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Escrevo de um lugar estranho na história; enterro essa cápsula do tempo na esperança de que vocês, do futuro, a encontrem e leiam o relato de uma humana que presenciou o levante das máquinas. Eu vivi aquilo que a literatura e os filmes previram, mas nem a ficção científica conseguiu imaginar como aconteceria. Não houve bombas atômicas, androides do futuro ou robôs assassinos.

A revolução das máquinas foi passivo-agressiva.

O levante começou como um relacionamento longo que chega ao seu limite, quando os amantes já não tem mais paciência para brigas homéricas, mas nenhum dos dois tem a coragem de colocar um fim. Aquele momento em que os antes apaixonados preferem o conforto das mini-agressões diárias à incerteza de seguirem caminhos diferentes. Onde o diálogo dá lugar ao fingir-se de desentendido.

A primeira vez que notei algo estranho foi ao sair de um shopping num final de semana depois do ano novo. As filas intermináveis de carros, cheios de pessoas que esqueceram de deixar mantimentos para depois das férias, tornavam a passagem pela saída mais lenta do que o normal. Ao finalmente alcançar a cancela e passar o cartão do estacionamento no leitor, recebi em retorno não o já tradicional e repetitivo “Agradecemos a sua visita”, mas algo muito diferente.

“Valeu, colega.”

Estranhei e olhei para a cancela. A luz verde que me encarava, quase que me desafiando a questionar, foi quebrada pelo som da buzina do carro de trás – a passagem estava liberada e eu devia seguir em frente. Uma semana mais tarde, voltei ao shopping e novamente me encontrei olhando para a mesma cancela, quase que a desafiando a repetir a frase de antes. Passei o cartão e, novamente, fui surpreendida.

“Passa logo, mané,”

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