer proposta feita teria um comentário de Maurício, fosse para o bem ou para o mal, e assim como Fernando ele também tvnha mantendo sua posição já havia algum tempo.

Nicolas também tinha seu espaço, reservado para a família Alba, que há anos ocupava o maior cargo representativo do Ninho. A magia corria forte no sangue da família, o que chamava muita atenção entre cientes, além do que, entre os que se importavam mais com a tradição, era algo muito valorizado em uma descendência. Por causa disso, esse cargo era herdado na família, como o da guardiã.

Junto a esses quatro polos, a figura da guardiã costumava ser o voto de desempate. A posição de Guardião do Sonhar não nasceu com a ideia de ser um cargo político, mas, no jogo político, qualquer cargo poderoso acabava tendo força de decisão. Sem contar que, quando o Congresso não conseguia se decidir, a única pessoa que todos ouviriam, da qual respeitavam a autoridade, era o guardião atual.

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Fazia apenas um ano que a Senhora da Superfície ganhara permissão para ser um dos polos de decisão do Congresso. Estela apresentou a questão de que não havia ninguém lá para representar a vontade dos que viviam na superfície, para falar de assuntos que pudessem envolver leigos também. A Senhora da Superfície, por mais que não fosse reconhecida por alguns, buscava fazer plebiscitos para ouvir o que os da superfície tinham a dizer. Em tese, o guardião e talvez o representante dos encantadores falavam por aqueles que viviam na superfície, mas o primeiro geralmente estava muito ocupado com o Sonhar e o segundo, mais interessado na economia do Ninho para que os da superfície fossem de fato representados. Foi uma discussão que empatou. Nicolas queria trazê-la e Isabel tinha concordado. Mas Maurício e Fernando tinham sido contrários à ideia, acreditando que isso apenas dividiria a atenção das questões que consideravam mais importantes. A decisão restou para Sofia, que aprovou o pedido. A partir de então, agora que havia uma cadeira a mais, em caso de empate o voto do guardião passava a valer mais.

Luci se sentia minúscula perto de todas aquelas pessoas. Os seis estavam dispostos em volta de uma mesa redonda, feita de madeira escura, com cadeiras pretas ao redor. A sala em que eles estavam tinha paredes brancas, sem janelas, com apenas uma porta como saída. A luz clara dava a impressão de que a sala era maior do que realmente era. Havia um monitor em uma das paredes, além de quadros dos lugares marcantes do Ninho, como a Escola dos Magos e a Torre do Sonhar. Luci estava entre Nicolas e Estela, para sua felicidade, mas Maurício estava bem a sua frente, o que deixava a tarefa de manter o olhar alto muito difícil. Toda vez que o olhava, ela pensava apenas na suspeita de ele ser o responsável pelo sumiço de Sofia.

Ela já se sentia jovem perto de Estela e Nicolas, mas próxima dos outros três Luci se perguntava a cada minuto o que estava fazendo ali. Tinha medo de falar alguma bobagem e ser corrigida, parecendo que era uma completa idiota. Mal conseguia imaginar Sofia naquela posição, ainda adolescente. Quem tinha achado que colocar uma adolescente naquele lugar era uma boa ideia? Se os cientes pensassem menos em tradição e magia, e mais em lógica, talvez as coisas fizessem mais sentido.

A reunião tinha começado com Luci se apresentando como nova guardiã. Por mais que todos já soubessem, fazia parte da burocracia do encontro. Fernando e Isabel a cumprimentaram com respeito e fizeram algumas perguntas sobre o paradeiro de Sofia. Estela tinha avisado que eles não sabiam das suspeitas que ela e Nicolas tinham em relação ao Maurício.

O Senhor do Ninho respondeu o de sempre, que não era mentira: Eles não sabiam, não tinham descoberto nada de novo ainda, mas continuariam a procurar. Como todos ali concordavam, porém, eles não podiam ficar sem um guardião na função, ainda mais depois do que acontecera na pousada da Alvorada. Luci ficou feliz quando o centro das atenções deixou de ser ela e passou a ser as questões econômicas que Isabel tinha trazido.

Era muito surreal acompanhar aquele tipo de discussão tão de perto. Luci nunca tinha ido a um dos plebiscitos na superfície, mas não era difícil de deduzir que tinham uma dinâmica diferente da que via agora. Nicolas anunciava o assunto, um deles apresentava a questão e várias discussões começavam. Luci tentou prestar atenção, preferia ficar quieta a dizer algo que fosse considerado idiota.

— Para finalizar… — falou Nicolas — Maurício, você tinha uma proposta nova para apresentar ao Congresso sobre as fronteiras. Por favor, a palavra é sua.

