Muito se falou essa semana sobre as indicações ao Oscar 2020, inclusive nós fizemos um texto sobre o assunto. Mais uma vez, a premiação enche as suas indicações com filmes feitos por homens brancos dentro do padrão, contando história sobre homens brancos dentro do padrão. Não importa se o personagem em questão é muito violento, como ele trata seus temas ou se já vimos a história milhares de vezes, esses filmes sempre dão um jeito de entrar na premiação, ocupando a maioria dos lugares dos indicados.

Sim, sabemos que esse ano Parasita tem um grande destaque, mas eu já discuti no outro texto porque isso não é o suficiente, considerando os outros indicados. Mas a questão desse texto é discutir a relação entre diversidade e qualidade de uma obra, uma questão que sempre acaba voltando quando o assunto sobre a falta de minorias na cultura pop entra em pauta.

O autor de terror Stephen King tweetou sobre o assunto ontem. Eu gostomuito do trabalho do King, mas hoje vou discordar de alguns pontos que ele levantou e explicar por que esse pensamento dele nem sempre é correto.

Você talvez pense “quem é ela para dizer se Stephen King está errado ou não?”, mas ser uma pessoa de sucesso e muito conhecida não nos torna imunes a falar coisas equivocadas, nem que as ideias em questão não possam ser discutidas.

Como escritor, eu posso nomear em apenas três categorias: melhor filme, melhor roteiro adaptado e melhor roteiro original. Para mim, o problema da diversidade — aplicada para atores individuas e diretores, de qualquer forma — não surgiu. Dito isso…

Eu nunca consideraria diversidade uma questão na arte. Apenas qualidade. Parece para mim que fazer de outro jeito seria errado

A coisa mais importante que nós podemos fazer como artistas e pessoas criativas é ter certeza de que todos têm a mesma chance, independente do gênero, cor ou orientação. Agora essas pessoas são mal representadas, e não apenas nas artes.

Você não pode ganhar prêmios se não estiver no jogo

Eu entendo como um homem privilegiado como Stephen King não veja problema no que ele falou, ou como ele até pode entender que está sendo justo com minorias, e artistas de maneira geral, ao encarar a arte dessa forma. Infelizmente, não é bem assim que as coisas funcionam.

Stephen King, apesar de todas as dificuldades em sua história como autor, ainda é um homem dentro do padrão, que parte das pessoas terem dado uma chance para as suas obras é o fato dele ser quem é, no sentido do lugar que ele ocupa na sociedade. Eu não estou dizendo que o trabalho dele não é bom, mas quantas mulheres tão talentosas quanto Stephen King tiveram a mesma chance que ele? Quantos autores negros tiveram o mesmo espaço que foi dado a ele? E os autores LGBTQ+?

Não é surpreendente que ele faça uma distinção muito grande entre a qualidade e a diversidade do trabalho. Muitos homens brancos têm a mesma visão que ele. Mas aí nós entramos em um outro questionamento. O que é qualidade, para esses homens padrão que estão dentro da academia? Porque muitos homens detestaram Capitã Marvel, disseram que era o pior filme do MCU sendo que temos Homem de Ferro 3 nessa lista. Muitos homens brancos olham para filmes que contam histórias de minorias e acham a qualidade ruim, mesmo que ela não seja.

A questão é que é complicado deixarmos todo o “mérito” de qualidade para homens padrão nessas posições de poder, porque eles estão acostumados a se verem em todas as histórias, portanto não sabem se relacionar ou sentir empatia por qualquer outro tipo de história. Nem todo mundo quer admitir isso, mas a verdade é que homens padrão tem dificuldade em gostar e avaliar filmes que não sejam sobre eles. Sim, eu sei que há homens padrão que podem sim ver a qualidade de um filme que não seja sobre eles, mas acho que toda a minoria que trabalha com arte de alguma forma sabe que a experiência geral não é essa. Se esses homens não conseguem ver qualidade em histórias em que eles não sejam protagonistas, como que confiamos no julgamento de um grupo em que eles são a maioria, como os jurados do Oscar?

Não estou botando toda a capacidade de decisão da Academia em cheque aqui, mas não dá para negar que há um padrão de indicações que evitam minorias, ou só as incluam quando elas representam um lugar específico da sociedade e isso é um grande indício de que essa reflexão não é à toa.

