Aves de Rapina:  e a Fantabulosa Emancipação da Arlequina não abalou as bilheterias como eu gostaria, isso é um fato. Mas sobre isso eu já falei bastante em um vídeo no nosso canal do youtube. O filme, ao meu ver, não deixa nada a dever para outros filmes de super-heróis e, para falar a verdade, supera muitos deles em muitos aspectos.

Mas, se tem uma lição que os filmes de super-heróis podem tirar de Aves de Rapina, é sobre como aliar estética e ação na construção de cenas de lutas com personagens femininas que as libertem do padrão de gênero aos quais normalmente as restringem dentro dessas sequências de cenas.

A Estética

Aves de Rapina é apenas o último filme de super-herói que se permitiu ir além do que nós esperamos, do que os estúdios consideram aceitável. Nós já vimos isso em outros momentos, com Thor: Ragnarok e com Guardiões da Galáxia vol.1 e vol.2. Eles foram filmes que tiveram liberdade suficiente para criar além do visual homogêneo que os estúdios esperam desse tipo de filme.

Não existe uma preocupação real do estúdio em apresentar um visual e uma estética nova a cada filme, não. O que eles procuram é criar uma homogeneidade que permita que os filmes sejam facilmente reconhecidos como parte de um só universo. A estética desses filmes tende a puxar pra um tom metálico, um olhar clássico sobre a década em que ele se passa, e a centrar essa estética em um realismo para que o público precise se esforçar o mínimo possível para comprar a idéia de super-heróis. 

Por isso, quando assistimos filmes como Thor: Ragnarok, Guardiões, Pantera Negra e Aves de Rapina eles nos saltam aos olhos. Existiu alí, obviamente, uma preocupação em criar uma estética que seja coerente não só com o universo do qual faz parte, mas ao universo dos protagonistas e dos lugares onde a história acontece. Existe uma preocupação em usar elementos que saiam da nossa realidade cultural e que, mesmo em um país ficcional, um planeta controlado pelo Jeff Goldblum, ou em uma cidade ficcional onde vive um homem que se veste de morcego, possam ajudar o espectador a entender aquilo como possível.

 Se Wakanda fosse só mais um país cheio de coisas metálicas e tecnologia, sem a preocupação real de criar uma estética nova, baseada em elementos culturais presentes no imaginário africano, com certeza teríamos uma reação diferente ao filme.

Todos esses filmes desafiam, de alguma maneira, o padrão estético que lhes é imposto. E, em alguns casos, o padrão de representação de gênero até então estabelecido. 

Ação vs Gênero

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Cenas de ação, de luta e de violência de maneira geral, giram em torno de quem é mais poderoso, quem é o melhor lutador e, a não ser que ela seja protagonizada por mulheres ou pessoas não-binárias, de quem é o melhor homem. Nós consideramos boas sequências de ação aquelas que mostram uma boa coreografia, com um estilo bacana, que mostre o poder dos heróis e, quem sabe, avance o plot do filme, que entretenha.

Sim, manter o público investido deve ser uma das principais preocupações de um filme, mas quando ficamos sempre no mesmo padrão perdemos a oportunidade de criar algo novo, perdemos a liberdade de ir além. Claro que os estúdios estabelecem regras para manter o seu universo unificado, mas existem elementos que não precisam seguir um padrão tradicional.

Quando se constrói uma cena de ação em filmes de super-herói é normal que se tenha duas abordagens. Se a luta envolver homens, então ela mostra o corpo masculino como uma arma, um ideal de masculinidade violento que liga masculinidade à força física. Se a luta envolve mulheres, então o que temos é uma violência sexy. O corpo feminino é mostrado como atrativo, como um objeto que pode ser apreciado mesmo quando está sendo destruído. A personagem se torna uma gostosa que luta.

Mas quando se tira da construção da cena de ação essa visão tradicional de gênero, abre-se oportunidade para a inovação e para a criação de algo realmente único.

Aves de Rapina não perde tempo hipersexualizando as personagens femininas, principalmente quando elas estão envolvidas em lutar contra capangas que as querem mortas. E se você não restringe suas personagens aos estereótipos de gênero aos quais elas normalmente são submetidas, você ganha liberdade criativa. 

Ação + Estética

Aves de Rapina, ao juntar esses dois elementos (uma estética bem estabelecida e criada a partir da personagem central, e cenas de ação que não restringem as personagens aos estereótipos de gênero), abre espaço para cenas de luta que vão além da boa coreografia, mas que usam o ambiente ao redor dos personagens como parte dessa luta. Isso tudo sem tornar as quatro principais sequências de ação homogêneas, desinteressantes e padronizadas.

Cada uma das sequências (chegada na delegacia, fuga da prisão/depósito, barracão do circo e perseguição de carro/moto/patins) possuem elementos tanto visuais como de ação que a tornam únicas e facilmente reconhecíveis e fáceis de distinguir. 

O filme inteiro tem muito humor físico – quando as ações da personagem são engraçadas sem a necessidade do texto – e isso é assimilado as cenas de luta. A arma que solta confere, a cocaína, o taco de basebol, o esqueiro, os objetos no circo e o patins na cena de perseguição. Todos os elementos são alinhados com os ambientes e com o estado emocional da personagem. Ela se diverte com a violência, ou se concentra na violência enquanto produz um humor visual. A preocupação estética deixa a cena da delegacia, por exemplo, mais interessante do que uma simples cena de invasão de uma delegacia feia e cinza. 

O humor físico da personagem e o uso de objetos de cena como parte da luta/ação, me fizeram pensar nos filmes chineses de Jackie Chan, ator que ficou conhecido exatamente por dar personalidade aos seus personagens nas cenas de ação. Também me lembram os filmes de Hong Kong de John Woo, em que os personagens passam por cenas absurdas enquanto a história transcorre normalmente. 

A coreografia de luta da Arlequina (ou de qualquer outra personagem) não é definida pelo seu gênero, mas pela personalidade dela. Essa diferença é mais evidente na Harley porque nós já a vimos em Suicide Squad, em que o foco da câmera está na bunda da personagem e a câmera chega a deslizar por entre as pernas dela (cena que eu apelidei de “Vagina Shot”). A diferença entre ter um homem e uma mulher dirigindo uma cena de ação com personagens femininas é imensa, mas esses são elementos que podem facilmente ser evitados por diretores, se eles conseguirem pensar com a cabeça que fica em cima do pescoço deles. Eu falei mais sobre o male gaze através dos movimentos de câmera em outro texto, você pode lê-lo aqui.

Ou Seja

Talvez a grande lição que os filmes de super-heróis, ou de ação de maneira geral, possa tirar de Aves de Rapina é não subestimar as suas personagens femininas. Lembrar que elas não precisam estar presas aos estereótipos de gênero que se impõe a elas, e que, ao deixá-las livres dessas amarras, quem ganha liberdade criativa é o diretor. Afinal, personagem feminina não escolhe o próprio figurino, e também não escolhe a própria história. 

Quando se deixam para trás estereótipos de gênero tanto masculinos quanto femininos, abre-se a porta para todo um novo leque de desenvolvimento de personagem, criação de cenas de ação, figurinos e de expansão do universo do filme. Quando finalmente Hollywood aposentar de vez o male gaze na criação de personagens femininas, as nossas experiências cinematográficas ganharão muito. 

 

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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