Game of Thrones pode ter acabado, mas ainda tem muito que podemos discutir. Considero Daenerys a minha personagem preferida da história, com todos os seus erros, então não consigo parar de pensar em como o seu arco podia ter sido muito melhor aproveitado, se não até bem diferente. Eu não sou ninguém para dizer o que George R. R. Martin deve fazer com a sua obra, mas já que ele ainda vai terminá-la, talvez fosse interessante aprender com os erros da série.

Daenerys se tornar a rainha louca não é de todo ruim, há pontos interessantes e positivos aí, muitos que dialogam com temáticas trazidas tanto na série, quanto nos livros. Acredito que, para falarmos a fundo sobre o que aconteceu com uma das personagens principais de Game of Thrones, nós tenhamos que avaliar os inúmeros aspectos que tornam Daenerys uma personagem tão complexa, por mais que ela tenha sido tão simplificada no final da série.

Esse texto terá spoilers tanto dos livros quanto das séries, assim como algumas informações sobre o universo de Game of Thrones no geral. Eu ainda não li Fogo e Sangue, que fala mais dos Targaryen, e talvez até tenha outras coisas para falar quando ler. Mas, por enquanto, vamos avaliar o arco dessa personagem do ponto de vista da história principal que vimos até agora.

A família Targaryen

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Os Targaryen são uma das famílias mais conhecidas e lembradas em Game of Thrones, até por causa da história do rei louco que é muito recente para Westeros. Mas a fama dos Targaryen vem de antes disso. Os sete reinos só foram unificados por causa de Aegon, o Conquistador, que com as suas duas esposas (que também eram suas irmãs) foi conquistando todos os territórios de Westeros com seus dragões. Se as pessoas não se ajoelhavam, elas eram mortas. Desde então, a dinastia dos Targaryen se formou, muito dessa história incluindo incesto, como foi o caso dos pais de Daenerys. Incesto não era bem visto em Westeros, mas não é como se fosse fácil argumentar com a família que tem os dragões.

Dizem que quando um Targaryen nasce, os deuses jogam uma moeda para ver se aquele é um dos loucos ou um dos grandes. Aegon, o Conquistador, é considerado um dos Targaryen que mostra a grandeza da família, assim como Rhaegar, ou pelo menos para maioria das pessoas. Já Aerys, o próprio rei louco, era visto como a outra face.

Daenerys vem de uma família que já traz muita carga. Por um lado, ela é de uma família recém derrubada do poder e seu irmão, Viserys, só fala sobre a importância deles tomarem o trono de ferro de novo. Na série, Daenerys assumiu esse discurso bem mais do que no livro. Não que ela não queira o trono nos livros, mas a maior parte de seus pensamentos mostram como ela quer mais voltar para casa, essa terra distante que ela sempre soube que era dela por direito.

Além disso, há toda a dualidade dos Targaryen, entre loucura e grandeza. Nós vemos ao longo da história como Daenerys lida com isso, como ela está sempre em duvida entre ser a diplomata ou a conquistadora, entre ser uma pessoa boa, ou seguir o lema da sua família: Fogo e sangue.

O tema da loucura

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Nós estamos muito acostumados a ver vilões serem relacionados com loucura, ou algum tipo de transtorno mental, basta olhar para os vilões de Batman. Isso pode ser problemático e complicado, até porque é um clichê que cria uma imagem deturpada da realidade.

Geralmente, os Targaryen relacionados a loucura são aqueles que fizeram coisas horríveis, ou que de fato apresentavam sintomas de algumas condições, como é o caso do próprio Aerys. Os ligados a grandeza são aqueles que geralmente fizeram coisas grandiosas e incríveis, ou até que ganharam alguma guerra. No caso de Rhaegar, ele é relacionado a grandeza por todos terem uma ideia de que ele seria um príncipe perfeito, devido a inúmeras qualidades que ele tinha.

Acredito que, no começo da história, Game of Thrones faz um bom trabalho em mostrar essa dualidade entre a grandeza e a queda, mostrando Daenerys tendo que cair para se reerguer, tendo que encontrar forças e aprender novas formas de combater seus inimigos. Nos livros, especificamente, é possível que ela siga o lado da rainha louca, até porque Daenerys de fato alucina em seu último capítulo de A Dança dos Dragões, o que é um sinal de que ela pode sim estar enlouquecendo.

