A Darkside Books trouxe para o Brasil o romance Pequenas Realidades, de Tabitha King. O livro de terror foi lançado originalmente em 1981 em inglês. A Darkside mandou para a gente uma cópia maravilhosa da versão em português.

Além de uma crítica, o que eu mais queria falar sobre esse livro depois que eu li é o que causa terror nele. Em Pequenas Realidades, não existe um ser monstruoso que destrói as pessoas, nem uma grande catástrofe, um fantasma ou uma invasão alienígena. O que existem são pessoas e, junto com elas, toda uma carga de complexidade e conflitos. Por mais que o terror trabalhe com o sobrenatural e o impossível, o que até temos em Pequenas Realidades, de uma forma ou de outra, o que realmente assusta aqui é a capacidade de algumas pessoas de fazerem o mal. Mais especificamente, de tirarem a liberdade dos outros.

Essa análise tem alguns spoilers de Pequenas Realidades, mas nenhum sobre o final da história.

Durante a história, vemos a socialite Dolly em seus vários conflitos com outras pessoas ao seu redor, principalmente mulheres. Dolly é uma mulher que sempre teve tudo, principalmente dinheiro e privilégio. Nós também descobrimos cedo que ela tem uma casa de bonecas, com miniaturas, que cuida com muita atenção.

Então, em certo momento da história, ela se encontra com a possibilidade de tornar pessoas reais em miniaturas e colocá-las em sua casa de bonecas. Versões menores delas, mas ainda vivas. O que, considerando outras histórias de terror, pode não parecer tão ruim, mas na verdade é um destino horrível.

Por achar que tem o direito de fazer qualquer coisa e que ninguém pode impedí-la, Dolly acredita que não há nada de errado em tornar uma das pessoas de quem não gosta em uma miniatura em seu mundo idealizado. Ela diminui a pessoa e a torna uma peça em seu mundo controlado, um espaço onde ela tem total controle do que está acontecendo.

E é esse aspecto que se torna cada vez mais assustador, a medida que a narrativa de Pequenas Realidades vai se desenrolando. O terror de perder qualquer autonomia sobre a sua vida, de ser controlado e minimizado, ao ponto de que nada que você faça importa. E o pior: Estar preso nessa realidade da qual não tem como sair. Tudo isso porque uma pessoa achou que tinha o direito de ter poder sob você.

Perder o controle é um elemento usado no terror e outros gêneros de ficção, mas aqui não é uma perda de controle por causa de um demônio ou um fantasma, é um fator muito mais presente na vida dos leitores: Os privilégios e o dinheiro. Por esses fatores, Dolly tira o controle de outros personagens que não tem como lutar contra isso, porque não tem o mesmo poder de Dolly de mudar o tamanho das outras pessoas. Ou seja, não teriam o mesmo privilégio ou poder e, por isso, estão sob a sua mercê.

Em um momento atual do nosso mundo em que, por inúmeros privilégios, pessoas com grande poder se vêem no direito de tirar tudo dos outros, inclusive o controle e autonomia de suas vidas, minimizando-as no processo (mesmo que não literalmente), o terror em Pequenas Realidades é muito palpável. Apesar de acontecer de uma forma mais absurda, essa sensação é mais próxima do terror do leitor do que uma atividade sobrenatural.

Pequenas Realidades não trabalha com a ideia do susto ou de um horror mais corporal, com aquela sensação de nojo. Mas sim com o desconforto, com uma ideia claustrofóbica que vai aumentando a cada página e que deixa o leitor incomodado com as maldades que acontecem dentro da história, com os personagens que são vítimas, de terem o seu controle roubado.

Caso você se interesse por essa história, Pequenas Realidades de Tabitha King está disponível pela Darkside Books!