Vencedor de quatro prêmios no Game Awards de 2019 (Melhor Narrativa, Melhor RPG, Melhor Jogo Indie e Melhor Estréia de Jogo Indie), Disco Elysium conquistou muitos fãs, além de receber inúmeras críticas positivas. E não é para menos, Disco Elysium é um jogo excelente, que oferece uma experiência única para os fãs, principalmente aqueles que gostam de investigação e de RPG.

Em Disco Elysium, você joga como um policial que não lembra muito bem quem ele é. Ao que tudo indica, depois de uma noite bebendo muito, o protagonista perde a memória de quem é, do caso no qual está trabalhando e praticamente todas as informações relevantes. Com a ajuda do policial Kim Kitsuragi, o protagonista vai desvendar uma série de mistérios.

Esta crítica não tem spoilers do jogo.

Disco Elysium

Vou começar falando do que eu não gostei, já que são poucas coisas. Um dos pontos negativos para mim foi a locomoção do personagem. Sem ajuda de fast travel e com uma movimentação relativamente lenta, mesmo com a opção de correr, é bem demorado quando precisamos ir de uma ponta para a outra do mapa, além de ser pouco dinâmico. O mapa em si também não é muito bom em ajudar o jogador a se localizar, tornando algumas quests de encontrar um ponto específico mais difícil do que era o necessário.

Esses pontos particularmente são as coisas que não funcionaram para mim. Como eu falei, eram poucas coisas. Mas há muito que funciona em Disco Elysium e precisa ser notado.

Eu gosto muito da ideia da história ser sobre um policial investigando um caso, mas não ter uma mecânica de combate em si. Sim, há momentos de violência, mas o jogo não é sobre combate e de quantas formas você pode matar alguém, o que é incrível no mercado de jogos atualmente, considerando que uma boa parte dos games foca muito no combate, às vezes deixando outros aspectos importantes de lado. Tirando alguns gêneros específicos, como corrida ou esporte, há muitos jogos que as pessoas não conseguem nem imaginar sem combate. Acredito que isso é ainda melhor considerando que é uma história especificamente sobre um policial.

A mecânica é feita a partir de testes de rolagem de dado. Você coloca pontos nos seu status e isso defini a dificuldade dos seus testes. Se você for uma pessoa mais fisicamente resistente, porém não muito inteligente, seus testes para resistir dor serão mais fáceis, mas os de lógica serão mais difíceis. Isso lembra muito o esquema de RPG de mesa, onde a pessoa também escolhe as habilidades dos personagens e usa dados para descobrir se conseguiu fazer algo ou não. No caso de Disco Elysium, há outras variáveis. Por exemplo, se você teve uma memória ou tem uma relação melhor com um personagem, você pode ganhar bônus na rolagem.

Imagens de Disco Elysium 6/7

Pode parecer menos emocionante do que um combate “direto”, mas isso não é verdade. Eu ficava tensa em quase todas as minhas rolagens que não tinham uma chance de vitória de mais de 80%, e eu ficava arrumando jeitos de melhorar meu personagem para não sofrer tantos nas rolagens que eu precisava passar. Mas não dá para ser bom em tudo na vida, então algumas coisas vão ser piores do que outras.

A construção de mundo do jogo é uma das melhores partes de Disco Elysium, além de ser uma das melhores construções que eu já vi em um jogo. O mapa é relativamente pequeno, o protagonista tem acesso a apenas um distrito e algumas partes próximas, mas o mundo ainda sim é muito rico. Talvez algumas empresas possam aprender com isso, que um jogo gigante com mapa aberto não é sinônimo de mundo rico e complexo, né? Cada personagem tem uma história e um porquê para estar ali. Por mais que eles não sejam de muita relevância para o caso principal, eles trazem algo importante para o mundo, para o protagonista entender o mundo ao seu redor e quem ele é. A vontade que dá é investigar todo canto do jogo, ouvir todos os personagens e todas as opções de diálogo.

O mundo tem todo um pano de fundo construído. É um universo que, ao que tudo indica, está um caos, com inúmeros problemas por conta de um massacre que houve contra uma revolução comunista. Sim, Disco Elysium não tem nenhum problema em falar de política. A visão do jogo não é otimista, nem fácil. É complexa, pessimista, difícil de entender. Os personagens são mais complexos do que nós imaginamos. Não é porque alguém concorda com a sua visão de mundo política que a pessoa é legal, ou alguém que vai se dar bem com você. A pessoa pode concordar com o protagonista em vários pontos e discordar em muitos outros.

O jogo tem uma das melhores escritas que eu já vi. Não só o texto é muito bom, dinâmico e divertido, mas os diálogos são ótimos. Eles são potentes e pesados quando precisam, mas também trazem um tom de humor que torna tudo mais interessante e até humano. Ninguém é sério 100% do tempo. Além de que a dinâmica de diálogo, em que o protagonista conversa com as próprias habilidades, é fantástico e mostra vários pontos de vista do mesmo assunto. Nenhum é mostrado como bom ou ruim. A Lógica vai ver algo de forma diferente que a Percepção, porque os focos são diferentes.

Dicas: Disco Elysium

Disco Elysium mostra que as guerras e lutas de classes moldaram aquele mundo, aqueles personagens e também o protagonista, mesmo que ele não lembre disso. Da mesma forma, as pessoas e suas convicções moldam o mundo. Não só as opções do protagonista determinam certos pontos da história, mas também definem como ele entende aquele mundo no qual ele está, e como isso o afeta em troca. É uma relação narrativa muito orgânica e gostosa de conhecer. Isso também se estende para as relações entre personagens. As interações com Kim são um dos pontos altos do jogo. Ele tem sua própria visão do mundo e nem por isso elas estão sempre certas ou erradas. São personagens e construções absurdamente humanas, que transformam a experiência toda em uma viagem marcante e emocionante em vários momentos.

O protagonista é um personagem pré-determinado pelo jogo, com sua própria história, mas muitos aspectos dele quem define é o jogador a partir do diálogo e das escolhas de memórias que queremos internalizar. Isso faz com que cada jogador tenha uma aventura única.

Por mais que se passe em um mundo fictício, há muitos paralelos com a realidade, como a destruição que o capitalismo pode trazer em uma sociedade, a luta de classes e também como o mundo está se deteriorando aos poucos (ou mais rápido do que imaginamos). Muitas vezes, alguns personagens estão tão focados em seus próprios problemas que não conseguem ver muito do que está ao redor. E isso vale para o próprio protagonista. O mundo é imenso e complexo, mas nem por isso nós vamos conseguir moldá-lo inteiro. Afinal de contas, jogamos como um policial que está tentando resolver um mistério… Mas será que é só um?

Disco Elysium é uma experiência única e definitivamente vale a pena. Eu diria que vale principalmente para pessoas que gostam mais da experiência narrativa de um jogo, mas na verdade eu acho que todos deveriam jogar. Acredito que a indústria de jogos precisa de mais histórias que não sejam focados em combate, formas de matar e conseguir moedinhas para subir de nível. Não que esses aspectos sejam ruins ou um problema, muito pelo contrário, mas o foco todo nisso faz com que percamos a oportunidades de termos experiências múltiplas. Disco Elysium vem para mostrar que há outras histórias, com outras formas de serem contadas, e marcam o jogador tanto quanto qualquer outro jogo, se não mais.

Sobre o Autor

Escritora, roteirista, blogueira e freelancer. Determination ♡

Visualizar Artigos