O problema da série, ao meu ver, é a maneira abrupta que isso acontece. Nós sabemos que Daenerys sempre queimou pessoas (mais disso nos próximos tópicos), mas o seu aspecto “louco” só é escancarado na tela na última temporada, porque até antes disso, ela insistia que não seria a rainha das cinzas. Daenerys foi perdendo seus aliados e percebendo que estava isolada, que não podia confiar nas pessoas, que de certa forma foi o caminho que seu pai seguiu, achando que todos queriam matá-lo. A série falhou em mostrar isso acontecendo de forma coerente em seis episódios, porque sim, sua queda é mostrada mais na última temporada. Ela queima os Tarly, mas até aquele momento ela ainda está ouvindo as pessoas e se recusando a ser um dragão completamente, como diz para Olenna Tyrell.

Sem contar que, novamente, o quão ruim é vilanizarmos aqueles personagens que são “loucos”, sendo uma boa representação ou não? Por que essa precisa ser a justificativa para os erros que Daenerys comete? Não é nem a própria loucura dela, em tese é algo herdado de seu pai, que no final das contas acaba definindo a sua vida e a forma que os outros a enxergam. Se a ideia era mostrar Daenerys indo de uma imagem de heroína ao fundo do poço, a gente merecia ver isso de forma mais cuidadosa. A gente pode debater que em seis episódios isso é complicado, mas os escritores precisam ter ciência que tratar de um tema tão delicado de maneira rápida é um tanto quanto irresponsável sim.

Além de tudo, por que só a Daenerys é pintada como louca? Só por causa de sua família? Porque existem muitos personagens homens na história de Westeros que nunca foram colocados dessa forma, como o próprio Aegon, que tinha um modo de agir muito semelhante ao da Daenerys. E quanto a Ramsay, que fez tudo o que fez com Theon? Twyin, que mandou vários homens estuprarem a namorada do filho em público? Craster, que tinha filhos com as próprias filhas? Stannis, que mandou queimar a própria filha para ganhar a guerra? Tudo isso pode ser lido como atos de crueldade, não loucura, mas então que Daenerys fosse colocada nessa imagem também.

Não dá nem para dizermos que só Targaryen que são colocados como loucos, porque Cersei é lida como uma rainha louca mesmo sendo Lannister, a própria Lysa Arryn chega perto disso também. Mas parece que a leitura de loucura do povo de Westeros só vale para mulheres, com exceção de homens como Aerys.

Para concluir, vamos lembrar que, na série, a gota d’água para a “rainha louca” é perceber que Jon está esquisito com ela. Então, além de toda a ideia da mulher louca, o ponto que a faz queimar as pessoas tem a ver com um homem, seu interesse romântico, que é um tropo bem machista. É limitar a personagem da Daenerys, que atravessou o mundo inteiro, a aprovação de Jon.

A salvadora branca sempre foi tirana

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Até agora, sinto que a própria série não entendeu aspectos da personagem que de fato podiam ter sido muito melhores utilizados para transformá-la em uma vilã. Para que a história da loucura, para que transformar isso em uma narrativa desrespeitosa com quem tem transtornos mentais, se a vilania está diante dos nossos olhos?

Apesar do fandom ter falado sobre isso, a série, e o livro por enquanto também, nunca tratou do aspecto imperialista e racista de Daenerys (pode ser que no livro isso ainda aconteça, mas acho que vão varrer o racismo para debaixo do tapete). Por mais que tenha o sangue valiriano, ela é uma mulher branca que anda por Essos, um continente com inúmeros povos desprezados por Westeros, com a maioria dos personagens de pele escura e que não são brancos. Suas conquistas começam em Essos, Daenerys passa por muitos lugares, queima seus inimigos com seus dragões e impõe a sua cultura nesses lugares. Como Tyrion diz, aplaudimos o que Daenerys fez porque eram “homens maus”, mas também precisamos lembrar que eram homens que não eram brancos.