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Limpando a garganta, Maurício se levantou de sua cadeira. Ele tirou um objeto muito pequeno de seu bolso, em formato de uma pequena esfera, e colocou a sua frente, na mesa. Ele tocou duas vezes no objeto, que brilhou. Todos sentiram o arrepio característico da magia e a tela da sala se ligou sozinha. Maurício guiava o que aparecia na tela com os movimentos da mão e o que ele ia falando. Era uma apresentação que podia ser ligada a qualquer tela — um objeto encantado caro. Os membros do Congresso se ajeitaram, virando em suas cadeiras, para observar.

Maurício tocou duas vezes a ponta do dedo na esfera, fazendo o mapa de São Paulo se formar. Com um movimento do dedo, vários pontos vermelhos apareceram no mapa. Luci estava familiarizada com aquele padrão.

— Já apresentei essa proposta antes, mas em razão dos acontecimentos recentes, acho que vale apresentar novamente, com mudanças, lógico — explicou ele. — Essas, como vocês sabem, são as fronteiras na superfície. Como podem ver, são várias. Peço para que voltemos a considerar a possibilidade de colocarmos sonhadores nas fronteiras para fiscalizações.

Nicolas segurou o suspiro que cresceu em seu peito. Maurício já havia apresentado aquela questão antes, quando o desastre acontecera. Ele bem sabia que era uma forma de as fronteiras serem controladas, possivelmente até “fechadas” por algo que os sonhadores considerassem uma irregularidade que colocaria o Ninho em risco. Não que não houvesse cientes irresponsáveis nas fronteiras, mas controlar e diminuir liberdade, que era o que poderia acontecer, dificilmente era a solução. Quantas dessas irregularidades encontradas seriam reais e quantas seriam armações? Luci se lembrava de que isso já havia sido considerado, e que seus pais se opuseram àquilo durante o plebiscito que Estela organizara. Os pais de Luci viam aquela como uma forma de ir provando, aos poucos e a partir de manipulação, que fronteiras eram ruins e cerceavam a vida dos cientes da superfície.

— Não temos sentinelas o suficiente para atender essa demanda — falou Estela.

— Eu disse sonhadores, não sentinelas — corrigiu Maurício. — Depois do que aconteceu na Alvorada, eu concordo que minha primeira proposta era equivocada. Não temos mesmo essa quantidade de sentinelas. Mas com a situação do sumiço da guardiã, acredito que possa juntar um número de sonhadores bons o suficiente para auxiliar os sentinelas. Inclusive me ofereço para mediar a situação, assim não sobrecarregamos a atual guardiã, que precisa focar nas questões do Sonhar.

Luci viu Fernando assentindo com a cabeça, Isabel também parecia estar considerando a possibilidade, enquanto se inclinava na mesa para enxergar melhor. Aquilo não era bom, ainda mais se Maurício de fato fosse culpado pelo que tinha acontecido com Sofia.

— Entendo que já apresentei uma proposta em que faltavam pessoas, mas considerei as críticas para fazer mudanças adequadas. — Ele tirou de uma mala ao lado de sua cadeira cinco pastas, com cópias do documento. — Esse foi o planejamento que fiz. Gostaria que todos lessem com atenção para podermos votar na próxima reunião. Eu ficaria responsável por coordenar esse grupo de sonhadores nas áreas de fronteiras, checando e pedindo relatórios dos responsáveis. Caso alguma irregularidade seja identificada, seria avaliada a melhor medida para lidar com a situação.

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— De fato, agora parece algo que pode ser pensado — comentou Isabel, abrindo a pasta e folheando o documento. — Isso valeria para o comércio na superfície, imagino?

— Sim, todas as fronteiras, mas o relatório seria apenas por questão de segurança, não para limitar o trabalho dos encantadores.

Luci abriu a pasta que tinha sido entregue a ela. Havia muita coisa escrita, e ela sabia que ali, em algum lugar, tinha algo escondido que podia afetar as fronteiras de forma bem preocupante.

— A proposta será reavaliada. Obrigado, Maurício — disse Nicolas, e o mestre sonhador se sentou. — Na próxima reunião votaremos essa proposta e faremos as emendas necessárias. Caso queiram tratar outro assunto na reunião, por favor me avisem para que eu o inclua na pauta. Se todos estiverem de acordo, terminamos aqui por hoje. Obrigado pela presença de todos.

Quando Luci saiu da sala, sentiu que havia se passado um dia inteiro. Sentia alívio por aquilo ter acabado sem maiores problemas. Isabel veio cumprimentá-la pessoalmente, enquanto Maurício e Fernando saíam conversando pelos corredores da mansão. Luci esperou Estela e Nicolas saírem da sala, mas, depois de alguns instantes, eles ainda não tinham aparecido. A curiosidade falou mais alto e Luci se aproximou da sala de reunião, de forma discreta. A porta estava levemente aberta.

— Não podemos aceitar isso — Estela tentava controlar a expressão insatisfeita em seu rosto. — É a mesma proposta, só que maquiada…

— Nosso maior argumento da última vez foi falta de pessoal, e o medo de Isabel de ter seus negócios limitados. Pode ser que encontremos uma falha nisso, mas… — Nicolas folheou o documento. Precisava ler aquilo com atenção. — Talvez possamos aprovar uma versão mais leve.

