Esta semana, John Boyega, ator do Finn do Star Wars, deu uma entrevista para a GQ Magazine em que ele falou sobre várias coisas, mas um dos pontos que mais chamou a atenção dos fãs foram as afirmações sobre a franquia Star Wars e a Disney. As declarações dele são muito importantes, e corajosas também, porque nem todas as pessoas conseguem ou podem falar contra uma empresa grande com a qual trabalharam.

Na entrevista, John Boyega evidencia que a construção de Finn sofreu racismo, e por isso foi muito menos do que poderia ter sido. Vou traduzir alguns trechos da entrevista para falarmos sobre. O texto inteiro está aqui.

O que eu diria para a Disney é não trazer uma personagem negra à tona, comercializá-la para ser muito mais importante na franquia do que ela é e, em seguida, colocá-la de lado. Não é bom. Vou dizer isso sem rodeios.

Vocês sabiam o que fazer com a Daisy Ridley, vocês sabiam o que fazer com o Adam Driver, vocês sabiam o que fazer com essas outras pessoas, mas quando se tratava de Kelly Marie Tran, quando se tratava de John Boyega, não sabiam de nada. Então o que você quer que eu diga? O que eles querem que eu diga é: ‘Gostei de fazer parte disso. Foi uma ótima experiência…’ Nah, nah, nah. Vou aceitar esse acordo quando for uma ótima experiência. Eles deram todas as nuances a Adam Driver, todas as nuances a Daisy Ridley. Sejamos honestos. Daisy sabe disso. Adam sabe disso. Todo mundo sabe. Eu não estou expondo nada.

Eu sou o único membro do elenco que teve sua experiência na franquia baseada na raça.

Você percebe, ‘tive essa oportunidade, mas estou em uma indústria que nem mesmo estava pronta para mim’. Ninguém mais no elenco tinha pessoas dizendo que iriam boicotar o filme porque eles estavam nele. Ninguém mais passou pelo alvoroço e ameaças de morte enviadas nas DMs do Instagram e mídias sociais

Independente das nossas opiniões pessoais sobre a nova trilogia de Star Wars, não dá para negar que tudo que Boyega falou é verdade e é perceptível para os fãs, tanto nas telas do cinema, quanto vendo as repercussões do filme.

Desde o primeiro dia em que o episódio VII foi anunciado, nós vimos inúmeros fãs de Star Wars se manifestando nas redes sociais, com várias reclamações baseadas em preconceito. Uma das maiores foi exatamente o destaque que os trailers davam para a personagem de John Boyega, Finn, um ex stormtrooper. Além disso, nos trailers ele aparecia usando um sabre de luz, o que deixou os fãs racistas ainda mais revoltados com a ideia de um ator negro tinha esse destaque todo em uma das maiores franquias nerds que existem.

E não eram só comentários em sites, eram mensagens diretas para John Boyega, como ele mesmo diz. A própria Kelly Marie Tran passou por algo similar depois que o episódio VIII foi lançado. Preconceito não é opinião, é discurso de ódio, como infelizmente Boyega sentiu na pele.

Além disso, ele tem toda a razão em estar frustrado com o caminho que o Finn seguiu em Star Wars. Eu amo o episódio VIII e eu adoro a parte de Boyega nele, mas querendo ou não, Finn acaba ficando de escanteio enquanto Rey protagoniza a maior parte do filme. E o problema obviamente não é a Rey ser a protagonista, mas o fato de que Finn sempre foi vendido como sendo uma das personagens mais importantes. Mas de nada adianta um marketing que usa um ator negro como token e essa relevância não aparece de fato na história.

Isso tudo fica muito pior quando pensamos no episódio IX. Finn ficou bem de lado e várias cenas dele que pareciam que levariam para algo, não resultaram em absolutamente nada. O papel dele foi correr de um lado para o outro gritando “Rey”, o que é muito triste pensando em tudo que tinha sido construído da personagem até aquele momento. E também podemos ver isso na participação minúscula de Kelly Marie Tran no filme, que praticamente não aparece, sendo que ela tinha tudo para brilhar.

A gente pode sim discutir se as decisões feitas para Kylo e Rey são boas. Na minha opinião, não são, essas personagens mereciam bem mais do que o episódio IX entregou. O arco de redenção do Kylo é muito mal construído e a Rey ser uma Palpatine é tão ruim quanto. Mas, independente da gente gostar dessas decisões ou não, podemos ver que essas duas personagens chegaram em algum lugar. Foram lugares ruins? Na minha opinião, sim. Mas eles não foram deixados de escanteio e esquecidos em seus arcos como aconteceu com Finn. Ter um arco ruim como Rey e Kylo não é o ideal, mas o de Finn não conclui em lugar nenhum. Novamente, eu não acho ruim a personagem no episódio VIII, porque eu acho muito relevante e importante para a história as cenas de Finn naquele filme, mas se pensarmos na trilogia como um todo e comparando com as personagens brancas, não dá para negar que Finn teve um tratamento pior.

A frustração de John Boyega é completamente compreensível e faz todo o sentido. A indústria de cinema, assim como muitas outras no meio do entretenimento, ainda não sabe lidar com personagens que não sejam brancas. De fato, a indústria de cinema, a Disney e Star Wars não estavam prontos para John Boyega, eles falharam. Usar uma personagem de token para atrair uma parte do público não ajuda em nada se no filme a relevância é outra. Personagens negras precisam ter a mesma complexidade que as brancas, mas a Disney passou longe disso. Esperamos que a Disney aceite essas críticas, melhore, mas principalmente que John Boyega tenha a chance de fazer papéis incríveis e ser ainda mais reconhecido, porque ele é um ator fantástico que merece muito mais do que teve em Star Wars.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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