Na semana passada, uma série de relatos sobre abusos dentro da Wonderstorm foram postados no Twitter por mulheres que já trabalharam lá. Para quem não está familiarizado, a Wonderstorm é o estúdio responsável pela animação da Netflix The Dragon Prince.

Todos os relatos falavam sobre comportamentos abusivos do fundador Aaron Ehasz, que também já trabalhou na produção de Avatar e na Riot Games.

Danika Harrod, que hoje não está mais na Wonderstorm, fez uma thread no Twitter, mostrando uma série de relatos envolvendo o comportamento abusivo de Aaron Ehasz. Para ler a thread completa em inglês, você pode acessar aqui.

Danika começa falando sobre como, ao anunciar o seu novo emprego, comentou da experiência negativa que teve dentro da Wonderstorm. De acordo com ela, um amigo que ela ainda tinha em comum com Aaron curtiu a postagem que ela fez, e esta pessoa foi questionada por alguns ainda envolvidos com a Wonderstorm sobre isso. Por causa dessas e outras, Danika afirmou que tinha medo de falar publicamente sobre o assunto, até a semana passada.

A EXPERIÊNCIA DA LULU FOI MUITO MAIS DOLOROSA QUE A MINHA, MAS TESTEMUNHAR ISSO FOI UM DOS MOTIVOS QUE ME FEZ SAIR DA EMPRESA. MULHERES ERAM SILENCIADAS CONSTANTEMENTE, NÃO ERAM LEVADAS A SÉRIO, NÃO ERAM OUVIDAS E QUANDO ERAM DEMITIDAS, AS PESSOAS FALAVAM BOBAGENS DELAS PELAS COSTAS

De acordo com Danika, quando ela entrou no estúdio, eram quatro mulheres trabalhando lá dentro e três eram LGBTQ+. Porém, mesmo trabalhando em uma animação que fala de temas inclusivos, sempre que elas falavam sobre esses assuntos elas eram desmerecidas e até mesmo tinham que ouvir piadas sobre suas colocações.

Como mencionado antes no texto, Aaron também já trabalhou na Riot. Por causa disso, ele comentava como a experiência de trabalhar na Riot envolvia muito machismo, mas de acordo com Danika, ele tratava as mulheres na Wonderstorm de forma parecida com o que ele supostamente condenava dentro da Riot.

Mesmo falando publicamente sobre o assunto, Danika disse durante a thread de ainda ter medo de ser perseguida por falar sobre isso, mesmo que ela tenha ouvido muitos relatos de comportamento abusivos vindo de Aaron. Trabalhar dentro da Wonderstorm era sempre estar em risco se não concordava com as decisões de Aaron sobre a “animação dele”.

QUANDO EU SAI, EU FALEI SOBRE OS MEUS MOTIVOS, QUE A WONDERSTORM NÃO ERA UM LUGAR SAUDÁVEL PARA MULHERES TRABALHAREM. NO DIA QUE EU SAI, AARON E LULU POSTARAM UM TWEET ESCRITO “OBRIGADA DANIKA” NA CONTA OFICIAL DE THE DRAGON PRINCE, PARA SE APROVEITAREM DE UMA HASHTAG QUE OS FÃS FIZERAM E EU FIQUEI MUITO TRISTE.

A LULU REMOVEU O TWEET E ELA, JUNTO COM O TIME DE ESCRITORES, TIVERAM QUE OUVIR GRITOS POR CONTA DISSO. EU FALEI PARA O AARON QUE ISSO ERA INAPROPRIADO, AINDA MAIS DADO O MOTIVO PELO QUAL EU SAI DA EMPRESA, MAS AS PESSOAS AINDA TIVERAM PROBLEMAS LÁ DENTRO POR ME RESPEITAREM.

Depois que Danika falou sobre a sua experiência na Wonderstorm, Lulu Younes, que é mencionada em seus tweets, também veio a público falar sobre o assunto. De acordo com Lulu, tudo que Danika disse é verdade e que ela ainda falou pouco, que as pessoas não têm ideia do que acontecia lá dentro.