Luci não viu, mas Estela tensionou o corpo inteiro. Queria bater na mesa e dizer que ceder àquele homem não era a solução, mas não queria ser a mulher da superfície histérica que não entendia a lógica do Ninho. Não que Nicolas a visse dessa forma, mas ela já tinha aprendido que tinha que se conter para ao menos manter o que já havia conseguido.

— Abrir concessões. Negociar. Eu sei… — falou aquilo baixinho e com um tom de frustração.

Nicolas se aproximou de Estela, colocando a mão em seu braço de forma carinhosa. Ele sabia que ela não gostava, e ela tinha razão, Nicolas também não achava que aquela era a solução, mas apenas tomar atitudes que contrariassem Maurício não ajudava. Perder o apoio da Escola dos Magos, ainda mais se ele tivesse algo a ver com o acontecido com Sofia, não ajudaria ninguém.

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Luci percebeu que poderia estar invadindo a privacidade dos dois, então deu dois passos para trás e fez algum barulho enquanto abria a porta, para mostrar que estava ali. Nicolas se afastou de Estela no mesmo momento, tomando a pose de antes.

— Desculpem, achei que vocês iam sair agora — disse Luci, se sentindo sem graça.

— Estávamos falando sobre a proposta de Maurício. Inclusive, gostaria que você a lesse o mais rápido possível. Seria interessante discutirmos a situação e ficarmos alinhados — pediu Nicolas.

— Claro… Mas queria falar sobre outra coisa. — Ela se aproximou da mesa, baixando o tom da voz. — Ontem consegui mexer no computador de minha irmã. Ele destravou quando cheguei perto com os braceletes de guardiã.

Os dois se entreolharam, com um misto de felicidade e uma sensação de que poderiam ter pensado nisso antes.

— Encontrou alguma coisa? — perguntou Estela, se inclinando na cadeira.

— Não vi tudo, pretendo continuar hoje, mas encontrei vários arquivos sobre a doença do pesadelo.

Estela e Nicolas pareciam confusos com aquela informação.

— Doença do pesadelo? —murmurou Estela — Que esquisito…

— Mais alguma coisa? — perguntou Nicolas, girando o anel em seu dedo.

— Havia também alguns trechos marcados no texto que ela estava escrevendo, sobre consultar um tal de Juliano. Não conheço ninguém com esse nome.

Nicolas franziu o cenho, tão confuso quando Luci, mas o rosto de Estela se iluminou como se algo tivesse feito muito sentido. Ela sabia quem era Juliano, e finalmente ter algo novo para analisar a deixava com esperança.

— Juliano, o curandeiro? — perguntou Estela — Pode ser… Faria sentido, se sua irmã estava interessada, Juliano é um curandeiro da superfície que estuda o Sonhar e como os pesadelos afetam as pessoas.

— Quero falar com ele — pediu Luci.

— É uma boa ideia — disse Nicolas, e se virou para Estela. — Você tem o endereço dele? — Quando Estela assentiu, ele olhou para Luci. — Vá com Ingrid, é melhor você andar acompanhada de um sentinela enquanto tentamos entender o que aconteceu.

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Luci tentou puxar alguma conversa com Ingrid enquanto o metrô fazia seu caminho do Ninho até a superfície. A sentinela era bem formal com a guardiã, só falando quando precisava dar alguma sugestão ou quando era questionada sobre algo, mas Luci percebeu que Ingrid gostava quando elas não ficavam em silêncio.

A guardiã mal precisou explicar o endereço para Ingrid, ela parecia já saber por onde ir. Talvez até conhecesse Juliano.

— Não pessoalmente. — Elas andavam pelas ruas do centro, perto do metrô São Bento, enquanto Ingrid falava. — Cresci na superfície, já ouvi falar o nome dele entre cientes que preferem um de nós do que se tratar com leigos.

Ingrid falou um pouco de sua infância, que cresceu na superfície e foi tendo contato com a magia aos poucos, mas boa parte da sua família era leiga. Também contou como foi se interessando pelo Sonhar e como decidira entrar na Escola dos Magos assim que fosse possível.

Depois de passar dias seguidos no Ninho, voltar para a estética assimétrica do centro de São Paulo causava um pouco de estranheza para Luci. Ela também sentia falta do formigamento da magia constante. Não reparava nele enquanto estava no Ninho, mas na superfície sentia falta da sensação. O céu estava nublado, muito diferente daquela impressão falsa de céu que o Ninho tinha.

— É aqui. — Ingrid apontou para uma casa em uma rua sem saída, depois que elas já haviam andado alguns minutos.

