Alguém surpreso? Não, né?

Eu não podia me importar menos com qualquer coisa relacionado à franquia Battlefield. Nada contra, tenho até amigos que são (badunts), só não é meu tipo de jogo mesmo. Então ontem, quando a DICE, da EA, anunciou o novo título da franquia, Battlefield V, eu só parei para dar uma olhada ao ver os anúncios de que o jogo daria foco para as personagens mulheres. Em um jogo que foi sempre povoado por homens, em um gênero que também só deu espaço para os mesmos caras padrão, é óbvio que isso me deixa feliz.

Para quem não acompanhou o anúncio, Battlefield V vai se passar durante a segunda guerra mundial. A produtora promete que será um jogo mais rico e imersivo do que os outros. Videogames não precisam ser historicamente certeiros. Choque: A maioria desses jogos de guerra não são. E mesmo que fosse, mulheres não são uma invenção do século XXI, então existiam pessoas além de caras dentro do padrão durante a segunda guerra mundial. Óbvio, né?

Parece que não.

Logo depois do anúncio, algumas pessoas do fandom de Battlefield começaram a se manifestar nas redes sociais, sobre como eram contra essa decisão do jogo. Ainda mais porque tem uma mulher na capa. O argumento para isso é o machismo por parte desses homens, mas eles nunca vão admitir isso, então mascaram com inúmeros argumentos, como:

Battlefield V um jogo FPS da Segunda Guerra Mundial… Com mulheres. “Acurácia Histórica” (o que é isso?). Mulheres não serviram na Segunda Guerra Mundial, imagina mulheres deficientes, mas hein eles precisam preencher a cota de igualdade né? Obrigada cultura do PC 

Um jogo sobre guerra (pelo menos uma assim) não precisa ser historicamente correto. Mas colocar mulheres, que não lutaram, mas estavam envolvidas na segunda guerra mundial, parecerem como algo “comum” é ridículo. É como se eles fizessem uma versão justiça social da segunda guerra. Que, como você imagina, não é historicamente correto. Eu não tenho problema com personagens mulheres jogáveis no multiplayer. Fazer elas jogáveis na campanha e dizer que é acurácia histórica é estúpido.

 

Vamos começar falando dessa maldita acurácia histórica. Eu não aguento mais esse assunto, mas as pessoas insistem. Um jogo baseado na segunda guerra mundial não precisa que todos os aspectos estejam 100% corretos. O jogo é baseado, apenas. Ele possui elementos da guerra e é modificado para funcionar melhor na proposta do jogo. Quando outros aspectos são alterados, ninguém nunca fala de fidelidade histórica, mas bota uma mulher na capa do jogo e socorro, todo mundo virou doutor em história.

Mesmo que nós de fato tenhamos que olhar para a acurácia histórica (que, novamente, não precisa para um jogo), alegar que não haviam mulheres da segunda guerra continua sendo uma informação errada, baseada em nada se não o preconceito desses caras. Segundo dados do Governo do Reino Unido: “Mulheres foram chamadas para trabalhos de guerra, em papéis como mecânicas, engenheiras, trabalhadoras de munição, guardas de ataque aéreo, motoristas de ônibus e bombeiras”

Além disso, havia mais de 640 mil mulheres nas forças armadas do Reino Unido, tanto na força aérea, naval e serviço territorial. A própria Rainha Elizabeth participou da guerra como motorista, mecânica e chegou ao posto de comandante junior. A filha de Winston Churchill, Mary Churchill, também teve seu papel na guerra.

Pensando fora do Reino Unido, também tem a famosa história da soviética Lyudmila Pavlichenko. Ela foi a franco-atiradora que mais matou soldados nazistas, por volta de 309, mas ela não era a única franco-atiradora russa.

Esses não são os únicos relatos, na internet há várias fontes historicamente confiáveis sobre o assunto, basta boa vontade e pesquisa para descobrir. Nós temos a impressão de que só tinham homens padrão nesses momentos históricos porque essas são as únicas histórias contadas. Porque por anos, só se podia falar das conquistas e dramas do homem branco. Mas há provas o suficiente para sabermos que isso não é verdade.

Quanto ao colega que falou que “o feminismo não compra jogo”, de fato, não existe uma entidade chamada ‘o feminismo’ que compra todos os jogos de todas as lojas do mundo. O que tem, na verdade, é a Pesquisa Game Brasil indicando que a maioria dos gamers ainda são, pelo terceiro ano consecutivo, pasmem, mulheres. E nós sabemos que esses dados não são diferentes a favor dos homens em outros países que consomem muitos jogos eletrônicos.

Então é, já está cansativo esse choro toda a vez que a indústria de jogos se lembra que mulheres também consomem games. É representatividade, mas até do ponto de vista capitalista faz sentido. O feminismo não está roubando o seu sorvete não, nós passamos anos jogando histórias apenas com homens padrão e sobrevivemos, vocês aguentam algumas mulheres em Battlefield V. É só parar de chorar e crescer.