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         Já fazia cerca de 10 dias que Luci tinha dado a sua mãe a boa notícia, uma das poucas nos últimos tempos, de que tinha passado no teste. Helena continuava preocupada com o marido fingindo que estava tudo bem, sem nenhuma preocupação, mas não podia negar que focar na próxima peça a ser encenada no Teatro era uma ótima forma de mantê-lo ocupado.

        Helena mesma contava com suas próprias maneiras de lidar com o estresse. Tinha passado os últimos dias explicando os procedimentos e cuidando dos novos atores que tinham se juntado ao Teatro. Muitos eram jovens, outros eram pessoas que haviam largado o Ninho recentemente, tanto pessoas que dominavam magia como outras que, como ela, só queriam ajudar a manter a fronteira de pé, sem usar magia nenhuma. Helena não podia mentir: ficava feliz de ter cada vez mais pessoas que não praticavam magia, isso a ajudava a não se sentir tão deslocada.

        Todos os nascidos leigos que começavam a usar magia depois de um tempo diziam que aquele “despertar”, quando finalmente entendiam que seus poderes eram reais, era um momento divisor de águas. Mas mesmo para Helena, que nunca fizera um movimento mágico, descobrir aquela verdade tinha mudado sua vida para sempre. Nunca esqueceria, há mais de trinta anos, quando viu uma peça daquelas. O Teatro não existia ainda, ao menos não da forma atual, o grupo de Giovani só viajava pelas cidades próximas de São Paulo, fazendo apresentações. Foi em Paranapiacaba que Helena os assistiu e simplesmente ficou maravilhada com o que via. Não sabia que efeitos eles usavam, mas sabia que era incrível.

        Toda vez que eles se apresentavam em sua cidade, ela ia assistir. Com o tempo, ela e Giovani se conheceram, viraram amigos e então uma paixão surgiu. Helena ficara impressionada com os truques dele, como cuspir fogo e outras coisas, mas tinha se apaixonado mesmo por sua alegria e entusiasmo.

        Quando o namoro começou, eles ainda só se viam quando ele passava pela cidade, mas não demorou para Helena largar seu trabalho e dizer que queria acompanhá-lo. Ela tinha pensado em maneiras de tornar o grupo algo que rendesse mais dinheiro, fizesse espetáculos com regularidade, sustentasse os atores, entre outras coisas. Mas não sabia que estar envolvida significava que deveria saber a verdade. Giovani entendia isso. Ele a levou para um lugar privado e mostrou como seus poderes não eram truques, torcendo para que a reação não fosse ruim.

        Helena passou pelo momento de choque natural, mas à medida que ia ouvindo as histórias do Ninho, percebendo que não era só Giovani que fazia aquilo… tudo pareceu fazer sentido. No Ninho, dizia-se que a magia era algo inerente de todos, em maior ou menor grau, com talentos específicos, mas era algo com que todos podiam tentar se conectar, se quisessem. Helena entendeu o quanto aquilo era real. Depois disso, foi muito rápido para que ela largasse as coisas de vez e ajudasse a montar o Teatro que existe hoje.

        Eram tempos mais fáceis.

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         Ela estava trabalhando no escritório do Teatro quando uma moça entrou de repente. Ao perceber o que fizera, sem nem bater na porta, a jovem corou, envergonhada de ter interrompido Helena de uma forma que poderia parecer rude.

        — Sim? — perguntou Helena.

        — Perdoe-me por entrar assim do nada, senhora, mas… Um dos novos não está levantando de jeito nenhum. Já tentamos acordá-lo, mas ele está agitado e ainda inconsciente.

        Aquilo não era bom. Nada que envolvesse alguém agitado no Sonhar era bom, mas principalmente não em uma fronteira. Helena procurou correndo em suas gavetas um colar de pedra branca que ganhara de Sofia alguns anos antes. Em seguida, levantou-se rápido e, com a jovem a guiando, foi até o quarto em que o menino estava. Havia duas camas, ele dividia o dormitório com mais uma pessoa, e o quarto pequeno estava uma bagunça, com roupas e pertences pelo chão. Era um jovem chamado Rafael, que tinha se juntado a eles havia pouco tempo, alternando a faculdade com o contato mágico das fronteiras.

        — Há quanto tempo ele está assim? — Helena se aproximou, vendo que Rafael suava enquanto dormia.

        — Eu vim chamá-lo mais cedo, ele não acordou e fui chamar os outros antes de voltar para tentar de novo.

        Helena se sentou ao lado do rapaz, tirando o colar que tinha pego do bolso e deixando-o perto do menino. Como ela temia, a pedra branca foi tomando um tom roxo, cada vez mais escuro. Quando Sofia tinha dado aquele colar de presente, não era só por ser bonito. À medida que as discussões sobre a legitimidade das fronteiras iam avançando, Sofia pediu para que um encantador fizesse aquela joia para sua mãe. Quando colocada perto de uma agitação do Sonhar, ou de alguém que usara a magia recentemente, ele tomaria as cores daquela dimensão. Assim, caso alguém fosse pego por pesadelos, além de descobrirem rápido, poderiam pedir ajuda antes que a situação ficasse fora do controle.