Ninguém aqui está defendendo escravidão, e é importante lembrar que Daenerys libertou inúmeros escravos que passaram a seguí-la. Porém, de um ponto de vista de narrativa, não dá para negar que é uma história de uma heroína branca salvando várias regiões de seus “costumes horríveis”, o que ainda piora considerando que as pessoas de Essos fogem da imagem européia que é colocada nos povos de Westeros. Essos seria mais uma representação de Asia no universo de Game of Thrones.

Isso era um excelente ponto para mostrar sua vilania, mostrar que sim, Daenerys pode até pensar que faz o bem, mas que passa por cima de inúmeras pessoas e culturas para fazer o que ela acha certo. Quando Daenerys está em Meereen, nós vemos parte disso, quando ela começa a ter problemas com as famílias locais mais poderosas, assim também como quando ela precisa prender seus dragões porque Drogon matou uma criança.

Daenerys sempre teve uma atitude de ajoelhe ou morra. Quando as pessoas de Westeros começaram a perceber isso, elas passaram a chamá-la de louca. Curiosamente, sabe quem é a outra pessoa que fazia igual, mas foi colocado como conquistador e exemplo? Sim, já o mencionamos antes, Aegon Targaryen. Por que, tendo as mesmas atitudes, um deles é a face grandiosa dos Targaryen e a outra é a louca? Porque por mais que a série tenha colocado um diálogo na boca do Tyrion, no último episódio, falando da tirania de Daenerys, nós nunca temos tempo de pensar nessa dualidade de julgamentos.

Havia formas de construir essa faceta ruim de Daenerys a partir do seu lado imperialista, que é uma discussão sim muito importante para ser feita. Isso ainda pode acontecer nos livros, e a série tenta fazer isso em um último momento, mas exatamente por ter deixado isso para o final, a reflexão fica corrida e parece forçada. O que faz com que o lado “ruim” de Daenerys seja mais atribuído a loucura dos Targaryen do que algo que seja do próprio personagem em si, como o seu complexo de salvadora. Não que Daenerys tenha sido injustiçada dentro da história, ela queimou sim várias pessoas inocentes e isso foi ruim, mas parece que é mais um destino dos Targaryen do que algo que seja mais dela, o que também tira a complexidade de sua personagem e a dualidade discutida antes.

Talvez a série tenha achado que tenha mostrado isso quando Daenerys fala que seu exército precisa libertar o mundo tudo. Mas a vontade de Daenerys de tomar Westeros pular para “conquistar todo o mundo, insira risada malvada aqui” é um pulo absurdo e quase engraçado. Ainda mais considerando a Daenerys dos livros, que quer voltar para casa. Se esse é realmente o fim do livro, como isso vai ser construído? O discurso dela vai mudar? Porque pelo o que vimos, foi um salto longe.

A quebra da imagem do “herói imperialista”

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Se tem uma coisa que eu gosto, até certo ponto, na história de Daenerys, é a temática da queda da figura quase messiânica, escondida por trás de uma ideia imperialista. Eu acho muito interessante mostrarmos essa figura, que aparentemente era prometida para fazer coisas incríveis e boas, uma possível Azor Ahai, que cai na própria ganância e ideia de que ela era a única certa diante de um mundo errado.

Por mais que Daenerys tenha, ao menos até certo ponto da história, alguma ética interna para fazer o que faz, ela começa essa busca porque ela acha que, por ser uma Targaryen, ela tem o direito de fazer aquilo. Sim, eu acredito que ela de fato queria transformar o mundo em um lugar melhor, até porque Daenerys passou por muitas agressões em sua jornada. Mas nós precisamos sim questionar essa construção de imagem que se sente no direito de tomar tudo para si, só porque sua família se entende como os dragões conquistadores.

A história da humanidade são cheias de nações imperialistas, que conquistam e colonizam outros lugares porque se acham no direito, se acham melhores o suficiente a ponto de fazer isso. O Estados Unidos hoje talvez seja o maior exemplo disso, um país que se sente no direito de invadir outras nações em busca de recursos que precisa, como o petróleo, por exemplo.