MAS A ANIMAÇÃO, INDEPENDENTE DAS LÁGRIMAS E SANGUE QUE EU COLOQUEI NELA, ESTARÁ SEMPRE ARRUINADA PARA MIM POR CAUSA DA MINHA EXPERIÊNCIA LÁ DENTRO. TRABALHAR LÁ POR TRÊS ANOS FOI A PIOR COISA QUE ACONTECEU PARA A MINHA SAÚDE MENTAL E EMOCIONAL.

Lulu disse que ela ia constantemente ao banheiro para chorar, porque não entendia o que tinha de errado com ela. Dentro do ambiente de trabalho, ela teve que ouvir que era ingrata pela posição que tinha e ela era proibida de falar com outros superiores sobre o assunto.

Antes que alguém ache que isso é exagero, procurem ter empatia e ouvirem mais a experiência de mulheres no mercado de trabalho. Eu, que tive muita sorte nesse aspecto, já lidei e testemunhei situações bem absurdas dentro de empresas, mas quando mais nós ouvimos as mulheres nessas situações, mas entendemos o quanto essas coisas realmente acontecem e como são danosas.

Lulu também disse que foi só quando Danika entrou na empresa que ela entendeu o que estava acontecendo, que não tinha nada de errado com Lulu e ela estava passando por gaslighting.

ERA COMO SE EU FOSSE MAIS UMA PROPRIEDADE DO QUE UMA PESSOA. EU NÃO CONSIGO NEM LISTAR TUDO O QUE ACONTECEU LÁ, PORQUE FOI MUITA COISA. MAS A PIOR PARTE É QUE EU ACHEI QUE ERA TUDO CULPA MINHA. TODO O DIA QUE EU TRABALHAVA LÁ, EU ME ODIAVA MAIS.

Depois que Danika e Lulu se pronunciaram, Diandra Lasrado, que já trabalhou em várias empresas de jogos, inclusive na Riot, fez uma thread falando sobre como foi a sua experiência em trabalhar com Aaron Ehasz. Ela não foi parte da equipe de The Dragon Prince na Wonderstorm, mas a sua experiência faz sentido com os outros relatos que foram feitos antes.

De acordo com Diandra, ela trabalhava na Riot antes de Aaron entrar como seu superior, sem ter qualquer experiência com jogos. Na época em que Aaron chegou na empresa, Diandra era a responsável por ajudá-lo a se adaptar ao meio dos games, já que ele vinha da televisão e do cinema. Mesmo Diandra sendo uma editora e estar lá também para ajudar ele, Aaron a tratava como se ela fosse uma assistente pessoal. Eventualmente, ele chegou a tirar a função de editora de Diandra, mesmo sendo a sua área de experiência, o seu trabalho e o que ela fazia lá antes mesmo dele chegar. Quando Diandra tentava dizer alguma coisa sobre o próprio trabalho, Aaron a ignorava e a desmerecia.

Diandra também falou, no meio da thread, que apesar dos problemas com Aaron, ela passou por outras questões problemáticas dentro da Riot, mas não se alongaria nelas por causa do foco da thread, o que para nós não é novidade nenhuma.

EU AINDA ACHAVA QUE ELE NÃO ERA UM CARA RUIM. ESSA É A COISA DELE. ELE TE ENGANA. ELE FAZ GASLIGHTING COM VOCÊ. ELE FAZ PARECER QUE TUDO QUE VOCÊ ESTÁ PASSANDO É ALGO NORMAL. QUE VOCÊ QUER ACREDITAR QUE SEJA, AFINAL ELE FEZ ALGO QUE VOCÊ AMA.

Diandra também perguntava, o que é direito dela como funcionária, sobre quando ela seria contratada definitivamente. Em certo momento, Aaron pediu para que ela parasse de perguntar e “Nós vamos te contratar”. Para quem não tem os direitos trabalhistas garantidos, e até para quem tem em certos casos, ter a garantia de que vai ser contratado muda tudo, afinal de contas é aquele emprego que te faz pagar as contas e sobreviver.

Uma semana depois, Aaron falou sobre como as coisas na Riot estavam difíceis e, alguns momentos depois, Diandra foi levada até uma sala para dizer que ela não trabalharia mais na empresa, mesmo tendo recebido a confirmação de um superior de que ela iria ser contratada definitivamente. Isso é muito problemático, ainda mais porque antes Aaron estava fazendo a questão ser sobre como era “difícil para ele” e, quando Diandra procurou por um motivo para aquilo ter acontecido, ela não recebeu nenhuma resposta.

