Hoje entrou em cartaz A Forma da Água, filme dirigido por Guillermo del Toro, com treze indicações ao Oscar, entre eles Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante.

Aqui pelo Nebulla nós estamos há meses com o tremelico para assistir ao filme, e estamos juntando todo tipo de informação e razões para corrermos para o cinema. Por isso listei as cinco principais razões para ir ao cinema assistir A Forma da Água.

1. A Protagonista

Quantas vezes você assistiu um filme em que a protagonista é uma mulher muda? Por mais que Sally Hawkins, a atriz que a interprete, não seja muda, fiquei bastante intrigada com o tipo de personagem que ela vai se revelar. Pelos trailers é possível notar que sim, Elisa é uma mulher tímida em um ambiente agressivo e opressor (o laboratório onde trabalha), mas também mostra-se corajosa ao tentar salvar a criatura dentro do laboratório.

Pensando que esse é um filme que vem sendo considerado sexy, vai ser interessante ver como a sexualidade dessa personagem vai ser mostrada em tela. Se pessoas mudas já são pouco representadas, elas como personagens complexos e mulheres capazes de amar e de ter desejos sexuais é ainda mais difícil.

Muito tem se falado sobre como ela e o Homem Anfíbio, que também não se comunica através da fala, se apaixonam e sobre o modo como isso é mostrado em cena. Talvez seja só uma questão de eu estar intrigada pela personagem de maneira geral, mas ver uma pessoa capaz de se apaixonar por um homem peixe definitivamente é uma das razões pelas quais eu quero assistir ao filme.

2. Doug Jones

Doug Jones é aquele ator que você talvez nunca nem tenha visto o rosto de verdade. Entre os fãs de fantasia e sci-fi ele ficou conhecido como “as criaturas” de Guillermo del Toro. Trabalhando com o diretor ele foi  o Fauno e o Homem Pálido de O Labirinto do Fauno, Abe Sapien nos dois filmes Hellboy, e agora está como o Homem Anfíbio em o A Forma da Água. Se você assiste Star Trek: Discovery, então está tendo a oportunidade de vê-lo com o primeiro oficial Saru. Jones, pra mim, é um daqueles grandes atores que ainda não receberam o reconhecimento merecido.

Assim como Andy Serkis e suas interpretações digitais, Jones tem entregado um trabalho consistente e de alta qualidade, não é fácil conseguir transmitir emoções por debaixo de uma máscara de plástico, mesmo que ela seja forjada para auxiliar nos movimentos. No filme os olhos do peixe, e pequenas expressões dele também, são feitos digitalmente, de maneira a aumentar o alcance da relação dos dois protagonistas. Esses efeitos, no entanto, são feitos usando a interpretação de Jones como base. Além disso, o trabalho corporal dele é sempre impressionante, o que me deixa ainda mais no hype para A Forma da Água, já que ele não é só uma criatura, mas uma criatura que é capaz de amar.

3. Guillermo Del Toro

Existem poucos diretores dos quais eu realmente gosto muito, Guillermo é um deles. O trabalho dele com narrativas fantásticas é um dos principais fatores pra isso. O modo como ele consegue trazer uma estética antiga, dentro de uma história clássica mas sempre abordando um tema importante e fazendo tudo  isso sem deixar o filme ficar datado é incrível. Mesmo em filmes como Pacific Rim, que possuem um apelo mais cinemão blockbuster, é possível ver que o trabalho estético é quase incansável. Sim, as vezes a estética acaba superando a qualidade narrativa, como em Crimson Creek, mas de maneira geral o diretor consegue acertar no tom, no tema e na história com maestria.

O Labirinto do Fauno, pra mim, é uma história que toca em muitos aspectos pessoais e familiares. Não que eu tenha conhecido um Fauno na minha infância, mas meus avós e bisavós paternos tiveram que ir embora da Espanha durante a ditadura franquista exatamente por causa da perseguição do governo. O modo como Guillermo usa uma realidade fantástica para falar sobre o horror da guerra civil espanhola e o sofrimento dela sobre crianças e mulheres é, talvez, uma das minhas coisas favoritas do cinema todo. Eu amo como a pequena Ofelia passa pela sua jornada e morro de dor sobre como essa jornada termina. Mercedes, a camareira rebelde, é uma personagem feminina em um filme sobre guerra como pouco se vê, determinada, corajosa e central não só a história mas para também para a protagonista do filme. Carmem, a mãe de Ofelia, forçada a um casamento com um militar governista é, apesar de sua situação frágil, uma personagem complexa que não é vilanizada nem excessivamente fragilizada pela história. No fim, talvez, O Labirinto do Fauno seja uma análise de como a guerra alcança mulheres em diferentes situações.