        Como acontecera na pousada da Alvorada.

        Ninguém sabia ao certo o que tinha sido o gatilho lá para as coisas terminarem daquele jeito, mas a ideia é que o colar permitisse a Helena diagnosticar o problema antes que ficasse muito grave. Além de impedir feridos e acidentes, também evitava que um desastre que passasse despercebido fosse usado como manobra política.

        A jovem se esticou um pouco para ver o que estava acontecendo. Helena guardou o colar e se virou para ela, que estava com um olhar assustado.

        — Precisamos de um curandeiro. Rafael está sofrendo com pesadelos.

        *

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        Luci já tinha ouvido muito falar da lenda do Guardião do Pesadelo, mas vê-la de um outro ângulo era muito esquisito. Tinha seguido o conselho de Camaleão e procurado pelos arquivos de guardião Elias. Alguns estavam nas pilhas de livros a seu lado, no escritório da guardiã. Outros estavam nos documentos do computador de Sofia. Ao que tudo indicava, ela mesma tinha investigado a história desse guardião.

        Elias foi um dos primeiros guardiões a assumir o cargo, séculos antes. Pelo que tinha sido registrado, ele dedicara muito tempo a estudar o Sonhar, passando mais tempo lá dentro do que fora. Com os anos, ele foi estudando cada vez mais sobre os pesadelos. Isso Luci já conhecia por causa da lenda que tinha sido disseminada entre os cientes. O que ela descobriu de novidade foi como, cada vez mais, ele ia se rendendo aos métodos questionáveis: examinar a mente dos sentinelas depois de uma missão no Sonhar, fazer teste em pessoas com a doença do pesadelo, entre outras questões.

        Até que, como ela já sabia, Elias contraíra a doença do pesadelo. Os documentos diziam que o guardião começou a usar a si mesmo como experimento. Era aconselhado que os que sofriam com aquela doença diminuíssem o contato com o Sonhar, mas ele o aumentou. Luci fez uma nota mental de que precisava ir atrás dos documentos originais. Ela tinha como saber algo do conteúdo que estava neles, porque havia algumas anotações nos estudos de Sofia sobre isso. Não dava para negar que, de acordo com o que lia, as maiores informações conseguidas sobre pesadelos vieram dos estudos de Elias. Mas a que custo?

        Ao custo de Elias contrair a doença do pesadelo e eventualmente não acordar mais. Diferente da versão romântica da lenda, os documentos diziam que o guardião não acordou nunca mais, ao contrário do que acontecia depois de algum tempo que uma pessoa tinha a doença. Por não ter ninguém da família que pudesse assumir o cargo, aquela também foi a primeira vez que os sonhadores da Escola dos Magos foram chamados para fazer o teste do Guardião.

        O que Luci estava lendo nos documentos de Sofia batia com o que Juliano havia contado. Ela procurava um jeito, a partir dos estudos de Elias, de destrinchar os pesadelos que se instalavam na mente de uma pessoa, assim tentando achar uma possível cura. Sofia não era a primeira, e nem seria a última, a achar que poderia encontrar uma cura para a doença do pesadelo.

        Luci demorou alguns instantes para perceber que estavam batendo na porta. Ela falou em voz alta um “Pode entrar” e viu Ingrid logo em seguida.

        — Guardiã — ela encostou a porta do escritório — Está tudo bem?

        — Ah, sim, eu estava… Olhando as coisas de Sofia.

        — Entendo — Ingrid limpou a garganta. — Nós tínhamos marcado de treinar há quase uma hora, eu pensei que algo podia estar errado.

        Luci arregalou os olhos e buscou o horário no computador. Elas tinham combinado às 18h, já eram quase 19h. Luci sentiu os ombros encolhendo, aquela sensação ruim de estar envergonhada de algo que esquecera.

        — Desculpe, Ingrid, eu me perdi na hora…

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        Fazia alguns dias já que Ingrid tinha começado a auxiliar Luci com seu uso de magia. O treino ficava mais fácil nos dias em que ela não usava Noite Calma, mas não era sempre que tinha coragem. Por causa disso, o avanço era lento. Ingrid não fazia perguntas invasivas, apenas assumia que era a falta de prática, mas a sentinela já tinha percebido que havia alguma coisa fora de lugar.

        — Tudo bem — sorriu Ingrid, se aproximando do computador. — Você tem lido muito os documentos de sua irmã e, bem… Com a situação toda, eu também perderia a hora em seu lugar. Encontrou algo bom?

        — Sei que você não concorda, mas fui atrás do que Juliano falou… — e do que o Camaleão dissera, mas aquela parte ela não revelaria. — O que encontrei comprova o que ele falou. Minha irmã estava estudando o guardião Elias e…

        O rosto de Ingrid mudou completamente, o que até assustou um pouco Luci. O que ela tinha dito errado?

