Eu vou ser sincera com vocês, eu adoro o Keanu Reeves. Desde a década de 90, desde Velocidade Máxima (eu era uma criança apaixonada por duas coisas: filmes de ação e Sandra Bullock). Então saber que, em 2019, ele também estaria em um jogo seria maravilhoso – se esse jogo não fosse CyberPunk 2077.

Eu também adoro cyberpunk, acho que é um gênero que amplia o modo como a gente vê o futuro e pode nos ajudar a pensar como as coisas podem ser ruins – ou não. Tudo depende da nossa escolha. Mas CyberPunk 2077 vem trazendo tudo aquilo que eu mais tenho preguiça no gênero: O mais do mesmo. O jogo pode ter uma jogabilidade incrível, pode ter um universo rico de histórias, mas… Quais são essas histórias? Até agora, tudo que eu vi de cyberpunk sentiu apenas como genérico.

Tem neon e é visualmente bonito. Tem implantes mecânicos, tem armas, tem carros voadores e tem um futuro visivelmente zoado. Mas cyberpunk é mais do que isso, precisa ser. E em 2019 um jogo oferecer só isso, e o Keanu Reeves, é simplesmente pouco.

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Eu sei que o jogo não saiu ainda, mas tudo que foi apresentado até aqui, inclusive esse último trailer da E3, não me deixa ter muitas esperanças por ele. E o cyberpunk é um gênero que precisa ser desafiador e contestador. Ficção Científica de maneira geral é um gênero que traz questionamento sobre o presente, o passado e o futuro. Ela existe para que a gente pense sobre a natureza humana e as histórias que nós contamos ao longo do tempo – mas de uma maneira diferente e mais livre das amarras do tempo presente.

Quero muito acreditar que Cyberpunk 2077 vai trazer questionamentos sociais que fazem sentido hoje, como quem são os responsáveis pelo mundo estar no limite como ele parece estar, questões sociais que estejam relacionadas a gênero, etnia e, por que não, imigração. Temas que trariam um novo tipo de discussão para um dos gêneros mais políticos da ficção científica. E se você acha que cyberpunk não tem nada a ver com política e sociedade, você precisa ler e assistir tudo que consumiu até agora de novo.

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Um dos meus problemas com este último trailer, e que me faz pensar que isso é uma reflexo do que vamos encontrar nesse universo, é a dinâmica racial. O protagonista é um homem branco, aparentemente heterossexual e cisgênero (não tenho como confirmar, mas seria uma surpresa se ele não fosse o homem branco padrão). Ele chega até o encontro com um personagem negro que é obviamente codificado como gangster. Assim que sai do banheiro, onde foi lavar o sangue do amigo morto, ele é atacado. Personagens negros que estão à margem da lei e não são confiáveis. Então, ele mata esses personagens, um deles é uma mulher negra em um spandex decotado – hipersexualização da mulher negra – de maneira violenta. Eu sei que é um jogo de ação violento, eu sei que o cyberpunk como gênero é repleto de pessoas à margem da lei, inclusive seus protagonistas. Mas é a escolha dessa cena, desse protagonista e desses antagonistas que me faz enxergar uma fetichização que ao invés de discutir algo, só serve de alimento para um ciclo violento de racismo e misoginia.

Atualização: Me informaram no twitter que você vai ter opções de gênero dentro do jogo na construção da sua personagem, e que isso vai também servir para etnias e fenótipo desses personagens. O que eu achei ótimo e me deixou com um pouco mais de esperanças no jogo! Mas, como eu vou repetir mais tarde neste texto, essa esperança continua fraca porque não é só a cor da pele ou o gênero do personagem, é sobre as histórias que você conta e como elas são contadas. Porque as experiências e a história mesmo, no sentido de tempo decorrido, de diferentes etnias e gêneros também são diferentes daqueles que não são homens brancos, cis, heterossexuais. E eu tenho muito pouca fé de que o estúdio vai conseguir entregar algo assim. Mas eu quero estar errada. 

Esse vácuo que eu sinto que vai acompanhar o jogo é algo que eu sinto de grandes produções de cyberpunk recentes. Em especial na série da Netflix Altered Carbon. Ao escolher viver em um futuro pós-racial (onde questões de raça já foram resolvidas), e em momento nenhum questionar se essa pós-racialidade é de fato real, a série acabou utilizando personagens não-brancos como pano de fundo, sempre encaixados dentro de estereótipos e que, pra completar tudo, colocou o protagonista (que originalmente é um homem de ascendência asiática) dentro de um homem branco. Honestamente, se o mundo é esse paraíso pós-racial que eles sugerem, era mais fácil só ter feito o protagonista branco desde o começo. Ia ser menos pior. O mesmo pode ser dito da adaptação Hollywoodiana de Ghost in The Shell.

Blade Runner 2049 é outra obra audiovisual de cyberpunk que parece esquecer que se passaram mais de 40 anos desde que o gênero foi criado. As personagens femininas estão sempre presas à papéis hipersexualizados, o corpo feminino é utilizado como decoração neon e o filme faz um giro imenso para contar a história de uma personagem feminina – mas sob o olhar de um personagem masculino. Se havia ali uma tentativa de discutir como o homem sente que é o centro do mundo, mesmo quando ele não é, a quantidade de hipersexualização feminina apaga essa discussão. E, honestamente, eu acho que isso sou eu tentando ver algo a mais em um filme que entrega muito pouco além de uma fotografia bonita.

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Cyberpunk, como gênero, possui um forte olhar orientalista. Ele absorve temas e símbolos ligados à culturas asiáticas, em especial a japonesa, para esvaziá-los em um ambiente hostil à tudo aquilo que não é branco e masculino. A imagem da mulher asiática é, inclusive, constantemente sexualizada e exotizada para o deleite do olhar masculino branco. Mas é muito mais do que só uma imagem bonita sem conteúdo. Essa thread no Twitter mostra como há também muita xenofobia dentro dessa característica do gênero:

Vendo essa corrente de histórias contando narrativas de cyberpunk que vem sendo lançadas ao longo dos últimos anos, com a dinâmica racial que o último trailer de Cyberpunk 2077 trouxe, juntando o fato de que é da mesma empresa de The Witcher… Eu não tenho nem um pouco de esperança de que Cyberpunk 2077 vá trazer um olhar novo para um gênero que, por essência, deveria ser inovador e contestador.

Eu quero muito estar errada, mas honestamente eu acho que não vou estar. Eu queria muito um jogo cyberpunk de mundo aberto que me permitisse jogar e viver uma experiência tão diversa quanto esse gênero supostamente deveria permitir. Mas, pelo jeito, vou ter que esperar mais uns anos até isso acontecer.