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         Já fazia cerca de 10 dias que Luci tinha dado a sua mãe a boa notícia, uma das poucas nos últimos tempos, de que tinha passado no teste. Helena continuava preocupada com o marido fingindo que estava tudo bem, sem nenhuma preocupação, mas não podia negar que focar na próxima peça a ser encenada no Teatro era uma ótima forma de mantê-lo ocupado.

        Helena mesma contava com suas próprias maneiras de lidar com o estresse. Tinha passado os últimos dias explicando os procedimentos e cuidando dos novos atores que tinham se juntado ao Teatro. Muitos eram jovens, outros eram pessoas que haviam largado o Ninho recentemente, tanto pessoas que dominavam magia como outras que, como ela, só queriam ajudar a manter a fronteira de pé, sem usar magia nenhuma. Helena não podia mentir: ficava feliz de ter cada vez mais pessoas que não praticavam magia, isso a ajudava a não se sentir tão deslocada.

        Todos os nascidos leigos que começavam a usar magia depois de um tempo diziam que aquele “despertar”, quando finalmente entendiam que seus poderes eram reais, era um momento divisor de águas. Mas mesmo para Helena, que nunca fizera um movimento mágico, descobrir aquela verdade tinha mudado sua vida para sempre. Nunca esqueceria, há mais de trinta anos, quando viu uma peça daquelas. O Teatro não existia ainda, ao menos não da forma atual, o grupo de Giovani só viajava pelas cidades próximas de São Paulo, fazendo apresentações. Foi em Paranapiacaba que Helena os assistiu e simplesmente ficou maravilhada com o que via. Não sabia que efeitos eles usavam, mas sabia que era incrível.

        Toda vez que eles se apresentavam em sua cidade, ela ia assistir. Com o tempo, ela e Giovani se conheceram, viraram amigos e então uma paixão surgiu. Helena ficara impressionada com os truques dele, como cuspir fogo e outras coisas, mas tinha se apaixonado mesmo por sua alegria e entusiasmo.

        Quando o namoro começou, eles ainda só se viam quando ele passava pela cidade, mas não demorou para Helena largar seu trabalho e dizer que queria acompanhá-lo. Ela tinha pensado em maneiras de tornar o grupo algo que rendesse mais dinheiro, fizesse espetáculos com regularidade, sustentasse os atores, entre outras coisas. Mas não sabia que estar envolvida significava que deveria saber a verdade. Giovani entendia isso. Ele a levou para um lugar privado e mostrou como seus poderes não eram truques, torcendo para que a reação não fosse ruim.

        Helena passou pelo momento de choque natural, mas à medida que ia ouvindo as histórias do Ninho, percebendo que não era só Giovani que fazia aquilo… tudo pareceu fazer sentido. No Ninho, dizia-se que a magia era algo inerente de todos, em maior ou menor grau, com talentos específicos, mas era algo com que todos podiam tentar se conectar, se quisessem. Helena entendeu o quanto aquilo era real. Depois disso, foi muito rápido para que ela largasse as coisas de vez e ajudasse a montar o Teatro que existe hoje.

        Eram tempos mais fáceis.

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