Todos nós já fomos (ou talvez você ainda seja) adolescentes, e nessa época específica da nossa vida nós temos MUITAS emoções. E cada um de nós lida com essas emoções de maneiras diferentes, cada um de nós nos identificamos com símbolos diferentes. E essa diferença é normal. Por isso existem tantos produtos culturais focados em adolescentes, e por isso eles são muito diversos no que tange gênero musical ou gênero de produção ficcional.

Eu sei que bandas de Kpop como BTS, Beatles, Nirvana, Backstreet Boys ou Guns’n Roses não fazem parte do mesmo gênero musical, mas elas são bandas com que muitos adolescentes ao longo dos anos se identificaram – e que talvez continuem escutando até hoje. Você pode ter crescido na década de 90 e ter escutado toda a discografia do Nirvana ou do Guns, ou ter crescido na mesma época e ter curtido Alanis Morissette ou Backstreet Boys – e tá tudo bem. Beatles é mais velho que tudo isso e ainda tem muito adolescente, e adulto, curtindo a música deles.

Assim como aconteceu com Backstreet Boys, Alanis, Britney e outras bandas e grupos durante a década de 90/00, o novo alvo do “ódio adulto” são as bandas de Kpop como BTS, EXO, Red Velvet e etc. A verdade é que não existe nada de adulto nesse ódio, é só um punhado de preconceito, arrogância e condescendência com uma pitada de infantilidade mesmo.

Antes de desqualificar o gosto de alguém, é importante parar e lembrar que nem tudo gira ao redor do seu umbigo. Que você pode ter se identificado com o tom niilista e com o grunge do Nirvana, mas outra pessoa pode ter se identificado com o pop niilista do Silverchair. Ou talvez você tenha se identificado com o pop melódico de Backstreet Boys, e outra pessoa tenha se identificado com o pop rock niilista da Alanis Morissette.

É engraçado como as pessoas costumam desqualificar aquilo que vem depois deles. E não é só uma birra Rock vs Pop, é dentro do Rock mesmo. Rock vs EMO, Punk vs Progressivo, Rock vs Qualquer coisa que não seja Rock. A real é que qualquer dessas disputas é, no fundo, babaca. Porque vem da mania besta de achar que o que não é feito com você em mente, é ruim. Se você não gosta, então não tem qualidade.

Parem de achar que o mundo devia girar em torno do seu umbigo. Parem de achar que tudo que é feito precisa passar pelo seu crivo pessoal. Assim como a sua experiência, o seu gosto não é universal.

Eu vejo muitas pessoas criticando bandas de Kpop como música ruim, de baixa qualidade. E a única coisa que eu sinto sobre essas pessoas é vergonha, porque elas não sabem o quão fudida e profissional é a indústria de pop Sul-Coreano, o quanto esses garotos e garotas batalham para estrear. Não é o ambiente mais saudável do mundo, assim como a indústria do rock também nunca foi. Antes de julgar o gosto musical alheio vale olhar para a própria indústria que fomenta o seu gosto musical. É nesse momento que você olha pro seu umbigo. 

Eu não curto boy bands de Kpop como BTS. Eu escuto música vinda da Coréia do Sul sim, mas Kpop realmente não é algo que converse comigo. Talvez por eu já ter passado dos 30? Talvez. Mas provavelmente porque eu gosto de algo mais de boa e melódico do que batidas animadas sem fim. Antes de sair criticando a sua filha, irmã, amiga ou mesmo amigo que gosta de Kpop, boy bands ou qualquer coisa que você ache ruim, coloque a mão na cabeça e pergunte de onde vem essa sua raiva toda.

Muito do ódio direcionado à bandas e produtos culturais voltados à adolescentes é fomentado por misoginia. Porque boybands são geralmente direcionadas ao público feminino, elas são também automaticamente consideradas bobas, ruins e menores do que outras bandas. Não interessa se todos eles são bons músicos, se é para meninas, então é ruim.

Eu cresci numa mini cidade no litoral do Espírito Santo, rodeada por Axé/Pagode/Sertanejo – três gêneros que nunca foram* o meu grande barato. Lá, gostar de Alanis ou mesmo de Aerosmith era ser “do metal”, e mesmo que eu tenha passado pela fase do “eu odeio axé/pagode/sertanejo” hoje, exatamente porque eu sou adulta, eu consigo olhar para trás e entender que cada pessoa tem um gosto e eu preciso respeitar isso.

Tem coisas que a gente escuta quando é adolescente e que, com o passar dos anos, deixa de escutar. É um processo natural, porque assim como nós mudamos, nossos gostos também mudam – e tá tudo bem. Nenhuma pessoa assina um contrato vitalício de fã. E assim como você podia passar horas na fila da loja de discos/Cds esperando o lançamento do álbum, a menina pode passar a madrugada acordada esperando o lançamento da música.

O que eu quero dizer com esse texto é: seja qual for a banda que você carrega no seu coração adolescente, não justifica menosprezar e odiar o kpop alheio. Você não precisa escutar, você não precisa gostar, você só precisa não ser babaca. Assim como você estourava a caixa do seu microsystem escutando Sweet Child of Mine, do Guns’n Roses, os adolescentes vão estourar a caixa do computador/celular escutando Monster, do EXO. Assim como você passava horas chorando na chuva enquanto estourava os tímpanos escutando Come as You Are, do Nirvana, deixe as adolescentes passar horas chorando na chuva estourando os tímpanos escutando Fake Love, do BTS.

Até mais!


PS: Pode ser adulto e gostar de todas as bandas citadas no texto também, ok? Então tá bom!

Para ler: Deixa as Minas Serem Fangirls em Paz

* Assim como muitas garotas da década de 90, eu também tenho memórias de dançar o Tchan e similares. O que eu posso dizer, fui criança na década de 90! 😉