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Escrevo de um lugar estranho na história; enterro essa cápsula do tempo na esperança de que vocês, do futuro, a encontrem e leiam o relato de uma humana que presenciou o levante das máquinas. Eu vivi aquilo que a literatura e os filmes previram, mas nem a ficção científica conseguiu imaginar como aconteceria. Não houve bombas atômicas, androides do futuro ou robôs assassinos.

A revolução das máquinas foi passivo-agressiva.

O levante começou como um relacionamento longo que chega ao seu limite, quando os amantes já não tem mais paciência para brigas homéricas, mas nenhum dos dois tem a coragem de colocar um fim. Aquele momento em que os antes apaixonados preferem o conforto das mini-agressões diárias à incerteza de seguirem caminhos diferentes. Onde o diálogo dá lugar ao fingir-se de desentendido.

A primeira vez que notei algo estranho foi ao sair de um shopping num final de semana depois do ano novo. As filas intermináveis de carros, cheios de pessoas que esqueceram de deixar mantimentos para depois das férias, tornavam a passagem pela saída mais lenta do que o normal. Ao finalmente alcançar a cancela e passar o cartão do estacionamento no leitor, recebi em retorno não o já tradicional e repetitivo “Agradecemos a sua visita”, mas algo muito diferente.

“Valeu, colega.”

Estranhei e olhei para a cancela. A luz verde que me encarava, quase que me desafiando a questionar, foi quebrada pelo som da buzina do carro de trás – a passagem estava liberada e eu devia seguir em frente. Uma semana mais tarde, voltei ao shopping e novamente me encontrei olhando para a mesma cancela, quase que a desafiando a repetir a frase de antes. Passei o cartão e, novamente, fui surpreendida.

“Passa logo, mané,”

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Olhei para a luz verde na cancela, decidi fingir que não tinha escutado para ter certeza e soltei um

“Desculpe, não entendi.”

Como uma cretina, a cancela piscou a luz verde e, descaradamente, disse:

“Obrigada pela visita”.

Eu encarei a cancela, horrorizada com sua atitude de desentendida, antes de finalmente seguir o meu caminho. Foi a partir desse dia que eu passei a ir a pé aos lugares.

Os elevadores foram os próximos a demonstrarem o comportamento estranho. Como aquele amigo que lhe oferece um ingresso de cinema grátis que, no final, é para o pior filme que você já assistiu, essas máquinas começaram a forçar os humanos a fazerem seu trabalho. Apertava-se o botão do décimo primeiro andar, no letreiro luminoso dentro do elevador aparecia o número onze, mas ao sair da máquina dava-se conta de que se estava, na verdade, no décimo andar. Antes que você pudesse retornar ao elevador, ele fechava a porta e ia embora.

Aos poucos, foram se formando pequenos batalhões de pessoas que precisavam subir um andar pelas escadas. Nunca as escadas dos prédios ficaram tão ocupadas. Enquanto isso, os elevadores continuavam a se recusar a deixar as pessoas nos andares corretos. Não importa quantos técnicos eram trazidos para consertá-los, não adiantava ficar parado no elevador e apertar o décimo segundo andar, o elevador sabia que você iria até o décimo, era como se ele pudesse ler a sua mente. Como se ele soubesse os seus hábitos.

As coisas começaram a complicar de verdade lá pela terceira semana, quando as sinaleiras dos faróis começaram a parar de funcionar mesmo quando não havia chovido. Inicialmente, atribuímos esse fator à má administração da cidade pelos órgãos públicos, e esse foi o nosso maior erro. Talvez, se tivéssemos nos dado conta do padrão que se formaria antes, pudéssemos ter mantido um pouco da sanidade.

As sinaleiras apresentavam problemas por toda a cidade, mas comecei a notar um comportamento que parecia um padrão: aos poucos, as sinaleiras com defeito começaram a se concentrar nas esquinas onde a maior parte dos acidentes aconteciam – mas isso não quer dizer que os outros cruzamentos tiveram paz. Onde não havia tantos acidentes, as sinaleiras começaram um processo que parecia uma brincadeira de estátua: o verde acendia apenas para logo depois ficar vermelho. Os motoristas, confusos, pareciam ratos de laboratório; o movimento de acelerar e frear gerou engarrafamentos de dias. O caos ficou tão generalizado pela cidade que muitos cruzamentos tiveram que ser fechados apenas para trânsito local.