A sentinela se aproximou para tocar a campainha. Era uma casa grande, com dois andares, paredes marrom e janelas brancas. Havia um quintal na parte da frente da casa, com algumas plantas e um portão cinza impedindo a passagem de estranhos. Era um lugar agradável no meio da confusão do centro de São Paulo. Ingrid tocou a campainha. Luci sentia as mãos suarem de nervoso. Podia estar prestes a descobrir algo completamente novo e relevante sobre o desaparecimento de Sofia.

Em pouco tempo, a porta branca da casa se abriu. Um jovem de óculos e cabelos encaracolados apareceu, olhando as duas como se buscasse reconhecê-las. Ele ajeitou seus óculos antes de falar.

— Pois não? Tem hora marcada com o curandeiro?

— Não — falou Ingrid, e fez um gesto com um braço para mostrar Luci. — Esta é a Guardiã do Sonhar. Ela quer ter uma conversa com o curandeiro. Assuntos sigilosos.

O garoto não disfarçou a surpresa e voltou para dentro da casa. Elas esperaram mais um pouco até que outra pessoa apareceu pela porta. Era um homem alto, com cabelos claros e uma franja um pouco bagunçada. Luci reconheceu aquele homem, ele estava em uma das fotos no quarto de Sofia. Deu para notar a mudança de expressão quando ele viu Luci e Ingrid. Quase dava para dizer que ele estava esperando outra pessoa.

O homem rapidamente se recompôs e deu alguns passos na direção delas, ainda sem abrir o portão. A expressão dele era séria e desconfiada.

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— Você não é a guardiã Sofia — disse ele, enquanto olhava os pulsos de Luci.

Ela demorou alguns momentos para entender que ele queria checar se ela era mesmo a guardiã, procurando pelos braceletes em seus braços. Apressada, Luci puxou as mangas do casaco para mostrá-los. Não era muito aconselhável usar os braceletes, principalmente aqueles, na superfície, mas Ingrid aconselhou que os usasse caso precisasse se identificar.

Só agora as pessoas estavam falando sobre a nova guardiã no Ninho, além de começarem os boatos sobre o motivo do sumiço de Sofia. Os meios de comunicação do Ninho já começavam a criar suas teorias da conspiração. Então provavelmente ainda demoraria algum tempo para que os cientes da superfície soubessem. Juliano ajeitou os óculos, parecendo convencido o suficiente.

— Bem-vindas. — Sua expressão tinha ficado mais calma, enquanto ele abria o portão da casa. — Vamos entrar. Vocês tomam café?

Elas entraram na casa, que era muito acolhedora e ajeitada. Havia uma sala de espera bem na entrada, com um sofá preto e uma televisão na parede, além de mais plantas como as do quintal. A mesa de centro na frente do sofá era escura, com algumas revistas expostas e uma garrafa térmica. O garoto tinha um computador próprio em uma mesa na sala de espera, em um canto atrás do sofá, onde ajudava o curandeiro a receber as pessoas. No térreo também havia uma porta levando para a cozinha e outra para o banheiro, além de uma escada que conduzia ao andar de cima. As paredes eram brancas e limpas, com alguns quadros na parede. A maioria deles parecia obras abstratas para leigos, mas eles sabiam que eram representações do Sonhar, de pontos de vista diferentes. Um que se destacava entre os outros, por ser mais diferente, era um pequeno pintado àa mão, mostrando uma coruja. Não havia nada mágico aparente, o lugar não devia ser proibido para leigos.

O curandeiro pegou duas xícaras da cozinha e as encheu com o café da garrafa em cima da mesa, servindo as duas mulheres antes.

— Meu nome é Juliano, muito prazer. — Era possível perceber seu desconforto. — Desculpe a desconfiança, mas onde está Sofia?

Luci se deu conta de que ele ainda não sabia o que havia acontecido. Fazia sentido. A informação demoraria para chegar à superfície e o sumiço de Sofia era recente.

— Bem… — Luci não sabia bem como fazer aquilo — Meu nome é Luci, sou a irmã de Sofia. Ela está… desaparecida. Estou ocupando o cargo agora.

Juliano arregalou os olhos. Ele se sentou em uma das poltronas da sala enquanto o garoto atrás, ao ouvir aquilo, se levantou rapidamente da cadeira em que estava, chocado com o que tinha ouvido. Seja lá qual fosse a importância de Juliano para Sofia nos últimos tempos, ele não parecia estar preparado para receber aquela notícia.

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Ele passou as mãos pelos cabelos, suspirando. Estava abalado. Não era apenas como se ele ouvisse que a guardiã sumira, era uma reação que se podia esperar de alguém que convivia com ela. Luci tentou buscar na memória se já tinha ouvido o nome de Juliano antes, porque a foto no quarto da irmã indicava que eles tinham alguma proximidade. Mas Sofia era muito discreta com sua vida pessoal, então Luci não conseguiu se lembrar daquele nome. Ingrid se sentou no sofá e Luci fez o mesmo, esperando que Juliano levantasse a cabeça de novo.

