Obrigada Nino Xavier pela revisão e a ajuda <3

Pathfinder 2e trouxe algumas novidades para o sistema, incluindo as ancestralidades dos personagens. Não é de hoje que as pessoas debatem sobre como as raças em RPGs de fantasia podem perpetuar estereótipos racistas, mas apenas de uns tempos para cá que grandes sistemas de RPG do gênero começaram a questionar e reavaliar esses aspectos em seus próprios universos.

Por mais que RPGs menores e indies já tenham outras maneiras de lidar com esses assuntos, é importante que grandes jogos dêem espaço para esse debate. Pathfinder é um dos maiores sistemas de RPG que temos atualmente, principalmente quando consideramos em fantasia medieval.

Pensando nos debates do cenário atual de RPG, Pathfinder trouxe as ancestralidades para ficarem no lugar das raças, oferecendo novos elementos e oportunidades de criação de personagens. Após uma leitura do livro, principalmente dessa parte do sistema, tenho algumas considerações a fazer. 

Antes, uma pequena introdução do que são essas ancestralidades de acordo com o Pathfinder 2e:

Ancestralidades expressam a cultura de origem de seu personagem. Muitas ancestralidades possuem heranças — subgrupos com suas próprias características diferentes. Uma ancestralidade fornece melhorias de atributo (e talvez defeitos de atributo), Pontos de Vida, talentos de ancestralidade e às vezes habilidades adicionais.

A primeira coisa a me chamar a atenção são as imagens do livro. Parte dos estereótipos construídos ao redor de certos personagens de RPG acontecem por conta das ilustrações. É muito comum vermos a parte “Raças: Humano” ser exemplificada por uma pessoa branca. As ilustrações de Pathfinder 2e são bem inclusivas e bem feitas.

Eu ainda tenho alguns problemas sobre como bônus e desvantagens são dados às raças, que é uma coisa que as ancestralidades mantém. Eu entendo que, de um ponto de vista de game design, faz sentido que suas escolhas afetem a ficha de personagem. Mas muitas dessas habilidades perpetuam ideias que são datadas e baseadas em codificações racistas, como o clássico anão resistente que é chato. Dito isso, alguns aspectos dentro de ancestralidade, como talentos de ancestralidade e heranças, oferecem mais opções na construção de personagem. 

O livro deixa bem explícito em vários momentos que os aspectos das ancestralidades são sugestões, e não que isso deve ser seguido sempre, tirando a agência do jogador e do mestre. O que é sempre bom, pois para alguns jogadores isso pode ser óbvio — mas não é todo mundo que vai ter essa leitura, ainda mais se for alguém iniciante. 

Ainda há elementos no texto que eu, particularmente, não incluiria, como dar a ideia de que gnomos são uma raça de trapaceiros. Porém, não dá para negar que o texto de Pathfinder 2e dá a entender que esses traços das ancestralidades não são porque os personagens “nasceram assim” e sim porque foram “ensinados assim”. É óbvio que isso também pode ser usado de maneira racista, mas é diferente de “drows são maus porque nasceram assim”.

Uma coisa que eu gostei muito foi a parte sobre personagens que tem mais de uma ancestralidade, como meio-elfos e meio-orcs. Geralmente, quando falamos deles, entendemos “meio-elfos” assumindo que a outra origem do personagem é humana, que seria a “raça padrão”. O livro fala de outras possibilidades, e que há maneiras de fazer personagens que são meio-orc/meio-anão, meio-elfo/meio-gnomo, etc.

Assim como na descrição de gnomos, eu também acho que o texto dos meio-orcs poderia ser diferente. A caracterização da ancestralidade meio-orc ainda é muito voltada para o preconceito que eles sofrem, tanto de humanos quanto de orcs. O que em si não precisa ser um problema, considerando que a narrativa não coloque isso de forma leviana. Mas um livro de RPG não é um livro de prosa, então os autores não têm completo controle de tudo que será criado a partir das regras. Considerando que a ideia de ancestralidades está sendo reformulada para tornar Pathfinder mais inclusivo, eu acho que o texto de meio-orcs podia ter destacado outros pontos, e não só focar a existência dessa ancestralidade no preconceito que eles sofrem no universo do jogo.

As ancestralidades também possuem etnicidades, cada um de uma região específica. Há vários exemplos no livro dessas etnicidades, que representam diferentes fatores culturais. Isso mostra que mesmo que tenham certas coisas em comum, não significa que os personagens são sempre a mesma coisa, o que é ótimo. Essa parte também ajuda muito na ideia de tirar o humano branco e europeu como padrão. 

Com certeza há pontos que Pathfinder ainda pode melhorar, mas essa nova parte de ancestralidades é um bom passo na direção certa, que adiciona mais inclusão no RPG. Esperamos que outros grandes sistemas sigam esse exemplo e repensem sua maneira de estabelecer raças e como elas se posicionam em seus respectivos cenários.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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