Mesmo Mako, uma mulher japonesa que quer pilotar um robô gigante e está em busca de vingança, é só aquilo que se espera de um estereótipo feminino. É por causa dessa capacidade de Guillermo de criar personagens femininas interessantes, multifacetadas e nunca presas em um estereótipo único, que eu quero tanto ver A Face da Água.

4. Female Gaze

Quando falamos sobre cultura pop é comum discutirmos o Male Gaze ou, o modo como as mulheres são retratadas nos produtos culturais com o objetivo final de agradar ao olhar masculino. Isso é muito comum em todos os gêneros de filmes. O Female Gaze, no entanto, é bem menos comum e ouso dizer praticamente raro. Se você assistiu aos dois primeiros filmes da franquia Thor provavelmente viu uma ou duas cenas. O Female Gaze é, muito corriqueiramente, confundido com a óde à masculinidade de cenas como o Wolverine rasgando a camisa e gritando com as garras para fora.

A equipe de design do Homem Anfíbio trabalhou durante meses para tornar o personagem atraente, não só esteticamente, mas também num nível emocional. A intenção era que para alguns, como o vilão, a criatura fosse monstruosa, mas para aqueles que conseguiam vê-lo como algo mais do que uma criatura, ela fosse verdadeiramente bonita. Esse trabalho se estendeu desde um preciosismo com o formato da bunda da criatura, mas também com os detalhes faciais dela – tudo isso sob supervisão e incentivo constante de Guillermo del Toro. É muito comum que o female gaze seja equiparado ao male gaze, no sentido de que só a objetificação do corpo é o suficiente para suprir, mas a verdade é que mulheres e homens crescem sob aspectos diferentes da nossa cultura e, ao mesmo tempo que o female gaze deve sim considerar as questões físicas de um personagem, ele também precisa alcançar uma profundidade maior.

Não que a gente não fique feliz só com uma cena assim:

Mas é que a gente costuma precisar de um pouco mais para realmente se conectar com uma história ou um personagem. 😉

5. É uma homenagem a um ship clássico

O Monstro da Lagoa Negra é um filme de 1954 que conta a história de uma expedição que viaja até a Floresta Amazônica para estudar uma criatura anfíbia que vem causando terror na região. O filme fez parte de uma coleção de filmes de monstro da Universal, o mesmo que tentaram dar um reboot com o lançamento de A Múmia em 2017 – e que falhou miseravelmente.

No filme de 1954 a criatura se apaixonava pela protagonista e a sequestrava. Ela era salva pelo protagonista e a criatura terminava o filme aparentemente morta. Del Toro disse, em uma entrevista, que quando assistiu ao filme ficou imaginando sobre o amor entre aqueles dois, criatura e mulher. Por muitos motivos O Monstro da Lagoa Negra é um filme cheio de problemas de representação feminina, principalmente por se encaixar na época em que foi criado, quando a mulher tinha unicamente o papel de mocinha em perigo – mesmo que a personagem fosse uma pesquisadora. Além disso, um relacionamento que se inicia a partir de um sequestro é, nem de longe, algo que pode ser considerado um saudável.

O Homem Anfíbio do filme de Guillermo é também originário da Floresta Amazônica, mas diferente do filme de 1954, esse se passa já nos Estados Unidos. Pelo trailer a gente sabe que a primeira pessoa a tentar ajudar alguém é, na verdade, Elisa. Isso já a torna uma protagonista mais ativa do que a do filme clássico. Acho que o meu interesse aqui é ver como é a transformação de uma história tão quadrada e construída em cima de estereótipos de gênero e culturais, em uma história sobre amor e humanidade.