— Se você fez o teste… Eu imagino que eles suspeitem…

— Não temos certeza — interrompeu Ingrid, como se Juliano estivesse falando um absurdo. — Mas precisávamos de alguém que cuidasse do Sonhar até descobrirmos a verdade.

Juliano assentiu, dando um suspiro longo.

— Eu queria falar com você sobre o que ela andava fazendo — disse Luci. — Procurei nas coisas de minha irmã por pistas do que aconteceu e encontrei seu nome.

— Mas é claro. — Ele virou a cabeça. — Otávio, pode nos dar licença?

O jovem ainda parecia chocado com a notícia, mas assentiu, largando o computador e indo para o segundo andar. Luci ouviu quando ele abriu e fechou a porta de algum dos cômodos acima deles.

— O que gostariam de saber?

— O computador de minha irmã tinha vários documentos sobre a doença do pesadelo, algumas anotações diziam que ela deveria consultar alguém chamado Juliano…

Juliano assentiu mais uma vez. Ele sabia do que Luci estava falando, e ela agradeceu por não ter que ficar forçando alguém a dar informações. Juliano parecia preocupado de verdade com toda a situação, talvez fosse alguém importante para ajudar a descobrir o que estava acontecendo.

— Sofia me procurou há mais de um ano. Ela tinha começado a estudar sobre pesadelos em geral e chegou na questão da doença do pesadelo. Todos sabemos que é uma doença sem cura, mas eu particularmente tenho interesse em entender o que acontece e buscar como melhorar a qualidade de vida das pessoas que sofrem com isso. Ela me conheceu por causa desse trabalho e começamos a estudar o problema juntos.

Luci e Ingrid se entreolharam. Aquilo não ajudava tanto quanto elas gostariam. Não havia nenhum conflito de interesse ou político nessa questão específica. Ao menos, não que elas soubessem.

— Quando foi a última vez que você a viu? — perguntou Ingrid.

— Há um pouco mais de duas semanas — ele balançou a cabeça. — Ela estava cansada, abatida desde o desastre.

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— Era só a pressão política ou havia algo a mais? — perguntou Luci. Se Juliano tinha percebido que ela estava cansada, ou ela estava muito abalada ou se sentia confortável o suficiente perto dele para demonstrar aquilo.

— Não sei dizer, mas a culpa internalizada causou um impacto nela. Sofia começou a pensar que estar mexendo tanto com pesadelos poderia ter causado o desastre de alguma forma, atraindo pesadelos.

Ingrid se mexeu ao lado de Luci, incomodada e sem fazer questão de disfarçar.

— Isso não faz sentido, estudar a doença não causa esse tipo de movimentação no Sonhar. Se não, nenhum mago curandeiro poderia estudá-la.

— Foi o que eu disse para ela. É óbvio que isso envolveu que ela estudasse assuntos específicos do Sonhar, mexesse em pesadelos, procurasse a história do guardião, mas…

— Que guardião? — perguntou Luci.

— O guardião do pesadelo.

— Por que Sofia estudaria o guardião do pesadelo? — questionou Ingrid — É só uma história, não é relevante para o estudo de uma doença.

Do jeito que Juliano suspirou, parecia que ele já tinha ouvido aquilo algumas vezes e estava cansado de sempre responder a mesma coisa.

— Nós, que somos cientes, sabemos que algumas lendas podem ser mais que “só lendas” — disse ele. — Leigos acreditam que são só histórias, mas sabemos que é possível ter um fundo mágico real por trás. Por que com o guardião seria diferente?

— Mas ainda não explica porque ele é relevante para isso tudo — falou Luci.

— Se ele de fato existiu, ou ainda existe, é um dos primeiros relatos, e mais completos, do que um pesadelo pode fazer com a mente de alguém. Por muito tempo ninguém se deu ao trabalho de olhar para isso, assim como não se deu ao trabalho de pesquisar a doença mais a fundo. Poderia não levar a nada, é óbvio, mas ninguém sabe como curar a doença, então atrapalhar não vai.

Aquilo não era exatamente o que Luci queria saber, mas talvez seguir a pista dos estudos de Sofia ajudasse em algo. Talvez ela tenha esbarrado em alguém que se sentiu incomodado, talvez ela tivesse feito uma magia muito perigosa, ou até cruzado com alguém que guardasse um conhecimento e não acreditasse ser vantajoso dividi-lo… Juliano, até o momento, era o que tinha informações mais recentes de Sofia, além dos sentinelas que a viram pela torre nos dias antes do desaparecimento.

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Mas havia outra coisa que também havia cruzado a mente de Luci enquanto falava com Juliano. Ele era um curandeiro que entendia de Sonhar, amigo de sua irmã. Ela ainda precisava lidar com o uso excessivo de Noite Calma. Em breve, o treinamento com Ingrid começaria e a sentinela provavelmente perceberia algo. Luci já tinha pensado em se abrir sobre o trauma de anos atrás, o que seria uma boa desculpa para ela não saber exatamente o que fazer com sua magia, mas falar sobre o remédio não traria nada de bom. Pelo menos não enquanto aquela questão não fosse superada.