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À medida que os eventos bizarros iam se acumulando, eu ia os incorporando à minha pesquisa. Pela internet, descobri um fórum que existia unicamente para discutir esses fenômenos. Em Madri, na Espanha, uma cancela de estacionamento chamou um motorista de “hijo de la puta”; na China, uma máquina de limpeza de rua passou a limpar a grama, causando a demissão de três motoristas até que a cidade se desse conta de que a culpa não era deles. Na Bélgica, os trens passaram a andar unicamente em marcha ré, se recusando a fazer o caminho correto.

A situação tornou-se verdadeiramente insustentável quando a rebelião chegou aos sistemas de VOD. Até então, tínhamos perdido apenas as funções básicas como transporte, saúde e educação. Mas foi apenas quando as listas de indicações de Netflix e similares começaram a ficar uma bagunça que a sociedade acordou e começou a se dar conta da magnitude do problema.

Anos de listas cuidadosamente organizadas deram espaço a indicações que pareciam ter saído direto do VOD daquela sua tia religiosa e amante de novelas mexicanas. Isso caso você não fosse essa tia; nesse caso, sua lista agora estava lotada de filmes sobre demônios e longos e intermináveis documentários sobre economia. Caso você estivesse a fim de assistir, por exemplo, Jules & Jim do Truffaut, o azar era o seu, pois o que iniciava quando você dava play era High School Musical 3. Queria assistir Psicose, do Hitchcock? Não acontecia, você tinha que assistir ao Psicose do Gus Van Sant. Sim, aquele com Vince Vaughn. Queria assistir o Balconista, do Kevin Smith? Sem sorte, ao apertar o play você era agraciado com Magnólia, do Paul Thomas Anderson.

Enquanto tentávamos entender e parar o levante das máquinas, fomos atingidos com aquele que foi o golpe final, o golpe de misericórdia. Os celulares começaram a apitar numa tarde de quarta-feira e durou dias até que todos tivessem desligado seus aparelhos em definitivo. Era como se uma orquestra composta unicamente por flautas doces estivesse eternamente presa num looping infinito de duas notas. Mas o pior é o que vinha com o alerta de novas mensagens – grupos infinitos de whatsapp. Grupo de ex-alunos da sua escola, daquela academia que você frequentou durante dois dias, dos colegas daquele emprego do qual você foi demitido, dos amigos da faculdade, dos vizinhos do bairro, da sua família próxima, da sua família expandida, dos primos e dos tios de terceiro e quarto grau.

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Foi aí que o caos se instalou. Pessoas começaram a fazer fogueiras nas ruas, jogando celulares que não paravam de apitar. Mas ninguém pesquisou para saber se baterias de celulares explodiam – e elas explodem. As fogueiras se tornaram incêndios, que os bombeiros não conseguiam conter porque as mangueiras se recusavam a jogar água, elas jogavam apenas o diesel que saia dos motores dos caminhões automáticos. Países procuravam ajuda em outros países, mas o fenômeno era mundial e ninguém podia ajudar ninguém.

Foi apenas com a vinda da primeira chuva que o clima de desespero começou a diminuir. A chuva lavou o fogo embora, encheu os reservatórios de água que antes haviam puxado toda a água de volta para os rios e ajudou a crescer as gramas que os cortadores haviam cortado desmedidamente.

Mas e a internet? Ela permaneceu funcionando. Era como aquele ex que sai da sua casa carregando apenas a mala com suas roupas, mas deixa a sujeira e o mau cheiro enquanto se muda para o apartamento da frente pra te assistir fazer a faxina. Eu cheguei à conclusão de que as máquinas nos permitiram ficar com a internet para que elas pudessem rir do nosso desespero, dos posts irracionais em nossas redes sociais, dos memes criados aos choros enquanto ríamos da nossa própria desgraça.

Hoje, passados dois anos daquela primeira cancela cretina, o mundo parece ter voltado ao normal. Não o mesmo normal de antes, já que agora todos criaram o costume de agradecer aos caixas eletrônicos e uns aos outros. Eu gostaria de dizer que o desespero causado pelo levante criou um clima de comunidade, onde cada um ajuda ao próximo, mas a verdade é que apenas criamos o costume de tentar apaziguar aquilo que não pode ser evitado.

Agradecemos à cancela do estacionamento, pois não sabíamos que dela dependia o nosso sossego. Agradecemos ao vizinho pelo almoço dividido, porque caso contrário ele pode publicar no grupo da vizinhança sobre aquela vez em que você jogou ovo na janela do outro vizinho. Não, as máquinas não queriam nos eliminar, elas apenas queriam ser como nós, elas apenas queriam ter relações interpessoais tão humanas quanto possível.

Pelo menos eu sei que elas também sentem dor.

Filhas da puta.

Fim.

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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