Depois da nossa viagem para a Coréia, voltamos para os Estados Unidos em Lovecraft Country, para entender o que as personagens estavam fazendo enquanto nós víamos o flashback do último episódio. As investigações continuam, mas não só sobre os planos de Christina. Nesse episódio, vemos muito de Hipólita tentando entender o que aconteceu com o marido… E outras coisas.

A busca incessante de Hipólita (Aunjanue Ellis) por respostas a leva em uma jornada multidimensional de autodescoberta e Atticus (Jonathan Majors) consulta um velho amigo da família.

Eu já estou completamente convencida de que Lovecraft Country é uma série muito sensível. Ela consegue abordar temas pesados e complexos de maneiras delicadas na maioria das vezes. Em I Am, a segunda metade do episódio é melhor do que a primeira, e são dois pontos completamente distintos da história, mas elas compõe bem a ideia do episódio. I Am fala, como o nome indica, sobre o ser. As possibilidades de quem somos e o que nós escolhemos ser a partir do momento em que nos conhecemos melhor.

A primeira parte do texto não tem spoilers, quando os spoilers começarem, será avisado.

Ruby and Leti - Lovecraft Country Season 1 Episode 7 I Am

Por mais que I Am seja focado em uma jornada de descoberta de Hipólita, e essa com certeza é a melhor parte do episódio. A primeira metade do episódio nos traz de volta para o presente, depois de todo o flashback do episódio passado. Ruby não está muito feliz com Christina, e com razão, mas o jeito que a age vilã nos deixa na dúvida sobre a real relação que existe entre elas, e como isso pode ser tratado no futuro. É um ponto da série que na verdade eu estou bem curiosa para ver como vai se desenrolar.

Também conseguimos ver mais um pouco da parte de Montrose e uma briga bem feia entre ele e Atticus. Acho que foi uma das primeiras vezes em interações com os dois que eu senti pena de Montrose. Eu entendo da onde veio a reação de Atticus, e porque ele brigou com o pai do jeito que ele brigou, pelo motivo que vimos. A relação dos dois é muito complexa, desde o primeiro episódio, então a explosão de emoção entre os dois é muito crível. Outro momento ótimo foram as cenas entre Ruby e Letitia, outra relação de família complexa que consegue ser bem explorada.

Mas não adianta, o que rouba a cena desse episódio com certeza é a parte da Hipólita. Nós já sabíamos que, desde a morte de George, ela não ficaria quieta e estava disposta a seguir as suas investigações. Não é como se ela estivesse errada, tem muita coisa bizarra acontecendo ao redor daquela família. No meio dessas investigações, Hipólita se vê em uma situação muito lovecraftiana e bizarra. A busca por resposta sobre o que está acontecendo virou uma jornada de auto conhecimento, que misturou elementos de ficção científica no horror da melhor forma possível.

Como o título indica, o assunto principal do episódio é sobre ser. Eu não sei o quanto essa jornada de Hipólita tem a ver com a narrativa principal da história, mas não acho que isso seja um problema. Fugir do foco principal da história nunca foi um problema em Lovecraft Country, e nesse episódio vimos que o que parece ser uma pista muito importante para a construção do mundo de Lovecraft Country durante essa aventura de Hipólita. Talvez a linha do tempo e do espaço não funcione exatamente da forma que imaginamos o que, novamente, conversa muito com o terror Lovecraftiano.

Mais uma vez Lovecraft Country consegue amarrar bem assuntos internos das personagens com o que acontece ao redor deles. E, especialmente em I Am, a possibilidade que foi revelada é algo que pode mudar completamente a dinâmica do mundo da série. Talvez algo que, caso Atticus consiga entender e aprender a usar, pode ser uma vantagem contra a magia de Christina.

Agora alguns comentários com spoilers.

Então Atticus descobriu que o pai gosta de homens (eu acredito que ele seja bissexual ou pansexual, por causa da mãe de Atticus) e foi bem agressivo quanto a isso. Eu entendo a raiva, porque Atticus sofreu muito abuso na mão de Montrose. Isso não justifica, de maneira alguma, falar as coisas que ele disse, mas é uma cena que faz muito sentido dada a relação dos dois. Quero muito ver como a série vai tratar esse assunto daqui pra frente.

É muito bonito ver uma mulher negra, como é o caso de Hipólita, ter boa parte do episódio dedicada a jornada dela do querer ser, de se entender e se permitir ser livre para explorar seja lá o que ela quer fazer. O que parece ser um inimigo, a forma alienígena que “prende” ela, se torna um meio de se tornar mais. Talvez porque esses processos de autodescoberta sejam dolorosos mesmos, se entender não é a coisa mais agradável de todas. Mas é essencial para a gente evoluir e, além de tudo, escolher onde a gente quer ficar, que é exatamente a conclusão em que Hipólita chega.

Também é muito interessante a cena em que ela conversa com um George que não é real… Ou é? Bom, isso fica no ar, se a teoria de multiverso e que eles se afetam for real mesmo, como parece ser por esse episódio, pode existir outro George por aí. O ponto é que Hipólita percebe que, mesmo feliz na sua relação, ela não era perfeita, porque parte do relacionamento fazia ela se sentir menor e fazia ela se podar. O que é algo fácil de entender, relações são complexas e elas podem ser boas, mas nos causar algum mal. E a sua jornada vai além disso, com elementos afrofuturistas, essa parte do roteiro mostra que as estruturas de poder racistas podem ser muito mais sutis do que nós imaginamos.

Eu acho que, no final do dia, parte do que Lovecraft Country quer nos dizer com essa temporada (e eu posso estar errada), é como uma busca e entendimento interno é essencial para conseguirmos enfrentar os problemas ao nosso redor, seja uma sociedade racista ou seja criaturas monstruosas surreais. Talvez parte disso apareça em como Atticus precise abraçar seu lado mágico para enfrentar Christina? Vamos saber nos próximos episódios.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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