Se for, vá na paz.

Eu sei que eu cheguei tarde no grupo que está completamente apaixonado por Bacurau, mas antes tarde do que nunca, né? O cinema nacional ainda é muito menosprezado pela nossa audiência, e com todos os cortes nessa área, está cada vez mais difícil para o audiovisual, por isso é tão gratificante ver um filme como Bacurau fazendo tanto sucesso e sendo tão falado.

O filme conta a história da cidade de Bacurau, um lugar no interior de Pernambuco em um futuro não muito distante. Teresa (Barbara Colen) volta para a sua cidade natal por causa da morte de sua avó, Carmelita, que comove todos os habitantes de Bacurau. Algum tempo depois, eles começam a perceber a presença de forasteiros na cidade que trazem alguns problemas. O filme é dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho.

Esta crítica não tem spoilers de Bacurau.

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Assistir Bacurau é ficar na ponta da cadeira durante o filme inteiro. Mesmo antes dos problemas começarem a acontecer, parece que há sempre algo rondando aquela pequena comunidade, quase em um estilo de filme de terror. Seja um político que não se importa com a cidade, ou seja forasteiros em uma moto, a impressão constante é que algo sempre está prestes a acontecer. Quando essas coisas de fato acontecem, a situação fica muito mais tensa do que antes.

Uma das partes mais gostosas de assistir Bacurau é a capacidade de se identificar com a história, de um jeito que nem sempre temos com outras obras. Não é que nós não nos identifiquemos com obras estrangeiras, mas o jeito que nos sentimos com Bacurau é diferente exatamente por ser uma realidade brasileira, porque as interações dentro das famílias são muito mais próximas das nossas. Até mesmo as piadas e os alívios cômicos do filme conversam muito com a nossa audiência.

Bacurau vai muito além nesse aspecto, de conseguir conversar com o público. O filme toca em aspectos da nossa cultura e da nossa realidade como poucas histórias com esse alcance conseguem fazer. Ao contrário de outras obras que usam momentos violentos, Bacurau não tem medo de ser uma obra política. Ou melhor, aceitar e entender a política dentro de sua narrativa, porque toda a obra é política. É um filme que sabe muito bem em que contexto está inserido e fala sobre assuntos que precisam ser discutidos.

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Para alguns, Bacurau pode parecer violento demais, mas essa violência nunca é glamourizada ou usada de forma leviana. Ela tem um motivo para estar ali, porque esta representado uma realidade que é violenta contra aqueles que não detém o poder. Mas também é uma história sobre resistência, sobre como a união de um grupo oprimido é necessária para vencer os opressores. É exatamente o tipo de narrativa que precisamos para os tempos atuais que vivemos no Brasil.

As atuações estão ótimas e é muito fácil se apegar aos personagens, mesmo que eles não sejam as pessoas mais simpáticas de Bacurau. Aqui vale fazer um destaque para Domingas, interpretada pela Sônia Braga, e Lunga, como Silvero Pereira. Eles não são exatamente personagens que alguém consideraria como simpáticos, mas suas interpretações e relevância para a história os tornam personagens muito empáticos e divertidos de assistir.

O filme é um soco no estômago, porém necessário. Não só pelas cenas de violência e mortes, mas porque ela mexe nas feridas. Bacurau fala sobre o complexo de vira lata brasileiro, a hegemonia dos Estados Unidos, preconceito, o complexo de superioridade das pessoas do sul/sudeste e até faz denúncias contra a violência policial que chega a assassinar crianças. A pessoa precisa estar muito fora da realidade brasileira para não sentir essas críticas como algo muito próximo de casa.

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Mesmo quando a audiência consegue entender os mistérios do roteiro de Bacurau, o filme ainda consegue te surpreender. Em uma cena de violência contra um dos personagens, muitos minutos antes da coisa realmente acontecer, nós já conseguimos imaginar qual vai ser o destino daquele personagem, enquanto temos esperança de que o filme seja mais bondoso. Mas Bacurau não pega leve, porque ele está falando de realidades. Além disso, saber para onde certos pontos da história vão não diminui em nada o valor do que acontece, ou até mesmo o impacto na audiência. Isso porque tudo em Bacurau é muito bem construído. O começo do filme pode ser um pouco mais lento, mas a história vai pegando cada vez mais o ritmo e se tornando interessante do começo ao fim.

Outro ponto importante, porém que está mais nos detalhes, é o universo construído no contexto do filme. Bacurau está em um Brasil que pode ser entendido como pós apocalíptico. Eu sai do cinema querendo saber como estão as outras cidades do país, quem mais passou pelo o que Bacurau passou e como a mídia tem lidado com essas situações.

Bacurau é um filme essencial para ser assistido. É pesado, a história vai ficar na cabeça da audiência por muito tempo, mas o filme fala de coisas que precisamos debater e entender, não só dentro da arte e da produção de entretenimento, mas também em um contexto político brasileiro. Com certeza é um dos melhores filmes do ano.