        — O que ela estava estudando, exatamente? — O tom dela estava muito mais sério.

        — Bom… — o tom da voz de Luci diminuiu um pouco — Juliano havia falado sobre a lenda do guardião do pesadelo, e eu li aqui — ela apontou para a tela do computador — que ela foi baseada no guardião Elias. Pelo que entendi, Sofia estava lendo os estudos dele sobre pesadelos…

        Ingrid deu uma respirada funda. Era um misto de insatisfação e confusão. A sentinela não parecia ter acreditado muito em Juliano, mas agora parecia estar irritada.

        — Ingrid, você está me assustando.

        — Perdão, é que… — suspirou ela — Os estudos do guardião Elias são selados. Há muito que já foi usado, sim, mas com os anos nós deixamos os documentos fora de alcance. Existem muitos métodos errados dentro desses estudos. Nós não queremos ninguém tendo ideia. Sua irmã sabia disso. Não entendo porque ela abriria essa parte dos arquivos…

        — Eu não sei dizer também, mas será que poderíamos dar uma olhada?

        Ingrid não escondeu que não ficou satisfeita com aquele pedido, mas assentiu com a cabeça. Não é como se ela pudesse negar um pedido da guardiã, por mais que Luci não a obrigasse a fazer algo de que ela não gostaria.

        A sentinela levou Luci até a biblioteca. Se Ingrid tivesse ido sozinha, passaria um bom tempo tendo que explicar porque precisava entrar em uma área com estudos selados, mas estar acompanhada de Luci era o suficiente para que o bibliotecário deixasse as duas entrarem na área da biblioteca em que desejavam.

        Era um lugar que não recebia muitas pessoas, como Luci percebeu rapidamente. Ela espirrou algumas vezes por causa da poeira. Ingrid acendeu a luz. Era uma sala pequena, com alguns livros e pastas guardadas, junto com um computador mais velho. A sentinela checou no computador primeiro e, em seguida, começou a procurar nas estantes os estudos sobre o guardião Elias.

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        Depois de um bom tempo, Luci percebeu que Ingrid ficara mais afobada do que antes, o que não era nada bom. A guardiã acompanhou a sentinela com os olhos enquanto ela parecia estar ficando cada vez mais irritada no meio das pastas. Depois de alguns xingamentos, Luci achou melhor perguntar:

        — Tudo bem?

        — Não — Ingrid bufou, colocando a mão na testa. — Não consigo achar os estudos! Já procurei por toda a parte, onde deveria estar e outros lugares, mas nada.

        — Esses documentos não estão digitalizados?

        — Não, porque só recentemente os sonhadores, que parecem sair do século passado, acharam uma boa ideia digitalizar as coisas — suspirou Ingrid. —Desculpe, guardiã, você não precisa ouvir meu desabafo.

        — Não tem problema.

        — Boa parte dos documentos possui uma versão digital, mas os arquivos trancados foram deixados um pouco de lado. Porque a ideia é que as pessoas não os usem, a não ser em uma emergência… — Ela andava impaciente pela sala, como Luci nunca tinha visto. — Vou perguntar para o bibliotecário o que aconteceu.

        Mas ele não sabia responder. De acordo com as assinaturas no livro de quem entrava na biblioteca, só Sofia tinha entrado na sala dos arquivos secretos nos últimos meses. Ingrid continuou insistindo que talvez os documentos estivessem em outro lugar, mas Luci reparou na assinatura e na data em que sua irmã tinha estado lá: poucos dias depois do desastre da Alvorada.

        Talvez aquilo não significasse nada, mas era uma coincidência e tanto. Até porque a pousada só foi atacada por causa de pesadelos. Aquela não tinha sido a primeira vez que uma fronteira tinha sido atacada dessa forma, e não tinha que ver com a doença do pesadelo. Quando o bibliotecário convenceu Ingrid de que não havia nada que ele soubesse sobre o assunto, elas voltaram até o elevador para ir até o andar de treinamento.

        — Eu não entendo… —murmurou Ingrid, parecendo falar mais consigo mesma do que com Luci. — Onde esses arquivos foram parar?

        — E se Sofia os tirou de lá? Havia algumas informações sobre eles no computador dela.

        — Ela não faria isso — disse Ingrid, como se não houvesse qualquer dúvida. — Ela sabe como esse conhecimento é perigoso em mãos erradas —suspirou, tentando manter a calma.

        — Eu queria falar com Juliano sobre isso. Não sobre os documentos, mas sobre a história do guardião.

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        Ingrid não pareceu gostar muito, mas concordou. Novamente, não era como se pudesse ir contra aquilo.

        — Vou precisar dormir para este treinamento? — perguntou Luci, tentando mudar de assunto para ver se o humor de Ingrid melhorava também.

