No decorrer de She-Ra e As Princesas do Poder, uma das principais características de Adora (e de She-Ra) é sempre tentar resolver tudo sozinha; Adora sente que ela – e apenas ela – carrega a responsabilidade de resolver TODOS os problemas das pessoas à sua volta. Todos a quem ela ama são mais importantes do que si mesma. O que os outros querem, ou do que precisam, é mais importante do que o que ela quer ou precisa. 

Por isso, a decisão de deixar Catra para trás, e depois a de passar a vê-la como uma inimiga, foi tão difícil para Adora. Ela sentia, e sabia, que algo maior estava em jogo, algo que precisava da sua proteção. Desistir de alguém, deixar de priorizar os outros, foi o desafio final na história de Adora se tornando She-Ra.

No princípio

Quando conhecemos Adora, ela é a principal guerreira da Horda. Sob a tutela de Sombria, ela se tornou uma forte e importante guerreira na luta de Hordak contra as Princesas de Etéria. Sombria sempre deixou duas coisas claras, tanto para Adora quanto para Felina: primeiro, Adora era a sua preferida; segundo, seria responsabilidade de Adora terminar de vez com a rebelião das princesas.

Quando ela passa para o lado das princesas, ao se descobrir como She-ra, Adora assume novamente um manto de importância e de responsabilidade. Desta vez, no entanto, a pressão não vem apenas de seus superiores, mas de um planeta inteiro que depende da sua proteção; além disso, ela precisa lidar com os sentimentos conflituosos que possui sobre a Horda, Sombria e, principalmente, Felina.

Não existiu um momento real de negação ou de reflexão sobre o que ela, Adora, queria. Sua experiência foi viver dois papéis previamente estabelecidos para ela: a esperança de dois lados opostos de um conflito. Claro, houve um processo de questionamento da personagem, pautado por essa dualidade de sentimentos com o que ela descobriu sobre a Horda, sobre as Princesas e sobre o seu lugar no meio disso tudo. Mas ela não teve um momento para pensar sobre si mesma, sobre o lugar que ELA PRÓPRIA queria nisso tudo.

Adora não tem a opção de ser quem ela quer ser, ela sempre é aquilo que precisam que ela seja. Até o momento que ela quebra a sua espada. 

A Espada Quebrada de She-ra

de adora a shera

A determinação de Adora em assumir a posição de se colocar na frente de todos os problemas, e de se sacrificar pelo bem maior, começa a dar sinais de enfraquecimento durante a penúltima temporada. A certeza de que She-Ra, e apenas ela, pode salvar o mundo, mostra-se cada vez mais fraca – a confiança de Adora em si mesma se torna cada vez menor.

A essa altura da narrativa, Felina parece ter dado um passo que vai além do que Adora – ou talvez mesmo o espectador – esteja preparado para desculpar. As ações egoístas e irresponsáveis de Felina custaram a vida da mãe de Cintilante. Adora parecia traçar ali o limite entre acreditar e desistir de Felina. Além disso, Cintilante se posiciona cada vez mais distante e acaba alienando seus amigos; o afastamento dos amigos pesa em Adora, pois era um de seus pontos de segurança como She-Ra.

Com o desmonte da Horda no final da quarta temporada, a descoberta do sacrifício de Mara e a espada quebrada, Adora parece ter um novo futuro pela frente. Um que ela mesma pode criar, por si só. Mas como nada é fácil no mundo de Adora, Hordak era só uma ponta de um problema muito maior.

Adora: Completude e Sacrifício

de adora a she-ra

Com a chegada de Lorde Prime, no final da quarta temporada, o sequestro de Cintilante e o fato de não conseguir mais se tornar She-Ra, Adora começa a última temporada confusa, sentindo-se sozinha e ainda mais responsável pela segurança de seus amigos e de Etéria. Ela não consegue assumir nenhum papel real na rebelião, perdida entre as expectativas de liderança dos rebeldes e as suas inseguranças, agora reafirmadas por ter perdido sua conexão com She-Ra.

