Coringa chegou aos cinemas nacionais no dia três de outubro, mas muito antes disso ele já vinha causando discussões acaloradas nas redes sociais e entre os críticos de cinema. Isso se deu por causa do medo de muitas pessoas de que ele criasse uma nova onda de violência e, mais recentemente, por que o diretor do filme parece não entender nem as críticas nem os medos das pessoas. 

Veja bem, Coringa é um filme que, do ponto narrativo, não é mal construído. Você não se perde ao acompanhar a história de toda a tragédia que acontece na vida de Arthur Fletcher. Do ponto de construção estrutural da história, ele é um filme bem feito. O problema é que uma história não é só sobre acertar pontos de virada e fugir de “buracos de roteiro” (eu odeio esse termo). Porque mesmo quando você acha que a sua história não é política, ela é. Porque a arte sempre – SEMPRE – é política. 

Eu ia escrever um único e imenso texto sobre o filme, mas a real é que eu estou sem tempo para isso agora, então vou liberar pelo menos dois ou três textos falando tudo que eu quero discutir sobre o filme. Se você tiver paciência, fica esperto para as próximas partes. 

Mas antes de começar a falar sobre Coringa, tem a resposta pra uma pergunta que precisa ser respondida. 

Filmes e videogames são responsáveis por causar violência? 

A resposta rápida é não. Aprofundando um pouco mais: não existe hoje um estudo que comprove uma relação direta entre videogames e violência no mundo real. Ou seja, um cara não entra no cinema e atira em uma multidão porque assistiu um filme ou jogou um jogo. Se ao menos o mundo real fosse tão simples assim…

O que faz com que pessoas cometam atos de violência costuma ser uma junção de diversos fatores, muitas vezes fatores que são consequências da maneira como a nossa sociedade trata ou ignora essas pessoas. Não é aquele UM jogo, aqueles 3 JOGOS que ele jogou. Nem os 2 ou 20 filmes que ele assistiu. 

Mas jogos e filmes fazem parte de uma indústria que sim, há séculos, é utilizada para moldar a sociedade e que também é, e já foi, usada para validar comportamentos violentos e preconceituosos. Vale lembrar também que, tanto jogos como filmes, possuem classificações indicativas que, em último caso, quando estão fora do circuito do cinema e já na casa do espectador, cabe aos pais e responsáveis fazer valer ou, ao menos, conversar sobre o conteúdo daquele produto cultural. 

Então não. O meu receio com Coringa nada tinha a ver com eu achar que João, 18 anos, branco e classe média, vai sair do cinema, comprar uma arma e atirar na primeira pessoa que ele vir. Tinha, e tem a ver, com COMO essa história seria contada e o tipo de valor e cultura que ela poderia acabar reforçando. 

Os spoilers começam agora. 

Tudo é Político, até mesmo o Coringa

Arthur Fletcher é um palhaço sem sorte nenhuma, vivendo em uma cidade que existe para sabotar a vida de todos os moradores, preso em uma vida que está longe de ser a ideal. Ele faz trabalhos que pagam pouco e não entregam muita satisfação também, sonha em ser comediante stand-up, mas não é bom em comunicar-se com os outros, possui uma mãe idosa, adoentada e que depende dele para tudo. Ele apanha por ser palhaço, ele sofre por não ter dinheiro e riem dele em rede nacional por ele tentar ser comediante stand-up. Não é fácil ser Arthur Fletcher, especialmente porque ele possui um transtorno psicológico que o filme não especifica, mas que parece fazer com que ele caia em crises de riso nos momentos menos adequados. 

O sofrimento de Arthur é palpável, mesmo que o desespero do diretor por dar um clima artsy para o filme me tenha feito revirar os olhos em alguns momentos. Acho que não existe uma alma viva que não entenda que a vida de Arthur é difícil. Os primeiros cinco minutos do filme deixam isso muito claro. E é difícil não sentir por ele, porque o humano é sim sentir. 

O problema do filme é que ele não entende que Arthur, assim como o diretor e roteirista, é também político. O filme quer tanto que você entenda que ele não é político que, mais para frente e durante o clímax da história, o Coringa fala “eu não sou político”. A experiência de Arthur não é uma experiência universal, ele está sim dentro de um contexto e a escolha dos anos 70 para a ambientação do filme deixa isso ainda mais claro.

No filme, Arthur assassina três homens jovens que trabalhavam para a Wayne Investimento. É um crime que começa como reação à uma agressão, mas que se torna procura por satisfação. A morte é registrada pela população como justiça, já que esses três jovens brancos representavam uma elite que parece pouco preocupada com a decadência de Gotham, ou em como essa decadência afeta a população mais pobre. Sem ainda ter um nome, mas já tendo o rosto de palhaço como marca, Arthur inadvertidamente se torna um símbolo dessa insatisfação e raiva da população mais pobre. 