        — Não. Eu quero tentar uma coisa nova hoje. Você tem dificuldade de praticar dessa forma, enquanto dorme, então talvez uma de nossas salas ajude. São ambientes mais controlados e estaremos em nossas formas físicas, pode ser mais fácil destravar suas dificuldades e aí podemos voltar a treinar no próprio Sonhar.

        Elas foram até uma das salas de treinamento, em um dos andares mais baixos da torre. Luci fechou a porta quando entrou, sentindo o coração acelerar enquanto Ingrid se preparava. Mexer com o Sonhar nunca era a parte tranquila de seu dia, mas ela precisava fazer aquilo se queria ser útil como Guardiã, e também para não descobrirem sua farsa. Apenas torcia para que suas habilidades melhorassem o mais rápido possível.

        A sala era redonda e vazia, apenas um espaço grande para que os sentinelas pudessem treinar. Do lado oposto da sala, havia um interruptor redondo. Luci conseguia sentir uma fonte constante de energia vinda dali. Ingrid andou até o interruptor, colocou a mão na frente e ativou o dispositivo com sua magia.

        Ao redor delas, a sala foi sendo tomada pelos tons característicos do Sonhar. Por mais que não estivesse dormindo, ou atravessando qualquer uma das portas, Luci sentiu que aquele era mesmo o Sonhar.

        — O que é isso? — deu uma volta em si mesma, para observar tudo.

        — É uma sala de treinamento, para praticar a magia dos sonhadores sem afetar o Sonhar e atrair qualquer pesadelo. — Ingrid apontou para o interruptor que tinha ativado. — Isso mistura nossa realidade com a dimensão do Sonhar, então fica tudo controlado.

        Luci sentia aquela sensação da magia pinicando mais forte do que antes, enquanto o Sonhar ia tomando conta de tudo. Ela conseguia ver as formas físicas da sala vazia, as paredes, chão e teto, mas estava tudo tomado pela energia do Sonhar que não estava lá antes de Ingrid ativar o dispositivo. Ainda não era uma sensação com a qual ela tinha se acostumado, mas precisava.

        Moldar o Sonhar exigia clareza da mente e foco. Ingrid começou o treino: ela pedia para que Luci criasse algo na sala, como um ambiente específico, seu quarto ou o escritório da guardiã. Luci tentava, mas se tivesse se lembrado de que tinha o treinamento marcado, teria evitado tomar Noite Calma antes de dormir no dia anterior e teria sido mais eficiente. Toda vez que ela começava a imaginar as formas em sua mente e tentava canalizar a energia para as mãos e mente, o fio de magia se perdia e ela acabava falhando, no máximo apenas transformando a energia em algo disforme, ou uma imagem muito leve de uma das paredes do lugar desejado.

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        — Respire fundo — pediu Ingrid, se aproximando de Luci. — Não precisa ter pressa. Pense em como encontrou foco durante o teste.

        Ouvir aquilo fez que Luci perdesse todo o controle, foi quase automático ela perder o que tentava fazer naquele momento, o que surpreendeu Ingrid. Ela imaginava que aquilo ajudaria, não que atrapalharia ainda mais. Luci nem se virou para olhar a sentinela, se sentia pega em uma mentira. E se ela soubesse? Ou descobrisse exatamente por causa daquela reação?

        — Está tudo bem? — perguntou Ingrid, mesmo vendo que não estava. Ela colocou uma mão no ombro de Luci.

        — Eu não consigo focar —suspirou Luci, ainda com medo de olhar para a sentinela. — No teste foi diferente.

        Quando percebeu, Luci já tinha feito aquele último comentário. Estava nervosa, sua cabeça já tinha criado toda a situação em sua mente, sendo que Ingrid apenas estava preocupada.

        — Você quer falar sobre isso?

        Luci hesitou por alguns momentos. Não podia contar sobre o Camaleão; mesmo que Ingrid suspeitasse, ela teria que continuar fingindo que fizera o teste sozinha. Apenas Nicolas sabia que algo a mais tinha acontecido, mas ele só sabia do pesadelo que tinha cruzado o caminho da guardiã.

        Não era difícil falar com Ingrid, e Luci sentia que seria bom falar alguma coisa, até para aquela situação não ficar mais estranha. Talvez ela pudesse dizer a mesma coisa que contou para Nicolas.

        — Eu… encontrei um pesadelo — só quando respondeu virou o corpo para encarar Ingrid. — Não aconteceu nada demais, mas acho que isso me deixou um pouco abalada.

        A expressão de Ingrid mudou na hora, de repente não parecia tanto uma sentinela, e sim uma amiga preocupada. Luci ficou um pouco sem graça, encarando o rosto dela por um tempo e depois acabou desviando. Ingrid era muito bonita. A sentinela foi até o fundo da sala e apertou o interruptor mágico de novo, fazendo que a magia do Sonhar fosse se esvaindo da sala lentamente. Luci sentia a sensação que pinicava antes acabando aos poucos. Ingrid se aproximou de novo da guardiã.

