Desde o primeiro episódio, nós estamos nos perguntando quem é a moça com quem Tic conversa no telefone em vários momentos da série. Nós conseguimos imaginar que ela tinha alguma coisa a ver com o passado dele na guerra, mas só agora em Meet Me In Daegu que Lovecraft Country nos mostra quem ela realmente é.

O episódio mais delicado até agora, que volta a brincar com o horror gráfico, enquanto fala de terrores muito mais palpáveis, misturando questões pessoais com assuntos políticos que envolvem uma guerra e seus horrores.

No meio da Guerra da Coréia, a estudante de enfermagem Ji-Ah cruza com um Atticus ferido, que não lembra de seu violento primeiro encontro.

Esta crítica começa sem spoilers do episódio. Quando começarmos a falar de spoilers, será avisado no texto.

Primeiro, um pequeno comentário: Eu adorei que as partes que envolvem só personagens coreanas, elas falavam 100% em coreano, não em inglês como acontece em muitas obras dos Estados Unidos. Mesmo que esse seja um episódio que funcione como um flashback da história de Atticus na guerra, ele não é o protagonista desse episódio. A personagem principal aqui é Ji-Ah, uma enfermeira na Coréia. Mas muito antes dela conhecer Tic, nós vemos que a vida dela é muito mais complicada do que aparenta em um primeiro momento. E um dos pontos mais importantes para a construção de Ji-Ah é a relação que ela tem com a mãe.

Em um primeiro momento, é fácil entender que a relação dela com a mãe é uma de expectativas não cumpridas. E de fato é, mas não do jeito comum. Parece que Ji-Ah está tendo problemas para agradar sua mãe porque não consegue encontrar o homem perfeito, mas logo percebemos que a verdade é um pior e mais grotesca do que esperávamos.

Ji-Ah poderia facilmente cair em um estereótipo de mulher asiática “mística” e “sedutora”, e com certeza existem elementos em Meet Me In Daegu que poderiam mostrar esse lado. Mas como eu costumo dizer, o problema não é necessariamente as personagens terem estereótipos específicos, mas como eles são tratados. A personagem em questão é reduzida a esse estereótipo? No caso de Ji-Ah, não. Ela é muito mais do que alguns certos aspectos, e inclusive essa é toda a grande questão da personagem ao longo do episódio. Ela acredita que só pode ser o que dizem que ela é, mas ao longo do episódio, vai descobrindo que quer ser muito mais do que a expectativa de sua mãe e de seu país de maneira geral.

Lovecraft Country: Meet Me In Daegu

Obviamente, como muitas pessoas entendem, principalmente mulheres, esse caminho de auto conhecimento, aceitação e entender quem somos não é um caminho fácil. Às vezes é doloroso, às vezes é sangrento e até traumático. Nem todo mundo vai aceitar e, no final, talvez nem tudo sejam flores, mas o fato de se compreender e estar confortável em ser quem é faz com que todas as outras coisas se tornem mais possíveis.

E, às vezes, parte do processo de se entender é compreender o outro, ver a vulnerabilidade nos que estão ao seu redor e aceitar que ela existe dentro de nós também. Por isso esse episódio de Lovecraft Country é um dos mais delicados até agora. Ele trata de assuntos muito intimistas, sem ignorar uma guerra literal ao redor das personagens e mostrando que, além dos eventos dos livros de história, há pessoas reais ali com suas próprias questões e sentimentos.

Além disso, outro ponto alto do episódio foi mostrar uma outra face de Tic. Nós sabemos como Tic é com Letitia, sabemos como ele se porta diante de certos membros de sua família e também com um inimigo, como é o caso com Christina. Mas nunca vimos a face do Tic como soldado, seguindo ordens em um contexto horrível, que é exatamente o que Meet Me In Daegu mostra. Até pensando por esse lado, o episódio carrega elementos bem pesados, mas acredito que todos eles compõe uma história de auto descoberta e como, muitas vezes, para se achar é preciso de algumas cicatrizes, infelizmente.

A partir daqui, os comentários do episódio serão com spoilers.

What Makes a Monster: Lovecraft Country, “Meet Me in Daegu” | Tor.com

Eu consegui me envolver tanto com Ji-Ah, e até mesmo certas questões de Tic, que eu me peguei emocionada em cenas que não estavam ali com o intuito de emocionar o público. O fato de ambos usarem da ficção como escapismo, não só dos terrores da guerra, mas dos horrores que é fazer parte de minorias, vai falar muito fundo com boa parte do público. Porque é a verdade, a vida pode ser insuportável, e muitas vezes o que nos sobra são as histórias.

Voltando a falar da possibilidade de Ji-Ah cair em estereótipos, vamos pensar sobre o fato de Ji-Ah ser uma kumiho. Em lendas coreanas, kumihos são raposas que viveram mais de mil anos, seres poderosos que podem se transformar em mulheres muito bonitas e seduzirem rapazes para se alimentar de seus corações. E é exatamente isso que ela faz, mas não porque quer, mas sim porque sua mãe a obriga. Pelo que entendemos, a mãe de Ji-Ah fez um acordo com uma kumiho, para matar seu marido que abusava de sua filha. Porém, para Ji-Ah voltar a ser “ela mesma”, ela precisaria matar cem homens.

Mas será que ela realmente voltaria a ser Ji-Ah, ou ela seria o que a mãe dela queria que ela fosse? A memória da filha? Toda a relação das duas mostra como, às vezes, pais buscam controlar os filhos e torná-los em algo que eles não são. Ji-Ah sempre ouviu que não podia amar, mas ela amou Tic, e também amou a sua amiga. Ela não vai deixar de ser uma kumiho com isso, mas talvez as coisas não sejam excludentes. E eu acho ainda mais simbólico que esse controle familiar seja mostrado justamente com a questão da sexualidade, um assunto que pode se tornar muito opressor para inúmeras mulheres.

Para terminar, também queria pontuar que as cenas românticas entre Tic e Ji-Ah foram muito bem feitas, muito amorzinho mesmo, apesar da possibilidade de tragédia por trás. Poucas vezes vi cenas de romance entre um homem e uma mulher em que o cara é tratado de maneira tão delicada e sensível, mesmo em um contexto em que o vemos fazendo coisas horríveis. Meet Me In Daegu é um episódio muito sensível e que adiciona muito para Lovecraft Country.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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