Mas, ao invés de discutir esse sentimento de revolta que leva a população a ver um assassinato como um ato de justiça, ele simplifica o discurso de uma maneira desonesta e perigosa. “Morte aos ricos”, dizem alguns cartazes da multidão em Gotham. “Você está recebendo o que merece”, diz o ladrão que assassina Thomas Wayne no meio da revolta que o Coringa inspirou. 

Nós temos um homem branco, isolado socialmente, em um emprego que não lhe valida financeira nem emocionalmente dentro de uma sociedade, no caso Gotham, que está em colapso.  Antes de fazer uma relação com o mundo atual, eu quero levantar a questão de que os EUA dos anos 60-70 era um país onde manifestações sociais contra o sistema de poder eram constantes. A luta pelos direitos civis, liderados por grupos de militância negra, era muito forte. É impossível não fazer uma relação entre as manifestações do filme e o que acontecia naquela época. Mas a relação está apenas aí, porque o filme esvazia qualquer discurso social das suas revoltas ao classificá-las apenas como “morte aos ricos”. 

O filme parece acreditar piamente que todos nós estamos à um passo de nos tornarmos um psicopata. E, ao reduzir revolta social à um desejo assassino, o filme se torna o alimento perfeito para extremistas da direita, porque não tem nada que eles gostem mais do que classificar luta social como violência, deslegitimar as questões e ainda se posicionarem como vítimas. Pobre dos ricos, que não fizeram nada e ainda assim são odiados.

Isso fica especialmente bizarro porque o Coringa também tenta apresentar Thomas Wayne como um vilão caricatural. Nessa versão, o pai de Bruce é um empresário sem escrúpulos que acredita na meritocracia (não que eu ache que o filme consegue entender o que é meritocracia) e que diz em rede nacional que o pobre que odeia rico é palhaço, porque inveja aqueles que conseguiram ir mais longe que eles. Wayne, e o filme ao mesmo tempo, diminuem sofrimento e revolta à inveja. 

Esse desequilíbrio de ideias é algo constante no Filme. Coringa parece ter sido escrito por aquele cara que adora dizer que “não é político”, mas que sempre faz uma “crítica social fodona” usando conhecimentos que ele aprendeu em um grupo qualquer de Facebook. E não, não é o esquerdomacho que acha que pode falar sobre feminismo porque leu uma thread no Twitter, é o cara de direita que finge ser de centro e que, no fim, apoia uma porção de preconceitos e conceitos conservadores.

O que mais falta em Coringa é a habilidade de conseguir colocar na tela aquilo que ele realmente quer falar. Eu não acho que esse discurso tenha necessariamente saído da mente sórdida de um Gargamel, não. Mas acho que a irresponsabilidade com que essas idéias são colocadas na narrativa acaba deixando o filme uma bagunça perigosa de temas. 

Agora, pegando os temas e as situações do filme e trazendo eles para o contexto dentro do qual o filme existe, 2019, há muito a ser discutido sobre a cultura se os valores que ele representa é valida. Porque é preciso lembrar que nenhuma produção cultural existe dentro de uma bolha, em especial um filme que tem o alcance de um filme de super-heróis. 

Talvez não tão intensamente quanto na década de 70, mas os Estados Unidos estão também passando por um momento de revolta social. A morte de diversos homens e mulheres negras pelas mãos de uma polícia aparelhada por um sistema opressor e racista causou uma série de levantes populares nos últimos anos. Discussões que colocam em evidência as diferenças econômicas e sociais que um sistema construído para favorecer uns e matar outros causa. E isso gera um desconforto imenso na elite branca, porque ninguém quer admitir que faz parte do sistema – nem o filme. 

Nem tudo que brilha é anarquismo.

Escondido por trás de um verniz anarquista e revolucionário estão ideias não só conservadoras, mas racistas. Não é que homens brancos não sofram com o sistema, claro que sofrem, em especial os mais pobres, como Arthur. Mas é engraçado ver como o filme decide deixar de lado todo o conteúdo fantástico de filmes de super-heróis para dar espaço à uma construção mais realista do vilão, mas também deixa de lado elementos fundamentais se você quer realmente fazer uma crítica ao sistema. Como, por exemplo, questões que envolvem racismo e machismo. 

O sistema do filme enxerga todos com o mesmo peso. Não existe nenhuma intenção de realmente questionar o modo como o sistema trata diferentes uns e outros. Um filme que quer ser um comentário sobre o mundo real, mas convenientemente não faz questão de realmente olhar para esse mundo, sem ir além da visão privilegiada masculina e branca de quem criou Coringa