        — Você não precisa contar exatamente o que aconteceu, mas, se quiser, eu vou ouvir. Não vou julgar. Sei que alguns acreditam que, para um de nós, se deixar abalar por um pesadelo que não pareça muito pesado pode soar como fraqueza, mas não é. Essas coisas… têm um poder muito grande de mexer com nossa mente. Não é à toa que entre os sonhadores da Escola dos Magos fala-se muito sobre a resistência de nossa mente enquanto estamos no Sonhar.

        — Obrigada, mas nem eu sei direito o que era… — coçou a cabeça, ainda sem graça. — Tinha um corredor e gritos, eu fugi de alguma coisa, mas… consegui sair antes de entender mais sobre o que estava acontecendo.

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        — Bom, se fosse um pesadelo muito problemático, nós teríamos notado. Estávamos assistindo ao teste para situações que ficassem fora do controle. O que não quer dizer que não seja ruim de qualquer forma. Se ajuda, não é sempre que topamos com pesadelos durante as vistorias do Sonhar.

        — Vistoriar o Sonhar?

        Luci preferia que tivesse segurado a língua, porque, no minuto em que falou, se deu conta de que era algo que deveria saber, como guardiã. Mas não tinha ideia. Ingrid não fez nenhuma expressão ruim, a sentinela já esperava ter que explicar uma coisa ou outra que parecia um assunto básico. A nova guardiã tinha pouquíssimo conhecimento sobre o que acontecia na torre, o Senhor do Ninho tinha avisado Ingrid sobre isso.

        — Bem, os sentinelas fazem vistorias básicas no Sonhar. Nos relatórios nós apontamos lugares suspeitos ou que possam apresentar alguma tensão que vale ser observada. Não é comum ser algo muito grande, mas é bom que seja investigado mais de uma vez, ainda mais nos últimos tempos. Nós temos feito isso entre os sentinelas, mas essa função é para ser sua.

        — Sim, claro, eu devia… — Luci limpou a garganta — Quando vamos fazer isso?

        — Nos próximos dias. Em breve vou começar a encaminhar a você os relatórios para que possa acompanhar as anotações e avaliar os polos específicos que forem pontuados.

        — Claro. Ingrid, obrigada pela ajuda. De verdade. — Luci sentiu que estava ficando envergonhada de novo. — E desculpe por qualquer complicação.

        — Não precisa se desculpar.

        A sentinela sorriu e acompanhou Luci de volta para os andares de cima. A guardiã sempre pensava como devia ser frustrante para Ingrid cuidar de alguém tão pouco preparada. Ingrid parecia muito segura, alguém que conhecia bem o que fazia e sabia como trabalhar. Devia se dar muito bem com Sofia, mas Luci acabava se questionando se a sentinela não perdia a paciência por dentro com sua falta de preparo.

        O que Luci sabia com certeza era que precisava lidar com seu problema com magia. Tinha que procurar ajuda de alguém que não fosse entregá-la, ou o mais perto possível disso. Além disso, o papo todo com Ingrid sobre o pesadelo a fez lembrar de algo. Assim que entrou em seu quarto e a sentinela se retirou, ela procurou pelo anel que tinha recebido do Camaleão. Não sabia até agora para que servia aquilo, mas queria descobrir.

*

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        Durante a noite, quando os sentinelas já tinham se posicionado para o turno da noite, Luci foi até o metrô sozinha e pegou o caminho para a superfície. Ela se lembrava bem de como chegar até a casa de Juliano, só esperava que ele não ficasse incomodado por ela aparecer sem aviso durante a noite.

        Talvez ele conhecesse um encantador de confiança para entender o que tinha naquele anel. Luci não podia contar onde o tinha arranjado de verdade. Ela também tinha decidido contar a verdade para ele sobre sua situação com o Noite Calma. Era o mais perto que tinha de contato com um curandeiro, e Sofia tinha confiado nele, então aquilo tinha que valer para alguma coisa.

        Luci ficou um pouco mais feliz quando viu as luzes da casa acesas antes de tocar a campainha. Juliano abriu a porta do lado de dentro da casa, franzindo a testa quando viu Luci.

        — Guardiã. A que devo a visita?

        — Queria conversar sobre Sofia. Se não for incômodo.

        Juliano abriu o portão para ela e levou a guardiã para o lado de dentro. Otávio estava comendo na cozinha. O curandeiro ofereceu para que Luci se sentasse no sofá, a casa estava um pouco mais bagunçada do que na vez que tinha ido até lá. Ela olhou para trás, como se tentando se certificar de que Otávio não estava ouvindo.

        — Fique tranquila, ele não está prestando atenção. Faz dias que ele janta grudado no celular falando com o namorado — disse Juliano. — Em que posso ajudá-la?

        — Li mais dos documentos de minha irmã, sobre a pesquisa que vocês tinham feito do guardião do pesadelo. Parece bem… Real mesmo.

        — Acredito mesmo que seja, apesar de a sentinela que veio com você da última vez não ter ficado muito convencida.