Independente do bem que Daenerys acredita que está fazendo, ela está sim destruindo os lugares por onde passa, saqueando e matando as pessoas que discordam dela. Fazer essa família, esse símbolo, se tornar vitorioso em Game of Thrones seria um problema, ainda mais nos tempos atuais. Não que eu não ache que Daenerys não poderia ter tido uma mudança em sua personagem, entendendo seus erros. Mas a Daenerys imperialista, até com um imaginário nazista (falamos disso daqui a pouco), que queimou Porto Real definitivamente não podia ser a nossa imagem de heroína, de vitoriosa no trono de ferro. E a história da queda de uma pessoa aparentemente boa até o fundo do poço é um tipo de arco que pode ser muito interessante.

Porém, não só de boas intenções se faz uma história, e o que poderia ser um arco trágico de uma pessoa em decadência, mesmo com as melhores intenções, se torna em um enredo apressado e que passa imagens muito complicadas para uma série e uma franquia de livros com tanto alcance.

O imaginário nazista

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No último episódio da série, Daenerys junta seu exército diante das ruínas de Porto Real e faz um discurso sobre como eles precisam livrar o mundo inteiro de todo o mal, e que Westeros era apenas o começo. Seu vestido parece mais um uniforme de guerra. Diante dela, estão inúmeros soldados, milimetricamente posicionados e armadurados, esperando a ordem da rainha para tomar outra nação.

Quando eu assisti a cena, a primeira coisa que me veio na cabeça foi o Império de Star Wars. Basta comparar imagens do Império ou da Primeira Ordem com essa cena de Daenerys no último episódio. A própria atriz falou em entrevista que precisou assistir discursos de ditadores para entender como dar as falas em outra língua e ainda passar a mensagem de tirania que os diretores queriam de sua personagem.

O nazismo não é algo tão antigo na história da humanidade. Um dos aspectos mais marcantes dessa época foi a propaganda nazista, assim como a sua eficiência. Eu recomendo a leitura deste texto do The Mary Sue para vocês entenderem mais essa questão. O imaginário nazista ainda é uma coisa muito presente, e que funciona muito bem quando colocado em algum tipo de mídia, tanto que Star Wars usa desse artifício para entendermos quem são os vilões.

Com tantos grupos neo nazistas, e fascistas de maneira geral, ganhando força nos últimos tempos, nós precisamos sim ser muito cuidadosos quando usamos esse tipo de imaginário em uma obra. Então eu acho sim complicado quando Game of Thrones escolhe usar esse tipo de simbologia para o exército de Daenerys. Sim, ela é tirana, ela queima quem discorda dela e já discutimos o fator imperialista, que destrói e consome . Mas vamos olhar um pouco mais literalmente para essa imagem.

Daenerys é uma mulher, que foi agredida, estuprada e quase morta algumas vezes. Nos livros, ela passou a maior parte disso enquanto ainda era menor de idade. Ela está falando para um exército que, em sua grande maioria, são de pessoas negras. Ao contrário de Westeros e todo o resto da série, Essos não é majoritariamente composto por pessoas brancas. Vamos lembrar que a maioria das pessoas mortas no ataque de Daenerys em Porto Real eram brancas, já que Westeros, de várias formas, é baseada em pessoas brancas e européias.

Será mesmo que é responsável colocar o imaginário nazista no discurso de uma mulher que está falando com seu exército, majoritariamente composto por pessoas negras, sobre dominar e destruir mais lugares? Vamos lembrar que o nazismo é racista e machista, entre outras coisas. Então é sim irresponsável colocar esse imaginário justo aqui. É só pensar em Star Wars, principalmente nos últimos filmes, como esse imaginário não é ligado a minorias.

A mensagem que a história de Daenerys passa

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Por mais que eu goste de construção de vilões, e também aprecie um arco de herói que cai mesmo sem saber, nós precisamos considerar em que personagem estamos colocando essa imagem. Ao longo dessa última temporada, eu falei o quão clichê era colocar a imagem da mulher louca por poder como o último vilão a ser derrotado, ainda mais em uma história que está desde o começo falando sobre como os mortos são a maior e real ameaça contra Westeros. Até porque, não vamos nos esquecer, a vilania de Daenerys cresceu muito para ser colocada como oposto a bondade do Jon.