Sem contar que o que é, em si, qualidade da arte? Porque mesmo no meio artístico, de profissionais da área, há discussões sobre artes “boas” e “ruins”. É um assunto subjetivo por si só, por isso a “coincidência” de histórias sobre pessoas padrão sempre serem indicadas salta mais aos olhos. Nós podemos usar termos técnicos para avaliar se uma obra de arte é boa ou não, eu por exemplo sempre levo isso em consideração quando faço alguma crítica. Por exemplo, há uma estrutura básica de roteiro que podemos usar para avaliar se uma história faz sentido ou não. Mas arte é mais do que isso, arte é mensagem, é contexto e é política.

Será que uma obra que repete os mesmos padrões de tantas outras não perde a qualidade de alguma forma? Será que uma obra que relativize atitudes de pessoas no poder não deve ter sua qualidade questionada por conta de sua mensagem? Será que uma obra que ignora contexto político, que não leva em consideração sua repercussão, não devia afetar como sua qualidade é vista? Eu não tenho as respostas para essas perguntas, o que eu sei é que ignorar esses questionamentos não ajuda em nada a produção artística.

Nem toda a obra de arte precisa ser um grande manifesto político, mas todas elas são feitas em um contexto histórico que envolve sim política, e que deveria ser avaliado. Não que esses fatores tirem todo o mérito de uma obra, mas arte é mais do que técnica, então por que quando nós indicamos obras para algum prêmio, de repente a questão técnica vira o fato mais importante, ou o único, a ser considerado? A técnica é importante, mas não só.

Homens padrão, por exemplo, que escreveram roteiros que levaram um filme a ser mal recebido pelos fãs, continuam tendo oportunidades incríveis de trabalho. Eu não acho que precise existir um valor de “quem erra nunca mais tem uma chance”, a questão é que mulheres, pessoas negras, LGBTQ+ e outras minorias que cometem os mesmos erros não recebem uma segunda chance.

O que me faz pensar ainda mais sobre a fala de Stephen King sobre todos terem a mesma chance. Eu entendo como a frase dele pode ser interpretada como um apelo para que todas as pessoas tenham uma chance justa, mas no contexto da thread, é como se ele dissesse que aceitar um filme em uma premiação “pela diversidade” seria injusto, porque não daria chances iguais a todos. O problema é que Stephen King está partindo da ótica do lugar que ele ocupa, de uma pessoa padrão que não perde oportunidades por ser quem é. O mundo não dá chances justas para todos, ser parte de uma minoria já te deixa em desvantagem em relação à pessoas consideradas dentro do padrão da sociedade.

Igualdade nesse contexto não é avaliar um filme “sem levar diversidade em consideração”, mas sim agir da melhor forma possível para que todos tenham a mesma chance. Só que, para entender como fazer isso, é essencial que lembremos que nem todos começam com a mesma chance. Se a sociedade já dá para alguns uma desvantagem injusta, “ter certeza” de que está fazendo a coisa certa é tentar, da melhor forma possível (porque uma pessoa sozinha não vai mudar radicalmente o sistema), igualar os espaços para o maior número de pessoas possível.

Eu concordo com o último tweet de Stephen King. Realmente, se você não está no jogo, não tem como ganhar, por isso mesmo que as pessoas que estão no poder precisam fazer o máximo para garantir que tipos diversos de pessoas estejam no jogo. Não tem como minorias vencerem prêmios se elas não tem a chance de serem indicadas, ou de poderem produzir o seu próprio material.

É muito esquisito para mim que as pessoas na área das artes sempre usem a carta da “qualidade técnica” para desmerecer trabalhos de minoria, como se fosse o aspecto mais importante da arte. Como se, como artistas, não entendêssemos que muito da nossa arte vem de entender o mundo ao nosso redor, para produzirmos da melhor possível. E entender o mundo ao nossos redor é entender a diversidade, as diferenças e que o mundo não são só os jurados do Oscar: Em sua maioria homens brancos dentro do padrão.

Pode parecer inútil ter uma conversa sobre o posicionamento de Stephen King e o Oscar sendo um blog brasileiro de cultura pop. Eu nunca espero que essas pessoas tenham qualquer contato com o meu discurso. O Oscar não vai mudar sua forma de escolher os melhores filmes por minha causa, mas talvez algo aconteça se muitas pessoas reclamarem com frequência, não acho que ficar quieto porque “é assim mesmo” ajude muito. Mas, além do Oscar, o que eu espero falando sobre esses assuntos é alcançar pessoas que tenham acesso ao meu conteúdo, alcançar aqueles que talvez concordem com Stephen King, que não entendem o problema na fala dele ou qualquer outra pessoa que esteja disposta a pensar sobre esse assunto.