        — Não sei se seguir os estudos de Sofia pode indicar o que aconteceu com ela — disse Luci, sua mente pensando em muitas coisas. Ela queria conversar sobre os documentos, mas não podia expor a existência dos arquivos selados dessa forma. Se Sofia já tivesse falado com Juliano sobre isso, tudo bem, e Luci até poderia descobrir onde eles estavam. — Você e minha irmã passaram muito tempo estudando sobre isso?

        — Depende do que você entende por muito, mas dedicamos um tempo considerável.

        — E ficou tudo com ela? Não ficou mais nada aqui? — Luci se sentia esquisita em perguntar daquela forma, tentando descobrir o paradeiro dos documentos, então completou: — Só para eu tentar entender o que estava se passando na mente dela. Não temos pistas ainda, então, qualquer coisa pode ajudar.

        — Entendo. Tirando meus livros que uso para estudar magias de cura, que têm capítulos que falam sobre pesadelos, o resto do material vinha dela. Da biblioteca, algo que ela já sabia… Ela estava juntando o que descobria em seu computador. A pesquisa sempre foi encabeçada por Sofia, eu estava tentando ajudar.

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         Luci suspirou. Esperava que ele dissesse que Sofia largara alguma coisa ali, que esquecera, algum dia, qualquer coisa. Não queria pensar que seguir aquela linha de pensamento era inútil, porque era tudo o que tinha.

        — Desculpe não poder ajudar mais — falou Juliano ao perceber a expressão de Luci.

        — Tudo bem, vou continuar procurando. Vocês eram próximos?

        Juliano demorou um pouco para responder, parecendo ter sido pego desprevenido. Luci queria saber o quanto poderia confiar nele nos próximos dias. Ele ajeitou a postura na cadeira, enquanto respondia:

        — Éramos amigos. Acho que ela não deve ter comentado sobre mim.

        — Não se sinta mal por isso, Sofia comenta pouco da vida pessoal — mas Luci sabia que tinha uma foto deles no quarto da irmã na torre. — É só que… É bom conhecer alguém que queria ajudá-la e não tirá-la do caminho.

        — Eu entendo — sorriu ele.

        — Enfim, eu queria falar mais duas coisas…. — Luci tirou o anel do bolso e estendeu para o curandeiro. — Primeiro, não conheço encantadores de confiança. Eu queria saber para que este anel serve.

        Juliano pegou o anel e observou, mexendo no objeto e aproximando de seu rosto.

        — Estava nas coisas de Sofia?

        Luci assentiu de maneira rápida e se lamentou por isso. Não queria dar uma pista falsa para Juliano, mas não podia falar a verdade. Devia ter pensado em alguma desculpa para ter encontrado o anel e levado até ele. Talvez, se não comentasse mais do anel depois disso, ele esqueceria.

        Juliano chamou Otávio, sem se levantar. Luci ouviu o rapaz se aproximando, tirando os fones de ouvido e guardando o celular no bolso.

        — Dá uma olhadinha no que isso aqui faz, por favor? — pediu Juliano. — É coisa rápida.

        — É para já. — Otávio pegou o anel e levou até mesa que ocupava, começando a mexer nas gavetas, e botou os fones de ouvido de volta.

        — Não sabia que ele era um encantador — falou Luci.

        — Ele está estudando na guilda e me ajuda aqui de vez em quando — sorriu Juliano. — Os pais insistiram que ele precisava de um emprego, já que “não tinha decidido a faculdade ainda” — ele fez sinal de aspas. — Um paciente da guilda disse que um rapaz precisava de um trabalho na superfície que o ajudasse a manter os estudos de magia sem atrair atenção.

        — A família dele não sabe?

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        — Não. É muito injusto quando se tem o dom e não se pode trabalhar em cima dele. Por isso resolvi ajudar. Acho que seria um problema falar a verdade na casa dele, então ele prefere manter a vida leiga separada da ciente.

        Luci olhou por cima do ombro. Não tinha ideia do que era esconder algo tão importante dos pais assim. Não apenas no quesito magia. Seus pais sempre foram muito compreensíveis com tudo que ela já tinha falado para eles. Por mais que só agora Luci estivesse tendo mais contato com magia, sabia que era difícil esconder aquela parte de pessoas tão próximas. Não se surpreenderia se em pouco tempo Otávio largasse a casa dos pais para viver em alguma fronteira, se não no próprio Ninho. O melhor cenário era que ele falasse e os pais acreditassem e o acolhessem, mas nem sempre era assim que as coisas aconteciam. Era muito dolorido quando não era o caso.

        Otávio não precisou de muito tempo mexendo no anel para entender o que ele fazia. Voltou para perto de Juliano, com o anel na mão e gesticulando enquanto falava.

        — É um anel de foco. Muito poderoso, consegue acumular bastante energia. Nunca vi um desses lá na guilda. Seja lá de onde veio, não foi barato.

