Esta crítica não tem spoilers do episódio Holy Ghost de Lovecraft Country nessa primeira parte do texto. Quando os spoilers começarem, será avisado.

Com um ritmo melhor do que o do segundo episódio e expandindo ainda mais o universo da história, Lovecraft Country entrega algumas das melhores cenas da temporada até agora, e mostra que o terror vai muito além do que imaginávamos. Em Holy Ghost, as personagens estão tentando seguir em frente após o acontecimento dos primeiros episódios, mas o horror está por todas as partes.

É mais um episódio ótimo de uma série que promete cada vez mais.

Sinopse do episódio:

Na esperança de consertar seu relacionamento com sua irmã Ruby (Wunmi Mosaku), Leti transforma um vitoriano em ruínas no lado norte de Chicago em uma pensão – um empreendimento que alimenta o racismo do bairro e desperta espíritos adormecidos presos na casa. Enquanto isso, Atticus permanece sobrecarregado por uma consciência culpada, enquanto a esposa de George, Hipólita (Aunjanue Ellis), pressiona-o para a saber a história completa do que aconteceu em Ardham.

O começo de Holy Ghost pode causar algum estranhamento. Em um primeiro momento, parece que estamos em um ponto completamente diferente de Lovecraft Country, quase como se os acontecimentos de Ardham não tivessem acontecido. Mas logo entendemos que algumas semanas se passaram desde os eventos horríveis que aconteceram lá, e que as personagens não esqueceram e estão, cada um do seu jeito, tentando lidar com os horrores vistos. Não só isso, mas estão tentando lidar com os próprios dramas familiares.

Esse episódio tem Letitia como protagonista. Nós sabemos desde o primeiro momento do seriado que ela não tem as melhores das relações com sua família, então não é à toa que esses assuntos não resolvidos sejam o que, de um jeito ou de outro, causem medo em Holy Ghost. Tic ainda tem uma participação importante, mas foi a vez de Letitia brilhar e isso foi ótimo, porque não só entendemos mais sobre ela, mas também vemos que o terror de Lovecraft Country não é algo que gira apenas ao redor do protagonista, ele se expande pelas personagens e o universo.

Como sempre, a constante fonte de medo vem das pessoas brancas e da sociedade racista. Como já pontuei na crítica do primeiro episódio, a série mostra como o racismo pode ser bem mais assustador que o sobrenatural, mas nem por isso os monstros de outro mundo não existem. A sociedade construída pelo privilégio da branquitude e o horror sobrenatural não são separados, são elementos que se encontram e coexistem. Afinal de contas, o sobrenatural é usado por alguém contra um alvo específico, e essa escolha de alvos não é à toa.

Esse episódio de Lovecraft Country entra bem mais no âmbito daquele terror que não dá para lutar contra diretamente, com armas de fogo ou facas. É preciso ser inteligente e saber usar os elementos próximos ao seu favor. Quando os inimigos são tão difíceis de derrotar, seja por serem monstros ou por serem protegidos por um sistema injusto, o que dá para fazer para sair ileso, ou pelo menos sair da melhor maneira possível?

Holy Ghost apresentou alguns elementos bem perturbadores, com cenas fortes, mas sem passar do limite do que seria desnecessário. Lovecraft Country tem mostrando que sabe como mostrar violência, enquanto constrói personagens empáticas e com ações críveis. E mesmo com o terror bem colocado, o episódio sabe balancear bem o respiro, com as exposições e os momentos de tensão.

Como comentei antes, no começo pode parecer que a história de Holy Ghost está desconexa do que foi apresentado para a audiência até agora, mas logo percebemos que não é verdade. E, mesmo que existam elementos extras, eles não atrapalham, são importantes e ajudam muito na construção das personagens, nesse caso especificamente mostra coisas importantes da Letitia e o seu arco de personagem.

A seguir, alguns comentários com spoilers.

The 'Lovecraft Country' Monster Watch: The 'Holy Ghost' Is Whacking Heads  And Taking Names – News Lagoon

O elemento da casa mal assombrada é um clássico, e cientistas anti éticos que fazem experimentos malignos também é um elemento bastante usado, especialmente em espaços como o gore. Então, talvez, pareça um pouco clichê, mas nada em Lovecraft Country está lá por acaso. O elemento da casa aparece exatamente para ampliar o arco de Letitia, uma personagem que apareceu na série com problemas de não ter uma casa e não se encaixar com a própria família.

Além disso, o fato dos vizinhos brancos não aceitarem as pessoas negras no bairro só mostra como, mesmo quando essas personagens estão em sua casa, não se sentem necessariamente confortáveis por conta do ambiente ao seu redor. Não ter um lugar seguro é algo muito cruel e perigoso também, como esse episódio mostra bem. E, como descobrimos no final do episódio, Letitia e sua irmã não foram as primeiras pessoas negras a morarem lá, mas o destino dos ex moradores foi pior.

Eu gosto muito de como tem sido construída a relação entre Letitia e Tic. Pode parecer um ship meio óbvio, mas é uma relação tão complexa quanto todas as outras relações na vida dos dois. Inclusive, nós vemos que mesmo tendo encontrado seu pai, objetivo principal dos primeiros episódios, Tic ainda não tem a melhor relação com ele.

Para terminar, eu adorei que o episódio amarrou tudo com o ponto principal da história, que foi todo o drama de Tic com a sua herança. Aqueles poderes usados pelos inimigos são assustadores, mas o que nos faz terminar o episódio tensos é o fato de Christina saber exatamente o poder que tem sob Tic, não só por seus conhecimentos do oculto, mas também porque ela entende a relação de poder que existe entre uma mulher branca e um homem negro nos Estados Unidos (e não só lá).

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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