Neste domingo, estreou na HBO a série Lovecraft Country, que terá um episódio novo lançado toda a semana. Esta crítica não tem spoilers e fala do primeiro episódio da primeira temporada, Sundown. As próximas críticas possivelmente terão spoilers.

A série é baseada no livro Lovecraft Country, de Matt Ruff. Segue a sinopse do primeiro episódio:

O veterano e aficionado por ficção Atticus Freeman (Jonathan Majors) viaja de Jim Crow South para sua cidade natal, no lado sul de Chicago, em busca de seu pai desaparecido, Montrose (Michael Kenneth Williams). Depois de recrutar seu tio George (Courtney B. Vance) e a amiga de infância Letitia (Jurnee Smollett) para se juntar a ele, o trio parte para “Ardham”, MA, onde eles acham que Montrose pode ter procurado informações sobre os ancestrais da mãe de Atticus. Enquanto viajam pelo Centro-Oeste, Tic, Leti e George encontram perigos a todo momento, especialmente depois do pôr do sol.

Sundown é com certeza uma das melhores estreias da televisão. O episódio me fez sentir inúmeras sensações ao mesmo tempo, me fez importar com os personagens e estabeleceu muito bem quais são as questões do núcleo principal.

O episódio começa apresentando os pilares da história. Os três personagens que terão mais destaque, Atticus, George e Letitia, além de mostrar seus dramas pessoais. Nenhum deles tem a melhor experiência quando o assunto é família. Apenas nesse episódio, conseguimos entender e nos relacionar com os dramas familiares desses personagens e entender a missão principal: A busca por Montrose, pai de Atticus, em um lugar chamado Ardham.

Lovecraft Country consegue ser uma história de terror muito antes do elemento sobrenatural. Em um contexto racista nos Estados Unidos (que ainda é até hoje, diga-se de passagem), os policiais brancos são muito mais assustadores, em um ponto em que, entre criaturas fantásticas e os policiais, eu me vi aliviada com a chegada dos monstros. Todo o suspense e terror do filme é muito bom e bem construído, com atuações e pistas na cena que o público percebe muito antes dos próprios personagens.

Eu não li o livro, então não posso dizer se essa é uma boa adaptação do original. O que eu posso fazer é julgar como obra em si funciona, independente do livro. Nesse ponto, a série não tem nenhum problema em introduzir o público na história e engajar as pessoas. O começo do episódio é um pouco mais lento, e talvez ele pudesse ter alguns cortes, mas acho que essas cenas foram importantes para ambientar os personagens e a história. Eu sinto muito mais empatia por Letitia na segunda briga que ela tem no episódio depois de ver melhor a relação dela com a irmã.

É muito interessante termos uma história baseada em toda a mitologia de Lovecraft, e de terror no geral, com o elenco principal sendo de pessoas negras. Personagens negras nunca tiveram o melhor histórico nos filmes de terror. Como é bem tratado no livro Horror Noire: A Representação Negra no Cinema de Terror, da editora Darkside Books, o terror é um gênero de ficção com uma grande carga de racismo. Isso inclusive pode ser visto nas próprias obras do Lovecraft, que era considerado racista para a época dele. Eu já li algumas coisas de Lovecraft e não acho que já tenha lido nada da ficção mais racista. Eu não estou dizendo que ele é um autor ruim e nem que você não possa consumir as coisas dele, principalmente as coisas derivadas dele (como o RPG Chamado de Cthulhu), mas não dá para negar que o racismo do autor estava estampado na obra dele.

Então é ótimo ver uma série de terror e suspense, com um piloto de alta qualidade, um elenco majoritariamente composto por atores negros e fazendo referências não só à Lovecraft, mas também à Bram Stoker, com uma passagem do Drácula, outro clássico do gênero. O terror é um gênero de histórias que deve ser contado por todos, e Jordan Peele já provou mais de uma vez que sabe muito bem fazer histórias apavorantes fora do branco padrão.

Sundown estabelece todas as bases para o resto da temporada. Temos mistérios que queremos resolver, personagens com as quais nos importamos, um mundo bem estabelecido e muita vontade de ver os próximos episódios. A sequência da metade para o fim do episódio é muito intensa e bem feita, conseguindo variar bem entre momentos de alívio e momentos de tensão, em um lugar que o sobrenatural não é o maior problema das personagens, mas sim a sociedade racista, que é cruel e infelizmente muito palpável.

Lovecraft Country dá um show de terror e suspense, sem precisar de sustos desnecessários ou clichês apelativos. É uma história que o medo está em todo o lugar e o público consegue sentir a tensão que as personagens estão vivenciando. Não sabemos se o resto da temporada será tão boa quanto o primeiro episódio (as expectativas são altas), mas por enquanto essa é uma das melhores estreias e com certeza vale a pena conferir.

 

 

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, poledancer nas horas vagas. Determination ♡

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