A History of Violence é um episódio que volta a unir as pontas dos enredos de Lovecraft Country, que tinham se afastado um pouco no episódio anterior. É um episódio com algumas das cenas mais divertidas, e tensas, da série, mas que também com alguns elementos que são importantes debater.

Sinopse de A History of Violence.

Depois que Christina aparece misteriosamente à sua porta, Leti confronta Atticus sobre seu plano de voltar clandestinamente para a Flórida. Mais tarde, em busca de páginas ausentes em um texto crucial, Leti, Tic e Montrose seguem para Boston, com Hippolyta e Diana (Jada Harris). De volta a Chicago, um belo estranho nutre a decepção de Ruby por uma oportunidade de emprego desperdiçada.

A primeira parte deste texto não tem spoilers. Quando os spoilers começarem, será avisado.

Da mesma forma que o terceiro episódio deu mais espaço para Letitia brilhar, nesse episódio vemos outras personagens ao redor dos protagonistas tendo espaço para terem seus próprios arcos tratados e evoluídos. Mas, o foco principal do episódio ainda é uma busca perigosa, no melhor estilo Indiana Jones, que Letitia, Tic e Montrose fazem, na esperança de encontrar algo que derrote Christina antes que ela cause mais mal.

O quarto episódio de Lovecraft Country é um dos que tem melhor ritmo, misturando muito bem o drama com os elementos de terror e tensão. Mesmo com muita informação, e bastante troca de cena entre as personagens, A History of Violence ficou dinâmico e divertido, e não perdido de uma maneira que atrapalhasse o entendimento do público.

A History of Violence, apesar do nome, tem um grande foco em mistério, investigação e intrigas. Se Tic e os outros querem derrotar Christina, eles vão precisar de mais informações e se armar melhor, porque da última vez que se enfrentaram, o preço pago foi muito alto. O clima de tensão e mistério em toda a cena do museu é ótima e funciona muito bem, deixando o público tenso nas horas certas, seja por conta de uma ponte que começa a aparecer, seja porque as personagens começam a brigar em um momento que mais atrapalha do que ajuda.

É interessante que esse episódio de Lovecraft Country também mostrou mais de Montrose, não só com tempo de tela, mas as motivações da personagem e porque em certos momentos ele age de maneira tão antagonista. Como é mostrado desde o primeiro episódio, as relações familiares entre as personagens são complexas, e por mais que exista uma vontade das pessoas se protegerem e se ajudarem, nem sempre boas intenções são o suficiente. Às vezes uma mentira para proteger alguém não ajuda tanto quanto algumas pessoas imaginariam, e vemos bastante isso em Montrose nesse episódio. O que é ainda mais interessante, porque em outra série, Tic ter salvado o pai poderia ter sido o suficiente para que a relação deles passasse a ser ótima, mas não, e eles parecem estar longe de se resolverem.

E quando tudo parece que está indo bem, que Tic e Letitia vão conseguir novas respostas (inclusive, cada vez mais amando esse ship), Lovecraft Country muda tudo e mostra que às vezes os obstáculos estão mais próximos do que imaginamos, e se não resolvermos algumas coisas, elas continuam sendo um problema… O final de A History of Violence foi um momento tenso que deixou mais perguntas em um episódio que parecia que teríamos mais respostas. Mas isso não acontece de maneira barata, e sim de uma forma que surpreende e te instiga a querer assistir o resto.

Para mim, o ponto negativo do episódio foi quanto a representação de uma personagem nova que apareceu na série. Eu entendo as decisões, mas acredito que Lovecraft Country não tomou os cuidados necessários. Mas vou falar melhor disso a partir de agora, onde começam os spoilers.

Eu estava adorando tudo em A History of Violence, como pontuei antes é um episódio muito bem feito e toda a aventura no museu foi ótima, incluindo as discussões internas, até me lembrou cena de mesa de RPG (falo isso como elogio). Mas tem uma sequência que eu gostaria que fosse tratada de maneira melhor.

No fim da busca, Tic, Letitia e Montrose encontram uma pessoa presa no museu, Yahima. Elu se apresenta como uma pessoa “dois espíritos”, uma identidade de gênero nativa americana não binária. Seria ótimo ter uma representação trans assim na série, mas infelizmente Lovecraft Country não acerta aqui. A câmera que mostra Yahima faz questão de mostrar as genitais e o corpo nu da personagem, que honestamente, não precisava. Elu se apresenta como dois espíritos. Além disso, Montrose começa o diálogo perguntando “O que é você?”, o que é bem ofensivo e transfóbico, colocando uma pessoa trans e indígena no estado de “coisa”.

Eles fogem e ao que tudo indica Yahima será uma pessoa importante nas descobertas futuras… Ou não. No final, quando Tic diz que Yahima pode traduzir as páginas que eles têm com informações importantes, Montrose entra no modo “preciso proteger minha família” e mata Yahima de forma violenta. Eu vejo o propósito disso para Montrose como personagem, mostrando que ele sabe de algo importante, não vai falar tão cedo e pode mais atrapalhar do que ajudar. Mas sério mesmo que justo a única personagem trans até agora precisava morrer assim, de uma forma tão gráfica?

Sim, já vimos pessoas morrendo e voltando em Lovecraft Country, como Letitia, mas já vimos elas morrendo e permaneceram mortas, como George, e ao que tudo indica esse é o caso de Yahima, já que não havia qualquer elemento sobrenatural em sua morte. Então a menos que Lovecraft Country pretenda apresentar mais personagens trans, ou trazer Yahima de volta de alguma coisa, isso foi uma decisão errada.

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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