Ao invés de dar uma explicação formal no dia da demissão, Diandra disse que Aaron ligou bêbado de Austin, duas semanas depois, dizendo que queria explicar o que tinha acontecido. Mesmo assim, quando Diandra foi encontrá-lo, ele disse que eles poderiam falar disso quando voltassem de Austin e Diandra esperou pela ligação por mais de um mês. Ainda assim, ele enrolou mais por dizer que estava ocupado com trabalho e seus filhos.

ELE ME LIGOU. EU COLOQUEI NO VIVA VOZ COM O MEU MARIDO. QUANDO EU PERGUNTEI O QUE TINHA ACONTECIDO, O GASLIGHTING COMEÇOU.

ELE ME DISSE QUE NÃO TINHA IDEIA DO QUE EU ESTAVA FALANDO. QUE ELE ME DISSE EM AUSTIN QUE AQUELA NÃO TINHA SIDO DECISÃO DELE, MAS ELE NUNCA ME DISSE ISSO.

ELE ME DISSE QUE EU ESTAVA ERRADA E ENGANADA, NEGANDO COISAS QUE ELE TINHA ME FALADO ANTES.

QUANDO EU PEDI PARA ELE POR FAVOR, ME CONTAR O QUE ACONTECEU, LEMBRANDO-O QUE ELE TINHA ME DITO QUE ME EXPLICARIA, ELE DISSE “EU NUNCA FALEI ISSO”. ELE DISSE QUE EU NÃO ESTAVA ME LEMBRANDO DIREITO.

ELE DISSE “EU NÃO ACHO QUE ENTENDER O QUE ACONTECEU VAI TE AJUDAR, MAS EU POSSO TE DAR ALGUNS CONSELHOS”.

“VOCÊ PRECISA SER MENOS. QUEM VOCÊ É, É DEMAIS. VOCÊ PRECISA SER MENOS”.

“EU ACHO QUE ISSO VAI TE AJUDAR A SEGUIR EM FRENTE”.

Como eu falei antes, isso não é tão surpreendente para mim, dado que eu já ouvi relatos de mulheres dizendo que ouviram coisas similares. E basta olhar a nossa sociedade, sempre que uma mulher faz algo que é considerado fora da linha, ela é considerada “demais”, que precisa ser menos, afinal de contas mulheres precisam ocupar o lugar que foi imposto, não é mesmo? (spoiler: não).

Diandra diz que, anos depois, ela perdeu amizades porque algumas pessoas decidiram ficar ao lado de Aaron, já que elas amavam Avatar e o problema era dela. Mas só depois ela descobriu que pessoas que ela conhecia do meio sabiam do que tinha acontecido com ela na Riot, mesmo que a própria Diandra não soubesse direito porque ela não ouviu qualquer explicação.

Mais tarde, Diandra comentou que o marido dela estava procurando emprego e Aaron pediu para falar com ele. Como Diandra achava que era uma conversa sobre trabalho, para o marido dela conseguir um emprego, ela não viu problema em deixar o marido falar com Aaron. Porém, quando Diandra falou com o marido novamente, ela descobriu que Aaron começou a conversa com “Deixe-me falar sobre Diandra para você…”. O que é completamente anti ético e anti profissional, considerando não só que era uma conversa de trabalho, mas também que a pessoa era o marido dela.

Por anos, ao invés de conversar com Diandra e explicar o que tinha acontecido na Riot, ela contou que Aaron apenas a evitou e usava a história para mostrar como ele era um cara bacana, como ficou chateado com a saída dela da Riot e por não poder fazer nada para impedir. Além disso, Aaron não gostava quando Diandra falava com os amigos dela sobre estar triste com tudo e começou a espalhar que ela era horrível e que tinha medo dela.

Depois de todos esses relatos, muitas pessoas consideraram boicotar The Dragon Prince, já que não só um dos criadores é abusivo com as funcionárias, mas também porque a própria atitude dele com a comunidade não foi das melhores. Quanto a isso, Danika falou que preferia que a animação não sofresse boicote, porque ela gostaria que Aaron mudasse. Segundo ela, um boicote afetaria muito mais os funcionários do que os cabeças, como Aaron, e homens privilegiados como ele sempre terão espaço no mercado.

