A Cultura pop tem, desde seu início, uma tradição de glorificar a polícia, os militares e qualquer força de controle social. Ela também tem uma tradição com racismo, uma tradição de ser racista. São infinitamente mais comuns as representações de comunidades e pessoas negras como perigosas, violentas e uma ameaça aos cidadãos brancos. E essa mistura sempre termina mal para o lado mais fraco.

Os Estados Unidos estão fervendo com a discussão sobre violência policial contra pessoas negras. A morte de George Floyd foi o estopim para os protestos que inundaram cidades estadunidenses de pessoas protestando contra a polícia. O protesto se espalhou pelo mundo, chegando à diversos outros países, inclusive aqui no Brasil. Já é possível ver mudanças que os protestos têm instigado, e a cultura pop precisa fazer a sua parte nisso.

Televisão, cinema, quadrinhos, literatura, jogos – todos possuem o gênero policial, e quase sempre ele existe sem nenhum tipo de questionamento ou problematização do papel da própria polícia na manutenção de uma sociedade violenta e assassina. E eu não estou falando de “alguns poucos policiais ruins”, não, eu estou falando de uma instituição que foi construída em cima do medo branco de pessoas negras, sustentada por um sistema que, mesmo que não entenda, tem como pilares o supremacismo branco. 

Infelizmente, a cultura pop tem sim explicações para dar quando questionamos o papel dela na sustentação desses estereótipos violentos.

A lei não é o suficiente

cultura pop, polícia e racismo

Timothy, você mora no meu coração, mas é difícil.

Muitos dos produtos de cultura pop mostram policiais que precisam agir entre as lacunas da lei – ou mesmo fora dela – para que possam fazer o seu trabalho “direito”. Ou seja, os policiais estão acima da lei, que é frequentemente vista como uma mordaça que impede que esses homens de bem realmente trabalhem para manter a nossa sociedade “limpa”.

O sistema judiciário é mostrado como insuficiente, assim como todas as outras instituições sociais, presas pelo que é constantemente representado como algo negativo: direitos humanos. Em muitas dessas obras policiais matam a vontade, sem qualquer consequência ou consciência. E em muitas dessas obras, ao longo de muitos anos, os bandidos são representados por pessoas negras – ou por estereótipos visuais e simbólicos daquilo que a nossa sociedade enxerga como “cultura negra”. 

Essa perpetuação da imagem do policial, e da instituição policial, como algo que consegue definir o que é bom ou mau, sem qualquer tentativa de aprofundamento ou discussão sobre como a situação chegou naquele ponto, ajuda a sustentar o racismo institucional que atinge tanto os Estados Unidos quanto o Brasil. Temos relações diferentes entre a sociedade civil e a polícia, mas nos encontramos nesse quesito. 

Muitas vezes, pela lei ser representada como insuficiente, cria-se a figura do justiceiro, aquele que faz justiça com as próprias mãos. Aqui é possível sim encaixar super-heróis e suas equipes, não é a toa que o Justiceiro, da Marvel, tenha sido amplamente absorvido pela cultura policial como símbolo que mostra que eles são perigosos, violentos e que você deve temê-los.

Não são poucos os casos de pessoas negras que morreram na mão de vizinhos armados, apenas por estar caminhando perto da casa da pessoa branca. Essa noção de que você tem o direito de se defender caso se sinta ameaçado, e esse defender signifique tirar a vida de alguém, também é um tipo de vigilantismo. “Armas são legais, ser um vigilante é legal, matar é legal”. A culpa não é do branco se o negro está parado no seu quintal – foi legítima defesa. Não, foi violência racial, que tenta se justificar através de um raciocínio racista e assustador.

B99 e Autocrítica 

Brooklyn 99 polícia

Brooklin 99 é uma série policial de comédia. O elenco é diverso, há preocupação em mostrar uma representação diferente do que a gente normalmente vê nos programas policiais e sem medo de abordar temas que ainda são considerados polêmicos. 

Em pelo menos um episódio, a série discutiu o racismo presente na polícia, com o Tenente Terry sofrendo ele mesmo racismo nas mãos de outro policial. Trazer essa discussão para a série é muito importante, mas é também o mínimo esperado de uma série que, mesmo de comédia, glorifica sim a ação policial. O personagem de cinema favorito de Peralta, o protagonista branco da série, é uma das grandes representações de policiais acima da lei: o Detetive John McClane, da série de filmes Duro de Matar

Não me entenda mal, eu adoro B99 e acho que é uma das séries de comédia mais bem escritas da televisão atual. Mas é impossível não pensar nos efeitos que séries como ela tem no imaginário popular. Apesar de ter obviamente uma preocupação em não mostrar apenas pessoas negras como bandidos, a série não consegue fugir do fato de que é sim glorificação policial. Em um dos episódios, Jake chama a ICE para que o pai biológico do filho de seu bff seja deportado – e não há qualquer questionamento sobre o abuso de poder que ele exerce.