        Anéis de foco eram objetos muito úteis. Eles serviam para, como o nome indicava, focar a magia de quem usava, para que a pessoa pudesse realizar suas magias com mais facilidade. Aquilo poderia ser muito útil para Luci. Ela não queria sair usando coisas do Camaleão, mas aquele anel poderia ajudar muito seus próximos dias no Ninho.

        Aquilo também explicava como ela tinha conseguido seguir o caminho de volta durante o teste da guardiã. Ela sabia que Camaleão tinha acalmado sua mente, mas sentia que o anel tinha ajudado seu percurso, sentiu a magia emanando dele, e agora sabia o porquê.

        — Precisa de mim ainda? — perguntou Otávio para Juliano.

        — Não, tudo bem, vá cuidar de suas coisas, você nem está em horário de trabalho. — Juliano riu enquanto o rapaz se despedia, pegava a mochila e ia embora.

        O curandeiro deu mais uma olhada no anel e estendeu de volta para Luci. Ela guardou no bolso com cuidado.

        — Há algo mais em que eu possa ajudá-la?

        Tinha sim, a parte que Luci mais tinha medo de falar e era visível que o próximo assunto era mais complicado. Luci estava com medo do que Juliano poderia dizer quando soubesse, ou do que faria. Ela precisava confiar em alguém, mas, acima de tudo, precisava resolver seu problema. Por mais que Nicolas fosse seu amigo, que Estela tivesse se oferecido para ajudar e Ingrid estivesse sempre disponível, todos estavam em uma posição em que o dever poderia falar mais alto. Juliano era um curandeiro da fronteira, a única relação com a confusão toda era a amizade com Sofia. Aquilo inclusive podia ajudar Luci naquele momento.

        — Curandeiros mantêm sigilo de pacientes, né?

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        — É claro. Eu não posso discutir sobre meus pacientes sem permissão.

        Luci respirou fundo, torcendo para não estar cometendo um erro.

        — Eu… tenho um problema. — Ela abaixou o rosto. —Perguntei sobre Noite Calma afetar magia na última vez que vim, lembra? — Ela esperou ele concordar com a cabeça. — Esse é o meu problema.

        — Há quanto tempo você toma? — Ele se inclinou novamente na poltrona.

        — Tomei por dois anos a partir dos 11, quando tive um trauma com pesadelos. Não contraí nada, mas era muito difícil dormir. Parei e voltei a usar depois do Desastre da Alvorada. O acontecimento me… impressionou, voltei a ter pesadelos muito vívidos e tenho tomado desde então. Às vezes consigo ficar uma noite ou outra sem, mas… É.

        Luci explicou, tentando não chorar, sobre como a ideia de pesadelos atormentava sua mente. Como tinha passado por um trauma uma vez que quase a prendera no Sonhar, se não fosse por Sofia. Depois comentou do desastre, de como aquilo ficara em sua mente e a fizera ter pesadelos mais vivos de novo, a fazendo voltar tomar o remédio, mesmo que ninguém o tivesse indicado para ela. A guardiã também revelou como era muito mais fácil dormir quando tomava Noite Calma, por mais que soubesse das consequências e de como aquilo afetava sua magia.

        Pela rapidez com que ela falou tudo, Juliano percebeu que aquilo era um assunto que abalava bastante a guardiã. Esses assuntos poderiam mexer com qualquer pessoa. Ele deixou ela dizer tudo o que tinha acontecido e esperou uns momentos antes de voltar a falar.

        — Não é o fim do mundo, Luci. Dá para resolver.

        — Podem descobrir isso lá na torre, e se isso acontecer… — Ela chacoalhou a cabeça. — Por favor, não conte para ninguém. Sei que eu não sou a melhor pessoa para ser guardiã, mas quero achar Sofia…

        — Nenhum deles é perfeito, Luci, você acha que sonhadores não ficam atormentados por pesadelos? Sua magia pode estar fraca agora, mas não é nada que não possa ser consertado.

        — Você pode me ajudar? Por favor…

        — Claro. Como está de tempo agora?

        Ela não tinha nada importante para fazer, tinha vindo à noite para que tivesse o tempo de que precisasse. Juliano a levou para uma das salas que usava para atender pacientes. Era uma sala pequena que parecia um consultório médico mesmo. Havia uma maca no canto, perto da janela que mostrava a noite do lado de fora. Também tinha uma mesa com duas cadeiras próximas, além de um computador em cima, que Juliano usava durante as consultas. Um filtro de água e copos plásticos ficavam próximos da janela. Debaixo da mesa, havia gavetas fechadas por chaves. Também tinha uma estante com alguns remédios. Luci reconheceu o Noite Calma entre eles. Todos os móveis eram claros, combinando com as paredes brancas e fazendo o cômodo parecer maior do que ele realmente era. Longe da porta de entrada, havia uma outra que dava para um banheiro.

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         Juliano fechou a porta quando entrou. Ele foi até a mesa e mexeu no computador, que já estava ligado. Mesmo que ele não esperasse ninguém naquele horário, não significava que alguém não pudesse aparecer de repente e ele não negava ajuda.

