Este texto não tem spoilers.

Uma das maiores reclamações sobre a personagem da Arlequina, ou Harley Quinn, quando ela foi adaptada para o cinema pela primeira vez, e também na sua época de quadrinhos e animações, era como a personagem era desnecessariamente sexualizada. Além de suas roupas curtas, todo o trabalho de câmera e foco da personagem era mostrá-la como um objeto sexual que serviria para a história de outros homens ao seu redor, principalmente o Coringa.

Havia alguma expectativa para o filme Aves de Rapina. Não só porque o DCEU não é exatamente conhecido por sua grande qualidade, mas para ver como seria um filme de heróis (ou vilãs) focado em um grupo 100% feminino. Esquadrão Suicida não foi tão bem recebido, mas a equipe de Aves de Rapina era consideravelmente diferente.

Nós postamos nas nossas redes sociais que gostamos muito do filme. É bem feito, redondo, com personagens e acontecimentos interessantes, além de cenas de luta incríveis. Mas mesmo sendo um filme bem executado, ainda existia uma chance de Arlequina ter uma representação falha, sendo muito sexualizada ou tratada apenas como uma personagem bobinha, como foi o caso de Esquadrão suicida. Felizmente, nenhum desses medos se concretizou. Arlequina teve a chance de ser uma personagem muito bem feita, mas neste texto pretendo focar no aspecto da sexualização da personagem.

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Como vimos em Esquadrão Suicida, assim como em vários quadrinhos que já tinham sido lançados da personagem, havia um histórico de sexualização desnecessária com Harley Quinn. Apesar do figurino que parecia não fazer sentido com o ambiente em que Arlequina estava em Esquadrão Suicida, todo o enquadramento da personagem era feito para evidenciar o corpo de Margot Robbie. Arlequina foi tratada como um objeto sexual, algo com o foco de atrair o olhar masculino. Era complicado falar do assunto na época também, porque a resposta dos defensores da sexualização da Arlequina era que ela gostava de ser sexy, que era parte da personagem, e ela era um pouco louca também, né? Então tudo bem. Como se um personagem fictício tivesse autonomia para escolher essas coisas.

Não há nenhum problema em termos personagens que sejam sexy, que tenham a sua sensualidade como um fator que define as suas personalidades, porque existem mulheres reais que são assim também. Até porque, acredito eu, mostrar personagens femininas sendo sexy ajuda a tirar o tabu em cima de mulheres reais que gostam e querem ser sexy, que agir com a sensualidade não é algo ruim e não significa que alguém é menos por isso. E talvez Harley seja uma boa oportunidade de fazer isso, porque ela é sexy e também uma mulher muito inteligente, afinal ela tem um phd em psiquiatria, não podemos nos esquecer de que existe um preconceito de que mulheres que buscam ser sexy são burras. Mas, para fazer essa representação de forma respeitosa, é preciso saber construir uma personagem feminina sem o olhar machista que pretende tornar a mulher em objeto sexual. Esquadrão Suicida não soube fazer isso, mas Aves de Rapina soube.

O primeiro acerto de Aves de Rapina foi colocar Arlequina rodeada de mulheres. Ela não é a única, ou uma das únicas mulheres em um grupo cheio de homens, que foi o que aconteceu em Esquadrão Suicida. Sim, ela é uma mulher que usa roupas curtas e que usa de sua sensualidade quando acha que deve, mas há inúmeros outros tipos de mulheres ao redor dela. Montoya e Huntress são mulheres que não expressam sensualidade e Canário, mesmo usando algumas roupas mais curtas e apertadas, só busca sua sensualidade quando está se apresentando como cantora. Quando só há uma mulher na história e justamente ela é a sexy, isso pode ser um problema, por que afinal de contas é um estereótipo da ficção, ter uma mulher em uma história em que a maioria são homens, para ser sexy ou o interesse romântico (e em Esquadrão Suicida, Harley Quinn é os dois). Quando existem várias mulheres na mesma história, com algumas sensuais e outras não, isso dá uma complexidade maior para as personagens. Sim, a Arlequina pode ser sexy, mas ela é um tipo de mulher entre várias possibilidades.

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O outro acerto do filme é que, por mais sexy e sensual que a Arlequina seja, sua personagem no filme não é só sobre isso. Em Esquadrão Suicida, os focos da personagem eram ser sexy, “louca” e apaixonada pelo Coringa. Por isso era tão difícil acreditar na construção de personagem dela, Arlequina era um amontoado de estereótipos mal feitos, algo esperado de personagens femininas que vêm de quadrinhos (sim, eu sei que a Arlequina nasceu em uma animação). Em Aves de Rapina, ela tem parte dessas características, considerando que agora ela está lidando com o término com o Coringa. Mas Arlequina não é só um rascunho de estereótipos de personagens femininas nesse novo filme, a personagem vai além. O grande dilema de Harley aqui é lidar com confiança, com a sensação de ser abandonada, dispensável e como isso se reflete nas relações que ela têm. As outras características de antes compõe a personagem também, mas por agora ela ser escrita como um ser humano, não apenas um objeto sexual, ela tem um arco complexo, que permite que ela seja sexy sem ser um estereótipo.

Um dos maiores acertos de Aves de Rapina, que para mim é uma das diferenças mais gritantes com Esquadrão Suicida, é como a câmera mostra Arlequina. No final de Esquadrão Suicida, vemos literalmente um ângulo de câmera que mostra o meio das pernas da Margot Robbie, como se quisesse focar na vagina da personagem. É tão absurdo que na hora eu nem entendi o que eu tinha visto, achei que tinha sido um ângulo focado na bunda que acabou sendo mal colocado. Várias cenas da Arlequina evidenciavam suas pernas e sua bunda, com o short mais curto do que realmente era nos trailer. Em Aves de Rapina, Arlequina usa roupas bem parecidas, mas a câmera não trata ela como algo feito apenas para o olhar de homens hétero, como um objeto sexual. A câmera de Aves de Rapina trabalha em prol da história do filme e dos personagens, não da sexualização, e essa é uma das grandes diferenças quando falamos de sexualização desnecessária de personagens femininas na cultura pop.

A ficção pode sim ter espaço para mulheres sensuais, que gostam de ser sexy e podem até usar esses elementos ao seu favor na história, mas há uma diferença entre representar isso como uma característica bem feita da personagem e colocá-la como um objeto sexual. Aves de Rapina sabe muito bem disso e nos entrega uma das melhores representações da Arlequina.