Eu vi no twitter uma thread falando sobre histórias diversas, o peso e a cobrança que colocamos em cima delas e de criadores que fazem parte de minorias. Isso me fez pensar sobre algumas coisas que já estavam na minha cabeça, esse texto é uma forma de fazer uma reflexão sobre esses pensamentos.

Um dia nós vamos falar sobre como criadores e histórias diversas são cobradas por padrões impossíveis, não apenas por pessoas brancas, mas também pela sua própria comunidade que só estão dispostos a aceitar histórias que preenchem todos os requisitos de “boa representação”.

E como, mesmo vindo de boas intenções, histórias diversas são constantemente vilanizadas, especialmente aquelas que recebem aclamação do público geral, porque por não preencherem todos os requisitos essas histórias não valem o risco, porque nunca ficaríamos satisfeitos.

E como ao invés de produzir mais conteúdo, criadores, especialmente racializados, são forçados a perder muito tempo prevendo como o nosso trabalho vai ser visto. Porque apenas um elemento que as pessoas discordam será o suficiente para as pessoas desmerecerem todo o trabalho.

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Isso me fez pensar sobre como consumimos histórias que consideramos “fora do padrão”, e como encaramos artistas que também não estão no padrão e suas obras.

Acho que o primeiro pensamento que vem a cabeça é como histórias com personagens diversos são mais cobradas por uma excelência que outras obras não são. Um exemplo fácil de entender como isso acontece são os filmes do MCU. Enquanto filmes com protagonistas fora do padrão “homem branco” são cobrados da perfeição, filmes medianos com os heróis de sempre podem se contentar em ser apenas divertidos.

Doutor Estranho e Homem Formiga são filmes que podem ser considerados medianos. Por mais divertidos que sejam, eles não são filmes excelentes, ainda assim não há grandes problemas de aceitação com os fãs. Já Capitã Marvel e Pantera Negra, que estão facilmente entre os melhores filmes do MCU, são cobrados a cada detalhe. Qualquer ponto da história é levantado e debatido, como se fosse um grande erro e invalidasse todo o filme. Por que os heróis homens brancos podem ter filmes apenas “divertidos” enquanto outros heróis precisam fazer o melhor filme de todos para serem aceitos?

Bem, nós sabemos o porquê. É porque as pessoas vêm que as minorias nem deveria estar lá, sendo protagonista e tendo destaque. Então se estão lá, elas precisam ser perfeitas. Obviamente isso é algo que não faz qualquer sentido. Mesmo que Capitã Marvel ou Pantera Negra fossem ruins, e não são, isso não desmereceria a possibilidade de haver outros filmes com heróis fora do padrão. Até porque se fosse assim, herói homem branco tinha que ser tirado dos filmes há tempos.

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Mas isso não se resume a filmes, e nem a esse tipo de recorte, infelizmente. Uma coisa que esse tweet me fez pensar sobre foram alguns comentários que vi sobre o final de She-Ra e as Princesas do Poder (spoilers do final da temporada). A maioria dos comentários foram positivos e muito amorzinho, mas eu vi algumas pessoas falando que o final Adora e Felina juntas não era bom, porque elas tiveram vários conflitos ao longo da história.

Talvez eu não seja a melhor pessoa para falar sobre casais  que começam brigando, porque esse é o meu tipo de ship, mas como uma consumidora e escritora LGBTQ+, eu sinto um incômodo ainda maior com esse tipo de comentário. Eu acho completamente válido as pessoas não gostarem de um ship, e inclusive é super normal pessoas quererem debater o ship. O que me incomoda é que já temos pouquíssimas representações LGBTQ+ na cultura pop, e se as poucas que temos fogem da “perfeição”, elas são desconsideradas.

É importante falar: Isso não quer dizer que não devemos criticar representações que achamos danosas, como histórias de casais LGBTQ+ que perpetuam ideias preconceituosa ou de “sempre final ruim”. Mas a questão em Felidora é que elas não tiveram sempre um relacionamento perfeito. A própria Noelle Stevenson falou que ela queria usar a relação das personagens para explorar as complexidades de relacionamentos entre mulheres, porque nem sempre é tudo flores.

E eu queria que nós tivéssemos mais espaço de falar sobre essas complexidades. Eu entendo parte das minorias que buscam exemplos “perfeitos” que evitem críticas, assim ninguém poderia reclamar, mas eu acho que parte de uma representação boa de maneira geral é ter inúmeras representações diferentes de minorias. É ter minorias criando vários tipos de histórias, mesmo que elas não sejam todas confortáveis ou perfeitas, porque não se cobra isso de pessoas dentro do padrão.

Dragon Age Inquisition DLC Invasor O Reencontro de Solas - YouTube

Outro exemplo que sempre vem na minha cabeça quando eu penso sobre isso é o Solas em Dragon Age (spoilers do final de Dragon Age: Inquisition). O personagem é um romance heterossexual do jogo, mas quando eu joguei como um personagem masculino eu sempre achei que tinha um clima rolando entre ele e Solas. Eu sei que eu shipo tudo, mas o escritor do jogo Patrick Weekes realmente confirmou que ele pensou em fazer Solas ser bissexual, mas que não o fez com medo de perpetuar o estereótipo do “vilão bissexual”. Eu entendo e aprecio a preocupação de Weekes, porque de fato, o personagem infelizmente poderia ser lido dessa forma. Ao mesmo tempo, eu queria muito ver um personagem complexo e controverso como Solas sendo LGBTQ+, porque sendo da comunidade, eu quero ver todos os tipos de personagem me representando. Não só estereótipos mal feitos, nem apenas bonzinhos, eu quero personagens complexos e difíceis, eu quero minorias em todos os papéis.

Ao mesmo tempo, eu entendo e concordo que a maioria das minorias é representada com uma visão preconceituosa, então escritores que fazem parte de minorias querem colocar personagens que os representam como heróis, eu mesma já fiz isso inúmeras vezes e é válido. Mas eu entendo a vontade de Noelle Stevenson, que faz parte de minorias, de explorar uma relação LGBTQ+ que não é perfeita, entre uma heroína e uma vilã. Se as pessoas dentro do padrão podem, por que os outros não podem também?

Eu acho que é algo essencial para um criador de histórias pensar nas mensagens que sua obra vai passar para o público. Eu acho sim que isso precisa ser parte da preocupação, mas eu também sei que é impossível prever tudo que alguém vai ler na sua obra. Dessa forma, eu acredito que artistas que fazem parte de minorias se sintam menos livres de criar, tanto por não serem levados a sério e as dificuldades gerais no mercado, mas por medo de não darem a representação que os outros esperam.

Histórias que abordam minorias e artistas que fazem parte de minorias continuam sendo avaliados pela ótica da perfeição, e isso resulta em problemas nessa área. Sim, todos os artistas precisam tomar cuidado com a mensagem que passam, mas minorias são sempre cobradas em uma medida muito maior e seus trabalhos são deslegitimados por muito pouco.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, blogueira e freelancer. Determination ♡

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