Nos últimos dias, acompanhamos as notícias sobre o desaparecimento da atriz Naya Rivera, de Glee, que interpretou a personagem Santana Lopez. Infelizmente, a notícia final é que a atriz faleceu por conta de um acidente, enquanto nadava em um lago com seu filho de quatro anos. O corpo dela foi encontrado no mesmo dia de aniversário de 7 anos da morte de Cory Monteith, ator que também trabalhou em Glee como Finn Hudson.

Muitos fãs se entristeceram com a notícia, e até quem não via Glee. Afinal de contas, é uma tragédia. Uma mulher de 33 anos morre em um passeio com o filho, em um momento mundial em que nada está fácil para ninguém. Acredito que todo mundo que já viu a morte de um artista que gosta sabe que isso pode ser mais dolorido do que as pessoas pensam.

E por isso, como uma das pessoas que assistiu Glee, queria fazer uma homenagem e tentar ao mesmo tempo colocar em palavras como Naya Rivera e sua personagem foram importantes para tantas pessoas.

Para quem não sabe, Glee é uma série que foi transmitida de 2009 a 2015, focada no público adolescente. A história mostrava um grupo de alunos de uma escola de Ohio que, no grupo de coral New Directions, participava de competições de música regionais e nacionais, buscando o sonho de serem artistas. A protagonista era Rachel, uma menina que sofria bullying na escola, mas tinha um sonho bem definido: Ela queria ser uma grande cantora. Mas a série ia muito além de Rachel. Glee falava sobre bullying, aceitação e as complexidades da vida adolescente na escola.

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Uma das personagens mais amadas e lembradas é Santana, interpretada por Naya. Santana era uma cheerio (as líderes de torcida do time de futebol da escola), que no começo se juntou ao New Directions junto com Quinn, que era a “antagonista” da Rachel no começo da temporada. Santana inicialmente não era para ser uma personagem grande como se tornou, mas com a popularidade dela e da outra cheerio do trio, Britanny, Santana foi ganhando cada vez mais espaço na série.

Além de ser uma personagem importante latina, Santana marcou a série por também ser uma personagem lésbica e ter um arco de construção bem interessante sobre descobrimento e aceitação. Sem contar que ela foi uma das primeiras personagens lésbicas em uma série grande assim. Então, para muitas garotas, ela foi um dos primeiros exemplos de uma adolescente fora do padrão heteronormativo.

E assim, eu tenho várias críticas sobre como Glee tratava a sua representatividade. Um dos exemplos é que eu acredito que Glee não soube lidar bem com suas tentativas de representação bissexual, não só em vários momentos com Britanny, mas também no episódio em que Blaine se questiona se é bissexual. Mas não dá para negar que, em vários pontos, Glee acertou a representação e afetou positivamente a vida das pessoas, e eu acho que o arco de Santana é um bom exemplo disso.

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Santana começa a série tendo um caso com Puck, inclusive parte desse começo é ela disputando a atenção de Puck com Mercedes. Ela também é a primeira pessoa com quem Finn tem uma relação sexual. Mas é também desde cedo que vemos coisas rolando entre ela e Britanny. Inclusive a própria Santana fica com ciúmes de Britanny quando esta começa a namorar Artie. Mas, depois da segunda temporada, principalmente na terceira, quando Santana está ganhando mais espaço, vemos que ela não lida com a sexualidade de forma tão segura quanto parece.

Santana sempre aparentou ser uma personagem segura, com comentários que podiam ser malvados, mas também muito leal aos seus amigos. Não foram poucas as vezes que Santana foi para cima de alguém para defender seus amigos ou algo que ela acreditava. E nós vemos como essa postura toda é abalada quando as pessoas começam a perceber que ela gosta de mulheres, fazendo a personagem perceber que na verdade ela não gosta de homens, ela é lésbica e precisa lidar com isso, não só na escola, mas dentro de casa. Vemos vários episódios dedicados a Santana aceitar quem é, além das pessoas ao seu redor tentando fazê-la se sentir bem e amada, apesar das diferenças.

Desde cedo, somos programados na mentalidade da heterossexualidade compulsória, e com mulheres isso é bem complexo. Boa parte do que a sociedade entende como “ser mulher” é se casar com um homem. Pode parecer tolo e ultrapassado, mas esse pensamento pode aparecer quando menos se espera. “Será que eu já não deveria estar casada com um cara? Será que eu nunca vou encontrar um homem?”. A sociedade cobra isso e é normal que várias mulheres sintam essa cobrança de maneira tão forte, mesmo aquelas que nem se sentem atraídas por homens. Não é incomum que mulheres não heterossexuais descubram que sentem atração por mulheres depois de anos sem entender a própria sexualidade.

🏳️‍🌈 out of context glee 🏳️‍🌈 on Twitter: "🏆 TOP 10 GLEE SHIPS🏆 🥈. Brittany and Santana (24.2%)… "

Então é bom ver uma personagem que sim, teve vários relacionamentos com homens e só depois percebeu que gostava mesmo de mulheres. Mais ainda, percebeu isso porque se apaixonou por uma amiga com quem tinha um caso, mas antes achava que isso não significava nada porque eram “só amigas, amizades femininas são assim mesmo”. Muitas mulheres se sentem atraídas pelas amigas, mas acreditam que isso é só parte da amizade mesmo, que não é “nada demais”. E sim, parte delas podem continuar se considerando héteros e continuam sendo válidas, mas às vezes mulheres que gostam de mulheres, mesmo sentindo essas atrações, demoram a entender que são LGBTQ+. Até mesmo uma mulher tão segura de si, como a Santana.

Além de ser uma das primeiras representações de mulheres lésbicas na TV, Santana também teve seu final feliz ao lado de Britanny, e nós sabemos bem que muitas representações LGBTQ+ famosas insistem no final triste e trágico. Inclusive, de todos os casais, eu diria que Britanna foi um dos que deu mais certo em Glee.

Naya Rivera deu vida a uma das personagens mais significativas de Glee, que lutou por essa representação e marcou tanto a vida de vários adolescentes. Mesmo que hoje, com outro olhar, vejamos que a série não era perfeita na representação, não podemos negar o impacto que o programa teve em vários aspectos, como a representação lésbica de Santana. E isso faz com que a morte dela seja ainda mais dolorosa. Mesmo sendo bissexual e não lésbica, e tendo muitas críticas sobre a bifobia da série, eu também vejo na Santana aspectos que me identifico e, em 2009, não tinha visto nada parecido com essa representação antes.

Só nos resta agradecer à Naya e ao Glee por ter nos proporcionado uma personagem como Santana. Toda a força para a família e os amigos da Naya neste momento.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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