        — Sente-se na maca, por favor.

        Luci o fez, um pouco tensa. Ela entrelaçou os dedos das mãos, pousando-as em cima das pernas. Juliano pegou um remédio que Luci não reconheceu e, em seguida, encheu um copo de água para a guardiã.

        — Qual foi a última vez que você tomou o Noite Calma? —perguntou ele, se aproximando dela.

        — Esta noite. — Ela ficou um pouco envergonhada em dizer.

        — Tudo bem. Relaxe. — Ele mostrou o remédio. — Isso vai deixar você em um estado de quase sono, mas ainda consciente. Assim eu posso olhar em seu subconsciente para ver o quanto sua mente está interferindo na magia.

        Luci ficou com um pouco de medo do que podia acontecer, mas Juliano tinha passado algum tempo estudando subconsciente e doença do pesadelo, era assim que o tinha conhecido, então era a pessoa mais adequada para mexer naquilo. Ele era um curandeiro… Afinal, sabia o que estava fazendo.

        Ela colocou o remédio na boca e bebeu o copo de água. Alguns momentos depois, começou a sentir a cabeça leve e Juliano a ajudou a se deitar na maca. Luci se sentia acordada de certa forma, via tudo o que acontecia, mas seu corpo estava abatido pela sonolência, não conseguia se mexer. Juliano puxou uma cadeira e se sentou perto da cabeça de Luci.

        Quando ele colocou as mãos nas têmporas dela, Luci sentiu o quarto mudando. Era parecida com a sensação da sala de treinamento da torre. Estava em um lugar físico, mas sua mente estava no Sonhar, começando a ver os tons que já lhe eram bem familiares. Pareceu não demorar muito, mas Juliano deu uma boa olhada no estado dela, de sua mente. Durante todo o processo, a sensação era de estar flutuando, de calmaria. Depois de uns momentos, Luci sentiu um “impulso” com magia que fez que seu corpo fosse recobrando a consciência. Sua mente pareceu voltar para o lugar e estava completamente acordada. Ela precisou de ajuda para se sentar de novo.

        — Sua mente está enfraquecida para a magia pelo Noite Calma, sim. Não é nada sem conserto, como eu imaginei, muito pelo contrário. Tanto que você consegue usar magia agora, só que menos. Também notei que sua mente estava bem ciente do que estava acontecendo. Você estudou muito a magia de sonhadores antes do trauma ou nesse período entre as épocas em que tomou o remédio?

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        — Aprendi algumas coisas antes, mas sempre tive facilidade com pesadelos também.

        — É mesmo? — Ele parecia surpreso — Isso é algo muito invejado entre os magos sonhadores. Vai ser uma baita ajuda para você. É uma facilidade rara.

        — É, eu sei, Sofia já me disse isso algumas vezes. — Luci suspirou — É que… Depois do que aconteceu, eu sempre tenho medo… Isso toma conta de mim.

        — Eles estão te treinando?

        Luci assentiu.

        — Ótimo. Vamos diminuir a dose de Noite Calma e ver como você responde. Eu recomendo que você fale, ao menos para a pessoa que estiver ajudando você, o que está acontecendo. Mas entendo que pode ser um problema, então não pegue mais pesado do que precisa. Quando sentir que vai perder o controle ou que tudo está sendo muito para você, pare. Tudo bem?

        Luci assentiu mais uma vez, feliz de botar aquilo para fora e de ter alguém que sabia a verdade, que acreditava que tinha como consertar. Estava aliviada com a possibilidade de tirar aquilo do caminho. Também se sentia confortável em falar isso com alguém que não a julgaria. Sofia tinha desaprovado muito quando ela voltou a tomar Noite Calma por conta própria, o que era compreensível, porque Luci não devia ter feito aquilo. Mas ela sentia uma falta de compreensão de sua irmã em relação a seu medo. Com Juliano parecia apenas uma coisa normal, algo que seria tratado e encerrado.

        Juliano explicou como ela deveria ir diminuindo a dose gradualmente, como ele iria avaliar a mente de Luci para entender como ela respondia. Ele acreditava que o processo seria simples, até porque, mesmo que Luci não praticasse hoje, ela tinha algum treinamento com magia e tinha aquela facilidade com pesadelos.

        Luci se levantou da maca quando ele terminou de falar, sentindo-se muito aliviada e achando que as coisas estavam dando certo. Estava com medo de como seu corpo poderia reagir, o que aconteceria com seu subconsciente, não tinha sentido nada nas poucas noites que se atrevia a não tomar Noite Calma, mas sempre havia uma chance de dar errado.

        — Muito obrigada, Juliano, mesmo. Quanto fica?

        — Nada. Quem sou eu para cobrar da guardiã? — riu ele. — Mas, sério, já atendi muita gente de graça, você precisa de ajuda e é irmã de Sofia. Eu só quero ajudar. E pode me ligar qualquer hora caso precise, está certo?

        Ela concordou, saindo de lá muito mais leve do que quando chegara.