— Ingrid — Luci olhou para ela — Nós já vamos, mas eu… queria falar algo a sós com Juliano. Pode nos dar licença?

A sentinela não estava esperando aquilo, dava para ver em sua expressão, mas apenas assentiu e se retirou respeitosamente. Ela não queria deixar Luci sozinha fora da torre, ainda havia uma possibilidade de Sofia ter sumido por causa de um ataque, mas não contrariaria um pedido da guardiã. Sem contar que ela estaria logo ali no quintal.

Quando ela fechou a porta, Luci voltou a olhar para Juliano. Ele estava curioso e disposto a ser o mais solícito possível.

— Gostaria de falar sobre outra coisa, não é sobre Sofia — suspirou ela. —Tenho uma dúvida sobre magia dos sonhadores.

— Não é minha especialização, mas espero saber o suficiente para ajudá-la.

— É possível tirar os efeitos de excesso de Noite Calma da mente de um sonhador, a ponto de a magia voltar a funcionar como o esperado?

Luci esperou que ele não ligasse os pontos. Talvez até entendesse, mas ainda assim não podia dizer para todos que esse era o caso dela. Luci podia negar. O máximo que aconteceria era gerar uma fofoca de alguém da superfície, e esse tipo de boato não era, levado tão a sério quanto os provenientes do Ninho.

Juliano pareceu ponderar aquilo por um momento.

— É possível — disse ele. — Não sei do quanto de “excesso” você está falando, mas dá sim. Se a pessoa parar de tomar de forma gradual e treinar seus poderes com cuidado, dependendo da situação, é possível. A menos que a pessoa esteja com a doença do pesadelo, porque aí é outra história.

Luci assentiu. Havia esperança e ela poderia tentar começar a fazer aquilo. Caso a situação ficasse pior, ela poderia voltar, mas por enquanto era bom saber que tinha algo possível de se fazer. Não gostava da ideia de ficar sem Noite Calma, mas o Camaleão não estaria lá toda a vez que ela precisasse fazer algo importante no Sonhar.

— Obrigada, Juliano. Gostaria de manter o contato, se possível. Pretendo continuar seguindo os passos de Sofia e talvez precise de sua ajuda.

— Com todo prazer, guardiã. — Ele se levantou junto com ela, educadamente. — Caso descubra algo sobre o paradeiro de Sofia, por favor, me avise.

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Na volta, Ingrid parecia estar mais pensativa até mesmo do que Luci. A guardiã pensava em várias questões ao mesmo tempo: O que sabia do desaparecimento de Sofia, seu uso de Noite Calma, a questão com sua magia… Ela saiu da linha de pensamento e encarou Ingrid, que também estava em sua própria mente.

— O que achou? — questionou Luci, preocupada.

— Não sei… — Elas estavam sentadas no metrô, Ingrid parecia quase falar consigo mesma. — Nós procuramos pelo Sonhar, sei que é impossível procurar tudo, que buscas são complicadas e podem depender muito do quão consciente Sofia está, mas se ela tivesse usado uma das portas e falhado para voltar, por causa de qualquer estudo que eles estivessem fazendo, nós conseguiríamos achar ou ao menos ter uma ideia da direção que ela seguiu…

— Você acha que o curandeiro está escondendo algo?

— Não, ele parecia estar sendo sincero, só acho que pode não ser tão útil quanto a gente esperava. — Ela encarou Luci. — Não sei o que você falou com ele depois, mas quero que saiba que pode confiar em mim. Estou do seu lado.

Luci foi pega um pouco de surpresa, se sentindo até um pouco sem graça.

— Desculpe, não era desconfiança…

— Tudo bem, só quero que você saiba disso. Nós nos conhecemos há pouco tempo, mas estou do seu lado antes de qualquer coisa.

Aquilo deu uma sensação de alívio em Luci maior do que ela imaginava que poderia.

*

— O que foi, Luci?

— Errei com você.

Ela estava no quarto da guardiã. Luci observava a parede de fotos de Sofia, focando seu olhar na foto com um homem que antes não conhecia, mas agora sabia que era Juliano. Não conseguia prestar atenção em todas, mas algumas estavam bem nítidas em seu campo de visão. Sofia estava a sua frente, de pé, com uma expressão de preocupação no rosto.

— Errou em quê? — perguntou Sofia.

— Você não estava bem e eu briguei com você mesmo assim… — Luci não conseguia encará-la, olhava para as próprias mãos, envergonhada de si mesma. — Se eu soubesse da Alvorada, se soubesse de todas as questões do Ninho…

— Não é como se você tivesse me perguntado.

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Luci sentiu quase como se tivesse levado um soco. Ela olhou para a frente, encarando os olhos escuros de Sofia, aquele olhar que parecia julgar e queimar quando ela estava séria. Sofia buscava ser compreensiva e calma, então era muito estranho quando ela agia diferente. Sem se preocupar se iria afetar Luci ou não, apenas deixando a verdade sair. Ela estava certa, mas Luci não esperava aquilo.

