Spoilers do final de Attack on Titan.

O último capítulo do mangá de Attack on Titan dividiu os fãs e abordou assuntos delicados sem muito cuidado Já falamos aqui sobre como Attack on Titan aborda preconceito, mas havia uma chance do final trazer alguma boa reflexão. Até o penúltimo capítulo, a história realmente andava para isso. Não ia ser o melhor final do mundo, mas com certeza não seria um final que complicaria toda a mensagem do manga até ali.

Mas quem leu o último capítulo sabe bem que não foi isso que aconteceu. O que tivemos foi um final que apagou acertos daquela sequência final e, o pior de tudo, justificou todo o caminho genocida que Eren estava traçando até aquele momento.

Relembrando o que aconteceu: Eren chegou à conclusão que, para acabar com o preconceito contra os eldianos e dar paz para o seu povo, ele ia matar todas as outras pessoas do mundo. Para isso, ele começa a usar os titãs colossais para fazer o grande tremor. Até o capítulo 138, é exatamente isso que vemos. Eren está matando inúmeras pessoas enquanto o que sobrou da tropa de exploração tenta impedi-lo. Armin segura um combate direto com ele em forma de titã, enquanto Levi abre caminho para Mikasa matar Eren de uma vez por todas.

Ainda havia perguntas para serem respondidas no capítulo 139, mas ao que tudo indicava, não havia mais grandes reviravoltas, não é? Bem, era melhor que tivesse sido assim, mas não foi. No último capítulo, temos uma longa cena de Eren e Armin conversando, e nela descobrimos o “real” plano de Eren até o momento.

Attack on Titan: Forma final de Eren é destaque no mangá

Então o que Eren planejou foi: Ele realmente ia tentar matar todas as pessoas que não fossem eldianas, mas ele sabia que seus amigos tentariam impedi-lo. Assim, a tropa de exploração, ou o que sobrou dela, virariam os heróis do mundo, que derrotaram o vilão Eren. Para salvar seus amigos, Eren viraria a maior ameaça de todas, interpretaria esse papel até o fim e isso faria com que os eldianos deixassem de sofrer preconceito.

Essa é uma péssima ideia, não só dentro da história, mas como conclusão de uma narrativa.

Dentro de Attack on Titan, Eren tinha tudo para realmente conseguir matar o mundo todo. Tanto que o capítulo 139 fala com todas as letras que ele matou 80% da população mundial. Se isso não é um genocídio, eu não sei o que é. Além disso, Eren não tinha nenhuma garantia de que o resto do mundo que sobrasse ia ver os eldianos do jeito que ele queria, tanto que o último capítulo diz que ainda existem conflitos por conta do que aconteceu. O que é óbvio, não dá pra acordar no dia após a morte de 80% da população como se nada tivesse acontecido. Eren pode sim ver parte da linha do tempo pela sua conexão com o titã primordial, mas ele não vê tudo.

O peso disso fica ainda pior quando pensamos que isso tudo é uma mensagem em uma obra de ficção, e suas implicações não devem ser ignoradas, ainda mais quando elas justificam um protagonista genocida, sem dar o devido peso às suas ações. Além de que entra naquela mesma lógica de “preconceito ser algo lógico”, que não é. A gente sabia há capítulos que Eren queria matar milhões, e isso não era um problema narrativo em si porque Attack on Titan mostrava que ele estava errado, que era o real vilão desse final.

Mas a narrativa construída no último capítulo perdoa Eren por suas ações, como se tudo tivesse uma justificativa que valesse a pena. O próprio Armin agradece Eren “por se tornar um assassino em massa por nós”, que não só é um absurdo para Armin como personagem, mas também é um absurdo em geral. Como assim obrigado por matar 80% da população? Incluindo eldianos e inocentes? E não é só Armin, toda a tropa de exploração se lembra que Eren falou de seu plano e começam a chorar, perdoando Eren e “entendendo” o seu plano, como se ele fosse o grande herói altruísta que fez tudo por amor aos amigos.

TitanCast on Twitter: "Mais uma reflexão: se fosse a Gabi agradecendo ao Reiner por ele matar as pessoas de Paradis pra salvar os eldianos de Marley ninguém estaria achando isso legal mesmo

Existem várias histórias que falam sobre personagens fazendo coisas horríveis pelo que eles consideram certos, e há formas de mostrar isso de maneira que não justifique atrocidades. Em Death Note, Kira tem muita certeza de que está certo em matar todos os “criminosos” do mundo, mas a narrativa não o perdoa. O fato dele ser protagonista faz sim com que a gente entenda melhor o lado dele, e faz com que criemos empatia, mas no final da história, a mensagem é: Acreditar que é um deus que pode ditar quem vive e quem morre é errado, não importa o quão nobre sejam as suas intenções.

Eu acredito que Eren, dos seus 15 aos 19 anos, traumatizado muito cedo, possa sim ter acreditado que o que fez era o melhor. Faz sentido que ele tenha entrado em uma espiral de destruição, uma queda tão grande que afastou até as pessoas mais leais de perto dele, como Mikasa e Armin. E, se a história fosse essa, como parecia ser até o capítulo 138, seria uma mensagem diferente e que faria mais sentido. Attack on Titan desiste de Eren vilão no último minuto, jogando fora muito do que tinha feito até agora e tentando justificar o injustificável. Sim, nós podemos sentir empatia por um garoto que passou pelo que ele passou, nós podemos lamentar toda a queda dele e o que aconteceu com as pessoas ao seu redor, mas a narrativa não pode diminuir o peso que é matar 80% da população mundial.

Era possível fazer um capítulo 139 com cenas parecidas e terminando de uma maneira diferente. Eren podia sim ter falado com Armin e os outros sobre seus motivos, apagando suas memórias depois. Ele podia acreditar até o fim que estava fazendo algo nobre, mas os personagens ao seu redor podiam ter percepções diferentes. Armin podia demonstrar que, por mais que entendesse o pensamento de Eren, e por mais que o amasse, ele sabia que o amigo estava errado. Considerando que Mikasa já tinha matado Eren, seria também um final ótimo para ela, que se libertaria desse “amor incondicional” de Eren. No final, toda a sua devoção inconsequente é justificada, porque “ele se importava com a gente”, independente das suas ações terríveis.

O final de Attack on Titan não só diminui a jornada de vários personagens importantes, mas, acima de tudo, passa uma mensagem muito perigosa ao não saber lidar com a gravidade dos crimes de seu protagonista. Um final diferente não consertaria todos os problemas de Attack on Titan, mas seria bem melhor e mais responsável do que o que vimos.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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