Eu acredito sim que, quando GRRM e D&D decidiram transformar Daenerys na rainha louca, eles realmente estavam querendo fazer uma história sobre como o poder corrompe. Eu não vou tão longe em achar que a crítica imperialista estava lá completamente, mas Game of Thrones sempre foi uma história sobre como poder corrompe e a guerra destrói mais do que qualquer outra coisa. Como já compararam algumas vezes, o trono de ferro acaba tendo um papel parecido com o do anel de O Senhor dos Anéis, é um objeto que corrompe os que o querem e os leva a fazer coisas horríveis.

Nós tínhamos inúmeros personagens que já mostravam como o poder corrompe, a própria Cersei foi lida como a personificação da rainha louca corrompida por algum tempo. Muitas pessoas, incluindo eu, inclusive acreditavam que isso seria provado quando o arco de redenção de Jaime envolvesse ele de impedir a irmã de destruir toda Porto Real, porque ele já tinha impedido um rei louco antes. Eu entendo que Cersei sempre foi apresentada como uma pessoa ruim, e que talvez a ideia fosse mostrar como alguém bom pode também cair na tentação do trono de ferro. Mas, diante de tantos personagens com poder, precisava ser justo a Daenerys?

Vamos lembrar um pouco da Daenerys lá do começo, uma mulher (ou adolescente, nos livros) que foi assediada pelo irmão mais velho, vendida em um casamento forçado e estuprada pelo marido. Sim, no livro é estupro também. Inclusive, essa é a primeira coisa que sabemos da personagem, além do fato de que ela quer voltar para casa. Diante de todas as agressões, e do que Daenerys vê do mundo, ela decide que ela precisa e deve sentar no trono porque ela é capaz de tornar o mundo um lugar melhor, para que ninguém mais passe pelo o que ela passou. Inclusive, nas últimas temporadas da série, ela fala bastante em deixar o mundo um lugar melhor.

É essa mulher, completamente agredida pelo ambiente machista que se encontra, que se torna a grande vilã do final da história, que é colocada como a rainha louca, que é usada para mostrar que o poder corrompe. Eu li este texto que lista inúmeros problemas de Game of Thrones. Ele levanta um ponto relevante: Em sua busca, diante de tudo o que passou, é insinuado que Daenerys fez mais mal do que bem. Então seria melhor se ela tivesse apenas aceitado o seu papel como esposa de Khal Drogo, eventualmente viúva, e que não tivesse feito nada para se fortalecer, porque aí ela não teria causado todo o problema que causou no futuro. Assim, ela não teria se tornado a rainha louca e feito o pobre Jon ter que matar uma mulher por quem se apaixonou. Basicamente, o que a mensagem dela diz é: Daenerys deveria aceitar seu lugar, não tentar se tornar poderosa. Como ousa?

Por isso eu digo, e repito, que colocar uma personagem mulher, ainda mais essa, nessa posição como “louca”, é clichê e machista. Nós já vimos histórias de mulheres que sofrem, que se recusam a ficar no papel de vítima, que se fortalecem e com isso perdem a noção de seus poderes, machucando os outros. Porque, o que muitas histórias nos dizem, é que mulheres muito fortes precisam ser controladas ou mortas. Sim, falar que poder corrompe é uma mensagem importante, mas a gente precisa avaliar com muito cuidado o que mais essa história vai carregar como mensagem. No caso de Daenerys, é uma mensagem muito cruel e machista, além de apressada e feita com pouco cuidado.

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Espero que isso tenha conseguido explicar melhor o grande problema da história de Daenerys, que eu espero que ao menos seja melhor pensada nos livros daqui para a frente. Como eu falei no começo, a Daenerys é uma personagem que eu sempre gostei, por isso olhei para a história dela sempre com um pouco mais de atenção. Eu não precisava de um final feliz ou bom, mas a personagem merecia sim ser tratada com mais cuidado, ainda mais considerando muitas mensagens complicadas que sua história trouxe com o final da série.

A obra original de GRRM, por mais que eu goste bastante, também é bem problemática por si só, então eu espero que esses anos todos, e o fim da série, tragam imagens e mensagens melhores no arco de Daenerys nos livros.