À medida que avança na missão de salvar Cintilante, Adora vai ganhando confiança e, mesmo sem a espada, consegue se conectar com She-Ra novamente. Ela volta à fortaleza de Lorde Prime e resgata Felina. Um ato que parece fechar o ciclo das duas personagens, que foram de amigas a inimigas e, finalmente, novamente amigas – e aliadas.

Mas talvez pelo sentimento de completude que agora sente, Adora continua tendo problemas em se manter como She-Ra. Até então, Adora lutava por todos à sua volta, mas sempre com o vazio deixado por Felina. Com todos os amigos reunidos e trabalhando juntos, Adora tem muito mais a perder. E doar-se à causa, no que ela vê como o sacrifício final e inevitável, torna-se ainda mais difícil, despertando nela um medo que parecia não ter.

Ativar o fail safe no coração de Etéria quer dizer, naquele momento, aos olhos de Adora, morrer. Não porque ela desistiu da rebelião, não porque não há outra opção – mas porque Adora abriu mão de si mesma muito tempo atrás, desistiu de conseguir ser quem realmente é, ter quem realmente deseja, viver como realmente quer. Tudo em prol de She-Ra e dos que precisam de sua proteção. Adora desistiu de si mesma.

Reencontrando She-Ra ao se reencontrar

de adora a she-ra

Ao se aproximar do coração de Etéria, Adora tem uma visão com Mara, a She-Ra anterior. Mara se sacrificou para que Adora não precisasse passar pelo mesmo que ela passou, para que Adora não precisasse se sacrificar para salvar o planeta e o universo. O objetivo final de Mara era garantir que seria a última a sofrer. Adora se sacrificar significaria que Mara fracassou. 

A conversa entre as duas é importante, porque coloca em palavras aquilo que Adora não conseguia articular até então: o medo de morrer, de perder tudo aquilo que conquistou até ali, é maior do que o ímpeto heróico dela. E tá tudo bem, o importante ali é que Adora se dê conta de que, ao tentar abraçar a todos, ela se perdeu e desistiu de si mesma. Que mesmo que o fail safe não lhe custe a vida, ela está disposta a entregá-la. Adora está cansada. Depois de tudo pelo que passou, ela não vê mais como continuar.

O que seria um sacrifício heróico toma tons de autodestruição. Porque amar e proteger todos ao seu redor não significa amar a si própria. Não significar se preocupar com si mesma. O sacrifício de Sombria e a persistência de Felina, aquelas que estavam com ela no seu começo e a acompanham no que Adora crê ser o seu final, parece dar força para que Adora não desista de nada – nem dela mesma. 

O amor entre Adora e Felina serve como chave para Adora decidir querer mais. Com isso, não é só o amor entre as duas que faz com que Adora se reconecte com She-Ra, mas também a vontade de proteger e de viver aquilo que ela quer, que ela deseja.

Essa transformação na maneira como Adora enxerga a si mesma também aparece visualmente na sua trajetória e na conclusão dela. Pode-se dizer que Adora só conhece um tipo de vida: a luta. Ela é uma guerreira, e como guerreira, ela destrói – mesmo que sua luta seja voltada para o bem. Não há espaço para uma outra vida, uma vivência que seja apenas de tranquilidade – por isso, a visão de Adora, Felina, Cintilante e Arqueiro felizes, em paz e esperando a hora de um baile, é tão importante. É algo que ela quer, mas que ela não conhece.

Ao emergir do coração de Etéria, Adora, como She-Ra, cria vida. Transforma o solo devastado em grama, transforma a máquina de guerra no céu em uma árvore flutuante. Porque é só quando ela atinge um lugar de plenitude dentro de si mesma que ela se dá conta de que o seu papel pode ser maior do que o de lutar – ela também pode construir e evoluir. Sua história não precisa terminar com She-Ra; She-Ra pode ser apenas o começo de uma nova trajetória. 

adora a she-ra

Até mais! 😉

Sobre o Autor

Roteirista com uma tendência em transformar qualquer documentário sobre abacate em uma space-opera feminista.

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