As Coisas que Perdemos no Fogo é um livro escrito pela autora argentina Mariana Enriquez. O livro é composto por vários contos de terror e suspense, mostrando pessoas comuns e, por algum motivo, o sobrenatural toca as suas vidas.

Esta crítica não contém spoilers do livro.

Os contos não são muito curtos, mas também não são super longos, possuindo o tamanho ideal para desenrolar as várias narrativas que encontramos no livro. Todas as histórias mostram personagens que, ao que parece, vivem vidas normais, mas algo estranho começa a acontecer, trazendo o elemento sobrenatural de terror. A partir disso, vemos como esse encontro entre o cotidiano e o sobrenatural afeta os personagens em questão.

Uma das coisas que, para mim, foi mais interessante do livro, é a identificação que dá para ter com a realidade dos contos. Os contos de As Coisas que Perdemos no Fogo se passam na Argentina, que é uma realidade que tem mais semelhanças com o nosso dia a dia no Brasil do que as histórias de terror que consumimos de países como Estados Unidos ou os países europeus. Dá para ver essas histórias acontecendo em certas cidades do Brasil.

Outro aspecto muito interessante dos contos de As Coisas que Perdemos no Fogo é como o elemento sobrenatural é tão misturado com a realidade que, às vezes, até há dúvidas se esse elemento existe realmente. O terror geralmente trás o sobrenatural para atormentar os seus personagens. Porém, ao casar tão bem o fantástico com o real, os contos mostram como a própria realidade e suas piores possibilidades podem ser assustadoras por si só.

Os contos são muito bem escritos e te dão vontade de continuar lendo até o livro acabar. Por outro lado, há alguns contos que causam um impacto que faz com que deixemos o livro um pouco de lado para absorver o que aconteceu, o que aqui coloco como um elogio. É bom poder ler uma história de terror em que o clima é tão bem construído que causa essa sensação de desconforto no leitor.

É também preciso ressaltar como As Coisas que Perdemos no Fogo fala sobre a época da ditadura argentina, trazendo os horrores reais em alguns elementos presentes em certos contos. Sendo de um país que também passou por uma ditadura, e também que passa por tempos difíceis, é fácil para um brasileiro ler e sentir uma identificação maior com os personagens, o ambiente e com o terror que acontece dentro do livro.

As Coisas que Perdemos no Fogo não é composto por contos horrendos que vão colocar imagens grotescas na sua mente, mas sim por histórias que ainda vão afetar seu sono porque suas ideias causam certo impacto. A sensação não é o medo de dormir, mas ficar acordado pensando no que você leu e no que pode ter acontecido além das palavras dos contos, até porque alguns deles acabam com finais abertos o suficiente para ter espaço para várias interpretações.

Eu gostei muito de ler As Coisas que Perdemos no Fogo e recomendo para todos os que gostam de terror, mas também leitores em geral. Mariana Enriquez escreve muito bem e ler esse livro me deu vontade de procurar mais obras da autora.