Depois de tudo isso, Aaron postou em suas redes sociais sobre o acontecido.

Demorou para que eu respondesse, mas eu precisava de alguns dias para organizar os meus pensamentos.

Uma das coisas mais maravilhosas em The Dragon Prince tem sido os sentimentos nessa comunidade: compaixão, gentileza e otimismo. Os membros dessa comunidade realmente amam e apoiam uns aos outros. Eu espero que todo mundo na comunidade continue buscando forças uns nos outros.

Nos últimos dias, algumas alegações infundadas apareceram. Apesar de eu não ser perfeito, essas alegações estão distorcidas e exageradas. Muitos de vocês me conhecem e sabem que elas não me representam e nem o que a Wonderstorm é.

Eu aprecio demais perspectivas e representações diversas, o que espero que seja evidente nos meus anos de trabalho. The Dragon Prince representa as visões e perspectivas de muitos escritores, atores e artistas. Os projetos futuros que estamos desenvolvendo na Wonderstorm estão aliados a e apoiando vozes brilhantes – incluindo projetos que são liderados por mulheres, de diferentes etnias e LGBTQ+.

Wonderstorm é uma start-up e nós a estamos construindo juntos. Quando alguém se junta a nós, esperamos que seja uma carreira longa onde as pessoas possam triunfar, serem felizes e fazer o melhor trabalho da vida deles, trabalhos significativos que impactam a vida das pessoas. Quando alguém vai embora por qualquer motivo, eu respeito limites e confidencialidade, e eu sinceramente espero que elas encontrem sucesso e felicidade onde quer que vão.

Por favor, continuem mantendo a comunidade de The Dragon Prince incrível, não importa o que vocês acreditam sobre a situação. A bondade incondicional que é manifestada na comunidade é real e verdadeira.

Bom, e agora, depois de tudo isso?

Eu, pessoalmente, fico muito chateada com isso. Avatar é a minha animação favorita e eu amo The Dragon Prince, antes de ler essas threads eu estava contando os dias para a terceira temporada. Mas agora é difícil pensar na animação sem me lembrar do que essas mulheres falaram. A verdade é que, segundo os relatos, as atitudes de Aaron e as mensagens que ele passa em suas animações são completamente diferentes. Todos esses comportamentos tóxicos são combatidos em Avatar e em The Dragon Prince. E como se escreve uma animação com temáticas de inclusão, com personagens mulheres e LGBTQ+, desrespeitando os funcionários que fazem parte desses grupos?

Mas fico ainda mais chateada de ver que sim, minorias ainda precisam passar por essas coisas na mão de pessoas privilegiadas e, no final das contas, nada acontece. Aaron provavelmente não vai perder seu espaço, essas mulheres precisam se reerguer de tantos abusos e isso acontece em muitos outros lugares. Além de todo o estrago que isso causa em uma pessoa, é horrível também ver como as mulheres têm medo de falar e de denunciar essas coisas. O medo não é infundado, fazer uma denúncia dessas e ir contra alguém em posição de poder pode te queimar no mercado e, para minorias, isso é muito mais complicado.

Talvez Aaron não tenha tanta noção do que ele faz, e eu não digo isso tentando defendê-lo de forma alguma. Quero falar nisso porque, apesar de parecer contraditório para alguns, me parece muito comum que um homem que se diga aliado, que escreva obras inclusivas, na vida real seja algo diferente. Porque ser um aliado e trabalhar por inclusão não é só o que a gente busca mostrar, mas também o que a gente é. Não foram poucas as vezes que vi homens que se diziam aliados de minorias cometerem os mesmos erros que supostamente condenam. Pode ser sim falta de caráter, mas pode também ser porque o trabalho interno exige muito mais do que a máscara que vai ser mostrada para os outros. Novamente, não estou passando pano, é só para filosofarmos que esses abusos podem vir de todos os lados, infelizmente.

Eu ainda não sei o que farei quanto a próxima temporada de The Dragon Prince. Eu entendo o ponto de Danika sobre não boicotar, e a verdade é que eu gosto e quero muito ver a animação, então talvez ainda assim assista. Mas, independente do que Danika ou qualquer outra pessoa diga, acho que cabe para cada um decidir o que vai fazer quanto a assistir The Dragon Prince ou não.