A cerimônia do 90º Oscar deu o que falar no último domingo. Vimos vários discursos pela representatividade, inclusive um vídeo com profissionais da área produzido especialmente para isso. Também vimos, infelizmente, a academia escolher algumas opções bem seguras para premiar. Não que os vencedores não sejam merecedores, mas algumas categorias podiam ter tido outros vencedores.

Há toda uma discussão sobre o ganhador do melhor filme, A Forma da Água. Todo mundo sabe que ele era o meu queridinho e que, em um nível pessoal, mais agradava o meu gosto. Eu sou fã de fantasia e ficção científica, o último filme assim que levou o prêmio foi Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, e isso já faz mais de dez anos.

A verdade é que, se eu pudesse escolher o vencedor, o prêmio teria ido para Corra!. Por mais que A Forma da Água entre mais nos meus gostos pessoais, Corra! também estava entre meus preferidos, porque é um filme excelente e com muitas mensagens relevantes. Não é à toa que o filme levou o prêmio de melhor roteiro original. Mas não é só por isso. Acredito sim que teria sido muito importante, no contexto atual, ver um filme como Corra! vencer, e com certeza seria merecido.

Dito tudo isso, eu também acredito que A Forma da Água foi uma boa escolha. Talvez você esteja lendo isso e pensando que não importa a mensagem, o que o filme quer passar politicamente ou o contexto em que esses filmes estão sendo vistos. Talvez você ache que o que importa é a execução técnica, o filme ser uma grande produção e entreter com isso. Obviamente essas coisas são sim importantes, mas acreditar que isso é o único motivo pelo qual um filme recebe um prêmio é um pouco inocente.

Cinema é uma forma de arte, portanto, quando criticada e avaliada, é preciso levar em consideração o contexto político e socioeconômico em que ele está inserido. Filmes com mensagens importantes serem premiados causa um impacto, querendo ou não. Considerando que foi um ano em que falaram tanto de diversidade, isso é muito importante.

A Forma da Água é uma história que fala muito. O grande foco dela é uma mensagem de amor, empatia e a busca por entender o outro diferente de você. Agora, mais do que nunca, nós precisamos dessa mensagem disseminada, porque estamos em tempos de ódio. Tempos em que o que é considerado diferente é punido de inúmeras formas só por existir. Os homens que capturaram o Homem-Anfíbio o trataram como uma coisa, maltratando e até o torturando. As pessoas que se deram ao trabalho de entender a criatura tiveram uma relação completamente diferente.

Não é só em relação ao Homem-Anfíbio que o filme trata de preconceito. Zelda, Giles e Elisa sofrem preconceito por serem minorias, mas eles são os heróis da história. As pessoas que agem com preconceito são mostradas com vilãs, a narrativa nunca tenta redimir esses personagens. Mesmo no livro, que entendemos mais a cabeça de Strickland, a história continua não perdoando suas atitudes.

Eu adoro que o vilão de A Forma da Água é o cara dentro do padrão, que exala masculinidade tóxica. Todos os padrões que ele segue são coisas ensinadas para homens, como ser forte, durão, não mostrar fraqueza e como sua atitude grosseira é um símbolo da sua masculinidade. Muitos filmes romantizam essa imagem, ou até mostram que homens são assim porque nunca foram “amados o suficiente” ou “não sabem agir de outra forma”. Strickland não, ele é um vilão complexo, mas não é perdoado por suas atitudes.

Os personagens que fazem parte de minorias têm a chance de serem mais que um estereótipo. Eu gostaria muito que Giles e Zelda tivessem mais espaço para se desenvolver, acho que isso é um ponto em que o filme ficou faltando, sem contar que podiam ter escolhido uma atriz muda para fazer Elisa. Mas, mesmo com alguns problemas, eu acredito que a mensagem maior do filme seja positiva.

A questão do preconceito, de respeitar as pessoas ao seu redor, incluindo as diferentes de você, é a grande temática da história. Isso não fica em segundo plano, apenas vai aparecendo na narrativa de inúmeras formas diferentes. A Forma da Água se foca no romance, mas também existe espaço para ir mostrando mais lados desse mundo que, muito igual ao nosso, poderia aprender a ter mais empatia também.

Não tem nenhum problema se você não gostou do filme, se torcia para outro e ficou chateado. Como eu disse, eu daria o prêmio para Corra! e adorei Ladybird. Por mais que nos Estados Unidos o Guillermo del Toro não seja lido como branco, teria sido incrível ver Jordan Peele ou Greta Gerwig levar o prêmio de melhor diretor. Eu espero que o Oscar aprenda com seus próprios discursos. Ainda há muito a ser feito.

Mas, por enquanto, mesmo sabendo que os resultados podiam ser melhores, eu consigo ficar feliz com a premiação de A Forma da Água, porque é um filme que precisamos hoje.

PS: Eu vou comentar, porque eu sei que alguém vai. Não consegui ainda ler por completo a acusação de plágio, por isso não a mencionei. Como eu e a Rebeca falamos durante a última live do Nebulla no nosso canal, não acreditamos que Del Toro copiou a história conscientemente, por mais que entendamos que há base para as acusações.