— Eu sei, eu sei… Não queria ter piorado nada… — Luci sentia aquele nó na garganta incômodo, abaixando a cabeça de novo, envergonhada.

Mas agora não adiantava, porque o que tinha feito já estava no passado. Luci já tinha brigado com Sofia e deixado meses passarem sem nem ao menos ir atrás para ver como a irmã estava. Sim, Sofia sempre fazia parecer como se tudo estivesse sob controle, mas além da imagem da guardiã havia uma pessoa, uma mulher que tinha suportado uma pressão gigante desde a adolescência. Uma pressão que já teria feito muitos no lugar dela desistirem. E, talvez, essa pressão a tenha…

…feito desaparecer.

Quando o estalo se fez na mente de Luci, ela levantou a cabeça. A figura de Sofia a sua frente estava pouco nítida, como uma fumaça que se desfazia. Luci franziu o cenho, passando a mão pelo que supostamente era Sofia, mas vendo a fábrica do Sonhar se desfarelar em uma nuvem arroxeada diante dela. O mesmo ia acontecendo com o quarto em seu redor, que ia dando forma ao lugar em que ela realmente estava.

Luci sentiu o medo subir por seu corpo. Agora ela se lembrava, não só que tinha se tornado a Guardiã do Sonhar no lugar de sua irmã, mas que também resolvera dormir sem o Noite Calma. Sua mente ia traçando a memória de sua conversa com Juliano, em que o curandeiro havia falado sobre os poderes de sonhadores irem voltando à medida que o remédio fosse menos usado. Mas ela não achou que sua mente iria para o Sonhar no momento seguinte em que parasse com a medicação.

Na primeira vez que deixou de tomar o Noite Calma, anos atrás, tinha levado pelo menos umas três noites para voltar ao “normal”. Nunca mais tinha andado pelo Sonhar como costumava fazer, mas voltara a sonhar e a entender o que estava acontecendo. Mas isso tinha acontecido na superfície. No Ninho, as coisas eram diferentes, a atmosfera da cidade subterrânea era mais mágica. Luci ia percebendo enquanto o quarto em seu redor também ia se desfazendo, como acontecera com Sofia mais cedo.

De acordo com o que havia aprendido, agora ela poderia transformar aquela área do Sonhar em um lugar mais familiar, ou deixar sua mente mergulhar em outro sonho inconsciente, para descansar o resto da noite. Mas estava tão paralisada de medo que não sabia nem o que fazer. Quer dizer, em tese, ela sabia sim, mas não conseguia começar a chamar a magia para fazê-lo. Porque se desse errado… Um pesadelo na torre do Sonhar era a última coisa de que ela precisava. Ela também não queria trombar com nenhum outro sonhador por acidente, ninguém precisava ter a confirmação do quão ruim naquilo ela era. Também tinha a opção de tentar acordar, tomar o Noite Calma e voltar a dormir, mas aí do que aquele pequeno passo teria valido?

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Pouco a pouco, Luci foi percebendo que, independente do que ela pensasse, o Sonhar de fato estava mudando em seu redor. Era como se o quarto de Sofia estivesse voltando a tomar forma, como se Luci estivesse aproveitando o sonho para construir o lugar familiar e acalmar sua mente. Mas Luci não estava usando magia nenhuma. Quando percebeu o que acontecia, ficou ainda mais alarmada.

Luci girou o rosto até encontrar o Camaleão, sentado em uma das cadeiras do suposto quarto, usando a própria magia para fazer o que ela deveria ter feito.

— Você —falou ela.

— Olá, guardiã —cumprimentou ele. — Fiquei me perguntando quanto tempo você demoraria para tentar dormir sem o remédio depois do teste. Não muito, felizmente. Você verá que será melhor para sua magia.

— E você pretende ficar entrando em minha mente o tempo todo? Os sentinelas vão perceber.

—Seus sentinelas não sabem tanto do Sonhar quanto eu, não se preocupe, seu truque de passar pelo teste não será descoberto. Falando nisso — ele se levantou —, de nada.

— Obrigada por aquilo — ela encolheu os ombros. — Mas você não me disse que dívida é essa que você precisa pagar. Aquela que fez você me ajudar.

— Meus negócios são meus, guardiã, sinto muito.

— Seus “negócios” tinham alguma coisa a ver comigo, senão você não teria me ajudado… — e então um outro estalo na mente de Luci. — Ou tem que ver com Sofia?

Camaleão se apoiou na escrivaninha do quarto. Como a magia dele era sólida, era como se de fato houvesse um móvel ali. Ele não parecia nem um pouco disposto a responder, mas seu rosto era sereno, como se achasse divertidas as suposições dela. Sua expressão não alterou quando Luci mencionou a irmã e a falta de reações fez que a guardiã ficasse irritada.