Sejamos realistas, séries, filmes, literatura, jogos e quadrinhos policiais não vão parar de existir. Mas já que vão continuar a ser produzidos, as equipes criativas por trás delas precisam se comprometer em realmente olhar para dentro do sistema. Precisam verdadeiramente abordar a realidade violenta, racista e criminosa da polícia estadunidense. Parar de fazer uso de estereótipos que ajudaram a criar esse sistema racista, sustentado por uma sociedade racista e que vitimiza tantas pessoas negras. Parar de mostrar o trabalho policial como algo unicamente glorioso e heróico. A realidade policial está bem longe disso. 

Não vai resolver o assunto, mas é um passo importante.

Imaginar além. 

 

Parks & Rec Cultura pop

Existem outras maneiras de melhorar uma cidade.

Uma das propostas que veio à luz com os protestos do Black Lives Matter é a extinção da polícia como um todo. Isso me fez questionar como a ficção científica pensa o futuro – é incrivelmente difícil ver um futuro sem algum tipo de organização de controle social similar à polícia ou ao exército. 

Eu entendo a dificuldade narrativa que não ter uma organização como essa pode trazer, já que a maioria das obras de cultura pop nascem de algum tipo de bem contra o mal. Mas isso por si só já mostra o quão fixados nós estamos em taxar o que é bom e o que é mal, o que é aceitável e o que não é. 

Os protestos, por exemplo. Vejo muitas pessoas indignadas com os vandalismo que às vezes acontece, mas essa mesma indignação não existe quando a polícia entra quebrando casas nas favelas, matando crianças, jovens – qualquer pessoa. Não devia nem ser possível medir o peso de uma vida em comparação à janelas quebradas, paredes vandalizadas e mesmo roubo. Que se ouse fazer essa comparação me queima por dentro. De dor e de raiva.

Eu sou absolutamente culpada de assistir séries e filmes policiais – a maioria dos filmes de ação tem alguma versão de polícia e esse é o meu gênero favorito. Eu tenho bastante consciência que assim como programas, livros, séries, jogos, quadrinhos policiais não vão deixar de existir (e nem deveriam, já que a polícia faz parte da nossa realidade), eu sei que querer extinguir a polícia da noite pro dia também não é a solução.

“Mas se não tivermos mais polícia, o que teremos?” Esta é a pergunta que eu gostaria que a cultura pop começasse a tentar responder. Tanto lá nos Estados Unidos, quanto aqui no Brasil. 

Nós, como sociedade, temos uma relação com a polícia muito diferente da que a sociedade estadunidense tem com a polícia de lá. A construção histórica dos dois países são diferentes e resultaram em relações diferentes (a primeira diferença é o fato de que temos duas polícias, e uma delas é militar). Mas essa relação encontra um ponto de convergência na pior de suas características: a violência contra comunidades marginalizadas, contra pessoas negras.

Existem estudos o suficiente, que provam que, em áreas onde existe um maior alcance à cultura, ao estudo, à saúde, moradia e tantos outros direitos que deveriam ser básicos, os índices de violência são menores. Por que não começar por aí? Por que não imaginar esse processo? 

Quando vemos esse tipo de tema sendo retratado no cinema estadunidense, ele geralmente aparece em filmes de professores brancos. Eles influenciam positivamente uma comunidade negra em uma escola destruída – e eu honestamente não consigo me lembrar se algum desses filmes de fato discute a razão pela qual a escola é assim. O filme não é sobre os estudantes, mas sobre o professor branco que supera as “diferenças” e as dificuldades para salvar aqueles alunos da realidade brutal. O ápice da síndrome de salvador branco. Green Book tem como protagonista um cara branco, deixando de lado a história de um dos grandes músicos negros dos estados unidos.

Enquanto mantivermos a máxima de que a polícia, o estado de vigilância, é a melhor solução, continuaremos tendo casos de violência policial. Quem eles protegem? Contra quem? Por que precisamos centralizar a solução de violência no uso de ainda mais violência? Não faz sentido.

Daqui para frente. 

É importantíssimo que a gente entenda como o racismo sistêmico aparece na cultura pop – em especial se você é uma pessoa branca -, e como ele é um pilar de sustentação para o racismo que custa as vidas de George Floyd, de João Pedro e de tantos outros. 

A cultura pop que consumimos tem o poder de se tornar o pilar não para o racismo, mas para a luta anti-racista. É importante que tanto criadores, eu, você e as empresas por trás dessas obras, entendam que o racismo internalizado existe e que, mesmo que não seja proposital, ele ainda assim tem o poder de ferir e de ajudar a sustentar essa cadeia racista e assassina.

Já passou da hora da cultura pop, seus criadores, financiadores e consumidores – eu, e você -, olharem para dentro de seus mundinhos e entenderem que o racismo sistêmico  existe e que como falamos dele importa. A mudança não vem da noite do dia, mas ela é necessária. Está na hora da cultura pop parar de glorificar e idolatrar figuras violentas e assassinas, e começar a contar histórias que possam nos ajudar a traçar um caminho diferente, um caminho mais justo. 

 

Até mais! 😉

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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