A sensação de saturação com filmes de super-heróis tem dominado muitas pessoas, mesmo os fãs que continuam pagando para assistí-los no cinema. Apesar de sim, estarmos vivendo sobrecarregados por esses símbolos, com a chegada de Pantera Negra ao cinema, me parece que nós finalmente chegamos também ao melhor momento dos filmes de super-herói.

Pantera Negra não é uma história de origem, mas uma história sobre mudança. Sobre aprender com os erros de nossos ancestrais, com os erros das pessoas à nossa volta, com os nossos próprios erros e seguir, não só para um futuro melhor, mas para sermos pessoas melhores.

Tematicamente, Pantera Negra faz pela Marvel o que Os Últimos Jedi fez por Star Wars, um filme que apresenta o tema logo no começo, conseguindo mantê-lo e aprofundá-lo, não só ao longo de sua narrativa, mas também através de seus personagens. Tantos mocinhos quanto vilões representam lados diferentes de uma discussão, e o que num primeiro momento pode parecer uma dicotomia, acaba se estendendo para uma complexão discussão. A persistência e a honestidade com o tema é imensa e corajosa, mesmo outros filmes da Marvel que tentaram discutir temas mais políticos, como Capitão América: Soldado Invernal, não tiveram o mesmo tipo força que Pantera.

O filme aprofunda o tema através dos personagens com todos eles servindo, sem que isso os diminua à estereótipos, como agentes da mudança do protagonista. Diferente do que se espera de um filme sobre um príncipe assumindo um reinado, T’Challa (Chadwick Boseman) não duvida de suas capacidades para ser rei, sua insegurança nasce de Wakanda e de sua política externa. E esse é o ponto de princípio para sua mudança, e também para a expansão do tema do filme: omitir-se para preservar-se, ou interferir para ajudar?

Mas Pantera Negra não é só um filme tematicamente bem construído, ele é um filme muito bem dirigido. Ryan Coogler consegue construir um universo que, ao mesmo tempo que está dentro do padrão Marvel, foge à regra. Tudo em Pantera Negra parece novo, dos uniformes à arquitetura, das cenas de ação ao humor. Não é só a movimentação da câmera, mas o modo como as cenas são construídas, como o espectador é colocado dentro daquele universo. O trabalho é tão bem equilibrado que elementos que poderiam ser considerados excessivos, como sequências que caem dentro do padrão “sonho”, fazem todo sentido e parte daquele mundo.

As personagens femininas do filme são as melhores personagens femininas da Marvel até aqui. Sim, Viúva Negra é uma ótima personagem que teve diversas pontas em diversos filmes para se desenvolver, Gamora e Nebula também são ótimas e bem desenvolvidas. Mas ninguém nunca conseguiu entregar tanta complexidade com tão pouco como em Pantera Negra. Nakia (Lupita Nyong’o), que nos quadrinhos é noiva/rainha de T’Challa, tem motivações claras e, apesar da sua ligação com o rei, não se deixa mover por causa disso. Okoye (Danai Gurira), que eu tinha medo que fosse reduzida só à uma personagem rígida por ser uma general, apresenta tantas nuances quanto Nakia e é parte importante para a transformação e fechamento do tema. Shuri (Letitia Wright), no entanto, rouba a cena como uma cientista divertida, segura de si e de seu trabalho – com uma quedinha pela desobediência. Talvez a com menos desenvolvimento seja a Rainha Ramonda (Angela Basset), mas isso não quer dizer que ela tenha pouca presença de tela, ou que não seja por si só uma força dentro do filme.

Se T’Challa passa por uma mudança tão profunda, grande parte dela vem de seu opositor, Erik Killmonger (Michael B. Jordan). Poucas vezes foi dada tanta importância temática para um vilão em filme de super-herói, muito menos tanto desenvolvimento. Killmonger é, sem dúvida nenhuma, o melhor vilão dos filmes de super-heróis até hoje, não só porque parte dele uma porcentagem da discussão que o filme levanta, mas porque à ele é dada real importância central à trama e espaço para ser desenvolvido e entendido. Entender a motivação de Killmonger é o que permite ao espectador também entender as decisões de T’Challa.

Algumas pessoas reclamam que achei Rogue One o melhor filme de Star Wars, mas depois fiquei apaixonada por Os Últimos Jedi. Reclamam que para mim Mulher-Maravilha foi, das representações de super-heróis, a melhor até então. Não só parece que eu fico mudando de opinião o tempo todo – eu mudo de opinião o tempo todo. Isso acontece porque, aos meus olhos, os blockbusters vem recebendo cada vez mais qualidade técnica e também de representação.

Se você tem algum tipo de dúvida sobre se Pantera Negra é um filme que precisa ser assistido no cinema, a resposta é sim. Não só porque ele é um bom filme de super-herói, mas porque ele é um ótimo filme “e ponto”. Mesmo que a saturação faça você perder parte do interesse, a sensação de novidade estética, a narrativa bem estruturada e os personagens bem construídos definitivamente fazem valer o ingresso do cinema.

Pantera Negra estreou hoje em todo o Brasil.