— O que você sabe sobre o que aconteceu com Sofia?

— Que ela desapareceu —respondeu ele, falando o óbvio. — E que vários magos a queriam fora de cena. Sei tanto quanto você.

Luci precisava tomar muito cuidado com o que dizer. Não sabia o quanto podia confiar nele, nem que ele realmente manteria segredo sobre aquelas conversas. Apesar de que, se ele revelasse o que sabia sobre Luci para todos do Ninho, suas próximas palavras podiam ser os menores de seus problemas.

Ela se perguntou se ele sabia mais do que dizia, mas se soubesse mais, ou estivesse interessado em fazer uma barganha, provavelmente já teria dito isso de primeira. Ao menos, ela imaginava que sim — o que fazia Luci se perguntar por que ele realmente estava ali. Na primeira vez, ele tinha ido oferecer ajuda. Mas e agora?

— O que você quer comigo, Camaleão?

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— Essa pergunta é um pouco melhor. — Ele parecia mais satisfeito. — Bem, estar próximo da guardiã é útil, mas não gostaria de vê-la passar pelos mesmos problemas que Sofia passou antes de você. O Ninho não costuma ser hospitaleiro com os da superfície.

— Você está falando sobre os magos que queriam minha irmã fora? Eles fizeram algo, não foi?

— Sei que queriam, mas, como disse antes, não sei se essa foi a causa do sumiço dela. É uma possibilidade, porém. O que eu sei é que há pessoas ali que jogariam sujo se precisassem.

— Como Mestre Maurício?

— Para começar — respondeu Camaleão. — Eu, se fosse você, não confiaria nessas politicagens. Todos são sorrisos até o momento em que precisam puxar o tapete de alguém. Acredite ou não, preferia que essa parte do Ninho continuasse fora do cargo de guardião.

Será que Camaleão poderia ser considerado como um aliado? Luci tinha receio de descobrir. Ele não precisava estar ali, mas estava, e até agora tinha ajudado de verdade, por mais que ainda fizesse segredo de seu motivo. Talvez fosse bom mantê-lo por perto, ou ao menos agir como se confiasse nele. Luci já tinha que fingir que gostava de tantos ali, ao menos Camaleão tinha sido um dos que fizeram alguma coisa concreta, ao invés de cumprimentá-la com um sorriso amarelo por ser a nova guardiã.

— Há algo mais que queira perguntar, guardiã? —questionou ele quando percebeu a hesitação em Luci.

— Eu queria perguntar sobre o Guardião do Pesadelo. É real?

Talvez Camaleão também não soubesse sobre aquilo, ou soubesse tanto quanto qualquer outro ciente. Mas Juliano tinha falado com alguma propriedade, e aparentemente ele estudava a questão. Poderia ser só história, como Ingrid tinha apontado, mas e se não fosse? Ou mesmo que fosse, se Sofia se envolvera com aquela pesquisa de alguma forma, saber mais sobre o assunto podia ajudá-la a refazer os passos da irmã.

Camaleão tinha se gabado, havia pouco, que sabia mais do Sonhar do que os sentinelas da torre. Por mais que Luci não soubesse o quão verdade era aquilo, ele tinha demonstrado um bom conhecimento de magia do Sonhar, e de poderes em geral. A princípio, não custava perguntar.

Luci não esperava a resposta firme de Camaleão.

— Sim, na verdade —falou ele. — Há várias versões, mas procure pelos arquivos do guardião Elias na torre.

Luci não se lembrava de ter ouvido algum guardião com aquele nome, mas assentiu. Não era como se ela fosse grande entendedora da história dos guardiões. Procurar não faria mal, ainda mais que Camaleão não havia cobrado nada por aquela informação.

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— Se você não tiver mais nenhum assunto aqui… — Ele se levantou da cadeira em que estava e se aproximou. — Sugiro que não fique o resto da noite andando consciente no Sonhar.

— Não sei como fazer minha mente adormecer… — Ela quase murmurou. Saber até sabia, mas só estava um pouco mais calma, naquele momento, porque Camaleão estava presente.

— Com licença? —perguntou ele, gesticulando com a mão.

Luci assentiu, imaginando o que ele iria fazer. Não seria a primeira vez, Sofia já tinha feito aquilo, há anos, quando uma versão bem menor de Luci tinha dificuldade para deixar a mente descansar. Era uma virtude dos bons sonhadores saberem que, apesar de a consciência no Sonhar ser uma magia interessante, a mente precisa de tempo para descanso real.

Ele passou a palma da mão diante dos olhos dela e Luci sentiu as ondas do Sonhar levando sua mente. Sentiu seu corpo perdendo a forma física aos poucos, se esfarelando, sua consciência se tornando uma com o ambiente do Sonhar, as nuvens roxas em seu redor. Só ia se dar conta de seu corpo inteiro quando acordasse no dia seguinte, com a mente mais descansada do sono profundo que tivera.

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Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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